Entre 9 e 19 de Julho, realizar-se-á a nova edição, 9.5, do Walk&Talk – Festival de Artes dos Açores, que, devido ao contexto que atravessamos, se apresentará num novo formato, entre o onsite, o espaço físico, e o online, o espaço virtual. O Gerador conversou com um dos directores artísticos, Jesse James, que, antes de qualquer pergunta, com entusiasmo, apresentou as novas instalações da Anda&Fala – Associação Cultural, responsável pelo festival, através da webcam, apontando para as diversas áreas imaginadas para aquele espaço, que ainda está em obras, e que nos diz que a transformação é a via da continuação.

Gerador (G.) – Quais foram os desafios desta nova edição, 9.5, do Festival, tendo em conta o contexto pandémico, ao qual se adaptou?

Jesse James (J.J.) – O grande desafio foi o facto de já termos a 10ª edição practicamente fechada. Tínhamos uma série de compromissos com artistas, curadores, espaços, entidades… O desafio foi tomar uma decisão sobre o que íamos fazer, encontrar uma solução que fosse justa para todas as partes, para nós, festival, enquanto estrutura de mediação, e que está aqui a gerar esse momento e convite, mas também para os artistas, que viram os seus projectos adiados ad eternum, (no nosso caso não, com data para 2021, para os nossos fornecedores, a nossa equipa, pessoas que estavam a contar com este trabalho e estar nessa relação. O primeiro desafio foi encontrar uma solução, uma alternativa, que fosse justa para todos, e encontrámos, que foi esta ideia de passarmos a 10ª edição, que era celebrativa. Por todas a razões, não fazia sentido celebrá-la agora. Passámos para o futuro para salvaguardar tudo com todos e, ao mesmo tempo, abrir espaço para, agora, conseguirmos imaginar uma coisa de raiz, exactamente com os mesmos intervenientes. A pandemia trouxe ao de cima uma série de fragilidades que o sector cultural tem e o quanto impreparado estava para lidar com uma situação de suspensão, como esta. Com todas as instituições, entidades, o próprio ministério, estamos num processo de procura de soluções para percebermos como podemos estar presentes, apoiar. No nosso caso, a solução foi estarmos com os que já estavam próximos de nós, aos quais podíamos, facilmente, estender a mão e gerar pensamento e projectos. Convidámos esses artistas todos para fazer o 9.5.

Estamos a fazer um projecto num contexto de ilha, que está muito dependente da interligação entre geografias, pessoas a viajar, que faz deste festival um ponto de encontro. Ele deixou de o ser, porque fisicamente não podíamos estar juntos. O desafio foi pensar o que poderia ser este lugar de encontro, que já não é na ilha. Tinha de passar a ser numa outra dimensão.

Esses foram os dois grandes desafios. O que era certo, era não cancelarmos. O que queríamos, era continuar.

