José Manuel Nobre-Correia, mais conhecido por J.M. Nobre-Correia tem um percurso que fala por si. Mediólogo e politólogo, foi investigador, assistente e professor em Informação e Comunicação na Université Libre de Bruxelles de 1970 a 2011. Nesta mesma instituição foi presidente do Departamento de Ciências da Informação e da Comunicação (1986-1989) e diretor do Observatoire des Médias en Europe (1993-2011). Em paralelo, lecionou na Université Paris II (1996-2006) e na Universidade de Coimbra (1996-2001). Foi ainda membro do conselho científico do Europäisches Medieninstitut, de Dusseldórfia (1995-2004). Escreveu obras de referência na área da comunicação como A Cidade dos Media (1996, Campo das Letras), Teoria da Informação Jornalística (2018, Almedina) e, agora, História dos Media na Europa (Almedina), no qual explica as razões pelas quais “a paisagem da imprensa europeia é tão contrastada, de uma região para outra do continente”.

Ainda antes do último livro ver a luz do dia, fomos ter com o professor emérito ao seu apartamento no Fundão, onde vive desde que regressou da Bélgica. A conversa partiu do consumo de media e, em especial, de jornais, para uma análise mais profunda da literacia mediática e hábitos de leitura em Portugal.  Pelo meio ainda houve espaço para focar a assimetria demográfica, a falta de ponderação no uso do vocabulário jornalístico e a influência da religião na nossa sociedade atual.

Gerador (G.) – Sendo alguém que expressa frequentemente uma opinião bastante crítica, queria perguntar-lhe, de um modo geral, como avalia os media e o jornalismo que é feito atualmente no nosso país?

Nobre Correia (N.C.) - Escrevi recentemente um artigo para um livro coletivo que vai sair no próximo mês em que eu demonstro que, sistematicamente, Portugal esteve atrasado em relação ao resto da Europa. Esteve atrasado no que diz respeito ao aparecimento da primeira tipografia, esteve atrasado no que diz respeito ao aparecimento do primeiro [jornal] mensal, do primeiro [jornal] semanal, do primeiro [jornal] diário. Houve sistematicamente um atraso e, por vezes, até um atraso considerável, de mais de um século. E a única coisa em que Portugal, tristemente, teve avanço em relação ao resto da Europa foi na criação da censura civil. Portanto, a primeira constatação é esta: Portugal tem um sistema mediático que, globalmente, está atrasado em relação ao resto da Europa ou pelo menos dos principais países da Europa.

A segunda constatação é que o panorama mediático português é historicamente - portanto, desde sempre - um panorama que se desenvolve no centro-norte do país ou na faixa na orla marítima. Em resumo, o sistema mediático desenvolveu-se à volta de Lisboa. Acessoriamente, e muito parcialmente, no Porto e, de maneira absolutamente secundária entre Braga e Lisboa ou até, de certa maneira, entre Braga e Coimbra.

Se virmos, por exemplo, a situação atual, o que é constatamos? Constatamos que há um quarto de diários ditos nacionais em Lisboa. Um diário dito nacional no Porto, e depois há então dois diários em Braga, dois diários em Coimbra e uns diários - que são, aliás, extensões do Diário de Coimbra - em Aveiro, em Viseu e em Leiria. E há então, um pequeno diário em Évora, o Diário do Sul. Mais nada. Uma situação ainda mais grave do que esta, portanto, é que todo o interior de Portugal e toda, digamos, a parte sul do Tejo - com exceção um bocado de Évora - é desprovida e sempre foi desprovida de imprensa diária, por exemplo.

Portanto são jornais, para já, que têm tiragens absolutamente, extremamente reduzidas mas que a difusão ou a circulação - como se agora diz a partir do inglês, se bem que em espanhol, em francês e italiano se diz difusão - é concentrada, de facto, à volta de Lisboa e é concentrada, de facto, à volta do Porto (no caso do Jornal de Notícias).

Outra constatação é que de facto, a imprensa semanal regional, local é, de facto, muito numerosa em Portugal, mas sem títulos que tenham de facto tiragens importantes e que tenham difusões para além da localidade ou da região imediata. Quer dizer que jornais da Guarda, da Covilhã, do Fundão ou Castelo Branco, sai-se da região e a distribuição desses jornais é praticamente inexistente ou extremamente reduzida. A mesma situação se põe em matéria de rádio e a mesma situação se põe em matéria de televisão (e até de maneira muito mais evidente).

