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Já vimos o filme da Argentina 

Nas Gargantas Soltas de hoje, Amanda Lima escreve sobre as eleições argentinas, que caminham para um cenário semelhante ao do Brasil em 2018.

Opinião de Amanda Lima

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A eleição presidencial na Argentina nos traz uma péssima lembrança de um cenário que já vimos no Brasil. Um povo que, com toda razão, quer mudanças para terem uma vida melhor, afinal, é impossível viver de forma digna com uma inflação de 138% a duas semanas do pleito e um índice de pobreza que ronda os 40%. 

Na hora de ir às urnas, com voto impresso e auditável, diga-se de passagem, as três principais alternativas eram: uma continuidade do complexo peronismo, uma candidata conservadora que se apresentou como uma alternativa para a mudança e um candidato caricato que mais parece um personagem de comédia (e de mau gosto). 

De forma soberana, o eleitorado escolheu seus dois candidatos para o embate final: Javier Milei, que até pouco tempo ninguém sabia quem era, e Sergio Massa, atual ministro da Economia e representante do peronismo. Uma segunda volta relativamente parecida com a eleição brasileira de 2018 que levou Bolsonaro ao poder. 

Claramente, existem diferenças importantes. O peronismo é tão complexo que nem pode ser definido nas “caixinhas” de direita e esquerda, mas está mais próximo da esquerda e conta com apoio de outros partidos do mesmo espectro político, como o Partido dos Trabalhadores (PT) brasileiro. Ao mesmo tempo, diverge totalmente do petismo. A origem é diferente, e, principalmente, o eixo ideológico, que às vezes está de um lado, às vezes de outro. 

Já o “Bolsonaro argentino”, que ganhou grande apoio dos bolsonaristas brasileiros, se diz libertário e foca a campanha na economia. Porém utiliza a já conhecida fórmula da extrema-direita de atacar a suposta “ideologia de gênero”, prometeu rever a lei que permite o aborto, liberar o uso de armas de fogo e nega o aquecimento global.

Ah, também usa muitos palavrões, gritos e batidas na mesa nos discursos (mesmo com crianças presentes) e disse governar para os “argentinos de bem”. Basicamente, trocou o “cidadãos” usado por Bolsonaro por “argentinos" e não poupa o uso da palavra “liberdade” em todas as entrevistas e discursos. Sim, a velha cartilha, sem novidades ou surpresas. 

A surpresa poderá vir do segundo turno. Os eleitores vão ter que escolher: o candidato da situação, que promete acabar com a inflação - e justamente um dos responsáveis pela atual crise econômica ou uma pessoa que representa uma novidade assustadora e com propostas drásticas. 

Ao fim e ao cabo, e isso faz alguma confusão mental em quem vive num mundo de redes sociais, o eleitor e a eleitora escolhe quem dá mais esperança. O trabalhador, que acorda de madrugada e pega o transporte público lotado, labuta exaustivamente e não consegue nem pagar as contas básicas, quer ter o mínimo de dignidade e sair da atual situação financeira desesperadora. Nessa conta, nem sempre entram os aspectos ideológicos. 

Para o peronismo, apesar de ter ficado em primeiro lugar agora, o cenário é mais difícil. Será preciso conquistar a confiança dos indecisos e até mesmo daqueles que o rejeitam, isso enquanto Milei adianta apoio dos centristas e ataca fortemente o peronismo, que assinala como “o inimigo”, em mais uma semelhança com o Brasil. 

Seja quem ganhar, a situação será caótica. Consertar economicamente a Argentina é o principal desafio — desafio que não é novo. Nos últimos anos, as mais variadas forças políticas passaram pelo poder e ninguém conseguiu resultados à altura. Do ponto de vista geopolítico, se a extrema-direita vencer, irá mexer com a estrutura regional e até mesmo na Europa, já que trabalham sempre em conjunto. 

Nas eleições latino americanas, em especial, a regra é clara: no primeiro turno escolhe-se, no segundo, rejeita-se. Resta saber se no dia 19 de novembro os nossos hermanos vão rejeitar menos e o resultado pode mexer com a estrutura política da América Latina.

-Sobre a Amanda Lima-

Jornalista nas horas vagas e ocupadas, é brasileira e vive em Portugal há três anos. Os temas de principais interesse são sobre género, imigração, direitos humanos e política. Comenta e escreve atualidades na CNN Portugal e acredita que o jornalismo é a profissão mais divertida do mundo. Viciada em cafeína, vídeos de pandas e em contar boas histórias. 

Texto de Amanda Lima
As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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