G. – Como pensaram este programa? O que será mantido e o que será transformado?

J.J. – A primeira evidência foi a de que não fazia sentido fazer o festival como foi feito até então. Estávamos a planear algumas alterações para a 10ª edição. O festival tem-se alterado, adaptado, corrigido, no sentido de se melhorar, potenciar, de edição para edição. Numa situação como esta, ainda menos sentido fazia o que estávamos a pensar, pelo menos para agora. Houve um primeiro momento de muita dúvida de como nos adaptarmos, porque o Walk&Talk é um festival muito físico, que vive muito do espaço da cidade, e, agora, não poderíamos fazer isso. Antes disso, estávamos a pensar muito na questão da comunalidade. Ia ser uma espécie de um tema nesta edição, que é esta ideia do que é comum. Estamos há dez anos a falar sobre espaço público, que dinâmicas se implementam para o dinamizar, pensar, construir e viver. Estávamo-nos a questionar até que ponto não faria sentido fazer uma transição do espaço público para o espaço comum e o que isto significa, hoje em dia, em 2020. Claro que, num contexto de pandemia, esta ideia de comunalidade ainda se tornou mais evidente e presente, esta interdependêcia que temos entre todos, a necessidade que temos de nos apoiarmos e relacionarmos uns com os outros, e o quão difícil é atingirmos isso, porque a comunalidade não é utópica. Aliás, acho que devemos reconfigurar essa questão da utopia. Utopia não é uma coisa inatingível, mas faz parte de um processo de imaginação e visualização. É um processo que exige trabalho. Isto tem estado muito presente na forma e na dinâmica de como temos vindo a construir o festival. Isto foi o primeiro ponto. ‘OK, vamos construir esta edição, mas não pode ser uma coisa connosco, vai ter de ser uma coisa partilhada com os artistas e com quem convidamos para o processo, porque estamos a descobrir e a adaptar-nos a esta situação, em simultâneo. Então essa ideia de comunalidade, não foi pensada, necessariamente, como um tema de festival, ou seja, do ponto de vista conceptual para os artistas responderem, ou não, a esta questão. Claro que ela existe e está mais perto ou distante dos projectos. Mas, acima de tudo, esta ideia de comunalidade existe para nortear a forma como programamos o festival, aplicamos lógicas mais horizontais, percebermos como se podia construir e pensar, a partir de outros projectos. Organizámos vários zoom’s com os artistas, discutimos o que podiam ser as áreas de programação, o que queriam fazer, aquilo com que o festival se deveriapreocupar, o que podiam ser estratégias de comunalidade. Todas essas áreas, que fazem parte da idealização de um festival, foram partilhadas com os artistas, participantes e equipa. Claro que há uma direcção artística, que está em mim e na Sofia, mas a ideia foi tornar essa lógica vertical numa estrutura muito mais horizontal. Isto tem que ver com os processos de comunalidade. Por um lado, há esta ideia expansiva, que significa que tens de estar num processo contínuo, no sentido de gerar e imaginar o comum. Por outro, tem de haver tradução, no sentido de conversa, debate, discussão, de gerarmos esse espaço de assembleia e de encontro. Por último, é um processo de partilha dos processos de decisão, ou seja, de dares agência aos outros, para que possam também decidir e definir o que é o festival. Estamos muito contentes e orgulhosos desta edição, porque foi construída a várias mãos, com muitas opiniões. Há coisas no programa, por exemplo, a rádio, que foram propostas pelos artistas. Isto vai acabar por definir as próximas edições do festival, esta lógica de trabalhar a múltiplas vozes, com mais pessoas.

Partindo dessas lógicas de construção, a partir da comunalidade, decidimos que, por um lado, o festival tem de ter uma dimensão horizontal, o que potencia e permite chegar aos públicos que não conseguem estar juntos, nem nos projectos. Mas, ao mesmo tempo, esta não nos fazia sentido por si só, até por causa desta dimensão intrínseca do festival, que tem que ver com a sua fisicalidade e com a sua relação com o espaço. Então, vamos ter esta dimensão online, que nos permite chegar a uma série de pessoas. Por outro lado, teremos a onsite, de tradução e aproximação ao local.

Assumimos que há esta lógica global e é a esta esfera a que podemos chegar, a partir de uma plataforma online e de produzir projectos para este contexto, o que é um desafio para nós e para os artistas (isto do ponto de vista artístico é interessante), mas sem esquecer que este festival é dos Açores, serve esse lugar e quer trabalhar nesse contexto. Pensem como pode estar numa dimensão online e, ao mesmo tempo, onsite [como foi proposto aos artistas]. Foi sempre nesta lógica de tradução de uma dimensão para a outra. Depois adicionas aqui um elemento, que é a rádio, uma coisa que está no “entre”. Tem esta dimensão analógica, mas esta dimensão digital, virtual, de poderes chegar a qualquer lado. Tem uma transmissão FM, cá, na ilha. É super fixe, ligares o rádio e veres lá o FM, conseguires sintonizar. Há um gesto nessa acção, mas por outro lado, tem uma dimensão digital e global. Qualquer pessoa vai poder aceder, através do streaming, a esses conteúdos que, mais uma vez, são construídos de forma comunal, ou seja, toda a gente está a contribuir com estes.