Não há nenhuma rádio de carácter dito nacional que esteja fora de Lisboa. Não há nenhuma televisão de caráter dito nacional que esteja fora de Lisboa com exceção, um bocado, do Porto Canal. É a única. E, portanto, isto é trágico.

A acrescentar-se, o facto que a imprensa dita nacional (ainda por cima) ou mesmo semanal nacional, tem tiragens extremamente baixas. E eu não digo isto assim do ar. Quando comparo com um país que se chama Bélgica, com um país que chama Áustria, com um país que chama Suíça - que são países que têm uma demografia comparável à de Portugal (no caso da Bélgica) ou mesmo inferior à de Portugal (no caso da Áustria ou no caso da Suíça). No caso da Bélgica à volta de 10, 12 milhões [de habitantes], no caso da Áustria e no caso da Suíça, inclusivamente, há à volta de 8 milhões de pessoas, com a característica extremamente importante que nenhum deles tem uma língua própria. Quer dizer, no caso da Áustria é o alemão, língua da Alemanha, mas uma língua [que é] também de 65% da população suíça. No caso da Bélgica 40% fala francês, 60% que fala neerlandês e, no caso da Suíça 65% que fala alemão, 25% que fala francês e que fala depois italiano e depois o romanche (acho que é a única língua, de facto, suíça, de origem suíça mas que é ultraminoritária).

O que quero dizer com isto é que, nesses países, o cidadão pode muito bem decidir ler, antes de mais, os jornais que vêm dos Países Baixos. Isto é verdade em relação à televisão, é a verdade em relação à rádio, é verdade em relação, inclusivamente, à edição de livros e agora em relação à Internet.

Bom concretamente, por exemplo no caso da Bélgica - que eu conheço muito melhor do que todos os outros países – [veja-se] por exemplo, o caso da televisão. Uma pessoa às sete da tarde via o telejornal da televisão privada, RTL TVI, às 19:30 o jornal da televisão pública RTBF e às 20h via o jornal francês.

G. Que têm uma duração mais curta [do que os telejornais em Portugal].

N.C.- Com uma duração mais curta, que são os jornais que geralmente têm 30 e 35 minutos. Repare: o caso da Áustria é importante. Quando uma pessoa vê que o maior jornal popular diário na Áustria tem 800.000 exemplares e que o jornal popular em Portugal tem 40 [mil].

G. - Refere-se ao Correio da Manhã.

N.C. – Pois. Nessa altura é que uma pessoa vê que as tiragens em Portugal são absolutamente inacreditáveis. Quando uma pessoa vê que jornais de referência austríacos - Die Presse e Der Standard - ou os jornais de referência têm, de longe, tiragens superiores à do Público - que é, neste momento, o único jornal de referência - e tem vendas à volta de 11 mil exemplares, 13 mil exemplares.

G.- Mas está a referir-se apenas às tiragens em papel...

N.C. – Claro. Estou a falar do papel, mas depois, se falarmos da Internet, é evidente que estes números são mais elevados também para esses jornais de que eu falei.

No caso do Público, por exemplo, papel e em linha [online] dá [um total] à volta de 45 mil exemplares. Mas 45 mil exemplares para um país que tem 10 milhões de habitantes - e sendo, de facto, o único jornal de referência - é uma coisa ínfima. Mas isto foi sempre assim através da história.

Quando os maiores jornais portugueses do século XIX, ou mais precisamente do fim do século XIX, eram o Diário Notícias e O Século que, sem números controlados evidentemente, tinham 80, 70 mil exemplares... Nessa altura, os quatro maiores diários de Paris faziam 4 milhões de exemplares.

G. – Mas como é que isso se explica? Terá também que ver com a nossa grave taxa de analfabetismo, que se manteve durante muito tempo?

N.C. - É evidente que isto explica-se por várias razões. A primeira é o analfabetismo, que era ainda enorme quando chegou o 25 de Abril. Não nos esqueçamos disso. Segundo, o sistema de comunicações do país: as estradas eram más, os comboios... a primeira linha de comboio foi muito mais tardia do que no resto da Europa muitas vezes. E, portanto, as comunicações eram deficientes. Repare: no meu jovem tempo - vou dizer-lhe coisas que a senhora não sabe - os jornais diários de Lisboa chegavam ao Fundão às três da tarde, no comboio. E os jornais do Porto chegavam no comboio às seis da tarde. E os vespertinos de Lisboa chegavam no comboio às onze da noite. Portanto, o que isto significa? Significa que o produto já perdeu a sua frescura.

