A 12 de fevereiro de 2013, Isabel Rosado e Jorge Rosado fundaram a Palhaços d’Opital: uma associação sem fins lucrativos que pretende levar o humor às unidades hospitalares, por intermédio da arte. O público-alvo é o mais adulto, sendo os idosos o público de eleição.

A ideia adveio quando, num certo dia, o casal se apercebeu do “abandono hospitalar” e da invisibilidade que esta faixa etária enfrentava nos hospitais portugueses. “A maioria das pessoas são os idosos, é a faixa etária que mais sobrecarrega o Serviço Nacional de Saúde e que corresponde à faixa que mais tem sofrido com os efeitos da pandemia”, esclarece Isabel Rosado.

Assim sendo, e com a ajuda da personagem do Doutor Palhaço, diariamente, o Doutor Risotto, Jorge Rosado, a Doutora Donizete Chiclete, Susana Gonçalves, a Doutora Bem Haja, Beatriz Melo, e a Doutora Milla Nezza, Marta Rosas, colocam o seu nariz vermelho, vestem a sua bata branca, e deslocam-se a cinco hospitais parceiros: Unidade Local de Saúde de Matosinhos, IPO de Coimbra, Centro Hospitalar de Tondela, Viseu, Hospital Distrital da Figueira da Foz e Centro Hospitalar Baixo Vouga (Aveiro). Acima de tudo, procuram estimular as memórias dos pacientes, que estejam ligadas à alegria, ao humor e aos afetos.

O Gerador esteve à conversa com Isabel Rosado, cofundadora da Palhaços d’Opital, para descobrir mais sobre a origem deste projeto. Ao longo do diálogo, a cofundadora procurou ainda refletir acerca do papel da arte na recuperação, sobre a desvalorização da profissão do palhaço e sobre o agravamento da realidade do abandono de idosos com a chegada da pandemia.

Gerador (G.) – A Palhaços d’Opital, fundada a 12 de fevereiro de 2013, foi pioneira na Europa a levar o trabalho e missão dos Doutores Palhaços a adultos e com foco nos idosos em ambiente hospitalar. Como é que começou esta necessidade de levar as artes até à faixa etária mais idosa?

Isabel Rosado (I. R.) – Eu costumo dizer que a vida é um livro e que para se entender tem de se ler ao contrário. Quando começamos a desenhar este projeto, o Jorge era palhaço já há quase 17 anos e tinha muita experiência como doutor palhaço, enquanto voluntário no projeto Acreditar, para crianças, no hospital pediátrico de Coimbra. Quando começamos a construir o projeto, debatemo-nos com uma questão que era quem é efetivamente a maioria das pessoas que está nos hospitais? Aqui, na região centro, o hospital de Coimbra já tinha intervenções pela organização do Nariz Vermelho, portanto não fazia sentido estar a criar um projeto para ir para lá. Não há aqui nenhum hospital pediátrico grande.

Aliás, o nosso primeiro grande parceiro foi o hospital de Aveiro. É um hospital em que a pediatria tem uma média de três a quatro crianças, um número muito pequenino, e não nos fazia sentido ir para o hospital só para trabalhar com as crianças. Portanto, fez-nos mais sentido chegar a mais gente.

Efetivamente, a maioria das pessoas são os idosos, é a faixa etária que mais sobrecarrega o Serviço Nacional de Saúde e que corresponde à faixa que mais tem sofrido com os efeitos da pandemia. Face a isto, pareceu-nos fazer mais sentido focar neste público do que estar a fazer o que já havia e a ser um projeto como outros que já existiam.

Além disso, eu perdi a minha mãe com 69 anos, três semanas e meia, foi uma situação que me trouxe uma noção de que só a adquirimos quando perdemos os nossos pais. Os nossos pais não são eternos, um dia estão e se calhar no outro dia já não estão, e que às vezes nem sequer temos possibilidade de lhes retribuir tudo o que fizeram por nós. Durante muitos anos, achamos que os nossos pais vão estar sempre cá, principalmente quando se tem uma boa relação com eles.

Em relação ao projeto, estávamos também numa altura da vida, passo a citar uma expressão de um amigo, a fatia do queijo no meio da sanduíche, ou seja, preocupada com duas faixas etárias muito distintas e com esta perceção de que havia tanto para fazer e que as artes, os benefícios do humor, do afeto, não impactam só as crianças. Tem benefícios em toda a gente.