G. – Uma vez que o projecto está enraizado na dimensão espacial, no contexto açoriano, sendo uma preocupação a descentralização, sentem que esta identidade se fragilizará com a transição para o online, um espaço centralizado que, neste momento, se tem reforçado enquanto tal, também no que diz respeito à cultura?

J.J. – Mais do que eventos, vamos manter os projectos, as instalações, os murais… A diferença entre um e outro é que os projectos apresentados no online, a que vais poder aceder através plataforma que estamos a desenvolver especificamente para o 9.5, vais ter traduções na ilha de São Miguel. Por exemplo, no projecto do João Pedro Vale e do Nuno Alexandre Ferreira, que é a produção de um aroma, a forma como interages no online é através de uma peça áudio, mas, fisicamente, no onsite vais poder sentir o cheiro. O projecto da Luísa Salvador é um conjunto de histórias, que desenvolve a partir de uma ideia de montanha, de geografia e de morfologia, que vão estar no online. No onsite, vai-se traduzir num mural. Ela vai oferecer uma nova montanha à cidade de Ponta Delgada. Os projectos têm sempre essas traduções. Eles existem no online, como ponto de partida. Para a maior parte das pessoas vai ser a única forma em que poderão interagir, mas quem está na ilha de são Miguel vai poder ter acesso a essa tradução, continuação ou expansão do projecto, que se concretiza em múltiplas formas.

Há outros projectos que têm traduções em eventos ou situações. É uma coisa que ainda estamos a avaliar, porque todas as semanas as regras estão a mudar. Temos planos A, B, C, e, amanhã, se calhar, vamos voltar ao A. Estamos a deixar em aberto, de modo a que nos possamos adaptar ao que vão ser as directrizes da Direcção Regional de Saúde, relativamente a situações de encontro e ajuntamento de pessoas. O projecto da Nádia Belerique parte de uma ideia de meditação. Lá está, no online é uma peça de vídeo e áudio e terá uma tradução no onsite, onde convida as pessoas a uma espécie de meditação colectiva. Depois, há várias traduções e processos nessa concretização. Por exemplo, o filme do Pedro Maia, que está a ser produzido em Berlim, está a ser feito através de filmes analógicos que recolheu aqui, em São Miguel. Foram enviados para Berlim, estão a ser digitalizados, para serem transforados num filme que, depois, será transmitido em streaming, live, através da nossa plataforma, e qualquer pessoa pode assistir a essa estreia, que será projectada na ilha de São Miguel.

