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João Ferreira (Queer Lisboa): “Há um desconhecimento muito grande das novas gerações sobre o que foi o papel dos primeiros ativistas”

A vigésima sexta edição do Queer Lisboa, que decorre entre 16 e 24 de setembro, vem colocar os holofotes sobre o tema da memória. Ao encerrar com um documentário sobre Esther Newton, o festival resgata a importância da antropologia e da génese dos estudos queer.

João Ferreira, diretor artístico do Queer Lisboa | ©Festival Queer Lisboa

João Ferreira, diretor artístico do Queer Lisboa há 18 anos (e agora também do Queer Porto), conversou com o Gerador sobre esta e outras escolhas de um festival que se reivindica inevitavelmente político.

Gerador (G.) – O que escolherias como destaques da programação deste ano – a nível de filmes ou outros aspetos?

João Ferreira (J. F.) – É sempre difícil. Coincidentemente, este ano, os filmes de abertura e de encerramento são bastante emblemáticos. O de abertura é o novo filme do João Pedro Rodrigues. Nós estreámos O Fantasma, a primeira longa-metragem dele, em 2000, precisamente no ano em que eu comecei a colaborar com o festival, na altura no antigo cinema Roma, [atual] Fórum Lisboa. Passámos também, como momento de abertura, o Morrer como um Homem, e agora, pela terceira vez, o João vai abrir o festival, e isso é sempre um prazer enorme e é muito simbólico, obviamente. Temos acompanhado, desde a primeira curta, o Parabéns, sempre que possível, os filmes todos dele. Esse é, certamente, um dos destaques. Outro é o filme de encerramento, que é o Esther Newton Made Me Gay, um documentário sobre Esther Newton, da Jean Carlomusto, que é uma realizadora importantíssima e ativista do pensamento queer e feminista nos Estados Unidos. Esther Newton é uma figura de quem acaba por não se falar muito hoje em dia, mas ela foi absolutamente pioneira nos estudos queer e acho que continua a haver, ou crescentemente começou a haver, alguma desconfiança em relação à antropologia, que é a origem dela. A verdade é que os estudos queer devem muito aos estudos antropológicos, e ela conseguiu abrir caminho de uma série de formas. Este documentário é incrivelmente humano, não é um documentário maçudo teoricamente, não pretende nada ser isso. Mas agora, ao acompanhar também o percurso de vida dela, percebemos como ela, ao longo das décadas, também foi incorporando e foi-se questionando a ela mesma, e evoluindo, adaptando-se e trazendo novos conceitos, novos inputs, novas sugestões para os estudos queer. E isso leva-nos à tal questão da memória, que, aliás, foi muito espoletada por este filme.

Frame de Esther Newton Made Me Gay, de Jean Carlomusto

G. – Em termos de assistência, têm neste momento uma previsão de quantos espectadores esperam?

J. F. – É imprevisível. Esta vai ser a primeira edição, em três anos, com a sala a 100 por cento. O ano passado a nossa edição em Lisboa ainda apanhou as restrições de lotação de sala, com os 50 por cento, e só poucos dias depois é que passou outra vez para 100. No Porto, já apanhámos a lotação a 100 por cento.

G. – E, em 2020, tinha acontecido a mesma coisa, certo?

J. F. – Foi em 2020 e 2021, sim. Por poucos dias, o ano passado não apanhámos a abertura por completo da lotação. As expectativas são grandes nesse sentido, particularmente para as sessões que se ressentiram mais. Na sala grande, a sala Manoel de Oliveira, tirando a abertura e o encerramento, que são sempre sessões muito concorridas, isso não se sentia tanto. Estamos a falar de uma sala com quase 900 lugares de lotação. Mas há também outra questão aqui: muita gente deixou de ir ao cinema e a espetáculos por causa do medo de estar numa sala fechada, mesmo com máscara, porque obviamente há riscos. Temos de vencer [o medo], e apesar de não ter mudado muito, nós estamos vacinados, já estamos mais protegidos, já sabemos muito mais sobre este vírus. Com a lotação [completa] da sala, acho que temos incentivos extra para voltarmos a ganhar em público também, embora as duas edições anteriores não tenham sido nada más em termos de assistência.

