A cabeça pouco pousa no chão. Os pensamentos vagueiam lá no alto, à espera de serem sugados para a terra, durante um qualquer processo artístico. A escrita de canções foi a primeira solução de João Não para concretizar as suas emoções, que depressa se multiplicaram por entre beats e ritmos urbanos. Os sons saem do estúdio de Gondomar, onde não há paredes nem gavetas sonoras. Afinal, a “Terra-mãe” não encaixa em nenhuma delas.

João Não é intérprete e escritor de canções, sem negações. Desde cedo que cruza o papel e a caneta com rimas soltas e poesia obscura, nunca imaginando que, anos mais tarde, estaria a dar voz às suas letras. A criação artística revela-se, para ele, muito natural e descomprometida, reflexo da nova liberdade de fazer música.

Começou com uma participação tímida em 2020, no refrão do “Dá-me Espaço”, de Maudito, que serviu de alavanca musical para libertar “Nossa Regra (Rosa Negra)” e “Dentro”. Um ano antes, em 2019, conhece o produtor Lil Noon, no estúdio gondomarense, que depressa lê o fado de João Não e o transforma num projeto que viria a resultar, já este ano, na “Terra-mãe”.

Ao longo dos últimos meses de 2021, confinados aos percursos de casa, trabalho e estúdio, João Não e Lil Noon, concretizaram as sete faixas que compõem a compilação “Terra-mãe”, uma ode às origens e à íntima vontade de criar. “Terra-mãe” conta já com atuações em palco, na estreia a dobrar em Lisboa, no passado dia 14 de maio, no espaço do Núcleo Anjos 70, com “Chinfrim não é barulho”, e neste dia 15 de maio, à tarde, nos 5 anos da Cerveja MUSA.

O Gerador foi conversar com João Não, no impulso do lançamento da “Terra-mãe”, para desvendar o recente percurso do cantor, com pouco mais de quatro anos de canções lançadas. Falámos de liberdade artística e da naturalidade com que se constrói um trilho musical, numa corrida livre e sem sítio "para meter o pé."

Gerador (G.) – A tua base é a escrita, e o João Não, enquanto intérprete, acaba por se desenvolver a partir dessa tua faceta poética. Conta-nos como começou este teu percurso.
João Não (J. N.) – Eu já escrevo desde muito novo, mais poesia e rimas. O primeiro exemplo que tenho presente foi quando finalizei a primária, escrevíamos aqueles livros de dedicatórias aos colegas, e eu fui o único que conseguiu escrever pelo menos uma quadra para cada um deles! A parte musical, de cantar, foi crescendo depois disso. A par de “luas” e situações da minha vida, da forma como me sentia, fui desenvolvendo a forma como me queria apresentar e como queria cantar. Aprendi a conjugar essas duas partes. Escrever canções e interpretar é o que mais gosto de fazer, e sai-me naturalmente, não penso demasiado. Na verdade, dedico-me mais à parte escrita do que a cantar, sem definir um estilo. Valorizo essa liberdade artística e acredito ser algo que já nasceu comigo e que fala mais alto, não consigo ignorar.

(G.) – A procura por uma identidade artística com que te identificasses foi fácil?
(J. N.) - Eu ainda estou nessa caminhada de me definir… Não foi um caminho fácil, passei por vários nomes artísticos até chegar ao João Não. Quando cheguei, foi apenas mais um nome, nem tanto uma personalidade. O João Não, não é muito diferente de mim, é mais um pseudónimo. Inicialmente o nome era uma parte mais pesada, obscura. Teve a ver com fases da vida em que me sentia assim, muito mais emocional e escuro. Acabei por aproveitar o nome porque ficou no ouvido. Na altura em que o defini queria seguir um caminho específico. Depois, fui-me libertando desses preconceitos agarrados a mim, e o João Não, de há um ano e tal, já é um pouco mais o soltar das ideias preconcebidas de que teria de seguir um caminho, um registo, para passar a libertar-me artisticamente e escrever como sinto, e tudo o resto deixar fluir. Não me quero encaixar em nenhum lugar, mas ser controlado e equilibrado ao mesmo tempo.

João Não, brevemente a completar 22 anos, considera estar ainda no caminho de definir a sua identidade artística

(G.) – Continuas com essa carga mais pesada na escrita, mas agora com uma parte mais leve, mais libertadora…
(J. N.) – Sim, a minha escrita continua muito pesada. No início, quando comecei a lançar as músicas, eram coisas com pouco ritmo, mas sorumbáticas. Até me diziam, “quando lançares mais coisas, vou ouvir mais”. Nunca me imaginei nesse ponto, de quererem ouvir as minhas canções. Mas fui muito crescendo nisso, a deixar que as canções fossem ouvidas e tivessem uma interpretação para as pessoas sentirem o que elas quisessem quando ouviam. Eu acho que a minha escrita não deixa de ter esse teor negativo, como o meu nome, mais obscuro e emocional, mas é a maneira como escolhi emoldurar e apresentar o que escrevo. Faz com que pareça algo diferente, mas continua a ser tudo muito fiel ao que sinto, mais sentimental.