A rádio, como te dizia, é esta dimensão que está entre o online e o onsite. Estas ideias da comunalidade, que tem de funcionar como expansão, tradução e partilha, estão presentes na rádio, como espaço de tradução, que vai permitir ampliar o programa do festival. Vamos poder dizer: ‘Vai haver, agora, uma performance’; ‘atenção, há um mural novo a nascer na cidade’; ‘a Alice dos Reis vai ter uma performance, hoje, na Ponta dos Caetanos. Mas, depois, há outras estratégias, como um projecto que estamos a desenvolver, que foi uma proposta da Ana Cristina Cachola, a curadora que estava a trabalhar connosco neste ano no festival, de levar coisas a casa das pessoas. Se as pessoas não podem vir ter connosco, vamos nós ter com elas. É nesta lógica que surge a rádio e a ideia da mail art, ou seja, vamos estar a enviar coisas para a casa das pessoas. O primeiro elemento será uma espécie de carta de boas-vindas, um ‘olá vizinho’, que era uma coisa que já fazíamos noutros anos, em que enviávamos uma carta às pessoas que estavam à volta do Pavilhão, a avisá-las: ‘vamos estar aqui, nas próximas três semanas, e vamos fazer um bocadinho de barulho. Pedimos a vossa compreensão. Venham ter connosco, beber um copo e entender o que é o festival’. Vamos continuar a fazer a carta do ‘olá vizinho’, mas vai expandir-se mais, não só ao nosso bairro, mas a outras localidades da cidade de Ponta Delgada. Vamos enviar postais de artistas, que estão a produzir de propósito, bem como um cartãozinho a anunciar a rádio e com o número de telefone, porque vamos ter programas live, em que os artistas vão estar, ao vivo, no programa e é possível ligar e falar directamente com eles. Esta dimensão foi uma coisa que discutimos, muito até nesta lógica de comunalidade e horizontalidade, de humanizar a figura do artista. ‘OK, estamos distantes fisicamente, mas bora criar estratégias de aproximação social, para que as pessoas possam interagir sem limites, rodeios, fronteiras, umas com as outras. Foi uma proposta dos artistas e eles é que vão liderar essas hotlines. Esta dimensão do online é interessante deste ponto de vista. Uma coisa não pode substituir a outra, mas pode potenciar. O onsite, o lugar, potencia o online, mas o online também potencia o onsite e, é nesta intersecção e relação entre o local e o global, que existem muitas oportunidades. O zoom, ou o Google Meet, permitem adicionar um número de telefone internacional, ou seja, qualquer pessoa que nos esteja a ouvir em streaming, em qualquer lugar, vai poder ligar e falar na nossa rádio. Isso é uma das muitas oportunidades e possibilidades que estamos a encontrar.

G. – A concretização dos projetos, desenvolvidos no âmbito das residências artísticas, pode assumir, na edição seguinte, a forma de uma exposição, uma peça no Circuito Ilha, uma publicação/edição ou performance. Contudo, devido à Covid-19, as residências foram prolongadas até 2021, com apresentações dos projetos na 10ª Edição do Walk&Talk. Os residentes actuais não serão integrados, de nenhuma forma, nesta edição? Como é que os artistas receberam a proposta de criar para o online? Ou a própria organização tratou de projectos que se adequassem a esta plataforma?

J.J. – Temos as open calls no meio desta edição toda. Discutimos com os vencedores, e o que nos fez mais sentido foi passá-los para 2021/2022. Daqui até lá, vamos falando com eles. Já estão todos a participar, de alguma forma, nas dinâmicas do festival. Mas a residência, propriamente dita, só acontece em 2021 e 2022. Pareceu-nos que fazia mais sentido adiar, porque não era claro até que ponto vamos conseguir viajar. A questão de estarmos numa região como os Açores levanta uma série de questões de acessibilidade, porque é preciso testes, há quarentenas… Nada disto era claro e, para não estarmos sempre a remarcar, fazia mais sentido adiar para 2021. Mas já iniciámos uma conversa com eles.

São todos projectos novos. O que decidimos foi trabalhar com artistas próximos de nós, ou seja, que já iam participar neste ano. Ao passar para 2021 salvaguardávamos os projectos que já estavam a desenvolver, que vinham na sequência destas residências e que iam culminar nessas exposições. Isto tudo mantém-se, porque são projectos mais complexos, que envolviam outras entidades e que, muitas vezes, eram co-produções. Para o 9.5, pedimos novas comissões. São novos projectos, pontos de situações, novas ideias. Alguns deles utilizaram o 9.5 como um ponto de situação, ou um momento para o projecto que vão apresentar no próximo ano, um momento de antecipação, que lhes permite aprofundar a reflexão sobre o projecto, que já estavam a fazer. Mas, na maioria, aproveitaram essa oportunidade para desenhar e imaginar coisas que não têm nada que ver com o que vão apresentar no próximo ano. O online, se calhar, deu-lhes a oportunidade de resgatar ideias que nunca tinham executado, ou porque lhes permitiu explorar dimensões do seu trabalho, que, até então, nunca tinham feito sentido e, agora, num contexto de pandemia e distanciamento e numa plataforma online teriam essa possibilidade. Muitos artistas exploraram esta questão da tradução, de como passas do online para o onsite. O caso do João Pedro e do Nuno é um óptimo exemplo desta questão, de como fazes a tradução do online para o onsite, através de uma coisa etérea, um cheiro, sempre a partir desta lógica de uma ideia que estava a pairar sobre nós, que é a de comunalidade, de como produzirmos e pensamos em comum.

