É mais um dia como os outros. Isto é, é mais um dia como os outros para quem não sabe ou não quer saber se Portugal joga contra a Hungria hoje, em Budapeste. O Presidente da República disse que “hoje é dia de futebol” e que não vai falar de outros temas quando lhe pedem para comentar um possível conflito com o Primeiro Ministro. Eu, que nunca tive o hábito de ver futebol em casa e que me entedio com jogos de qualquer tipo, questiono-me: o que é um dia do futebol?

Hoje é dia 15 de junho, Portugal venceu por três golos à Hungria e mesmo que eu quisesse ignorar, não podia. Não se fala de outra coisa na televisão, nos jornais, nas redes sociais. Os meus vizinhos gritam “golo” a km de distância, que se ouve perfeitamente da minha sala de estar, não dá mesmo para ignorar. E eu, na verdade, devia importar-me, é um jogo da seleção — é o que toda a gente me diz. Há dias em que até finjo que me importo, mas hoje não é um desses dias.

É 15 de junho, volto a confirmar no ecrã do telemóvel, e há uma notícia que surge no meu feed. Lê-se no título: “Hungria proíbe temática LGBT para menores”. Mesmo que quisesse ignorar, não conseguia. E esta não quero ignorar. Há um ano que acompanho a ascensão dos regimes de extrema direita na Hungria e na Polónia e os ataques constantes aos direitos humanos que estes perpetuam, mas cada notícia que chega cá continua a parecer-me surreal. Numa breve análise à lei aprovada por 157 votos a favor e 1 contra, petrifico e penso, só mais uma vez, “como é que isto está a acontecer na Europa?”.

No dia em que Portugal ganhou à Hungria no futebol e dezenas (centenas?) de portugueses viajaram para Budapeste para assistir ao jogo e celebrar nas ruas, uma lei que representa um retrocesso nos Direitos Humanos na Hungria é aprovada no parlamento. Segundo o DW, “a nova lei é a mais recente de uma série de medidas implementadas sob o governo do primeiro-ministro Viktor Orbán que supostamente visam combater a pedofilia e proteger as crianças”. Associar a comunidade LGBTQI+ à pedofilia é um truque antigo e, infelizmente, previsível por parte da extrema direita; há um ano, como acabei por descobrir em reportagem, circulavam carrinhas pelas ruas de Varsóvia, na Polónia, com a mensagem “os homossexuais são pedófilos”. Viktor Orbán, Primeiro Ministro Hungaro, e Andrzej Duda, Presidente da Polónia, têm vindo a construir com os seus partidos (Fidesz e PiS, respetivamente) um caminho que não só torna possível que isto aconteça, como incentiva e sugere.  

A relação de cumplicidade política entre Orbán e Duda é conhecida e assumida. E a relação de ambos com Vladimir Putin, presidente da Rússia, é também bastante evidente. Em 2013, foi aprovada uma lei na Rússia que proíbe “propaganda gay” e que se assemelha à recentemente aprovada na Hungria. No caso da Hungria, será a partir de agora proibido falar sobre questões LGBTQI+ a menores de 18 anos e mostrar conteúdos que, na óptica do governo, “promovam o desvio da identidade de género”. Segundo a emissora RTL Klub Hungary, filmes como O Diário de Bridget Jones, Harry Potter ou Billy Elliot só poderão ser transmitidos à noite, na televisão, com uma classificação etária de maiores de 18 anos. Isto acontecerá com todos os filmes e séries com personagens LGBTQI+, onde se incluem também Friends e Modern Family

Em Portugal, Modern Family, série que conta com um casal de gays entre as personagens principais, é exibida na Fox Life e tem uma classificação etária indicativa de 12 anos. Na minha adolescência, em Portugal, tive acesso a todos esses filmes e séries, e houve um que me marcou em particular: Billy Elliot. Billy é um rapaz da periferia, com apenas 11 anos, obrigado pelo pai a treinar boxe, até que um dia, em segredo, vai experimentar aulas de ballet e se descobre. Descobre que é feliz a dançar. Não consegue quase nada à primeira tentativa, mas lembro-me que foi isso que me ficou do filme, quando o vi, numa altura em que tinha três aulas de ballet por semana e não havia um único rapaz na minha turma. Billy Elliot é, no cinema mainstream,  um gesto de resistência à masculinidade tóxica e ao que é esperado de grande parte dos rapazes cisgénero no mundo ocidental. 

