João Hasselberg comemora o seu regresso com um novo disco, The Great Square of Pegasus, que conta com a participação de Afonso Cabral na voz e Pedro Branco na guitarra e em que abraça os sintetizadores. A música que o integra é uma ode ao florescimento dos sentidos e ao que de mais universal partilhamos entre todos os seres do mundo, debaixo de um céu estrelado que nos guarda.

Depois de concluir o mestrado em Performance pelo Rhythmic Music Conservatory, em Copenhaga, o contrabaixista e compositor decidiu apostar no que de mais intuitivo e puro a música pode ter no seu processo, reencontrando-se com o momento em que a tela está novamente em branco e tudo se revela num processo de descoberta. Assim, lança-se o desafio de não só mudar o seu processo de composição, como de não tocar contrabaixo ou baixo neste disco.

A alusão ao nome de uma constelação feita no título do disco celebra o regresso à intuição, uma vez que, em criança e adolescente, João era fascinado pela astronomia. Passava horas a estudar os astros, até que se apercebeu de que deixara de desfrutar da beleza incógnita de um céu estrelado, que havia dado lugar a um aglomerado de padrões e estruturas pouco poéticas. Da mesma forma, procurou reencontrar o que aspira fazer na sua música.

Conta-nos que gravaram cerca de quinze músicas, mas como queria fazer uma edição em vinil tinha de respeitar o tempo desse formato, que é de vinte minutos por lado. “Não podia pôr as músicas todas, mas no Bandcamp vou pôr algumas das que não vão estar no disco e quem comprar lá também tem direito a essas.” As seis músicas que constam no disco e vinil foram selecionadas de acordo com uma questão de coerência, num processo de “encontrar músicas que encaixassem bem umas com as outras”.

O disco está disponível a partir de hoje, dia 27 de outubro, na página de Bandcamp do João. Brevemente, estará disponível em todas as plataformas digitais. Fica ainda a promessa do lançamento de uma edição limitada em vinil, que será numerada e assinada pelo músico. O Gerador aproveitou para tomar um café com o contrabaixista na Central Gerador e falar um pouco sobre este novo desafio.

Gerador (G.) – Estiveste a estudar em Copenhaga nos últimos dois anos e dizes que o que de melhor trazes dessa experiência é a vontade de trazer de volta o que de mais intuitivo e puro a música pode trazer no seu processo. Que pureza é esta que redescobriste no processo de fazer música?

João Hasselberg (J.H.) – Aquele clichê de que o academismo, de certa forma, pode matar muitas coisas e levar-te na direção que não é necessariamente a tua, mas é aquela que a escola ou que aquele meio quer que sigas. Senti que, quando estudei em Amesterdão, isso me afetou muito. Saí de lá um músico completamente diferente daquele que queria ser quando entrei e tinha-me esquecido do músico que queria ser quando entrei lá. Ou seja, naquele processo de quatro anos, tornei-me numa coisa que não era necessariamente aquela que eu queria, mas era aquela que as pessoas à minha volta queriam que eu fosse. Em Copenhaga, foi o contrário. Ninguém ali quer que tu sejas o que eles querem. Querem que sejas tu, não uma versão deles. Então, esse processo de dois anos de mestrado foi isso – tentar perceber o que quero e como quero fazer as coisas.

G. – Os teus discos anteriores seguem uma linha bastante diferente. De que forma é que sentiste que esta nova abordagem e sons que partilhas agora connosco são uma forma de te reencontrares com a tua intuição?

J.H. – Acho que tem que ver com o processo de fazer as músicas. Ou seja, o processo dos outros discos era escrever uma música ao piano, na guitarra ou no que quer que seja, e depois tentar encontrar a orquestração certa. Aqui foi ao contrário. Foi a exploração dessa orquestração que me levou à parte da composição. Inverti o processo. Foi a experimentar cenas com sintetizadores e computador que cheguei a sons que me inspiraram para fazer a música certa para esses sons.

G. – Há um elemento em comum, no entanto, que vi ao longo dos teus álbuns – a luta contra convenções. Essa é uma mensagem que pretendes passar conscientemente nas músicas que tens vindo a escrever desde 2013?

J.H. – Chegou a uma altura em que é consciente e me apercebo disso, mas acho que o desencadeou isso nunca foi consciente, ou seja, acho que desde pequenino que sou assim. Aquilo que somos na vida pessoal passa também para a vida profissional ou artística. Por isso, essa consciência vem a posteriori.