Efetivamente, quando fomos à reunião do hospital de Aveiro, do outro lado, houve uma surpresa enorme quando nós dissemos que não queríamos só trabalhar na pediatria. Quando se fala em projetos deste género toda a gente se lembra das crianças, mas esquecem-se do outro lado do hospital. Os idosos.

Foi este conjunto de circunstâncias que nos impulsionou e depois no terreno, cada vez mais, fomos tomando consciência de que havia muito para fazer e de que era urgente fazer muito porque nós encontrávamos pessoas numa ortopedia, muito vulgar, pessoas lá há dois/três meses de internamento. O abandono hospitalar nos seniores é uma realidade com a qual nos temos de preocupar. Não acontece nas crianças, portanto é residual, não querendo desvalorizar porque é sempre abandono, mas não acontece nas crianças com grande frequência. Nos seniores é uma realidade muito preocupante, principalmente, no verão e na época do natal.

O impacto que vemos do lado deles, às vezes em coisas tão simples, como disponibilizarmos o nosso tempo para estarmos ali com eles e se calhar das frases mais fortes, e que mais nos empurrou, era ouvir as pessoas a dizer “a menina não tem nojo de me dar um beijo". Quando nos começamos a deparar com este sentimento percebemos que não nos identificamos com uma sociedade que passa esta ideia para o mais velho, no final da vida. A pessoa enquanto foi útil, trabalhou, e contribuiu para a sociedade, a sociedade deu-lhe ouvidos e ouviu-a. Quando chegamos ao final da nossa vida, mas depois temos toda uma história de vida, e todo um conhecimento, já é posto de parte. Neste aspeto a sociedade piorou porque nós vemos, nos dias de hoje, um foco enorme nas ditas influencers, que não têm nada para dizer, ou o que têm de dizer é extremamente vazio, não têm experiência, mas valoriza-se imenso a experiência de vida que é tão pouca.... Vivemos numa sociedade que é cada um virado para o seu umbigo e focada no que lhe interessa e desligada do que é o todo. Nós entendemos que a sociedade tem de ser a soma de todas as suas partes. Uma sociedade para ser justa, equilibrada, não pode deixar ninguém para trás. Não pode permitir que haja discriminação seja de que género for. Seja por idade, sexo, escolhas, do que for. O que temos é a nossa parte para contribuir para uma sociedade mais justa, mais inclusiva, em que todos tenham direitos, acarinhados e incluídos.

G. – Esta missão tem, ainda, a particularidade de ser realizada por intermédio das artes. Que papel desempenha a arte na recuperação da faixa etária mais envelhecida?

I. R. – A grande diferença de atuação da Palhaços d’Opital em relação a quem trabalha com crianças é que nas crianças podemos trabalhar muito com a criatividade, com a capacidade de se desligarem do momento em questão.

Quando trabalhamos com os mais velhos trabalhamos, principalmente, com as memórias que estão ligadas à alegria, ao humor e aos afetos. Daí a importância da imagem do palhaço porque normalmente as pessoas associam o palhaço ao riso, ao circo. Por exemplo, nós se tivéssemos vestidos como estamos e não tivéssemos um nariz de palhaço não havia logo uma ligação às memórias que temos do palhaço. O palhaço é para a sociedade uma representação da alegria, mesmo havendo o palhaço triste.

Infelizmente, é uma figura extremamente desvalorizada porque a maior parte das pessoas pensa que isto é fazer umas palhaçadas e não têm noção de toda a preparação que está por trás. Quando o palhaço é trapalhão e deixa cair qualquer coisa é porque algo correu mal, mas não aquilo é pensado, estruturado. Até o número de vezes que os acidentes vão acontecer são pensados para terem graça porque senão não resulta assim.

Os nossos doutores palhaços passam por uma crivagem que dura quase um ano e têm todos anos 250 horas de formação. Todas as semanas fazem formação e nenhuma das performances que levamos para os hospitais leva menos de três meses a ser pensada e estruturada. Nada disto acontece por acaso. Quando parece que está a acontecer mal é porque é suposto acontecer mal. Felizmente, temos hoje em dia uma carreira de stand up que começa a passar a ideia às pessoas de como o humor tem de ser tão bem pensado e não é só dizer umas graçolas. Nós temos este cuidado de usar músicas...

