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João Almeida (Rural Move): “Responsabilidade social também é contribuir para a coesão territorial”

Criada para encorajar o regresso aos territórios de baixa densidade, a Rural Move, liderada por João Almeida, está presente em 30 municípios. Recentemente, a iniciativa foi distinguida como projeto inovador pelo Centro de Estudos Ibéricos.

Cortesia de João Almeida

Combater a assimetria demográfica através da conexão de pessoas e entidades. Agregar a informação numa plataforma que permita fazer pontes e rentabilize o conhecimento local. Assim se pode trocar por miúdos a ideia-base da Rural Move, associação criada durante a pandemia, mas a pensar na posteridade. O mérito da iniciativa foi reconhecido na semana passada, pelo Centro de Estudos Ibéricos, que o premiou na categoria de “Projetos e iniciativas inovadoras”.

João Almeida, membro da direção – e quem encabeçou a referida distinção - falou ao GERADOR sobre alguns dos objetivos desta recém-criada organização que já está presente em 30 concelhos do Norte e Centro do país. O jovem bolseiro da Universidade de Aveiro cofundou a Rural Move para incentivar pessoas a mudar-se para o Interior, mas rapidamente percebeu a importância de cooperar com quem já lá está.

Afirma que “já existe” um movimento de regresso às origens, mas que ainda é cedo para assegurar o seu impacto. Mais do que estruturas diz que é necessário criar novas dinâmicas de atração de pessoas. “Tem de haver alguma coisa de vantajoso e, normalmente, essa coisa é a existência de uma comunidade”, explica.


Gerador (G.) – O que é e como começou a Rural Move?

João Almeida (J. A.) – Primeiro de tudo, a Rural Move é uma associação sem fins lucrativos que nasceu durante a pandemia. No [âmbito] do movimento Tech4Covid19, um dos fundadores lançou a ideia de fazer alguma coisa pelos territórios rurais, não a pensar na pandemia, mas antes no pós-pandemia.

[Quisemos] ver que oportunidades é que podiam existir, e foi tudo muito orgânico. Juntou-se ali um grupo de pessoas online, [fez-se] brainstorming e identificou-se logo a oportunidade de as pessoas quererem fugir das cidades por causa da pandemia e a questão do trabalho remoto. Surgiu a ideia da plataforma [Rural Move] que, basicamente, pretende agregar informação sobre os municípios do interior, espaços de trabalho, alojamento, oportunidades de emprego, etc., mas também [fomentar] o contacto com aquilo que nós chamamos anfitriões locais. [Estas pessoas] são voluntários nossos – somos todos voluntários, na verdade – que vivem nesses territórios e são os embaixadores, anfitriões de pessoas que se querem mudar para lá. Inicialmente, houve uma grande procura…

G. – Isso foi em que altura? 2020?

J. A. – Sim. Nós lançámos a plataforma numa versão beta ali por volta de julho de 2020. Entretanto, ganhámos um concurso da Casa do Impacto, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que nos permitiu lançar uma melhor versão da plataforma e arrancar com o projeto. A associação foi criada em outubro de 2020. Nesse período nós recebemos dezenas, centenas de contactos de pessoas que estavam interessadas nesse processo de mudança. A questão era que a maioria tinha uma intenção muito…

G. – Temporária?

J. A. – … e muito longínqua, ou seja, tinham aquela ideia idílica do rural. Nós juntávamos as pessoas em conversas online e começámos a perguntar se tinham emprego, trabalho remoto [ou se] precisavam de trabalho, alojamento, se queriam alugar, comprar, se têm filhos, [de forma a] começar ali um bocadinho a desenhar o perfil das pessoas e a tentar ajudá-las. Até porque, na altura, não tínhamos muitos municípios parceiros. Percebemos que, quando se começava a fazer perguntas, só 5 ou 10 % é que estavam realmente prontos para esse processo. 

Durante o ano de 2021 até agora, fomos começando a perceber que não temos de estar só focados em quem se quer mudar, mas também nas comunidades locais, naquelas pessoas que já se estavam a mudar e que nós conhecíamos ou ajudávamos, direta ou indiretamente, [mas que] sentíamos que havia ali alguma coisa que faltava. [...]

Nós temos muitos voluntários que voltaram para as suas terras de origem para trabalhar remotamente e ficaram lá. Temos casos [de pessoas] que saíram de Lisboa para sítios onde nunca tinham estado e fixaram-se lá. Mas todos têm um denominador comum que é a falta de comunidade, digamos assim, de coisas a acontecer. 