Queer Lisboa 2021 | ©Gustavo Carvalho

G. – O Queer Lisboa leva 26 anos ininterruptos de existência. Ao longo deste tempo, de que forma têm evoluído os temas e as preocupações, e de que forma é que isso se tem refletido no cinema?

J. F. – Isso é uma das coisas sempre muito gratificantes. A questão política é inevitável – embora existam festivais queer um pouco pelo mundo que evitam muito essa parte e que evitam certos filmes, mas não é o tipo de cinema que nós queremos mostrar. Queremos mostrar um cinema um bocadinho mais interessante, mais independente e mais interventivo nesse sentido. O cinema não só acompanha as questões da luta pelos direitos, as questões sociais, como também cruza as questões mais especificamente LGBTQI com questões ligadas ao racismo, às migrações, com as questões de pobreza. É um cinema que cruza cada vez mais estas temáticas todas, e fá-lo não só de uma forma rápida – também porque é mais rápido fazer filmes hoje do que era há duas décadas – mas o cinema antevê, também, e isso é uma das coisas muito interessantes quando se começa a discutir questões de igualdade de género, de direitos trans, ou do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O cinema já vinha a falar sobre essas coisas antes de se tornarem grandes temas, e nesse aspeto a evolução que nós notamos na programação é a evolução que vemos na sociedade. Os temas continuam todos lá – vão maturando, obviamente, vão ganhando uma reflexão maior; aqueles que já estão a circular há mais tempo ganham maturidade e ganham depois uma coisa muito interessante, que é o sentido crítico, e o sentido também de autocrítica. Só para dar um exemplo mais específico: mencionei há pouco o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas há depois uma série de questionamentos em relação a isso – que modelo é este de casamento? Isto faz sentido para a nossa comunidade? Queremos um modelo colado a um modelo patriarcal, heteronormativo? As discussões depois acontecem. Temas como a adoção ou a homoparentalidade, outra questão que tem entrado muito no cinema, [também estão lá] e isto é muito interessante de acompanhar. De alguma forma, os temas nunca desaparecem. Eles estão sempre lá presentes e vão voltando ciclicamente conforme vão surgindo outras questões. Há um tema que é o tema por excelência do cinema queer, que é a saída do armário. Hoje pensamos que o coming out já está tão batido, já foi feito tantas vezes e tão bem, e de formas tão interessantes, mas é pertinente. É pertinente ainda hoje em muitos países. Já não com as mesmas características, com os mesmos receios, porque existem direitos, existem redes de apoio, as coisas mudaram muito, mas em muitos países isso ainda é uma questão, e depois o coming out tem muitas nuances. Para pessoas trans tem complexidades específicas, e são muitas vezes processos feitos mais tarde na vida. É quase um acumular temático, e um acrescento de complexidade que acho que torna este cinema muito vivo. Continua a ser muito vivo porque é sobretudo alimentado pelas questões sociais, políticas e culturais ligadas à comunidade, não só dentro da comunidade, mas que afetam a comunidade ou que interessam à comunidade.

G. – E ainda agora davas o exemplo do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas se para nós é um dado adquirido e podemos discutir o modelo em que se faz, se calhar para alguns dos países participantes nem sequer é uma possibilidade. Possivelmente o festival também reflete essas diferenças…

J. F. – Completamente. Nós temos este ano uma “pérola”, que é a primeira longa-metragem queer produzida no Paquistão [Joyland, de Saim Sadiq], e este filme, que ganhou dois prémios em Cannes (foi o primeiro filme paquistanês em Cannes, o que também é muito relevante), mostra-nos isso tudo. O filme tem uma personagem trans, interpretada por uma atriz trans, que é outra questão muito relevante e muito importante também, e mostra-nos precisamente isso, uma sociedade completamente patriarcal, baseada no filho homem, ou seja, aquele modelo da procriação e do nome, de carregar o nome. Vemos como estas realidades estão aí, em países onde são crescentes as expressões queer, porque hoje em dia elas são muito mais acessíveis com a Internet e com o acesso à informação, e, portanto, são inevitáveis. As pessoas reivindicam para si identidades que não eram capazes de reivindicar há tempos, e não deixa de ser menos perigoso agora em muitos sítios, mas passa a ser uma questão de sobrevivência e de reivindicação política, e nesse aspeto este filme é muito simbólico.

