No passado dia 22 de outubro publicamos uma entrevista a Joana Sousa, uma das atuais diretoras do DOCLISBOA. Agora, voltamos a partilhá-la contigo, numa altura em que já arrancou o segundo momento do festival, Deslocações, mas em que ainda tens a oportunidade de desfrutar da programação disponível até ao dia 11 de novembro. Podes saber mais sobre o DOCLISBOA, aqui.

A 18ª edição do Festival Internacional de Cinema DocLisboa terá lugar nas salas do cinema São Jorge, Culturgest, Cinemateca Portuguesa e Cinema Ideal. Este ano, o festival apresenta uma programação dividida em seis momentos, espalhados ao longo de uma semana em cada mês, entre 22 outubro a 10 de março.

O primeiro dos seis “momentos” do festival decorre de 22 de outubro a 1 de novembro, repartido por três linhas condutoras. Uma delas corresponde a um programa “introdutório” intitulado de Sinais, onde se mostrarão seis filmes que antecipam os temas a desenvolver ao longo dos próximos seis meses. Juntam-se-lhe a já anunciada retrospectiva sobre o cinema da ex-república soviética da Geórgia, A Viagem Permanente, a decorrer na Cinemateca Portuguesa. Como última linha surge o Corpo de Trabalho, um conjunto de filmes sobre questões laborais, em associação com a Agência Europeia para a Segurança no Trabalho.

Em entrevista ao Gerador, Joana Sousa, diretora do Doclisboa, falou acerca da programação, do processo de readaptação do festival face à pandemia da Covid-19, e da política cultural e laboral do setor.

Gerador (G.) - Com a chegada da Covid-19, muitos foram os espetáculos, pelo país, cancelados. Face a este panorama, de que forma o DocLisboa se adaptou à nova realidade?

Joana Sousa (J.S) - Como o DocLisboa acontece no outono, nós, desde o começo da pandemia, tivemos mais tempo para nos preparar do que propriamente outros festivais que aconteceram mal a pandemia começou, e foram apanhados um bocadinho de surpresa. Portanto, nós tivemos uns meses até o festival acontecer propriamente. Nós começámos a reunir com parceiros, começámos a ter reuniões para pensar de que maneira nós podíamos construir um festival que fizesse sentido para nós, que pudesse acontecer de acordo com as nossas possibilidades e a estrutura financeira do festival, e também pensámos como construir um festival diferente nesta edição. Então, por isso, e tendo em conta todas as normas impostas pela DGS quanto às salas, nós pensamos, desde logo, que fazer um festival online não era opção, porque, para nós, é importante ter a ligação com as salas, ter a ligação com a cidade, para que as pessoas possam ver os filmes juntas, e possam ter o contacto direto com o narrador, ou seja, que o festival continue a ser um lugar de encontro.

Por esta razão, pensámos neste formato do festival com um ritmo diferente, em que houvesse menos sessões por dia, e as pessoas se sentissem em segurança. Portanto, foi um festival pensado num ritmo diferente, e que acompanhasse também o evoluir dos próximos meses, que fosse mais flexível,. Obviamente, nós lançamos a programação, mas estávamos sempre atentos à evolução da situação.

Fotografia disponível via facebook DocLisboa

(G.) - Em outras entrevistas que tive a oportunidade de ler a organização afirmou o seguinte: “O DocLisboa pretende contribuir para a reconstrução e para o fortalecimento social”. De que forma, e através de que meios, pretendem cumprir este objetivo?

(J.S) - Nós consideramos que um festival de cinema não é só um lugar para ver filmes, é um lugar para as pessoas se encontrarem, para trabalharem juntas. Ir ver um filme em sala é um momento de partilha, de construção de identidade, porque as pessoas vão ver um filme juntas. Há uma criação de algo, de encontro, por essa razão este é um festival mais longo para que isso possa acontecer. Nós pensamos exatamente como conseguimos criar estes momentos em sala, na cidade, e, para nós, a resposta do online, apenas seja uma pequena parte da programação, era importante que não acontecesse só nesse formato para as pessoas saírem dos seus circuitos e serem expostas a questões. E, também tendo em conta que em Lisboa e Portugal as salas estão a sofrer bastante com a pandemia, há salas que correm o risco de fechar, outras que estão a sobreviver com bastantes dificuldades. Nós não somos herméticos a isso, nós fazemos parte de uma comunidade maior, então queríamos fazer parte dessa reconstrução do ato de ir ao cinema, das pessoas irem e contribuírem para a existência destas salas com espaços superimportantes culturais em Lisboa, e no resto das cidades. E, também no DocLisboa sempre tivemos espaços para conversas, debates, ou seja, nós não apresentamos só os filmes fechados em si, nós tentamos abrir o diálogo.