No final, acabou por ser positivo. Era um novo contexto e, no fundo, foi trabalharmos com o contexto que tínhamos. A partir do momento em que assumimos que era a única forma de continuarmos, e que estávamos a salvaguardar a relação com o espaço através do onsite, o online passou a ter sentido. O que não queríamos, no fundo, era mimetizar o que outras instituições estavam a fazer, essa produção massiva de conteúdos, nos lives. O que esta situação toda nos estava a pedir era, se calhar, um silêncio, uma pausa, uma reflexão, ou uma atenção com o que estava a acontecer. Para nós, fez logo sentido não entrarmos nessa lógica de debitar e a construir conteúdos para o online, só porque sim. Por isso, é que estivemos, neste período, em silêncio, até nas nossas redes sociais. Entendemos que outras estruturas tivessem sentido a necessidade de o fazer, e em muitos casos fez sentido. Sentimos que não tínhamos nada a acrescentar, naquele momento, mas, agora, sim. O 9.5 é o reflexo de uma reflexão desses meses, dos artistas terem estado durante esse tempo em reuniões, a conversar. Apesar de estarmos sempre a trabalhar para o online, a questão do onsite foi a mais debatida. Toda a gente estava a dizer que tínhamos de salvaguardar a nossa existência no onsite.

É um desafio e, se calhar, até levas algum tempo até ficar claro o que vais fazer e o que queres fazer, porque as ferramentas são outras. Mas, quando se foi tornando mais claro, a recepção, o interesse e a disponibilidade fizeram sentido

G. – Jesse, em comunicado referiste que, nesta edição, foram priorizadas determinadas colaborações porque, como agentes culturais, consideras que é vossa “responsabilidade agir para atenuar as situações de vulnerabilidade profissional que foram acentuadas com a pandemia”. Que condições os profissionais a priorizar deveriam reunir?

J.J. – Foi o que te tinha dito há pouco. Eram as pessoas com que já estávamos a trabalhar. Então, fez sentido apoiar a partir da nossa rede de afectos e proximidade. Se cuidarmos dos que nos estão próximos, pelo menos esses já estão salvaguardados. Por isso é que os reconvidámos para trabalhar connosco no 9.5. Apesar dos projectos terem sido adiados, assegurámos que todos os pagamentos acontecessem agora. Isso foi muito importante, que pudéssemos garantir ao máximo, porque é agora que os artistas, a equipa e os fornecedores precisam de apoios. No onsite, está a ideia de utilizarmos o festival para capitalizar a economia, reinvestirmos o dinheiro nas estruturas, fornecedores e parceiros que trabalhavam connosco. Estou a falar da Nova Gráfica que nos imprime os programas. Este ano não vai haver programas e, é por isso que vamos fazer o mail art, imprimir os postais e outros modelos. Trabalhamos com um senhor, o mestre Marreco, que nos apoia, todos os anos, nas instalações e nos projectos mais ligados à carpintaria. Eles todos estão numa situação de precariedade, intermitência e insegurança. O nosso apoio é uma gota no meio disto de tudo. Esta foi a nossa posição com o Governo Regional, a Câmara Municipal de Ponta Delgada e a DGARTES, foi: ‘não retirem apoios, mantenham os apoios, porque o nosso objectivo, como estrutura, é continuar a capitalização das estruturas próximas de nós’. Estamos aqui numa lógica de partilha e distribuição. Foi nessa perspectiva que trabalhamos e montamos, definimos os convites e os programas.

