Creio, sinceramente, que sou alguém intuitivo. Acho mesmo que na minha relação com a realidade esta dimensão está sempre presente.

Vem isto a propósito de uma viagem, uma das melhores formas de produzir memória, boas memórias, que fiz há justamente um ano a Cabo Verde.

Imediatamente antes do planeta travar a fundo sobre o seu eixo, consegui esta jornada inesquecível: entre São Vicente e Santo Antão! 

Embora a minha relação com Cabo Verde remonte a alguns (bastantes) anos, não tinha ainda tido o privilégio de visitar esta parte do arquipélago.

Muito se tem dito sobre o arquipélago e a sua cultura, o seu amor intato pela música, a proximidade antropológica e musical entre a Morna e o Fado, expressões hoje consideradas património imaterial da Humanidade.

É facto que chegados a Cabo Verde experimentamos como portugueses uma sensação simultânea de estranheza e intimidade. Com se estivéssemos a um tempo próximos e distantes da matriz europeia.

Creio que será, porventura, uma estranheza similar àquela que alguém proveniente do centro ou do leste da Europa sentirá uma vez chegado a Portugal.

Como se essa matriz se estilhaçasse e se se transformasse num caleidoscópio construído por lentes de diversas intensidades e cores de variados matizes.

Creio que o isolamento e a diáspora foram, em boa parte, a forja dessa inegável originalidade. A crioulização cabo-verdiana é um fenómeno de miscigenação à parte no vasto universo africano que fala português.

De tal forma que para alguém da minha geração, Cabo-Verde transporta imagens de um Portugal quase desparecido, não fora ainda a existência de alguns vestígios no que hoje designamos o interior.

Não me refiro, por uma vez, às carências ou à pobreza, mas sim ao gregarismo e a uma escala humana de relacionamento que vai progressivamente desaparecendo do viver europeu.

Mindelo é uma cidade portuária belíssima onde ainda adivinhamos a vivência de uma velha Europa, outrora púlpito de valores humanistas; Nela encontramos – espero que ainda venhamos a encontrar – o “mal de vivre” mesclada com o “spleen” e o convite à deambulação que fizeram a glória do modernismo literário do nosso continente.

Santo Antão é quanto a mim um dos segredos mais bem guardados de Cabo Verde, um desses locais apenas compreensível por todos os que se deixem progressivamente conquistar pela sua delicadeza nostálgica e a sua calorosa solidão.

Trilhei muitos caminhos da ilha. Tantos quanto os que me foi possível conhecer em cinco dias de esmagadora descoberta. A pé, momentaneamente convertido à paixão do tracking, ou – experiência inolvidável – de “IACE”, corruptela crioula designando as carrinhas Toyota Hiace que constituem a verdadeira rede de transportes nas ilhas e, enquanto negócio privado, meio de subsistência, presumo, de muitos habitantes.

Nestes percursos motorizados conheci, para sempre, Joan di Corda, Senhor da Estrada de Corda, guia intemporal, ligando diariamente Porto Novo ao topo da Ilha, síntese perfeita do Cabo Verdiano: nobre, honrado, perspicaz, persistente e intuitivo, como cabe a alguém que vive rodeado pela presença indomada da natureza.

Quanto a mim, essa mesma intuição, proporcionou-me uma viagem e uma memória, que sistematicamente convoco quando pressinto o abismo.

-Sobre Miguel Honrado-

Licenciado em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Curadoria e Organização de Exposições pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa/ Fundação Calouste Gulbenkian, exerce, desde 1989, a sua atividade nos domínios da produção e gestão cultural. O seu percurso profissional passou, nomeadamente, pela direção artística do Teatro Viriato (2003-2006), por ser membro do Conselho Consultivo do Programa Gulbenkian Educação para a Cultura e Ciência – Descobrir (2012), pela presidência do Conselho de Administração da EGEAC (2007-2014), ou a presidência do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II (2014-2016). De 2016 a 2018 foi Secretário de Estado da Cultura. Posteriormente, foi nomeado vogal do Conselho de Administração do Centro Cultural de Belém. Hoje, é o diretor executivo da Associação Música, Educação e Cultura (AMEC), que tutela a Orquestra Metropolitana de Lisboa e três escolas de música.

Texto de Miguel Honrado
Fotografia de Estelle Valente
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