Então, no festival, distribuído por seis meses, também temos mais conversas, mais debates, inclusivamente quando há oradores que se possam deslocar a Lisboa, nós temos sistemas de videoconferência em que vamos fazer debates com eles, sendo que vamos ter debates também presenciais. E temos também programação que é feita com associações, por exemplo a S.O.S Racismo, ou seja é uma programação atenta ao que se está a passar, a trazer questões que têm de ser debatidas, e também temos o projeto educativo que é feito ao longo dos seis e aí temos a construção de uma comunidade com as crianças, adolescentes, e também indo aos poucos e poucos criar essa ligação com o cinema e aos espaços da cidade.

(G.) -  A 18ª edição do DocLisboa encontra-se dividida em seis partes. Esta divisão é apelidada de “momentos”. Qual o objetivo principal da divisão? E porquê o nome “momentos”?

(J.S) – Normalmente, o festival acontece durante 11 dias com 300 filmes, é uma época superintensa, e nós sentimos que, tendo em conta o contexto atual, seria impossível o público poder experienciar dessa maneira.

O número seis aconteceu um bocadinho tendo em conta que não queríamos mostrar menos filmes, queríamos que continuasse a ser a mesma plataforma, e que mantivesse a pluralidade de linguagens e de abordagens que normalmente vemos na programação. Então, os seis momentos serviram também para conseguirmos mostrar o número de filmes, ter o mesmo espaço, mas que a programação fosse apresentada de maneira as pessoas terem segurança na sala, que fosse seguro as pessoas irem ver, uma ou duas sessões por dia e conseguirem assim experienciar o festival da melhor maneira, e que também ao longo do inverno, tendo em conta que não sabíamos se viria ou não a segunda vaga, sentimos que seria uma boa altura para fazer a programação ao longo do tempo, que fosse acompanhando o evoluir da situação. E, tendo em conta que a programação de cinema, em Lisboa, não tem uma diversidade muito grande, a distribuição é para as pessoas poderem ir ver.

 E agora cada momento tem um título. Quando anunciámos o formato do festival ainda não tínhamos essa programação fechada, e momentos surgiu para nós como não se fechando a um tema, não são fixos, são parte do festival, são parte do DocLisboa, e momentos surgiu porque é uma espécie de uma parte do festival, foi dividido, mas não foi destruído nesse sentido, então são momentos porque acontece nesta altura de programação, porque agora que fechámos a programação, esses momentos passaram a ter nome, nomes que não são de todo temáticos, mas sim linhas que o festival levanta ou questões que levanta. A primeira vai ser os sinais que vai ser exatamente um lança pistas para os momentos seguintes, e, depois, em novembro temos logo o deslocações que, tendo em conta a altura do verão em que as pessoas não se podiam deslocar, sentimos que era importante explicar o que era um deslocamento físico, geográfico, emocional.

(G.) -  O festival contará com 206 filmes, dos quais 31 em estreia mundial, que serão repartidos por uma programação mensal, em módulos, com sessões em sala e online. Dado o contexto particular que vivemos, houve alguma preocupação especial na seleção desses filmes para esta edição do DocLisboa?

(J.S) - Nós estruturamos a programação de uma maneira diferente, não vai ser estruturada de forma igual, é estruturada por cada momento, que lança questões e que os filmes mapeiam essas situações. Por exemplo, não vamos ter competição internacional, e isso também nos fez pensar que o festival tinha prioridades diferentes nesta edição. Decidimos não dar tanto peso a estreias mundiais ou internacionais, sendo que temos esse tipo de estreias, mas, para nós, não era um requisito exclusivo porque também sentimos que os filmes, como havia vários festivais cancelados ou tornados online, esse tipo de requisito ia ser um bocadinho pesado dado que toda a sua estratégia de distribuição foi trocada. E, também tendo em conta essa estrutura, que para além dos diferentes títulos de cada tema, nós mantivemos sempre o que define o DocLisboa, seja a ver filmes com linguagens diferentes, de todos os continentes, de vários temas e que levantem questões diferentes, mas também procurar ter na programação uma presença do cinema português, também ajudar pessoas emergentes, ainda mais agora que os contextos de produção estão superabalados, e as pessoas estão com bastante dificuldade em mostrar os filmes. Então, o festival também é importante para lhes dar espaço, para os exibirem em público. Tivemos o cuidado de pensar que que o festival ia acontecer num contexto específico, mas tentamos ter respeito ao máximo pelos filmes, e pelo público.

Fotografia disponível via facebook DocLisboa

(G.) - E como foi o processo de readaptação para o online?