G. – “O que é que tu fazes numa casa sem paredes? Entras porque te sentes convidado a entrar, não tens de bater à porta”, disse a Sofia, numa entrevista  ao Gerador, em 2019, explicando o motivo de maior afluência ao Pavilhão desenhado pelos Mezzo. Uma vez que o Festival tem uma forte dimensão social, promovendo a relação e integração das comunidades locais, das quais se aproxima, a partir de um diálogo com os espaços públicos, das experiências no terreno, qual o impacto que este novo molde terá sobre estas, seja na relação com os objectos artísticos, seja entre si? O ecrã poderá ser uma parede?

J.J – Não sabemos. É aí que está a magia, e isso não nos está a impedir de tentar e perceber. Estamos todos, até um determinado ponto, a improvisar e a construir com ferramentas e ideias diferentes das do passado. Também, da parte do público, há muitas reticências. Se, por um lado, as pessoas estão ansiosas e com vontade de estar juntas, participar, por outro, estão receosas. Por isso, questionamo-nos muito acerca daquilo que serão as traduções no onsite, que partem de performances, e até que ponto as pessoas se vão inscrever, ou não. Mas, por exemplo, na Summer School, que este ano assumiu um formato digital, temos mais inscrições do que nos outros anos. Aí, o ecrã foi uma porta aberta, e não uma parede. Vamos ver se se extende a outras incitativas do festival. Queremos acreditar que sim. Com a rádio estamos a pedir aos bares da cidade para serem os nossos transmissores oficiais. Quando entrares vais estar a ouvir a rádio do festival. Vais estar a ouvir as vozes do festival e as vozes deste lugar. Independentemente do que acontecer, estamos entusiasmados, positivos. Noutro dia falávamos nisso. 9.5 é um espaço de continuação, de resiliência, que é isso que o festival tem sido desde o início. Vamos aprender coisas com esta experiência, que vão informar, sem dúvida, as próximas edições do festival. Mais que não seja por isso, vai ser positivo.

  • – Consideram que esta adaptação tornar-se-á uma realidade em si mesma? Ou seja, que se fixará um novo formato do Festival?

J.J. – O que te posso dizer é a nossa intuição. Para estes projectos, que vão estar no onsite, não há artistas a viajar para ilha. Nós, equipa, é que vamos executar todos os projectos no onsite. Para nós, é muito importante, porque é sublinhar essa relação de interdependência e confiança entre artistas, mediadores, produtores, agentes, directores, e entrar nesses processos de horizontalidade. Esta situação é tão nova. Estamos a aprender tanta coisa com o 9.5, que decidimos transformar esta edição numa residência para a própria equipa. Não são os artistas a fazer uma residência, mas nós, equipa, aqui, no festival. A equipa nuclear, de comunicação, produção, vídeo, welcoming, vai estar toda aqui, neste espaço, a imaginar o que vai ser o futuro do festival. Acho que esta conversa tem de ser aberta a mais pessoas. Queremos que os nossos projectos sejam um espaço para pensar em conjunto. Achamos, até agora, que o online permite várias coisas, se estiver relacionado com o lugar, porque, se há coisa que esta pandemia também destaca e traz ao de cima, é a importância e atenção que temos de dar às nossas proximidades, ao nosso lugar, e acho que no contexto da apresentação e criação artística, nos últimos anos, entrámos numa  hiper aceleração, hiper circulação entre geografias, hiper programação. Estamos obcecados, de uma forma geral, e nós incluso, nessas dinâmicas, com uma programação que se quer internacional, porque legítima, parece mais prestigiante, e tu, ao fazeres isso, desconsideras, ou não estás tão atento ao que está próximo de ti. Esta situação toda está a servir-nos para reequilibrar essa ligação, essa forma de gerirmos essas geografias todas, esses projectos, e as formas como as ideias circulam. Sim, o online oferece muitas oportunidades, muitas formas de fazer coisas e acho que há muitas coisas que vamos manter nas próximas edições. Mas, lá está, o Walk&Talk é um festival que vive da fisicalidade, da relação muito viva com o território.

Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

Texto escrito por Raquel Botelho Rodrigues

Fotografia cedida pela assessoria de imprensa do Festival Walk&Talk

O Gerador é parceiro do Walk&Talk