Bom, outro aspeto é que os jornais eram e são caros em Portugal. Quer dizer, quando se compara com o preço dos jornais estrangeiros, primeiro e, segundo, quando se compara com o poder de compra desses países também. Há um princípio - que já que já não é um princípio absoluto - mas que um jornal devia custar o que custa o produto de consumo corrente. O que é o produto de consumo corrente em Portugal? É a bica, o café. Ora, um café em Portugal, nos cafés normais, custa entre 50 e 70 cêntimos digamos assim. Ora, os jornais custam mais do dobro disso, muitas vezes (e nem falamos de jornais de fim de semana que são caríssimos). Portanto, há isso tudo.

Agora o sistema de distribuição melhorou. Os jornais já estão à venda cedo, mas a distribuição é mal feita porque quando uma pessoa chega a uma loja de jornais [pode já não haver]. [...]

G. Está a falar-me da distribuição em papel, mas em relação à abordagem jornalística que atualmente...

N.C. - O que eu disse até agora é, digamos, em termos de estrutura do panorama mediático e em termos de funcionamento das empresas. Agora, em termos de conteúdo, há um problema grave em Portugal que é: as redações são extremamente reduzidas. Quando vemos que um jornal como o Público me anuncia - não foi escrito em lado nenhum - que são 120 jornalistas... não verifiquei, mas como o El País tem mais de 400 e o Le Monde tem 500, nessa altura uma pessoa vê a diferença.

Ora, temos de saber uma coisa, é que a dimensão demográfica do país, [que] tem consequências em termos de vendas, tem consequências em termos de número de empresas que querem anunciar, mas em termos de cobertura da atualidade não é, de tal modo diferente. É evidente que é mais importante em termos de cobertura da atualidade nacional, da atualidade local e regional, mas em termos de cobertura da atualidade internacional em termos de cobertura da economia, em termos de cobertura da cultura, da sociedade, não é fundamentalmente diferente.

O problema que se põe é que a rentabilização dessa cobertura não é a mesma em função do facto de que a França tem 60 milhões de habitantes, a Alemanha 80 milhões de habitantes e Portugal só 10 milhões de habitantes. Portanto, o problema dos pequenos países é esse. Isto é verdade para a rádio e é verdade para a televisão.

A possibilidade de rentabilização, por exemplo, no caso da televisão. A taxa que tem de se pagar ou em termos de receitas publicitárias, é muito maior nesses países do que num pequeno país. Por isso é que eu gosto de comparar a situação de Portugal à situação de países que têm uma demografia, digamos comparável. No caso português, com a grande vantagem de ter uma língua própria o que não é o caso dos três países que lhe falei há bocado. Portanto, o que é que se vê em Portugal? A coisa que é imediatamente mais flagrante é a ausência de correspondentes nos países estrangeiros. [...]

A outra coisa que se verifica é a ausência de especialistas. Quando uma pessoa vê os jornais portugueses - eu não vou citar nomes que é um bocado delicado - e vê que é a mesma pessoa que cobre tão depressa o mundo de língua germânica, mas também o Próximo Oriente, mas também o Médio Oriente, mas também por vezes problemas ligados à pandemia... [isso] não é normal, pura e simplesmente. Quer dizer que a pessoa, eventualmente, poderá ser especializada nessa área mas não no resto. Isso é verdade. Por exemplo, quando se chega a jornais como o Le Monde ou a televisões como a televisão pública francesa France 2 etc, têm médicos que são jornalistas. Aqui vai-se recorrendo a um e a outro no exterior e, muitas vezes, com ambições políticas.

G. – Refere-se aos comentadores.

N.C. - Viu-se isso agora com a história da família em que aparecem os médicos e, de repente, eles eram candidatos nas autárquicas, por exemplo. Estou a pensar em casos concretos que, inclusivamente, foram eleitos nas autarquias em Lisboa, por exemplo.

Portanto, há toda esta deficiência, que é uma consequência do número baixo... Quando se vê, por exemplo, o Diário de Notícias foi relançado em papel - muito bem - mas em que a redação não são nem 30 jornalistas. Como é que se pode fazer um jornal que tem a ambição legítima de ser um jornal de referência com 30 jornalistas? É impossível, é impossível. Eu considero que, dada a estrutura da sociedade portuguesa, dada as fracas tiragens, etc. um jornal diário de referência não pode ter, em Portugal, menos de 150, 180 jornalistas. Ora, nenhum deles tem.