(J.S) - O DocLisboa sempre teve uma pequena programação online. Aliás, nós vamos trabalhar com uma plataforma que já trabalhamos antes que é a DAFilme, portanto não foi assim uma adaptação muito grande porque apenas juntamos mais um pouco de programação do que a habitual, sendo que vamos ter na parte online uma programação que faz relação com o programa com o curso de trabalho que é um programa feito em conjunto com agência da saúde e segurança no trabalho que vai ser realizado no São Jorge, agora em outubro, o cinema mais contemporâneo. Depois, no DAFilmes vamos ter uma espécie de arquivo com filmes históricos com uma contextualização maior às situações laborais. Vamos ter parte dos Verdes Anos online sendo que nesta edição vão acontecer só filmes de escolas europeias e, depois, fisicamente vamos ter filmes de realizadores portugueses. E sim, não foi uma adaptação online, mas, dado o contexto atual, uma maior programação online, permitindo assim atingir um maior público alvo.

(G.) - Ainda em outubro, o DocLisboa acolherá um debate sobre racismo que se alimenta de "desigualdades económicas e sociais". Porquê a decisão do tema do racismo, na nova edição do festival?

(J.S) - O festival é feito a pensar no que se está a passar, e 2020 foi importante em termos do debate de questões sociais, e de população fragilizada e racionalizada, tanto em Portugal como fora, continua a ser discriminada e a não ter um papel tão importante na sociedade. Então, nós em conjunto com a S.O.S Racismo pensamos como poderíamos trabalhar esta questão e convidamos a S.OS Racismo para uma sessão no dia 1 de novembro, no São Jorge, que se chama romper o silêncio, desocultar o racismo, abrimos um diálogo sobre isto.

Fotografia disponível via facebook DocLisboa

(G.) - Este ano, o DocLisboa trará a foco o cinema da Geórgia, numa retrospetiva que “explora a variedade e complexidade do cinema deste país”. Qual a importância da escolha do cinema da Geórgia?

(J.S) - Então, o cinema da Geórgia, nós sabíamos que em Portugal não tinha sido muito mostrado, e como no DocLisboa gostamos de retrospetivas para mostrar ao público cinematografias menos conhecidas, ou mais difíceis de encontrar em exibição... Encontrámo-nos com o centro de cinema da Geórgia, que desde 2015 tem feito um trabalho importante de recuperar filmes russos, de recuperar cópias e de as trazer para a Geórgia e fazer versões recuperadas, e mais perto das originais. Então, surgiu assim como uma espécie de desafio mostrar o cinema georgiano, e a partir daí pensamos que como o cinema da Geórgia não é muito conhecido em Portugal, e na Europa em geral, decidimos fazer uma espécie de mapa de produção do cinema, desde o início, 1916, até agora, 2010, até porque sentimos que era necessário dar uma contextualização, até porque o cinema georgiano é um cinema superrico, sendo que já no contexto soviético era visto como um dos países mais importantes a produzir cinema, e então decidimos fazer esse mapa e mostrar filmes que vão desde o início da produção.

(G.) - Numa mensagem oficial da direção, lê-se: “A situação atual torna ainda mais evidentes as dificuldades e desafios de fazer e mostrar cinema em Portugal. A par de todas as restrições, deparamo-nos com uma política cultural e laboral insuficiente que não respeita condignamente os profissionais do setor.” Tendo em conta as últimas notícias e a contestação do cinema ao que o Governo decidiu, o que achas que ainda deveria ser feito?

(J.S) - Tendo em conta as reações do Governo, nós sentimos que é importante o Governo e o Ministério estarem atentos e próximos dos profissionais da cultura, que estejam atentos aos pedidos que fazem porque realmente as fragilidades que já existiam estão agora ainda mais expostas devido à pandemia. É extremamente importante que todos estes problemas sejam abordados de uma forma consciente e aberta, porque todas as indústrias querem exatamente sobreviver e trabalhar para contribuir para um panorama cultural, e para um cinema rico. Então, sentimos que o Governo e o Ministério têm de abrir muito mais espaço para que isso aconteça de forma estruturada e atual, que responda a questões laborais, e sim é isso. E, tendo em conta as questões mais recentes, é importante que toda a legislação na qual o trabalho dos profissionais do cinema se baseia seja também feita e elaborada tendo em conta que não é só a produção de conteúdos, mas a própria vida e dignidade dos profissionais que trabalham na área, e para nós isso também é importante porque também fazemos parte disso.

Fotografia disponível via facebook DocLisboa

(G.) - E no que toca à sociedade portuguesa? Sentes que valoriza a área?

(J.S) - Eu sinto que a sociedade valoriza a área, mas pode haver um certo desconhecimento de como as instituições funcionam. Mas sinto que as pessoas estão cada vez mais próximas de todos os profissionais de cinema. Eu sinto que há um cuidado grande da produção cultural portuguesa, e sinto que as pessoas estão mais atentas em consumir a cultura portuguesa.

(G.)- Há algum projeto relativo ao DocLisboa que gostasses de destacar?

(J.S) - Queria destacar estes cinco filmes que compõem os sinais que são estas sessões que acontecem na Culturgest, de 22 a 25 de outubro, em que cada filme lança pistas para os momentos a seguir, funcionam quase como mini aberturas. 

O Gerador é parceiro da DocLisboa.
Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível na página Doclisboa

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