Como é que nós fazemos diferença? Nós temos alguma perdição por músicas que sabemos que pessoas com 70, 80, 90 anos se identificam, que vão tocar memórias, que eles as conhecem, que eles as vão contar. Uma das músicas que levamos este ano foi a música da Desgarrada, da Simone de Oliveira. Felizmente, até tivemos a oportunidade de falar com a artista sobre as memórias do festival da canção e do impacto daquela música, em Portugal, e nós sentimos isso. Quando em ambiente hospitalar cantamos a música as pessoas todas começaram a cantarolar, a dar ao pé, e sentíamos muitas vezes, na parte das mulheres, já que é uma música revolucionária, como lhes tocava de uma forma especial.

Nós trazemos temas atuais, mas que toquem memórias, que sejam assuntos que enquanto sociedade temos de rever. Uma das temáticas é a do machismo, por exemplo. Ainda tem uma predominância muito grande e quando estamos a falar de pessoas com 60/70/80 anos têm uma reação muito engraçada porque nós víamos as pessoas a manifestarem-se de uma forma que aos 20 ou 30 anos não tinham a oportunidade e a dizerem-nos que isso era antigamente, que os homens não podem pensar assim. E é aqui que está a questão.

Há muita gente que pensa que nós procuramos a gargalhada, mas não. O que nós procuramos é mudar ambientes, mudar humores. Nós procuramos que as pessoas se desliguem do problema de saúde que têm e se liguem a algo que as vai ajudar a vencer as dificuldades, a vencer a doença. Nós procuramos que depois da nossa visita fiquem a pensar noutra coisa. Pode ser que os palhaços estavam desafinados, que as roupas do palhaço não combinavam, não interessa. Se as conseguirmos retirar daquele ambiente, se as conseguirmos retirar da memória das doenças, então a nossa missão está a ser cumprida.

Uma das coisas que também nos surpreendeu foi quando os próprios profissionais de saúde nos começaram a relatar que nós criamos uma memória coletiva das pessoas que estão na enfermaria, das pessoas que estão na sala de espera. Já não é uma memória associada ao hospital e isto faz com que as pessoas falem em ir ao hospital de uma forma diferente.

Um testemunho muito bonito, que nos foi deixado por uma filha, foi de um irmão que lhe ligou a perguntar se tinha mudado a medicação ao pai porque o pai quando falava em ir ao IPO de Coimbra dizia que tinha de ir ao IPO porque estão lá aqueles palhaços. Nós conseguimos que a pessoa quando pensa em ir ao hospital não se foque só na doença, mas que esteja focada porque vai ter um momento de humor. Nós temos utentes nos hospitais a pedir, porque o nosso trabalho é regular, para virem naqueles dias porque sabem que vamos lá estar. Nós estamos a mudar a forma como as pessoas olham para os hospitais e isto é também conseguir mudar a forma como se encara o momento do internamento, da consulta.

G. – Atualmente, fazem visitas semanais e regulares a cinco hospitais parceiros: Unidade Local de Saúde de Matosinhos, IPO de Coimbra, Centro Hospitalar Tondela Viseu, Hospital Distrital da Figueira da Foz e Centro Hospitalar Baixo Vouga (Aveiro). Como é a rotina dessas visitas? Que tipo de atividades propõem às faixas etárias mais velhas?

I. R. – Quando falamos em hospitais parceiros são hospitais a quem nós oferecemos os nossos serviços. Nós não cobramos nada aos nossos hospitais. É a própria organização que tem de procurar parcerias, protocolos, fundos para se manter. Nós não apresentamos uma despesa para o hospital. Quando propomos uma parceria com um hospital, normalmente, propomos começar com dois, três serviços, de forma que o hospital e os profissionais nos comecem a conhecer.

Portanto, temos um dia fixo, por hospital, que é para o hospital também já saber que aquele dia, se calhar vai haver um bocadinho mais de barulho no corredor das visitas, mas depois também tem o outro lado que é cair pedidos nas redes sociais de enfermeiros ou de auxiliares a pedir para irmos aos serviços deles. A nossa visita a cada serviço no hospital começa com uma conversa com o enfermeiro chefe. Nessa conversa não nos interessa o lado da doença, porque nós não temos formação na área médica, nós temos formação no lado artístico, do Doutor Palhaço, do teatro, da música e então o que é que nós queremos saber de informações? Queremos saber as idades das pessoas, se as pessoas têm problemas de audição, se é demência, se é Alzheimer, para termos uma noção das capacidades das pessoas, queremos saber se a pessoa tem visitas, se vai sofrer alguma intervenção, há quanto tempo está internado, qual o estado do humor. Depois, cada quarto para nós é encarado como um quarto. Cada pessoa é uma pessoa. A nossa missão é conseguirmos desligar de situações pós situações e darmos sempre o nosso melhor desde a primeira pessoa que vemos até à última pessoa que visitamos. Daí a grande necessidade de formação.