G. - Mas acha que o problema não poderá estar no modelo de financiamento que ainda vigora? A lógica da publicidade paga no jornal impresso quando esse meio já não vende tanto...

N.C. - O jornal impresso já não é tão vendido como era, mas, de qualquer modo - cá como lá, no resto da Europa - hoje há a grande tendência para que, por exemplo, as assinaturas sejam assinaturas digitais. Só que as assinaturas digitais são também muito reduzidas em Portugal. Mesmo os dois casos de maior nível de assinatura digital que são o Público e o Expresso são extremamente limitados.

G. -Mas isso não tem também que ver com o problema da falta de meios [da população]?

N.C. - Eu acho que há dois problemas: por um lado a promoção do sistema de assinaturas que é insuficiente. Eu vejo que a quantidade - para lhe dar um exemplo mais flagrante naqueles de que eu sou assinante - da promoção da assinatura de um jornal como o El País, e que não vejo com jornais portugueses, pura e simplesmente. Portanto, há esse problema. Há os custos da assinatura, também e, por outro lado, há, de facto, o nível cultural das pessoas e a falta de hábito de leitura dos jornais. Agora, tudo isso pode ser desencadeado se houver um sistema promocional sério, que seja uma verdadeira arma de conquista de leitores e de assinantes e se os preços de custo da assinatura forem razoáveis, adaptados ao nível de vida das pessoas em Portugal. Depois é o fenómeno da bola de neve.

Tem que se desencadear um fenómeno a baixo custo, para que as pessoas se habituem a ler o jornal diário ou semanal e que depois no fim de contas o que o preço já não é aquilo que era na origem mas... Isso vê-se com os jornais estrangeiros, vê-se com o New York Times, o El País, o Liberátion em França, que recebo constantemente com preços de assinatura de um euro por...

G. - O New York Times pede 0,50 cêntimos por semana.

N.C. - ...durante dois meses, três meses. E depois a pessoa até pode ver que aquilo é interessante. Depois há um sistema que vai aumentando e já não é aquilo. Isso não se vê em Portugal.

Por outro lado, tem de haver um conteúdo interessante. Porque o problema é este. Já escrevi várias vezes e já falei sobre esse assunto. Porque é que um cidadão ou uma cidadã - não sejamos machistas - de Castelo Branco, do Fundão, da Covilhã, da Guarda e, claro, do Tortosendo ou de Unhais da Serra, porque é que vai ler um jornal de Lisboa, se não lhe diz nada da sua região? Eu explico-me agora: os grandes temas da atualidade nacional e internacional, bem ou mal, já os ouviu no rádio e já os viu na televisão. Se não dizem nada depois do que se passa cá, o que é que me leva a comprar esse jornal?

G. É mais um resultado da centralidade de Lisboa.

N.C.- Por exemplo o caso da Bélgica, há diários que têm cinco, sete, oito edições regionais. Peguemos no caso português: aquilo que se passa na Câmara Municipal da Covilhã, o que se passa na Universidade da Beira Interior, o que se passa com grandes empresas da região, em grandes instituições, a associação desportiva de, ou a associação cultural de... etc. Sabe-se o que se passa. Nos jornais em Portugal isso não existe, pura e simplesmente. Portanto, a nível das pessoas que vivem no país de baixa densidade - uma terminologia curiosa, mas bom... - ou que vivem no interior - que também quando escrevo “interior” ou quando escrevo "da província" ponho sempre entre aspas, porque é “interior” mas em relação a quem? É a província em relação a quê? É a província da Beira Baixa? Os outros é a Província da Estremadura. Eu ponho sempre isto entre aspas porque é uma maneira curiosa de definir as coisas.

Mas, quando essa gente que vive nessas regiões de Portugal, não tem informação nenhuma sobre elas, nem sobre nem sobre a mudança dos horários dos comboios nessa região ou a mudança dos horários das rodoviárias dessa região ou sobre o que se passou no Hospital do Fundão ou da Covilhã, não há lugar não há uma motivação séria para comprar esses jornais. Só as pessoas que querem ir para além daquilo que diz a rádio e a televisão e que quer compreender melhor a política nacional ou a política internacional ou o que se passa no domínio da cultura por exemplo é que compram jornais.

G. – Mas, seguindo essa lógica, não seria então mais natural que que a imprensa local e regional tivesse uma expressão maior? Porque também não tem.

N.C. - Também não tem porque é feita como ela é feita.