Frame de Joyland, de Saim Sadiq

G. – Esta edição dá uma grande importância ao tema da memória. De que forma é que esse tema se vai refletir nas diferentes dimensões da programação?

J. F. – Há já algum tempo que não escolhemos temas à partida. Eles começam a surgir quando a programação está quase completa, ou já bastante desenhada, e começamos a vislumbrar algumas linhas temáticas ou alguns pontos de reflexão que podem ser interessantes. Um dos filmes deste ano foi precisamente o documentário sobre Esther Newton, que vem falar sobre essa questão da memória. Nós tivemos, este ano, um bom programa no sul de França, em Nice, sobre o Ecoqueer [EcoQueerÉcho, programa apresentado em parceria com os Rencontres In&Out – Festival du Film Queer de Nice], e num debate (era um filme sobre VIH em França nos anos 80 e 90 e a luta contra a sida e a criação do ativismo contra o VIH), algumas pessoas insurgiram-se na plateia contra a memória, dizendo que não era construtivo. Há um bocadinho este movimento de destruição da memória, quase para construir de novo como única forma, e isso chocou-me bastante. O texto que acabei por escrever para o festival reflete muito sobre isso. É certo que Esther Newton, quando começa… Nós hoje olhamos para coisas que ela e tantos outros [disseram], até olhamos para a Judith Butler e questionamos coisas dela, e ainda bem, é assim que as coisas devem evoluir. Mas tem de haver um respeito pelo legado e tem de se perceber que as coisas têm etapas, e estamos a falar de figuras que romperam com pensamentos estabelecidos e, principalmente, levaram estas questões todas para a academia, que também é muito importante. Há uma coisa que eu vejo muito, e que até no ativismo se vê, que é um choque geracional: há um desconhecimento muito grande das novas gerações sobre o que foi o papel dos primeiros ativistas, dos pioneiros em Portugal. Isso é uma coisa que eu comecei a notar logo quando comecei a trabalhar no festival, em 2000, esta noção de que aquelas pessoas estavam a lutar por coisas que não lhes interessavam. Na altura era aquilo que era preciso fazer. Isto faz-me pensar num mundo um bocadinho narcísico e autocentrado que nós estamos a viver cada vez mais, e isso é preocupante. E há uma ideia – e depois acabei por construir uma relação entre as duas – que é o próprio conceito de queer, que eu acho muito interessante. É uma coisa que não pertence exatamente ao presente. O queer é esta ideia utópica de futuro, é algo que nós queremos sempre conquistar, é sempre olhar para a frente. Só que isso não é possível sem a segurança do passado, sem os alicerces todos que foram postos, e então a reflexão sobre a memória este ano, no festival, passa um bocadinho por isso. Há uma negação, sim, do presente, porque ele não é mais do que um passado e uma ideia de futuro. Já acabou, eu estou a dizer isto e já acabou. É completamente fugaz, e sem estas duas coisas nós não conseguimos, sem a segurança e os conhecimentos do passado e sem uma esperança e uma utopia de uma construção no futuro.

G. – Apesar da importância do passado e do futuro, há alguns filmes muito atuais nas temáticas que abordam. O documentário Corpolítica dialoga com um momento muito atual – e ainda mais agora porque o Brasil vai novamente a eleições. Contudo, a ascensão da extrema-direita está longe de ser um exclusivo do Brasil. É objetivo do festival – quer nesta edição, quer no futuro – regressar a este tema, refletir sobre como chegámos até aqui e qual o impacto que todos estes programas políticos têm nas pessoas com identidades não normativas?