(G.) - Deixas um pouco ao critério de quem te ouve essa interpretação.
(J. N.) -  É uma coisa pessoal, mas não é obrigatoriamente algo pelo qual eu tenha passado. Às vezes até crio cenários dando uma nota pessoal. Mas deixo sempre em aberto para interpretações porque acho que isso é o sentido da arte, e de toda a criação artística, partilhar com as pessoas e elas interpretarem à sua maneira.

(G.) – Tudo começou com o refrão no “Dá-me Espaço”, do Maudito, e depois lançaste a “Nossa Regra (Rosa Negra)” e a "Dentro". Achas que isso era um presságio de que ias precisar de “espaço” no mundo da música?
(J. N.) – [risos] Vou contar a história dessa canção. A “Dá-me Espaço” já foi criada depois da “Nossa Regra (Rosa Negra)” e depois da “Dentro”, mesmo tendo saído primeiro. O João Não começa mais aí, por volta de 2017 e 2018, quando o Maudito ouviu a “Nossa Regra” e queria que eu a lançasse. Ele até acabou, mais tarde, por criar um “sucesso nicho” em torno dessa música. A “Dá-me Espaço” já foi um bocado ele a ir buscar-me, por causa da minha música, para fazermos um som juntos. Na altura foi uma ideia muito específica, não pensei que tivesse outro sentido, como um presságio. Mas ouvindo essa pergunta… realmente é verdade! [risos]. Aliás, eu até tinha outras músicas já feitas, mas toda a ajuda que recebi após ter lançado a primeira foi um impulso para lançar as outras e continuar a trabalhar mais. A partir dessa altura desprendi-me muito e foi quando fiz as músicas que tenho agora e que vou continuar a lançar.

(G.) – É importante estares rodeado de pessoas que impulsionam o teu trabalho e te motivam a fazer mais. Fala-nos do ambiente do estúdio em Gondomar, onde tens os teus amigos, onde concretizas as canções.
(J. N.) - Aquele estúdio em particular acho que é um marco na história da nossa terra, um bocado nicho também. Das primeiras vezes que entrei lá, já o imaginava como um museu. É o estúdio do pai do Lil Noon, que já tem uma história na música e com grupos daqui (Gondomar) que ali gravaram. É um lugar de referência porque tem um peso importante na música local. Lá também se conseguem juntar pessoas, visitas inusitadas, que criam um ambiente mais livre e criativo. A entrada e saída de muitas ideias, de pessoas com talento e criatividade, faz com que seja um sítio onde vale a pena estar. Ultimamente, tenho ido lá para ensaiar para os concertos que surgiram, então começa a parecer diferente. Quando voltar a ter tempo e disponibilidade mental para criar, vou continuar a olhar para aquilo como um estúdio onde tenho amigos e pessoas criativas que me inspiram sempre.

(G.) – Já que falamos de Gondomar, a compilação da “Terra Mãe” é uma ode às tuas origens. Quando é que tomaste consciência de que tudo isto seria um projeto musical?
(J. N.) - A ideia e conceito da “Terra-mãe” foi a última parte que surgiu. Eu digo que é uma compilação porque, quando terminei, queria lançar todas as faixas juntas, mas não queria considerar isto como um EP ou um álbum. No fundo, é uma compilação dos temas que fomos criando o ano passado no verão, quando ia para o estúdio depois do trabalho. Eram as primeiras vezes a conhecer o Nuno (Lil Noon), e ele a trabalhar comigo, criou-se uma rotina. A parte das origens entra aí, porque estávamos por aqui. Saía do trabalho, ia para estúdio e voltava a casa. Muitos dizem que buscam inspiração por onde passam, quem conhecem. A “Terra-mãe” aconteceu numa altura em que andei só por Gondomar, e o projeto acabou por refletir o estar apenas por aqui, e ter estado tão virado para mim próprio.

A escrita mais pesada intensifica a carga emocional das canções de João Não, que pretende deixar em aberto para interpretações

(G) – Inspiraste muito naquilo que tens à tua volta, nos sítios por onde passas, ou são estímulos criativos mais específicos?
(J. N.) – É uma coisa que não sei definir muito bem. Acho que os estímulos criativos que tenho podem ser qualquer coisa. Sou um típico overthinker e tenho sempre a cabeça a rodar, e em termos concetuais, acaba por ser bom… ou não. Faço muito linhas de pensamento construídas que acabo por ligar. Pode ser qualquer coisa, fico só sentado à espera que venha inspiração. Gostava de conseguir ter sempre e máquina a rodar, ter sempre algo para fazer em termos criativos. Até consigo ter, mas de forma natural. Dizem que a maldição dos escritores é terem de esperar que a inspiração venha, se quiserem ser fiéis a ela, claro.