G. - Como é que é feita?

N.C. - Primeiro as redações são mínimas, que eu saiba. Eu não sei se será muito [correto dizer isto], mas, que eu saiba, o [jornal] Notícias da Covilhã é [integrado por] um padre jornalista e outro jornalista. Ponto final. Que eu saiba depois, no resto dos jornais - não vamos citar nomes - as redações são mínimas. Consequência disto: o jornalismo que se pratica nesses jornais é um jornalismo muitas vezes... chamemos-lhe oficioso. É um jornalismo feito à base de comunicados e feito de versões oficiais das coisas.

G. - Não há escrutínio? É isso?

N.C. – É mais do que isso. Quer dizer, peguemos no caso do Fundão. A informação que eu vejo é sobretudo informação em torno do executivo na câmara municipal. Mas aquilo que se passa noutras instituições desta cidade que são a misericórdia, que são a Associação Desportiva do Fundão, que são o clube académico não sei quê, toda uma série de coisas deste género, praticamente nunca se fala nelas.

G. - Poderá isso acontecer porque os meios dependem muito das autarquias para se financiarem?

N.C. - Pois, a questão é de saber onde é que está a galinha e onde é que está o ovo e se foi primeiro a galinha ou se foi primeiro o ovo. De facto, o que eu queria dizer também é que, para além desta versão oficiosa da atualidade, é que não se vai mais longe. Não se vai mais longe na perspetiva de investigação, de inquérito sobre as estruturas económicas, sobre as novas iniciativas que há na região. [...] Isso não se faz pura e simplesmente. Não se faz porque é uma questão de cultura jornalística que eventualmente deixou de existir ou nunca existiu e, por outro lado, uma falta de meios humanos e financeiros para fazê-lo. O problema é esse também.

G. - Acha que nunca existiu cultura jornalística nestes títulos?

N.C. – Não estou a falar em absoluto. Estou a falar de [alguns] jornais onde ela nunca existiu ou existiu pouco, pura e simplesmente.

G. - Queria questioná-lo sobre um outro assunto: recentemente uma notícia da Lusa continha um erro [uma expressão racista escrita em relação à deputada Romualda Fernandes], que acabou replicado em vários meios de comunicação. Isto não será demonstrativo da dependência que existe das agências de comunicação? Será tanta a necessidade de publicação constante que já não se filtra a informação que vem da Lusa, neste caso?

N.C. - Bom, é evidente que há uma grande dependência dos media em Portugal em relação à Lusa. Eu direi, felizmente que a Lusa existe, porque se a Lusa não existisse então, por exemplo, os países de língua portuguesa não eram cobertos por ninguém. E também é verdade para a atualidade regional.

Eu constato que toda uma série de coisas que se passam no interior - no tal “interior” entre aspas e na tal “província” entre aspas - que só chegam aos jornais de Lisboa e aos media de Lisboa porque a Lusa falou nisso. O que evocou como assunto é mais grave do que isso. Quer dizer, é um facto que os media todos [dizem] "tal jornal publicou", "tal rádio disse", "tal televisão disse" e repetem aquilo. E não têm a preocupação de ir verificar. Não é porque o senhor disse, tal indivíduo disse, tal comentador disse ou escreveu num media tal coisa, que a coisa não tem que ser verificada. Mas já lhe digo que é um problema que se põe também lá fora. Tal jornal escreveu e depois os outros muitas vezes vão repetir sem ter o rigor e a isenção de ir verificar se foi assim que as coisas se passaram, pura e simplesmente.

Portanto, no caso português voltamos de novo ao ponto de partida. Como as redações são quantitativamente fracas e como uma certa cultura de prática jornalística não existe (ou existe muito pouco) isso não se faz, pura e simplesmente.

G. - Mas isso não será também porque os meios são escravos da publicação constante, nomeadamente para alimentar as redes sociais?

N.C. - É evidente que o jornalismo em tempo real põe mais esse problema. É evidente que, se um jornal anuncia "tal personalidade morreu" os outros vão todos a repetir a coisa e depois constata-se que afinal até houve um erro, que não era aquela pessoa, era outra que tinha um nome comparável. Repare o que aconteceu agora com a história catastrófica do António Valdemar, que acusou um escritor de ser da PIDE, e que afinal não era.

De facto, quando se funciona com informação a tempo real, os outros anunciaram nós também temos que anunciar, e de preferência anunciar antes dos outros. E anunciar antes dos outros significa muitas vezes, de facto, não ter tempo material de verificar a informação.

