Esta história tem um desfecho conhecido. É, no fundo, a crónica de uma morte anunciada e o reflexo da uma realidade que há muito parece afetar o mercado imobiliário de Lisboa. Aqueles que por ali passam chamam-lhe “milagre”, mas a verdade é que no Bar Irreal, que daqui por alguns meses irá fechar portas, existe ainda um sopro de vida, que neste caso se materializa ao som de jazz – e não só.

Ainda em 2018, foi anunciado que o prédio onde se encontra este espaço, coligado com o Atelier REAL de João Fiadeiro, iria ser vendido, pelo que os responsáveis seriam obrigados a emigrar para outro local ou apenas a fechar portas. Em consequência deste conto trágico, os músicos Gabriel Ferrandini e Pedro Sousa (os dois membros do projeto Peter Gabriel) foram convidados a fazer programação e curadoria do Irreal, que se iniciou em outubro e terminará em abril deste ano.

“No fundo, é mais uma história normal de Lisboa, nos últimos tempos. Devido ao facto de eles saberem que aquilo ia acabar, as pessoas que lá estavam simplesmente desanimaram. Eu e o [Pedro] Sousa, como conhecíamos o Gonçalo Pena (presidente da Associação Bar Irreal), achamos que ainda dava para fazer muita coisa em seis meses e literalmente deram-nos a chave para a mão”, conta Gabriel Ferrandini em entrevista ao Gerador.

Ernesto Rodrigues Octeto ao vivo no Irreal

De um dia para o outro, os músicos tornaram-se também programadores culturais e desde aí a dinâmica do espaço não tem parado de aumentar. A experiência tem sido um êxito. Há concertos de quarta a domingo, ciclos de cinema às segundas e exposições de artistas apresentadas às terças. Sete dias por semana para manter vivo o legado de um local que tem sido poiso de muitos concertos, tertúlias e exposições.

Para os dois músicos, o prazo de validade do Irreal surgiu como motivação extra, uma vez que se este projeto tivesse continuidade, seria difícil prosseguir com o mesmo modelo. “Para ser sincero, nós só entramos por causa disso. Eu e o Pedro não temos tempo e se fosse algo para ficar teríamos de criar uma associação e de envolver mais pessoas. Neste caso, a nossa motivação foi pensar que seriam seis meses; e por isso entrámos numa onda de live the dream, explica.

Ferrandini e Sousa assumiram a renda mensal do espaço e, para além da programação que organizam, os músicos servem às mesas e fazem autênticas odisseias à Makro para encherem a despensa do bar. “Como sabemos que vai acabar, achámos que era como um sonho de ter uma espécie de jazz club. Para isso tínhamos de desbloquear algumas ideias pré-feitas e provar que não era assim tão difícil”.

Num breve historial de cinco meses, o Irreal já contou com atuações de Ricardo Toscano, Marco Franco, Peter Evans, Maria do Mar, Primeira Dama, entre muitos outros. “Queríamos simplesmente ter um sítio confortável e com muita música”, sublinha Ferrandini, realçando que, não obstante, sempre primaram por ter uma lógica “anti-evento”.

“O país é pequeno e conhecíamos muita gente. Havia coisas que queríamos ver ao vivo e, por outro lado, desafios que propusemos a alguns músicos. Na verdade, nunca houve um fio condutor, porque era pouco tempo para tanta gente. Foi mais o trabalho de organizar a agenda”, acrescenta.

Nos meses que faltam, estão já previstos inúmeros acontecimentos, nomeadamente uma residência artística de Rodrigo Amado com participação de nomes como Norberto Lobo ou Flak, um concerto de Paul Lovens, histórico baterista associado ao free jazz, que já tocou ao lado de Evan Parker e Alexander von Schlippenbach, entre muitos outros. Até final de abril, está também prometida a continuidade dos ciclos de cinema, organizados pelo realizador Afonso Mota, assim como as exposições de artistas como Miguel Mira ou do fotógrafo Nuno Martins, que irá apresentar fotos desta última fase do Bar Irreal.

“Há pessoal que diz que é um milagre. Para nós foi só mesmo descomplicar e ter muita música”, realça Gabriel Ferrandini, que deixa em aberto a possibilidade desta aventura poder continuar num outro espaço da cidade.

Até ao fim anunciado, o Irreal mantém-se de portas abertas, todos os dias da semana, das 20 às 24 horas. A despedida não tarda, mas será em grande–pelo menos é isso que este duo de músicos promete. “Já nem me lembro da minha vida sem Irreal”. A frase é de Ferrandini mas, neste caso, funciona como conclusão de um fenómeno que irá deixar saudades: celebremos o Irreal até ao fim.

José Lencastre Nau Quartet ao vivo no Irreal

 

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Nuno Martins

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