J. F. – Claro, porque nós não estamos a falar só sobre a realidade do Brasil. O Brasil tem produzido muito e bom cinema sobre essa questão, particularmente em termos de documentários, e temos passado muita coisa. O Corpolítica é um filme exemplar nesse sentido, sobre as eleições em 2020, quando a extrema-direita já era a realidade. Só que ao passarmos esse filme e ao falarmos sobre essa questão estamos a falar da Europa, estamos a falar da Hungria, estamos a falar da Polónia. Estamos a falar de realidades que nos afetam também a nós, diretamente. E o Brasil também nos afeta diretamente. Há duas décadas havia quase que uma ideia de separação geográfica, de que as coisas não nos tocavam – isto acontece no norte de África, isto acontece no Médio Oriente –, e a nossa perceção neste mundo global está a mudar muito com isso, e acho que muito disso se deve às questões da ecologia e de as pessoas terem percebido que o mundo é mesmo redondo. E acho que há também a noção de uma fragilidade enorme das instituições, e uma fragilidade enorme das democracias. O que aconteceu no Brasil e o que aconteceu nos Estados Unidos foi também um alerta para isso. Nós, apesar de tudo, continuamos a viver numa falsa ilusão na Europa, embora a verdade é que países como a Hungria ou como a Polónia estão a ter uma influência enorme, sem que tenhamos verdadeira noção disso, sobre as políticas europeias, e isto está-nos a afetar. Nós temos a sorte, o privilégio de termos (com todos os defeitos que possa ter e críticas que também aponto, mas sou uma pessoa de esquerda), uma política de esquerda neste país. Mas isto está a afetar-nos. Neste mundo global, e principalmente na lógica financeira em que nós vivemos, levamos com estas políticas de extrema-direita em cima. A questão da extrema-direita no Brasil é mediática, conhecida em todo o mundo, mas depois há outros temas mais silenciados, mais pequenos, mais regionais, e a verdade é que cada vez mais conseguimos desenhar paralelos com estes temas. O nosso trabalho é construir um exercício de empatia com estas questões, com estas realidades e com estas pessoas – sejam 40 ou 50 milhões de pessoas, seja uma ou duas –, pormo-nos na pele deles e perceber que, muitas vezes, ainda que não com as mesmas consequências, nem sequer com os problemas de pobreza, e de perseguição, [estas realidades] podem estar iminentes.

G. – Na programação paralela, está previsto o lançamento da campanha “Eu sou VIH+ e visível”. Após décadas de sensibilização e desmistificação do VIH, ainda há um lugar de estigma e de invisibilidade reservado às pessoas VIH positivas?

J. F. – Sim. É um tema muito complexo e que nós acompanhamos desde o início. Sempre teve uma presença enorme no festival porque esse estigma foi institucional. Por exemplo, quando comprei casa tive de fazer o teste ao VIH, porque se eu fosse seropositivo o banco não me dava empréstimo. Houve um estigma, até recentemente, por parte do próprio Serviço Nacional de Saúde, já que os homossexuais não podiam dar sangue. E tudo isto são fatores com os quais nós crescemos. Eu não pude dar sangue numa altura, já há muitos anos, quando o meu avô precisou, porque era gay. Nós crescemos com esta ideia de que é o próprio Estado que nos põe de parte, e obviamente que depois, quando entra aqui a questão da doença, há outras coisas que nós enfrentamos. Não é só a família, são os empregos, são os amigos, e apesar de muito já ter sido feito, e muito bem, em relação ao VIH/SIDA, a questão é que existe ainda muito esse preconceito social e institucional, e é um preconceito que não só vem de fora mas muitas vezes está instituído dentro da própria pessoa. Por isso, muitas pessoas têm uma grande dificuldade em aceitar esse seu estatuto, daí ser um tema que ainda é absolutamente fundamental. Se nós olharmos ainda hoje para o que é o discurso oficial (vimos muito recentemente uma campanha absolutamente desastrosa da DGS em relação à monkeypox), nós vemos como ainda se está a lidar com questões que interferem, à partida, sobretudo com a população queer. Portanto, é um tema que, por si, continua a levantar uma série de problemáticas e continua a ter de ser falado, mas por outro lado, felizmente, a VIH/sida abriu grandes discussões e grandes fissuras (no bom sentido) na melhoria da forma como se olha para a doença de uma forma geral.

Texto de Cátia Vilaça
O Gerador é parceiro do Queer Lisboa.

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