Da porta do quarto nós perguntamos sempre se podemos entrar e isto é uma das características mais disruptoras que temos com o ambiente hospitalar. Tudo é muito rígido. Quando nós perguntamos à pessoa se podemos entrar estamos-lhe a devolver direitos e poder de escolha. Nós não nos impomos. Se houver uma situação, por exemplo, em que uma pessoa se demonstra extremamente recetiva e haver outra que está extremamente recetiva, nós trabalhamos mais ligados à pessoa que está mais recetiva, mas nunca nos fechamos completamente aquela pessoa que se mostra mais fechada. Respeitamos o facto de a pessoa não estar com tanta vontade, mas deixamos as portas abertas. Se se quiser juntar é bem-vinda e vamos estudando a reação da pessoa.

Levamos sempre dinâmicas pensadas. À porta do quarto e depois de saber as informações sobre os pacientes pode haver um ajuste logo da dupla de como vamos abordar aquela dinâmica ou até a escolha por uma dinâmica diferente, tendo em conta as pessoas que vamos encontrar no quarto. Depois há uma parte de improviso, que é a parte de adaptação que está do outro lado, em que tentamos sempre incluir, ao máximo, a pessoa na nossa dinâmica.

Como é que isto tudo se adapta para os mais velhos? Se estivermos com uma pessoa com demência ou alzheimer, nós sabemos que o nosso ritmo tem de ser mais lento, temos de dar espaço à pessoa para nos responder. Depois, nós não julgamos, nós adaptámo-nos aquilo que é a vontade da pessoa e por vezes temos de pôr tudo o que está pensado de parte para conseguir tocar na pessoa.

Uma das histórias mais impactantes que temos nesta área passou-se em Viseu quando uma senhora que praticamente não comunicava e quando a dupla entrou estavam a trazer o almoço e perceberam que a senhora mostrou algum desagrado com a comida e tentaram perceber porquê. Na altura, a senhora disse que gostava de comer carne, que lhe lembrava os coelhos. De repente, a dupla adaptou-se e o tema principal foi coelhos e para grande surpresa da equipa médica a senhora durante 20 minutos teve a comunicar e a partilhar com os Doutores Palhaços porque simplesmente eles foram atrás daquilo que era a vontade da pessoa. Há a adaptação de que eu posso estar a 100, mas se aquela pessoa está a cinco eu tenho de ir a cinco. É muito visível fisicamente a mudança que ocorre, em toda a postura, na pessoa durante a visita, desde que encontramos pessoas fechadas, de costas para a porta...

Outra das histórias mais impactantes que temos, neste caso, é de uma pessoa jovem, no IPO de Coimbra, que já só era autorizada a receber quatro pessoas porque estava numa fase terminal, que estava de costas para a porta apesar de ter lá a melhor amiga. A dupla entrou, a amiga reagiu logo, aceitou logo, ela ao início com alguma resistência, mas a verdade é que quando saíram do quarto ela estava sentada direita na cama e a interagir. A amiga, passado três meses, entrou em contacto connosco a dizer que nós lhe devolvemos a amiga que a doença tinha roubado, que eles já nem se lembravam de como ela era antes da doença, o humor dela, e que esta mudança continuou durante os três meses finais de vida. Não foi uma mudança que aconteceu na visita, mas sim que se perpetuou no tempo.

Nós temos dois estudos, um em fase inicial que comprovou que tínhamos um impacto da redução da dor na ordem dos 27 %, temos um segundo em fase de conclusão, com biomarcadores, que também sabemos que os resultados são muito bons, mas, mais que isso, durante esses anos que não havia esses estudos, era essencialmente o que nós sentíamos, já que até o próprio paciente no quarto fica alterado depois da nossa passagem.

Em cada serviço as primeiras pessoas com quem interagimos são exatamente os profissionais de saúde. Os médicos, os enfermeiros, os auxiliares porque começamos por eles. Achamos que se os deixarmos um bocadinho mais aliviados também eles vão estar com outra vontade e com outra disponibilidade para com as pessoas que estão internadas. Depois há hospitais em que faz mais sentido visitar uns serviços do que outros. Neste momento, é um ajuste à realidade. Nós desde o dia 5 de março de 2020 que paramos. Retomamos o IPO de Coimbra no dia 3 de julho de 2020, só hospital de dia, salas de consulta e corredores, sem internamentos, retomamos Figueira da Foz, Aveiro e Matosinhos em maio deste ano.