Billy Elliot marcou-me, enquanto rapariga cujo sonho era ser bailarina e enquanto adolescente muito chateada com a organização do mundo. Sei que marcou muito mais a rapazes que se reviram na vontade de Billy e que se encontraram, de alguma forma, na tela. Esses mesmos rapazes, na Hungria, não podem fazê-lo livremente a partir de agora, em 2021, vinte e dois anos depois de o filme ter estreado. E o que é que Billy Elliot tem que ver com a comunidade LGBTQI+? Tudo e nada. Na estratégia de tornar a comunidade LGBTQI+ em bodes espiatórios de campanhas de extrema direita, vale tudo; associar vidas queer à pedofilia, associar a vontade de ser bailarino à homossexualidade, fazer o que tiver de ser, dê por onde der, para defender os ditos “valores de família” e a “normalidade”. 

Na Polónia, como vim a perceber na reportagem que escrevi para o Shifter em outubro do ano passado, na TVP, o canal público (equivalente à RTP, em Portugal), os jornalistas estão proibidos de criticar o então presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, e o Primeiro Ministro Hungaro, Viktor Orban, uma vez que “ambos são vistos como aliados do PiS”. No mesmo canal, já em outubro de 2019, a três dias das eleições parlamentares, foi transmitido também na TVP um auto-intitulado documentário chamado Invasão, que “prometia revelar ‘a história por dentro, objetivos, métodos e dinheiro por detrás da invasão LGBT’”. 

Um ano antes, na Hungria, foram proibidos cursos de Estudos de Género nas Universidades, e em 2020 foram proibidas por lei as mudanças de género nos documentos de identificação — que só não se aplica a quem já o tivesse feito antes de março desse ano — bem como a adopção por parte de casais do mesmo sexo. Todas estas decisões foram aprovadas com maioria e, segundo o Politico, dados dos Eurobarómetro indicam que, já em 2019, 53% dos húngaros indicavam discordar da frase “não há nada de errado com uma relação sexual entre pessoas do mesmo sexo”. Mas por muito que uma aparente maioria possa pensar dessa forma, mais de 5 mil pessoas manifestaram-se à porta no Parlamento húngaro, na segunda-feira, contra esta nova lei que é “apenas” mais um acrescento ao retrocesso que tem acontecido no governo de Orban, mas que é, também, uma gota de água num copo já a transbordar. 

Falar abertamente sobre diversidade sexual nas escolas só é um atentado para quem tem medo do progresso, para quem vive na senda colonial que oprime, que vive da mentira e que mata. O que se está a passar na Hungria, bem como o que se está a passar na Polónia, é um atentado aos Direitos Humanos e ao avanço civilizacional. E é já aqui ao lado. É já aqui ao lado que há quem tenha medo de sair à rua, de celebrar a sua identidade, de viver em paz e em liberdade no seu país. Há precisamente 60 anos — sublinho, 60 anos — a homossexualidade era descriminzalizada na Hungria, ainda que com algumas adendas relativamente à idade. E hoje, já aqui ao lado, vemos um caminho quase centenário de luta pela liberdade a ir caindo por terra nas mãos de um partido que vê a conquista dos Direitos Humanos como uma ameaça. 

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, já se manifestou publicamente dizendo que está “muito preocupada com a nova lei na Hungria”. Enquanto cidadã europeia, e tendo consciência de que o assunto é mais complexo do que parece, espero que esteja. Mais do que pensar em como sancionar a Hungria, é preciso perceber como é que se pode salvaguardar a liberdade de pessoas LGBTQI+ húngaras, e há muitas formas possíveis de o fazer a curto prazo, começando por dar apoio a associações e movimentos em prol da comunidade. Todas essas soluções são para ontem. 

Continuo, ao fim deste texto, sem saber o que é, afinal, um “dia de futebol”. Gostar ou não de futebol é uma opção, e quanto a isso não me parece existir grandes dúvidas. A questão é que esse “dia de futebol” coincidiu com um “dia de retrocesso para os Direitos Humanos” no mesmo país. E acho que não preciso de dizer qual dos dois é que nos diz respeito a todos. É que, na luta pelos Direitos Humanos, não há um momento de tédio; todas as horas de todos os dias são um desafio.

-Sobre Carolina Franco-

A Carolina Franco é jornalista no Gerador. Nascida no Porto, em 1997, aprofundou o seu interesse e conhecimento na cultura e na arte enquanto estudou na Escola Artística de Soares dos Reis. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Lusófona do Porto, viveu quatro meses em Ljubljana, na Eslovénia, onde teve a oportunidade de ser envolvida pela cultura pós-jugoslava e estudar Ciências Sociais. Entre 2018 e 2019 frequentou a pós-graduação em Curadoria de Arte da Universidade Nova de Lisboa – FCSH. Graças a estas experiências, tornou-se mais interessada no papel da cultura na sociedade em geral e nas comunidades locais – uma relação que procura aprofundar cívica e profissionalmente.

Texto de Carolina Franco
Fotografia da cortesia de Carolina Franco
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