(G.) – Consideras estar enquadrado em algum estilo musical, ou já não há gavetas?
(J.N.) - Não penso muito em estilo musical, cada vez mais deixa de ser altura de se pensar nisso assim. Eu posso ir buscar uma ideia a qualquer género e deixo muito ao encargo de quem produz. No caso do Lil Noon, ele tratou de me ler mais o que eu gostava e andava a fazer e depois executou à maneira dele. Há coisas que tenho feito que estão mais viradas para um caminho específico, mas mesmo aí tento sempre variar. Mesmo estando num projeto inteiro, debruçado sobre um género, tento sempre não fazer o que esperam de mim nesse género. Tento abrir o leque. A minha ideia é buscar a ideia mais longe, não pegar na ideia mais direta, e depois explorar para ter a certeza que encontro alguma originalidade e liberdade.

Honestamente, neste projeto da “Terra-mãe”, o Lil Noon fazia beats de kizomba porque lhe apetecia. Foram raras as ocasiões em que pensámos o que fazer. Tem sempre bases de influência de afrobeats e funk, sim, mas o que nos apontou para esse lado mais único foi porque nos apeteceu criar um “novo standard“, um novo modo de fazer música, como uma fórmula à nossa maneira.

(G.) - Quais são as tuas maiores referências artísticas? Em termos musicais, e mesmo noutras áreas.
(J. N.) - Em termos de letra e voz tenho influências inconscientes. Às vezes estou em estúdio e penso “já ouvi isto nalgum lado”, e dou logo uns passos para trás porque demoro muito a chegar onde quero. Prefiro voltar ao início a ficar na incerteza se estou a soar parecido com alguém. Eu gosto de cinema, e já me disseram que tenho uma escrita muito visual. Em termos de influências fora da área como me espelho artisticamente, vou buscar muitas ideias a filmes e séries. Em termos de influência musicais, não tenho respostas muito óbvias. Influencio-me um bocado por tudo o que oiço. Uma das faixas que lancei, o “Relembro Dezembro”, é um título de uma música do rapper Wintertime Zi com o Lil Yachty, que está muito longe daquilo que fiz, mas gostei da maneira como rimava. Tyler, the Creator também, é uma potência criativa, tudo em torno dele é criativo e interessante, estimulante. Numa fase inicial, como João Não, o Earl Sweatshirt era um rapper que eu seguia, em termos de escrita. Também pode ser um artista como o Sien, que mora aqui ao meu lado e que também me influencia. Sou uma conjugação de ideias de muitos lados.

Após a primeira atuação no Hard Club, no Porto, a partilhar palco com Maudito, atua agora em nome próprio em dois concertos

(G.) – No espaço de dois dias tens duas atuações em Lisboa, no NA70 e no palco dos 5 anos da MUSA. O que é que mudou desde a tua atuação com o Maudito, no Hard Club do Porto?
(J.N.) - Mudou muita coisa. No Hard Club tinha o cabelo curtinho [risos]. Mas como lancei várias músicas, mudou mesmo muita coisa. Eu nunca planeei dar concertos. Na altura, o Maudito convidou-me, ajudou-me a desenvolver essas coisas e a puxar por mim. Lembro-me de estar nervoso, ficou tudo registado em vídeo que estava… mas correu bem. Ainda por cima no Hard Club com sala esgotada, onde passei muito tempo da minha adolescência. Foi um privilégio como estreia.

Mas com estes dois concertos a solo, em Lisboa, sinto-me um privilegiado. Tanto tempo em casa, tantas canções lançadas, fui-me abrindo mais artisticamente e pessoalmente, e penso que se vai refletir na forma como vou estar mais à vontade. Agora, como já ensaiei várias vezes, até aprendi a lidar com este tipo de coisas. Toda a predisposição em relação à música e à exposição artística torna-se diferente. Deu-se uma metamorfose na forma de encarar tudo isto. Mesmo atualmente, ainda sinto alguma relutância em partilhar a minha música, mas começo a libertar-me, até porque só procuro chegar às pessoas certas, que ouvem e apreciam. Com a ajuda das pessoas à minha volta essa parte também se alterou, sinto-me mais livre. Na verdade, não tenho muito a perder, e o tempo e os eventos em si dirão o que vai acontecer a seguir.

Texto de Ana Mendes
Fotografias de
warplahnts

Se queres ler mais entrevistas sobre cultura em Portugal, clica aqui.