A zet gallery abraça 2021 amplificando o âmbito da sua programação com o lançamento das zet gallery music sessions, e com Rui Massena (n.1972) na estreia. O maestro atuará, a solo e ao piano, na próxima sexta-feira, 18 de dezembro, pelas 19:00. Nesse mesmo dia e horário terá lugar a pré-abertura de ABOUT TODAY, exposição individual de João Louro (n.1963) que, durante o fim-de-semana (19 e 20 de dezembro), estará aberta ao público entre as 9:30 e as 12:30, contando com a presença do artista.

João Louro (n.1963) é um dos mais destacados artistas da sua geração e a sua obra convoca influências neoconceptuais e do minimalismo, associadas a um certo expressionismo na cor e a um quadro de referências da literatura, do cinema e da História, em que reforça a importância da palavra, já que, para o artista: ”A palavra é invenção. Ela é o verdadeiro laboratório. É experiência. ABOUT TODAY, título desta exposição individual com curadoria de Helena Mendes Pereira, é dedicada à Mulher e evidencia o caráter premonitório e reflexivo da obra de João Louro. Até 27 de março de 2021, apresentamos uma seleção de cerca de dezena e meia de trabalhos, produzidos entre 1995 e 2019, na sua generalidade de exibição inédita (ou quase), que se expressam a partir de diferentes meios, ainda que não se possa negar que a bidimensionalidade e pictoralidade próprias da pintura sejam o fio condutor das propostas. A exposição acentua o  olhar inquieto e atento de João Louro sobre o mundo, artista que há muito nos habituou às suas perguntas. “Arte”, a série de trabalhos que integram “História do Crime”, The Plagues”, “L’Avenir Dure Longtemps”, “Love”, “Cover #18 (Dylan Thomas)”, “Et Dieu Créa la Femme”, “From Left to Right #7”, “Clockwise from Abose #2”, “Blind Image #221”, “Le Mort Homme #1” e “Man Is a Being Made of Scars” integram o mapa expográfico que, em quase 7 anos de história, mais alterou o nosso white cube.

As zet gallery music sessions tratam-se de um projeto que tem como objetivo a promoção de concertos intimistas, no contexto das exposições patentes na galeria e sem palco, reservados a duas dezenas de espetadores mas com transmissão streaming de alta qualidade através do Facebook e do Instagram, tanto da zet gallery como do dstgroup. Com as zet gallery music sessions, que terão ocorrência mensal, o projeto originalmente criado pelo dstgroup com o propósito de promover e comercializar obras de arte de autores contemporâneos, afirma-se cada vez mais como um espaço de programação cultural transversal e de excelência, que reforça a sua ação interveniente na Pólis.

A zet gallery quer crescer enquanto Ágora, ou seja, lugar de debate e reflexão, a partir das práticas artísticas contemporâneas, sobre as problemáticas do nosso tempo, contribuindo para a construção de um ambiente global de cidadania que tem na literacia das artes e da cultura a sua base. 2020 foi, de resto, um ano de aproximação crescente a esta nossa vocação. Por um lado, crescemos e inovamos na nossa presença digital, criando mais e melhores conteúdos de divulgação da arte e dos artistas que representamos. Durante o confinamento, por exemplo, lançamos o projeto “Agora pergunto eu!”, em que os mais novos foram os jornalistas de serviço e quiseram saber mais sobre os nossos artistas. No regresso à rua, os diretos, a partir dos nossos múltiplos eventos, passaram a fazer parte da rotina e, aos que nos descobriam presencialmente, muitos mais foram os que se juntaram virtualmente. Por outro lado, estabelecemos parcerias alargadas no território nacional, sobretudo através da implementação de obras de arte em espaço público e da coordenação artística de projetos como o Esposende Smart City; do programa de residências artísticas AMAR O MINHO, promovido pelo consórcio Minho IN que integra 24 municípios da região; da APP Sentir Estarreja; ou do projeto São Vicente Cá Fora, no centro histórico de Lisboa. Promovemos a primeira edição do Prémio Arte em Espaço Público & Sustentabilidade, que teve como consequência a cedência da obra de arte, para espaço público, “Refúgio” do italiano Lorenzo Bordonaro (n.1971), à cidade de Braga. 2020 foi ainda ano de comemoração dos 25 anos do Grande Prémio de Literatura dst e, na impossibilidade da habitual festa, a atribuição do galardão a Fernando Guimarães (n.1928) foi acompanhada pelo circuito “Arte, Literatura e Comércio Local”. Durante cerca de um mês, 25 lojas acolheram 25 obras de arte, inspiradas cada uma delas num livro ou autor vencedor do nosso prémio. No clímax desta homenagem aos livros, Braga acolheu mais uma obra de arte no seu espaço público. O multi-painel de azulejos, de caráter instalativo, “Um segredo guarda o mundo” de João Alexandrino aka JAS (n.1981), assentou no Largo de São João de Souto. Mais uma marca nossa na cidade onde somos, cada vez mais, cultura em construção.