G. – Achas que quando se parte do fascínio para a viagem de exploração e conhecimento se perde a capacidade de desfrutar da beleza das coisas?

J.H. – Sim, acho que isso pode acontecer. Se calhar, na maioria das vezes isso acontece porque começas a desmistificar as coisas e podem perder um bocado a magia e eu não quero isso.

G. – Foi isso que aconteceu contigo em relação ao teu fascínio pela astronomia?

J.H. – Sim.

G. – Entretanto já recuperaste essa magia?

J.H. – Já, porque entretanto fiz um esforço para me esquecer da maioria das coisas que sabia, e agora já consigo recuperar um bocadinho mais. Tive sorte, porque isso na música nunca me aconteceu. E não quero que aconteça. Mas tenho muitos colegas que estão a ouvir música e não conseguem desligar a parte intelectual do processo de ouvir música. Não quero isso.

G. – Como é que se reverte o efeito da tradução do fascínio em estruturas pouco poéticas, chegando ao ponto de conseguir ter, de novo, uma tela em branco em que tudo volta a ser uma descoberta?

J.H. – É difícil. Neste caso, foi expor-me a instrumentos novos e formas diferentes de fazer música. Ou seja, invertendo o processo – primeiro, pôr a orquestração e, depois, composição – e também o facto de não estar a tocar contrabaixo ou baixo neste disco. Estou só a explorar cenas da eletrónica. Voltei a ser um bebé nesse processo, a descobrir mil cenas novas todos os dias, e isso traz um bocado esse fascínio de volta. E claro, à medida que vais aprendendo a fazer essas coisas, vais começando a intelectualizar e criar as caixas onde metes esse conhecimento, mas parti de um ponto que foi quase zero, o que é fixe. Acho que é isso: inserires elementos novos no processo e há um fator novidade que vai mudar um bocado a direção da coisa.

G. – Não teres o contrabaixo neste álbum acabou por ser uma consequência desse processo, ou foi uma regra a que te impuseste?

J.H. – Foi mesmo uma regra – não quero fazer nada com contrabaixo agora, quero só fazer isto.

G. – Mas vês-te a voltar lá?

J.H. – Sim, foi só uma forma de me obrigar a fazer uma coisa com que não estava tão confortável. Tocar esta música ao vivo é uma experiência completamente diferente. Estou sentado a mexer em botões, não há necessariamente um corpo que vibra quando eu toco. É superdiferente, mas não é melhor nem pior.

G. – Desde que acabaste de compor para este álbum já voltaste a fazer um concerto com contrabaixo em nome próprio?

J.H. – Não, com a minha música não. Só com a música de outras pessoas.

G. – Pergunto-te isto, porque, se calhar, quando voltares a pegar nele vais olhar para o contrabaixo de forma diferente pela experiência que tiveste agora.

J.H. – Sim, acho que sim. Às vezes penso nisso, porque tenho andado a escrever música para um grupo novo que quero fazer, e em que vou estar a tocar contrabaixo, e só a ideia agrada-me bastante. Voltar a tocar a minha música com o contrabaixo, porque também acho que a minha música mudou muito depois desta experiência. O que vou fazer agora acusticamente com o contrabaixo vai ser muito diferente, acho.

G. – O teu conceito estético vai bem além do musical. A componente visual é algo que tem uma presença forte em ti e que, cada vez mais, deixas transparecer nos teus trabalhos e páginas, não é? Achas que essas duas vertentes se complementam e te ajudam a evoluir em cada uma das áreas?

J.H. – Sim, acho que sim. As pessoas que me conhecem agora perguntam-me se sou fotógrafo, ou músico. Não sei responder. Para já, acho que não sou nenhuma delas. Acho que o que faço é explorar uma direção estética, que depois posso aplicar ao que quer que seja. Obviamente, tenho de ter o mínimo de conhecimento técnico dentro dessa área. Se agora decidir que vou fazer arquitetura, não vai ser por ter um conceito estético que o vou conseguir, vou ter obviamente de trabalhar nisso. Mas o meu objetivo é esse: é, acima de tudo, desenvolver uma direção estética que posso aplicar seja em imagem, música, dança, o que seja.

G. – Tens publicado muitas fotografias ultimamente, que têm uma linguagem muito própria. Isso também influencia a música que estás fazer? Tem uma relação direta?