G. – Estas visitas diárias têm um horário fixo?

I. R. – As nossas visitas são das 10h30 às 15h00, sendo que na hora de almoço almoçamos com os profissionais de saúde, ou seja, não é propriamente uma pausa. Já, agora, também integra a nossa rotina no final do dia fazerem uma reflexão sobre o que aconteceu, em dupla, e depois esses relatórios são lidos uma vez por mês e analisados por toda a equipa artística.

Em relação às nossas rotinas, à segunda e terça são os dias de visita aos nossos hospitais, quarta-feira é o dia de formação. De manhã têm aula de música e canto e depois na parte de tarde está a equipa artística a preparar as performances. A sexta-feira pode ser de formação, de visitas, mas, neste momento, ainda não temos um horário encaixado neste dia.

Neste momento, a pandemia também nos mandou para uma realidade virtual. No final de março lançávamos o D’Opital TV, um canal em que disponibilizamos gratuitamente vídeos nos nossos hospitais parceiros. Foi a forma de mantemos a nossa presença mesmo quando fisicamente não podíamos estar.

G. – Atualmente, a equipa de Doutores Palhaços é composta por artistas profissionais (atores, clowns, músicos, etc.), com experiência performativa e com formação específica na área do palhaço em ambiente hospitalar. Afinal, o que é ser um doutor palhaço? Quem são, nos dias de hoje, os doutores palhaços?

I. R. – Doutores Palhaço é um palhaço que tem as regras de um ambiente tão particular como o ambiente hospitalar lhe impõe. O Doutor Palhaço tem de ter regras de higiene que um palhaço não se precisa de preocupar. Eu posso dizer que a única mudança que a pandemia nos trouxe foi o uso da máscara, que era uma realidade em alguns serviços, porque quando entrávamos nos cuidados intensivos já usávamos máscaras, já vestíamos uma proteção, já protegíamos os sapatos. Não foi uma novidade de todo, mas a parte do doutor é aquele que sabe que tem de desinfetar as mãos a cada paciente, que tem de desinfetar cada espetador, em cada quarto, tem de ter uma etiqueta para ambiente hospitalar, não se pode fazer tudo. Uma pessoa pede-nos um copo de água nós chamamos o auxiliar, pede para endireitar a cama, não. Tudo o que seja da área médica nós não intervimos. Nós costumamos dizer que para a doença estão lá os profissionais de saúde, nós estamos lá para a saúde.

Em termos de personagens temos o nosso Doutor Risoto que é um grande mentor da Palhaços d’Opital, cofundador e diretor artístico, que é o nosso palermologista. Não tem género, nem identidade definido. Um dia pode estar virado para uma coisa, como no dia seguinte, pode estar virado para outra, que acha que canta melhor do que canta, mas está sempre disponível para um desafio a cantar.

Depois, temos a Donizete, Susana Gonçalves, que está na associação há quase cinco anos, que é a meia-leca de gente. Ela é muito pequenina, nem chega a um metro e meio, que se acha a maior do mundo e que consegue mandar no Doutor Risoto e a pô-lo a fazer o que quer.

Temos a Doutora Bem Haja, Beatriz Melo, que está há dois anos na Palhaços d’Opital que vê tudo muito cor-de-rosa, mas ao contrário da Belita dá assim umas respostas afiadas.

Por fim, temos a Milla Nezza, Marta Rosas, que também já está quase há ano e meio com a Palhaços D’Opital e que é a única que é do Porto. Tem uma voz fantástica.

Neste momento, temos ainda dois estagiários que ainda estão numa fase de elaboração da personagem (o Gui e a Ana), que vão fazer o alargamento da equipa em setembro para podermos chegar a mais hospitais. Tanto a Ana, como a Susana, como a Beatriz têm todas formações em teatro e tinham tido já bastantes formações.

Há três ideias bastantes erradas sobre o doutor palhaço inseridas na sociedade: Primeiro, os palhaços são para as crianças, segunda qualquer pessoa pode ser Doutor Palhaço, que não é preciso formação e que os Doutores Palhaços são voluntários. Eu pergunto como é que as pessoas precisando de ter um dia específico, que é quarta-feira, para formação e mais outro para ir aos hospitais quem é que trabalhando dois dias, a tempo inteiro, num projeto, como é que podes fazer voluntariado? Não há Doutores Palhaços, em Portugal, voluntários.