G. – Coisas... culturais, provavelmente?

J. A. – Sim. Por exemplo: nós temos uma voluntária que está num espaço de coworking da serra da Estrela. O espaço está muito bom, bem-criado e superequipado, mas depois falta tudo o resto, que é coisas a acontecer ali. Essa é também uma grande conclusão a que nós chegamos e que até passamos aos municípios e parceiros: uma pessoa não vai para um espaço de trabalho porque a secretária é bonita e a cadeira é confortável. [...]

Neste momento, assumimos esta posição. Até costumo brincar com um slogan que começámos a utilizar que é “a Rural Move é movimento para o interior e o interior em movimento”. Tem esta dupla face que nós queremos realmente passar, que é de movimento para o interior – quer seja de pessoas, de empresas, de investidores, o que seja –, mas também interior em movimento. Porque se as comunidades não estiverem envolvidas neste processo de repovoamento não vai funcionar.

Cortesia de João Almeida

G. – Só para voltar um pouco atrás, podes explicar o que fazem em concreto? As pessoas entram em contacto convosco, fornecem informação ou fazem a ponte com as autarquias… como é que funciona?

J. A. – Nós, neste momento – não vou esconder –, o processo está muito manual e depende muito de caso para caso. Depende tudo de projetos e de financiamento e, essencialmente, de capacidade de tempo e de trabalho dos voluntários, porque isto está ainda numa fase de voluntariado.

[Por exemplo:] Temos casos de pessoas que nos contactam a dizer que gostavam de ir para determinado território. Nós percebemos se nesse território temos um parceiro, um município, uma associação ou um voluntário que seja de lá e percebemos o que a pessoa quer.

Recentemente houve uma pessoa que nos disse que gostava de ir para o Fundão, mas não sabia nada em concreto. Nesse caso, o contacto foi passado para o município, porque nós sabemos que tem já o processo todo montado. No dia seguinte, o município enviou uma lista de oportunidades de emprego, uma lista de alojamentos, de apoios que existem, etc. Neste caso, o nosso trabalho foi de ponte. 

Outras vezes é de perceber aquilo que a pessoa realmente quer. Muitas vezes as pessoas contactam-nos porque querem reconstruir uma casa e perceber que apoios é que existem. Nós vemos e enviamos. Muitas vezes até chegamos a apoiar as próprias pessoas das comunidades locais. Tivemos um caso muito engraçado, de uma pessoa que residia num concelho nosso parceiro, que queria iniciar um projeto e não sabia com quem devia falar, dentro do próprio município, apesar de viver lá. Acabamos por fazer isso, e o apoio é muito variado nesse sentido. (...)

G. – Vocês atuam em que territórios em concreto?

J. A. – Neste momento, estamos presentes em 30 concelhos, sendo que temos parceria com sete desses municípios: Miranda do Douro – a nossa sede –, Melgaço, São João da Pesqueira, Soure, Penela, Mação e Fundão. Depois estamos em muitos outros, mas essencialmente [regiões do] Norte e Centro. Temos dois parceiros no Alentejo, mas ainda está numa fase muito inicial.

G. – Tinhas referido que vocês têm voluntários nos locais. São pessoas naturais de cada zona?

J. A. – Nesses 30 territórios, em todos eles temos ou um parceiro institucional ou uma pessoa que é de lá, vive lá e faz essa ponte. 

G. – Contaste também que houve muitos contactos a ser feitos durante a pandemia, mas que apenas uma parte deles manifestaram uma vontade real de se mudar. É possível dizer-se que está a haver um movimento de regresso ao interior? Ou é precoce achar que isso é uma tendência muito abrangente?

J. A. – De tudo aquilo que eu tenho visto, tanto na minha investigação do doutoramento [na área de empreendedorismo nas áreas rurais], como nesta atividade da Rural Move é que não é precoce dizer que existe um movimento para o interior. Acho que existe. Talvez não seja ainda suficiente para inverter o despovoamento estrutural, que existe há décadas. 

Vou dar um exemplo: o Fundão. Sai em muitas notícias como um exemplo de sucesso.

G. – … e de aposta tecnológica.

J. A. – Exatamente. Eles, em 2015, conseguiram inverter o saldo migratório, ou seja, [ter] mais pessoas a entrar do que a sair. No entanto, continuam a perder população, porque a população é envelhecida, portanto, o saldo migratório é positivo, mas o saldo de mortes versus nascimentos ainda é negativo. Conseguiu apenas o saldo migratório – a maior parte dos municípios nem isso consegue. 