J.H. – Sim, tem uma relação direta. Este verão tentei fazer uma residência nos Açores, no vulcão dos Capelinhos, porque a imagem é, neste momento, o que mais me abre mundo para fazer música. Ou seja, vejo uma imagem forte, e a cabeça começa a funcionar. Esse vulcão nos Açores é uma paisagem de deserto ao pé do mar: tem pedra, areia, um farol, vulcão e mar. Mas depois não consegui, porque o sítio das residências ainda não está feito. A minha ideia era estar lá uma ou duas semanas só a ver aquilo e fazer música que venha diretamente daquelas imagens. Por isso, sim, sempre que faço fotografia, se é que posso dizer que faço, tem muito que ver com isso. Ou seja, faço uma coisa de que gosto e, ao mesmo tempo, sou inspirado por ela. Há uma espécie de loop daquilo que faço e daquilo que recebo daquilo que faço. Por isso, a fotografia está relacionada com a música também.

G. – Para este disco, escolheste trabalhar com o Afonso Cabral e o Pedro Branco. Que caraterísticas reconheces nestes músicos, que te levaram a escolhê-los para este álbum em específico?

J.H. – No caso do Afonso, foi o timbre da voz dele, que é incrível. Conheço muita gente a cantar muito bem, com timbres muito bonitos, mas, para mim, a voz do Afonso é superavassaladora. Incrível. Só essa razão, para mim, já é suficiente. Para além de ser um grande amigo, gosto muito de estar com ele. Com o Pedro é a mesma coisa. O som de guitarra dele é o som de guitarra dele. Ele toca uma nota e já sabes que é o Pedro, e isso agrada-me muito. Para além disso, ele também está a fazer algumas coisas de música eletrónica agora e dá jeito ter mais alguém que seja capaz de tocar essas coisas. E é um dos meus melhores amigos.

Teaser do disco The Great Square of Pegasus partilhado por João Hasselberg

G. – Porque escolheste a constelação de Pégaso para dar nome a este álbum?

J.H. – Acho que foi só por causa do nome, porque gosto dele. Acho que não tem mais significado nenhum. Se calhar tem, e eu não sei. Mas foi porque achei o nome bonito.

G. – Conseguiste libertar-te de todo o conhecimento que tinhas sobre astronomia, ao ponto de conseguires escolher uma constelação só porque o nome era bonito.

J.H. – Sim, é isso.

G. – Também o nome das músicas tem uma forma peculiar. Queres explicar-me o seu significado?

J.H. – Também não sei o que são. É como o nome da constelação. Não sei o que me levou a escolher estes nomes, mas todos eles são nomes de estrelas ou aglomerados de estrelas que estão dentro dessa constelação. Fui à Wikipédia, vi tudo o que havia lá e escolhi alguns nomes que achei que fariam sentido. Provavelmente, há significados em cada uma delas, mas eu ainda não sei quais são.

Capa do disco The Great Square of Pegasus, de João Hasselberg, com ilustração de Yara Kono

G. – Nestas seis músicas que escolheste, contas uma história intencionalmente?

J.H. – Acho que não. Acho que com estas seis e com a ordem que escolhi, tento fazer com que haja uma narrativa musical, mas não sei exatamente que narrativa é essa. Ou seja, se puser as seis a tocar, faz todo o sentido, mas não te sei dizer porquê. É daquelas coisas, se calhar um dia vou saber.

G. – Se este disco é uma ode ao florescimento dos sentidos, o que descobriste ser o mais universal entre todos os seres do mundo?

J.H. – Para mim é a visão, sem dúvida, a seguir a audição. Quando falo com as pessoas sobre isso, toda a gente diz que prefere ser cego a ser surdo. Mas eu não e sou músico. É estranho. Se calhar é porque consigo ouvir música sem precisar da audição.

G. – No momento em que descomplexificas tudo musicalmente, qual foi o primeiro elemento que encontraste em ti?

J.H. – Acho que é o espaço, o silêncio. Obviamente que é um processo e não há um dia em que dizes – “consegui libertar-me”. Vai acontecer para sempre e não vais chegar a um fim. O mais notório foi o facto de o silêncio, o espaço, ser uma coisa. Não ser vazio. Ou seja, o silêncio efetivamente é uma entidade. Não é falta de som, nem falta de nada. É uma coisa em si e tem um efeito. A minha base agora é sempre esse suposto nada e construir a partir daí.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de capa da cortesia de João Hasselberg

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