Nós já tivemos jornalistas que nos queriam acompanhar, o dia todo, e não aguentaram porque são realidades muito duras. Para se ter este nível de profissionalismo é necessário pagar. A última vez que abrimos casting recebemos 80 currículos, a nível nacional, dos quais foram escolhidos dez, que vieram a um casting presencial. Desses dez foram escolhidos seis para ir a uma formação, com um formador externo, e dos seis foram escolhidos dois para serem estagiários.

G. – Há bocadinho falavas-me da questão do abandono dos seniores, em ambiente hospitalar. No entanto, com a chegada da pandemia, esta realidade tendeu-se a agravar fora do ambiente medicinal. Na tua opinião, o que deveria ser feito? Achas que a solução passa pela mudança de mentalidades de que os idosos ainda têm vida, por assim dizer?

I. R. – Sim! Acho que toda a gente devia meter na cabeça que hoje são eles, amanhã somos nós. Ninguém deseja morrer novo e quando formos nós? Vamos aceitar que nos ponham de lado? Nós já notamos uma grande diferença dependendo do tipo de idosos que temos em frente, quando nós trabalhamos com pessoas dos 70 a 80 anos, mas pessoas que não têm grandes estudos, as pessoas não exigem o mesmo do que as pessoas licenciadas. Só que a grande questão que temos é que nós temos de exigir direitos para nós, enquanto seniores, enquanto somos novos, enquanto a sociedade nos vê com poder para participar nas mudanças políticas. Quando chegarmos lá já vai ser tarde. Por isso é que nós nos envolvemos desta maneira.

Nós entendemos a nossa missão como um ajudar a mudar mentalidades, a trazer uma valorização e uma dignificação do mais velho para a sociedade, que foi algo que nós perdemos. A sociedade que eu conheci em criança valorizava os avós, valorizava os mais velhos. Isto é um fenómeno que ocorreu em várias sociedades do desvalorizar das pessoas. Mas e quando formos nós? Vamos aceitar? Os nossos jovens estão com muita dificuldade a aceitar que estamos numa pandemia e que durante um ano ou dois não vão poder ir de férias. Os avós deles viveram na guerra... Durante a guerra alguém lhes perguntou se estavam cansados, se a saúde mental delas estava em risco? Parece que estamos a desenvolver uma maneira de ser que é tudo aqui e agora. Só importo eu. Não importa se a vida que estou a viver agora vai impactar o planeta e vai pôr em causa a minha vida daqui a 30 ou 40 anos. Eu espero vivê-la, mas não interessa as consequências do que estou a fazer agora para essa vida. Vamos acordar para a realidade. Isto não é assim. Nós construímos uma sociedade de tal maneira materialista e descartável que as pessoas se esquecem que o lixo que põem no chão ou no ecoponto tem um impacto no planeta. Mais cedo ou mais tarde tudo vai ter um impacto. Até o pai passou a ser descartável... Até o avô passou a ser descartável... As pessoas não têm culpa de envelhecer.

Acho que nos estamos a focar todos no que não interessa. Passamos muito a ideia de que para se ser feliz é ser influencer nas redes sociais, é ser bonito, é ser alegre, mesmo que seja só filtros ou maquilhar-se toda, de manhã, e dizer que me acabei de levantar, usar pestanas falsas, e tudo falso, e dizer que é bonito, ao invés de nos apoiarmos uns aos outros e de termos gosto de estar uns com os outros. Há uma coisa que a sociedade se esquece é que aquilo que fazemos vai ter sempre retorno. Gostava mesmo muito que as coisas melhorassem, mas acho que é preciso surgirem mais projetos deste género.

G. – Para as pessoas que estão agora a conhecer o projeto, de que forma vos podem apoiar?

I. R. – Podem consultar o nosso site ou as redes sociais. Há pessoas que fazem doações de fundos, outras que fazem donativos, há empresas que financiam as nossas visitas, nos seguem nas redes sociais, etc.

G. – Para terminarmos a nossa conversa gostaria de voltar a um ponto que me referias no início da nossa conversa. A desvalorização do palhaço. Apesar desta figura ser associada à alegria, esta característica não é suficiente. O que falta para se atingir esta valorização? 

I. R. – Mais uma vez é uma mudança de mentalidade. Passa por as pessoas entenderem que a alegria e o humor têm impacto. São emoções que não são valorizadas por alguns, mas há muitos que já as valorizam. Se calhar, o que falta é estarmos mais presentes para haver mais pessoas a conhecer o nosso trabalho.

Texto de Isabel Marques
Fotografias da cortesia da organização e do facebook Palhaços d´Opital