Eu acho que há um movimento de regresso. Acho que se vai notar um abrandamento do despovoamento, mas vai continuar porque ele é estrutural. A não ser que se mude alguma coisa de forma estrutural ele vai continuar a existir. Mas tenho visto muitos casos [de mudança]. 

Ainda há pouco tempo estive a conhecer um projeto perto de Águeda, em que uma aldeia de três habitantes passou a ter uns 11 ou 12 porque uma pessoa se mudou para lá. Era dali perto, começou a falar com outras pessoas que conhecia e estas também se mudaram. Neste momento, vive lá um casal de franceses e outro de brasileiros, ambos jovens.

G. – Há muitos estrangeiros, então?

J. A. – A dirigir-se a nós, especificamente, não. Normalmente são portugueses ou brasileiros, mas também ainda não fizemos muita comunicação “para fora”. [...]

O movimento existe, mas diminuiu com o “fim” da pandemia. Nós temos verificado isso até [por parte] de um grande número de pessoas que tem preocupações com sustentabilidade ou ambientais. Posso dizer que a maior parte dos nossos voluntários neste momento, são pessoas que fizeram esse processo de mudança.

Temos uma voluntária, por exemplo, que sempre nasceu e viveu em Lisboa e agora está a reconstruir a quinta dos bisavós, em Soure. Outra que vivia no Porto e que agora trabalha remotamente na aldeia onde nasceu. Um – que até faz parte da direção – que andava pelo mundo todo mas que, como trabalha remotamente para Berlim, foi há cinco anos viver para Mação e praticamente não conhecia nada. Todos eles têm [este tipo] de histórias.

Cortesia de João Almeida

G. – Significa que todas essas pessoas têm em comum o facto de trabalharem remotamente? Não há tanto casos de pessoas que vão procurar emprego no local?

J. A. – Eu acho que o trabalho remoto veio ajudar muito. [...]

Algumas empresas estão a perceber isso e estão a facilitar esse processo, mas outras não. Muitas vezes as empresas são muito preocupadas com a responsabilidade social, mas – e podes escrever isto – isso não é vir plantar árvores à Serra da Estrela – e, normalmente, fazer t-shirts para esse dia, o que também é muito sustentável. Não. Responsabilidade social também é contribuir para essa coesão territorial de pessoas e de investimento no interior. E acredito que, se as empresas tivessem mais essa consciência, quer de benefícios para o território, quer para os próprios colaboradores, podiam ainda ajudar mais. Mas – e respondendo à tua pergunta – nem todos [trabalham remotamente]. Muitas vezes são pessoas que mudam completamente de vida. Que pegam, por exemplo, numa quinta dos avós e querem criar um espaço de alojamento local ou querem começar um projeto de agricultura. Nós temos tido contacto com muitas pessoas que trabalham remotamente, mas nem todas [o fazem].

G. – Para um jovem que queira trabalhar a partir destas regiões, seja remotamente ou não, é fácil fazer esta mudança? Ou seja, é fácil conseguir uma habitação a preço acessível, por exemplo? É fácil conseguir ter boas condições de vida?

J. A. – Eu acho que há uma parte concreta e uma parte subjetiva, sendo que esta última é a mais difícil de combater. Se vais dizer que a vida vai ser igual, [não é verdade]. Não vai ser igual, mas muitas das coisas são mitos na nossa cabeça. Por exemplo, [a questão] do acesso à cultura. Eu conheço pessoas, até de câmaras municipais, que já falaram nisso e até o dizem publicamente: o mito de ter de estar ao pé dos museus para ir a museus. Isso não é verdade. [A ideia] de ter de estar em Lisboa, porque o Rock in Rio é lá. Não. Uma pessoa de Bragança se quiser ir, vai na mesma. Se calhar, mesmo vivendo em Lisboa, não vais assim a tantos concertos, nem a tantos museus. Isso é um dos mitos. O outro é [a ideia] que a vida vai ser pior, que haverá menos acesso a coisas, etc. [...]

G. – Mas se falarmos concretamente da habitação, por exemplo. É mais fácil para um jovem, que ganhe um salário próximo do mínimo, conseguir uma casa que possa pagar?