G. – Acha relevante para um cidadão, por exemplo, estar constantemente a receber notificações sobre que coisas que não estão confirmadas ou sobre as quais ainda não há grandes desenvolvimentos. Será assim tão importante estarmos constantemente a receber a informação aos poucos?

N.C. – Permita-me dizer que acho que a sua pergunta está mal formulada.

G. – Porquê?

N.C. - O [ser] normal receber? Isso é normal. Não é normal é depois não verificarem. O que não é normal é ter depois a preocupação de publicar imediatamente. Agora: que as empresas e as instituições massacrem as redações com comunicados, comunicados, comunicados... Mas ouça, eu, num dos meus livros, faço referência a isso. Já há um século atrás esse fenómeno existia. Evidentemente em menor quantidade que hoje, porque inclusivamente - vou dizer uma coisa um bocado ridícula - antes os comunicados tinham de ser escritos, tinham de ser impressos, ser metidos dentro de um envelope e tinha de ser posto um selo e ser enviado para as redações. Hoje, a única coisa que é preciso é escrevê-lo e depois mete-se na Internet e [o envio] é gratuito. Todos nós... eu recebo todos os dias mais de uma centena de e-mails dos quais muitos nem abro porque vejo de onde vem e nem abro.

Eu antes não recebia centenas de envelopes com comunicados. Recebi durante muitos anos os comunicados da Comissão Europeia, do Parlamento Europeu etc., etc.. mas recebia com uma certa regularidade que não era nem diária nem nesta quantidade. Por isso é que eu disse que a pergunta estava mal formulada. Quer dizer [o ser] normal é, o problema é o seguimento que depois se dá.


G. - Num texto de opinião que publicou há tempos intitulado "Liberdade e Censura", criticava - e cito - o "extravagante pluralismo" a que estão presos os nossos media. Pode esclarecer a que se referia?

N.C. - Há uma... - como é que eu hei-de dizer isto - uma mitologia, um mito, em Portugal que é o seguinte: tudo se pode dizer, tudo se pode escrever nos media, e eu digo [que] não. Por outro lado, um media, um jornal não é - conforme eu dizia - um quadro da fixação em que toda e qualquer pessoa pode escrever aquilo que quer. Um jornal, em princípio, um medium - e isso é mais evidente na imprensa do que na rádio e na televisão - é um jornal que tem um conceito editorial e que tem um conceito de funcionamento da sociedade. Tem um projeto societal, digamos assim. E, portanto, em função disso não pode, não deve publicar tudo.

Eu nunca faço artigos a dizer "o jornal fez", "este escreveu". Tento mais tomar um certo recuo em relação à situação. Isto é a minha escola, é a minha formação.

O Público publicou no sábado passado [7 de novembro] uma entrevista com o Jaime Nogueira Pinto, fascista bem conhecido, salazarista bem conhecido.

G.- Também vi essa entrevista.

N.C.- Eu fiquei revoltado com aquela entrevista e não li aquilo. Depois li, no seguimento de eu ter mandado um mail a uma pessoa em que me dizia que estava bem conduzido. Achei aquilo até desprovido de interesse, diga-se de passagem...

O Público vai publicar um artigo meu intitulado “Os limites do pluralismo”.

G. – É relativo a essa entrevista?

N.C. – Sim. O que estes jornais fazem, o que estes media fazem é banalizar o salazarismo.

É tornar aceitável, tornar normal estas tomadas de posição, que não são. Os jornalistas que fazem isto, estão é à procura das reações que jornais vão fazer, [da] referência à entrevista do Público e a personagem é banalizada. Anda-se à procura é de mais repercussões e de mais reações inclusive na Internet, inclusive no Público em linha [online]. Eu até termino o artigo dizendo [algo do género] “vocês têm de tomar consciência que nenhum regime de extrema-direita, em algum momento da história, permitiu que fosse praticada uma liberdade de informação”. Portanto é um bocado curioso que os jornalistas andem a fazer isto, a provocarem o seu próprio suicídio, no fim de contas.

A liberdade não é absoluta em matéria nenhuma. Eu a partir de agora [decido que] vou começar a circular para conduzir o meu carro pela esquerda e não pela direita. [ou decido que] partir de agora não vou parar no semáforo vermelho.

Na nossa vida é assim. Os meninos têm de ir à escola com a idade de seis anos, e têm de passar de ano para poderem entrar para o secundário e têm de passar de ano para depois de entrar na universidade. Há regras para toda uma série de coisas. Aluga-se uma casa, faz-se um contrato ele tem uma certa duração e só pode ser anulado em função de um certo número de critérios. E, portanto, em matéria de jornalismo é a mesma coisa.

