O poeta brasileiro Manoel De Barros escreveu: “O poema é antes de tudo um inutensílio”. E acrescenta:

Nasci para administrar o à-toa

                                  o em vão

                                  o inútil.

De uma assentada, vira-se o mundo ao contrário. Às vezes, no auge do absurdo, este é o exercício primordial: inverter a perspetiva; esquecer os ângulos já gastos; expor a arbitrariedade da norma, violando-a. Vivemos num mundo em que existe uma valoração unidimensional das pessoas, que é, no essencial, reduzi-las a coisas que são mercadorias. Assim, todas e todos podem ser comparáveis e transacionáveis, de modo a estabelecer hierarquias entre “vencedores” (competitivos; experts da seleção social) e os “perdedores” (“falhados, sem préstimo, inúteis). Interessa, pois, ter uma aguda perceção das vantagens comparativas, das situações de mercado, das ocasiões imperdíveis. Urge treinar habilidades, formar competências, fazer do nosso corpo e mente uma disponibilidade total e imediata.

Ora, a lógica dos inutensílios desvia o olhar para tudo o que é “rente ao chão”. Nesse exercício, apercebemo-nos do valor da lentidão – ela permite observar, relacionar, descentrar, des-hierarquizar, compreender, forjar teias de empatia com o mundo. O contrário, em suma, dos automatismos, do “pronto-a-pensar” que nos veste o espírito. Aprender as coisas “desimportantes” remete-nos ao horizonte telúrico de uma simplicidade amiga do humor, da contemplação e do silêncio.

Não se pense, todavia, que é uma mirada vã. Os inutensílios, a vida não instrumentalizada e não alienada, são como um vislumbre da desobediência à ordem capitalista das coisas. Na aparente simplicidade de uma não-proposta, o poeta insinua de mansinho um abalo imenso, uma transformação radical. Um novo começo, uma linguagem inusitada que reinaugura o sentido, um coice às regras de fazer, sentir e dizer. Manoel de Barros diz-nos onde encontrá-los: "todas as coisas cujos valores podem ser / disputados no cuspe a distância"; "as coisas que não levam a nada;, "cada coisa ordinária", "cada coisa sem préstimo"; "tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma / e que você não pode vender no mercado"; "tudo aquilo que a nossa / civilização rejeita, pisa e mija em cima"; "pessoas desimportantes"; "as coisas jogadas fora"; "como um homem jogado fora", "as coisas sem importância"…

Se incorporarmos essa “agramática”, se nos tornarmos artífices de inutensílios, se só nos preocuparmos com as coisas “inúteis”, se a treinarmos com insurgência, é já um mundo novo que se avizinha - uma revolução.

-Sobre João Teixeira Lopes-

Licenciado em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1992), é Mestre em ciências sociais pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade  de  Lisboa (1995) com a Dissertação Tristes Escolas – Um Estudo sobre Práticas Culturais Estudantis no Espaço Escolar Urbano (Porto, Edições Afrontamento,1997).  É também doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação (1999) com a Dissertação (A Cidade e a Cultura – Um Estudo sobre Práticas Culturais Urbanas (Porto,Edições Afrontamento, 2000). Foi programador de Porto Capital Europeia da Cultura 2001, enquanto responsável pela área do envolvimento da população e membro da equipa inicial que redigiu o projeto de candidatura apresentado ao Conselho da Europa. Tem 23 livros publicados (sozinho ou em co-autoria) nos domínios da sociologia da cultura, cidade, juventude e educação, bem como museologia e estudos territoriais. Foi distinguido, a  29 de maio de 2014, com o galardão “Chevalier des Palmes Académiques” pelo Governo francês. Coordena, desde maio de 2020, o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.

Texto de João Teixeira Lopes
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