Numa adaptação da nossa programação dentro de portas, prolongando o tempo de duração das nossas exposições, combinamos a descoberta de talento com exposições individuais de grandes nomes da arte contemporânea nacional. Abrimos o ano com “A Conspiração da Arte” que reuniu um conjunto de jovens artistas recém-formados pela Faculdade de Belas Arte da Unidades do Porto. Em março, foi a vez da “Oficina Tropical” do luso-angolano Francisco Vidal (n.1978), que se prolongou até setembro, momento em que Miguel Palma (n.1964) renovou a zet gallery com “Protótipos: mecanismos de ensaios”. A exposição de Miguel Palma teve como ponto de partida a realização de um sonho antigo, partilhado com José Teixeira, fundador da zet gallery e presidente do conselho de administração do dstgroup: a construção de “Zénite”, obra de arte para espaço público, de escala monumental, que integra o campus do dstgroup, um verdadeiro (quase) museu em ambiente industrial. A 10 de outubro, assinalamos o Dia da Saúde Mental com um evento em que combinamos performance e debate, colocando saberes em confronto; e, logo em agosto, a galeria tinha acolhido um concerto dos We Find You, com lotação limitada à intimidade. No fundo, estávamos a ensaiar a galeria enquanto palco para as zet gallery music sessions que agora apresentamos, ao mesmo tempo que a imagética de João Louro toma conta da casa e com ele entramos em 2021, renovados de esperança.

2020 foi, sem dúvida, o maior desafio coletivo da nossa História comum mas, como escreveu Hannah Arendt (1906-1975): “Toda a dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história.”

-Sobre Helena Mendes Pereira-

É curadora e investigadora em práticas artísticas e culturais contemporâneas. Amiúde, aventura-se pela dramaturgia e colabora, como produtora, em projetos ligados à música e ao teatro, onde tem muitas das suas raízes profissionais. É licenciada em História da Arte (FLUP); frequentou a especialização em Museologia (FLUP), a pós-graduação em Gestão das Artes (UCP); é mestre em Comunicação, Arte e Cultura (ICS-UMinho) e doutoranda em Ciências da Comunicação, com uma tese sobre a Curadoria enquanto processo de comunicação da Arte Contemporânea. Atualmente, é diretora geral e curadora da zet gallery (Braga) e integra a equipa da Fundação Bienal de Arte de Cerveira como curadora, tendo sido com esta entidade que iniciou o seu percurso profissional no verão de 2007. Integra, desde o ano letivo de 2018/2019 o corpo docente da Universidade do Minho como assistente convidada. É formadora sénior e consultora nas áreas da gestão e programação cultural. Com mais de 12 anos de experiência profissional é autora de mais de 80 projetos de curadoria, tendo já trabalhado com mais de 200 artistas, nacionais e internacionais, onde se incluem nomes como Paula Rego (n.1935), Cruzeiro Seixas (n.1920), José Rodrigues (1936-2016), Jaime Isidoro (1924-2009), Pedro Tudela (n.1962), Miguel d’Alte (1954-2007), Silvestre Pestana (n.1949), Jaime Silva (n.1947), Vhils (n.1987), Joana Vasconcelos (n.1971), Helena Almeida (1934-2018), entre tantos outros. É membro fundados da Astronauta, associação cultural com sede e Guimarães e em 2019 publicou o seu primeiro livro de prosa poética, intitulado “Pequenos Delitos do Coração”.

Texto de Helena Mendes Pereira
Fotografia de Lauren Maganete
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