E o que eu constato, por outro lado, é que isto é feito em relação à extrema-direita e pior do que isso... quer dizer, o Chega e a Iniciativa Liberal têm sido promovidos pelos media de maneira absolutamente inacreditável - por culpa também da personagem que ocupa a chefia do Estado, que é um manobreiro, que toda a sua vida tem sido (Marcelo Rebelo de Sousa, uma personagem absolutamente detestável). Quando se vê os chefes de Estado nos países europeus, não há chefe de Estado nenhum (nenhum!) que apareça diariamente nos media e que venha dar diariamente opiniões sobre tudo. Não há. De Espanha, de França, da Bélgica, da Inglaterra, da Alemanha, da Itália e por aí fora. Quando se os jornais estrangeiros e vêm as televisões estrangeiras como eu faço todos os dias, [vemos que] isso não existe, pura e simplesmente. E portanto, esta gente, do presidente da República aos media, consideraram que era normal dar a mesma importância aos representantes destes partidos? Mas esses partidos não existiam, pura e simplesmente. E puseram-nos em pé de igualdade com partidos que existem desde o início da democracia? É absolutamente inacreditável.

Mas isto existe em relação à direita e à extrema-direita. Eu não vejo nenhum editorialista e nenhum homem político da extrema-esquerda - estilo anarquista, estilo antigos marxistas-leninistas ou não sei quê - a serem entrevistados ou a serem comentadores. Não vejo nenhum. Acho que há limites numa sociedade democrática e, num Estado de direito, no mínimo têm que ser pessoas que respeitem a democracia e o Estado de direito.

G.- Falando de personagens de extrema-direita...estou a lembrar-me da detenção de Mário Machado, há coisa de um dia ou dois. Ouvi notícias em que ele é denominado de "ativista de extrema-direita". Ele é uma pessoa criminosa que cometeu vários crimes de ódio. Fará sentido usar uma designação deste tipo?

N.C. - Oiça, um dos dramas do jornalismo lá fora e cá (mais pela deficiência de formação jornalística das pessoas que trabalham no jornalismo) é muitas vezes não ter [noção] do verdadeiro sentido das palavras.

Uma coisa que me impressionou muito em Bruxelas, quando eu comecei por ser jovem assistente, foi um dia ouvir um professor dizer: "Eu nunca escrevo nada sem ter um dicionário em cima da mesa". Vivia em Bruxelas na altura há quatro, cinco anos quando isto aconteceu. Fiquei muito impressionado porque, de facto, eu entrei em montes de casas, em Portugal, de gente com um certo nível cultural onde não havia um dicionário. Quer dizer o português pratica-se de qualquer maneira. Toda a gente pratica de qualquer maneira o português. É uma coisa que eu não entendo. [Dizer] "é espetacular", e eu respondo "mas quê? o tipo que andava a dançar em cima da mesa, fez um espetáculo?". [...]

Uma coisa que é impressionante com os francófonos é o rigor da língua. E não é por acaso que todos os anos há uma edição nova do Le Petit Robert, era uma edição nova do Petit Larousse, por exemplo, que são dicionários para os quais não há comparação possível, [com] nenhum dicionário em Portugal. Eu tenho aí os melhores dicionários de português da academia ou da Porto Editora por exemplo....Aí está um belo exemplo. O [Grande] Dicionário da Porto Editora custa cerca de 150 euros.

G. Não é algo que esteja acessível a qualquer pessoa.

O Le Petit Robert, se não me engano, custa entre 60 e 80 [euros] tem muito mais páginas, tem muito mais conteúdo, pura e simplesmente. E tem um conteúdo muito mais rico, como por exemplo a datação das palavras, de como é que as palavras apareceram e tal, e as diferentes variações de significação e inclusivamente [tem] frases de autores para exemplificar o uso da palavra. Aqui [em Portugal] não [acontece]. E portanto, os jornalistas...

Outra coisa que apareceu nos últimos dias foi [jornalistas a escrever] "altas patentes" [no caso do roubo dos diamantes por membros as Forças Armadas], "altos responsáveis das Forças Armadas"... Houve gente a reagir, aliás um antigo jornalista, que [dizia] que tipos de tal e tal nível não são altas patentes".

G. - Portanto os jornalistas não pesam o seu vocabulário?

N.C. – A sociedade portuguesa, não é só no jornalismo. Em toda a sociedade portuguesa a noção de rigor e de exigência não existe. Felizmente há muitas pessoas que são rigorosas e exigentes mas é uma situação [rara]. [...]