J. A. – É. Não estou a dizer que não há problemas na habitação, porque, neste momento, o grande problema de todos os municípios que estão a tentar ter alguma estratégia de repovoamento, é a habitação. Aliás, isso vê-se em municípios como Penela ou Fundão, que têm apostado fortemente na questão do empreendedorismo, da tecnologia e que depois têm o grande problema de [saber] onde vão alojar essas pessoas. Existe um problema de falta de habitação disponível, porque ela existe a maior parte das vezes.

G. – Mas são imóveis devolutos ou casas que estão fechadas.

J. A. – Exatamente. Existem muitas casas fechadas, existem muitas casas que iriam precisar de uma intervenção mínima. Eu até acho que, muitas vezes – e penso que em Lisboa a discussão também é essa – as estratégias não deviam só estar focadas na nova construção e devia haver também alguns apoios, por exemplo, para jovens que quisessem reconstruir. Há muitos entraves para a reconstrução. Então em algumas áreas do interior que são vilas históricas, isso é ainda pior.

Esse problema da habitação existe, por falta dela. No entanto, mesmo quando falamos de aluguer para estudantes, por exemplo, o custo de um quarto na Covilhã, é, se calhar, quatro vezes inferior ao custo de um quarto em Lisboa. [...] 

O problema do alojamento é mesmo um trabalho que tem de ser feito e que tem de haver uma estratégia para ele, no sentido de aumentar a disponibilidade destes imóveis.

Uma coisa que acontece no interior, relativamente à falta de habitação, e que é mesmo um problema do interior, são imóveis dos nossos avós ou bisavós, que depois não se sabe bem a quem pertencem, ou então pertencem a dez herdeiros. Esse é um problema muito grande. Portanto, tem de haver aqui alguma forma de aumentar a capacidade de alojamento, em vez de termos estes imóveis devolutos e fechados.

G. – Há, no interior, pessoas a desenvolver espaços de coliving. Isso é algo com que tens contactado?

J. A. – Sim, sim. Em julho, recebemos uns cinco ou seis contactos de pessoas que estavam a criar ou queriam criar um espaço de coliving. Temos um caso, com quem estamos em contacto, [de uma pessoa] que tinha um alojamento local mas que, aproveitando também estas oportunidades do público que é trabalhador remoto, está a promover a vertente do coliving. E vê-se muito isso. Alojamentos que já existiam e que estão a olhar para este novo público e apresentar planos para um mês, para dois meses… e é engraçado. Há outros que nascem de raiz, de pessoas que já andaram por colivings na Europa toda e agora estão a criar um aqui. Muitas vezes são colivings diferentes daqueles que existem na cidade. Normalmente, têm um conceito muito mais ligado à sustentabilidade, à natureza...

G. – Em que zonas vês isso a surgir concretamente?

J. A. – Em todo o lado. Há uma voluntária nossa que está a começar – ainda vai demorar, mas já tem terreno e está a avançar – em Mangualde, perto de Viseu. Há também em Penela. Aqueles dois que eu referi eram alojamentos em Serpa e outro em Vila Praia de Âncora, Viana do Castelo. Portanto estão um bocadinho por todo o país. Depois, cada um acaba por ir construindo o seu caminho.

A grande dificuldade nestes espaços é conseguirem – mais uma vez – dinâmica para que tenham pessoas regularmente. [...] Tem de haver alguma coisa de vantajoso e, normalmente, essa coisa é a existência de uma comunidade, ou seja, a existência de outras pessoas que são como eu, a existência de eventos engraçados, esse tipo de coisas. Aí leva-me também a uma outra questão que é [a necessidade de] estes processos e estas infraestruturas serem promovidas pelo setor público. Não tanto espaços de coliving, mas de teletrabalho.

G. – Achas que devia haver espaços de coworking públicos?

J. A. – Eles já existem.

G. – Apenas através das câmaras municipais, certo?

J. A. – Sim, mas já existem. Houve uma iniciativa do Governo que foi acompanhada depois por muitos municípios. Mas, mais uma vez, o que atrai uma pessoa para um espaço de coliving ou de coworking, não é o espaço em si, é o que acontece lá. E só aqueles que conseguem ter uma dinâmica de haver uma aula de ioga ao fim da tarde, um jantar comunitário, um workshop... existir outras pessoas lá, a utilizar o espaço, é que conseguem, efetivamente, que ele faça sentido. Muitos não fazem. E aliás, dezenas deles estão vazios. Há um grande caminho a fazer, a meu ver, na parte imaterial.


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