G. – Mas acha que isso explica a leveza com que encaramos estes movimentos extremistas, que têm vindo a crescer?

N.C. -Eu acho que isso será resultante de outra coisa. Será resultante de uma... O nível cultural do povo em Portugal - [embora] teríamos que nos entender sobre o que quer dizer "o povo" - é um nível cultural baixo. Vai-se a cafés, vai-se a restaurantes e de que é que se fala? Fala-se de futebol, futebol, futebol ou então dizem que os políticos são todos uns vigaristas, corruptos e não sei quê, mas toda a gente tem senhoras da limpeza que não são declaradas. Toda a gente tem casas alugadas ou apartamentos alugados que não são declarados e vamos por aí adiante. Toda a gente faz isto (para falar de duas situações [minhas], em que declaro a senhora da limpeza e, claro, o apartamento alugado).

 Houve um dia uma colega professora de História na Universidade de Bruxelas que disse uma coisa que muito me impressionou, na altura. Diz ela: a Igreja Católica tem uma coisa formidável, que é a confissão. Uma pessoa peca, peca, peca mas depois vai ao confessionário e fica de novo santinha.... Pronto. O problema está resolvido.

Oiça: a Igreja Católica é altamente responsável pela situação da imprensa.

G. – De que forma?

N.C. - É muito simples de explicar: na conceção católica, o padre é obrigatoriamente o intermédio entre Deus e o povo de Deus, e entre o povo de Deus e Deus. Portanto, o povo de Deus não precisa de saber ler e escrever ou falar. Portanto, tempos antigos.

No mundo protestante - eu não sou protestante, já digo - não há intermediário entre Deus e o povo de Deus. Portanto, o povo de Deus tem de saber ler e escrever, para ler a Bíblia e os textos sagrados. Até ao [Concílio] Vaticano II a missa era feita em latim, quer dizer, uma língua que as pessoas não entendiam. Só no [Concílio] Vaticano II, portanto, nos anos 60, é que passou a ser nas línguas nacionais.

A Bíblia no mundo protestante foi traduzida imediatamente nas línguas nacionais. Portanto na Europa vê-se, ainda hoje, um corte entre o mundo protestante e o mundo católico, em termos de leitura, em termos de imprensa. Os níveis de leitura da imprensa são muito mais elevados em todo o mundo protestante em relação [ao católico]. Oiça: há três séculos havia regiões da Europa, Escandinávia e Norte da Alemanha, que estavam totalmente alfabetizadas. A taxa de analfabetismo na Itália, na Espanha e em Portugal era altíssima nos anos 50, 60 e 70. Com uma diferença um bocado particular para a França, porque houve a Revolução Francesa, houve o Iluminismo houve toda essa corrente que fez uma laicização da sociedade importante em França que não existe nestes outros países.

G. -Portanto, no caso de Portugal, o nosso predominante catolicismo ainda nos prejudica?

N.C. - Essas coisas não passam assim de um dia para o outro. Pura e simplesmente. Eu, que voltei a Portugal mais de 45 anos depois, vejo hoje no Fundão coisas que eram inimagináveis há 50 anos. No que diz respeito ao casamento, no que diz respeito ao batizado, no que respeita à vida sexual, por aí adiante. Hoje há dados que mostram que as pessoas casam cada vez menos pela Igreja, que há cada vez mais miúdos que não são batizados. E por aí adiante. Quantos casais vivem juntos sem serem casados? Não só há cada vez mais casamentos civis, mas há cada vez mais casais que não são casados, pura e simplesmente.

Há 50 anos as menininhas chegavam ao dia do casamento... “puras”, à imagem da Virgem Santa Maria - que não era virgem, como sabemos [pois] teve o filho, mas isso é outra conversa.

Portanto, há toda uma evolução da sociedade em que é claríssimo que a Igreja perde impacto cultural. Mas, quer dizer, há toda uma base que, apesar de tudo, continua a ficar. As pessoas, apesar de tudo, preferem que um filho seja batizado, preferem que o enterro seja católico (nunca se sabe se, de facto, há inferno ou se não há) e mais não sei quê... e por aí continua a Páscoa, continua o Natal e por aí adiante.

Portanto, o substrato cultural religioso ou o substrato cultural vindo da religião - mais exatamente, digamos assim - não desaparece de um dia para outro, dois mil anos depois. É tão simples como isso.

Texto e fotografias de Sofia Craveiro

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