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João Pedro Fonseca surge em ‘Aparição Horizontal’ na galeria Mono

“As rotinas repetitivas e imutáveis conectam o cotidiano à entropia fantasmagórica; o espaço e o tempo do cotidiano tornaram-se desarticulados, contraindo e expandindo ao mesmo tempo sob a influência de processos complexos e frequentemente contraditórios à globalização, ao (trans) nacionalismo e à geografia”.

Este trecho podia ser uma descrição analítica do zeitgeist atual, mas é antes a sinopse de uma exposição que o retrata e disseca em elementos figurativos. A mostra “Aparição Horizontal”, do artista multidisciplinar João Pedro Fonseca está, a partir de hoje e até dia 31, patente na galeria Mono Lisboa.

Esta "instalação audiovisual imersiva com recurso ao vídeo e ao desenho de luz”, será acompanhada de mais “duas peças que complementarão o universo envolvente”. Estas dizem respeito à participação da violoncelista Joana Guerra (hoje), a trompetista Anna Piosik (dia 30) e o baterista Nuno Morão (dia 31), que interpretarão as criações “num acto único de improviso”.

Ao Gerador, João Pedro Fonseca explica que os músicos “são aparições que vibram no espaço suscitando uma experiência sensorial”, já que a sua performance é “fisicamente inerte, mas move-se num outro estilo que será ampliado através de processos de alteridade”.


Gerador (G.) - Na sinopse, referes uma desarticulação de espaço e tempo, influenciada por processos “contraditórios à globalização”. Pretendias aqui capturar a disfunção provocada pela pandemia? Foi essa a tua inspiração?

João Pedro Fonseca (J.P.F.) - Esta inspiração já vem de trabalhos anteriores que tocam neste tema de algum modo, seja em conexões litúrgicas, nas cenografias imateriais ou em Spectrum Awareness, há uma intenção de desapropriar o espaço da sua forma ao transcendê-lo para um outro lugar. A desarticulação do espaço e tempo que menciono é medida pelas acções do quotidiano, como as nossas rotinas tornam-se excessivamente repetitivas e imutáveis numa observação antropológica. As tarefas que exercemos no dia-a-dia precisam de ser novamente feitas dentro de uma esfera social cada vez mais dependente das tecnologias espectrais: a internet, os smartphones e os media digitalizados, dilatando uma entropia fantasmagórica já longe do imaginário gótico. Com a pandemia isto ampliou, receamos entrar numa crise sanitária e económica alimentados pelo medo de viver num estado fantasma.

Recordo-me durante a primeira quarentena, de ter atravessado a Avenida Almirante Reis e ver atividade humana nas ruas. Estavam habitadas por vítimas, não da pandemia, mas da indiferença social e política, identidades invisíveis que deambulam entre nós num estado incerto entre a vida e a morte - a “falha” da sociedade comum não estar presente potenciou esta manifestação física mesmo que involuntária. [Foi] um fenómeno que me chamou à atenção: a ideia de “living ghosts”, que se representam não só nos anónimos, como se acumulam em diferentes naturezas figurativas, evocando a opacidade e a intangibilidade da identidade. As peças têm elementos que vivem à margem do nosso comum, tornando-se pelas tendências fragmentadas e assimétricas “marginais” ao lugar. Nesta exposição na Mono não posso dizer que haja uma correspondência directa a estas subjetividades, mas há uma atmosfera onde através dos recursos digitais, tecnológicos, performativos e cénicos, cada uma delas individualmente se expressam.

G. - Além desta questão, no elemento da “invisibilidade”, esta performance parece conter ainda uma crítica à nossa sociedade e à forma como continuamos a deixar à margem diferentes grupos vulneráveis. Estará correto?

J.P.F. - Não posso afirmar com clareza uma crítica tão directa, mas a performance é certamente um estado de vulnerabilidade, uma posição (horizontal) que me leva a interrogar as várias categorias que regem a nossa vida quotidiana, como a realidade, a autenticidade e o conhecimento, que levadas a uma determinada complexidade assombram-nos.

Neste dispositivo o corpo encontrar-se-á em suspensão e depara-se com a sua forma (identidade) fragmentada num reflexo. Há, simbolicamente, uma semelhança a Narciso, mas diferente da mitologia. Aqui a obsessão inverte-se numa busca de uma outra dimensão, descentralizando a noção do “eu” numa tentativa de dissolver a forma na imaterialidade (o espelho deixa de ter uma intenção de duplicação para dar lugar à transformação).

A violoncelista Joana Guerra, a trompetista Anna Piosik e o baterista Nuno Morão, vão só ver a performance no dia e interpretar individualmente esta suspensão num solo ao vivo. Eles são aparições que vibram no espaço suscitando uma experiência sensorial. Longe da ideia de corpo, a música vive num fenómeno espectral, personifica o lugar e transpõe uma série de sensações de um espaço para lá da materialidade. A minha performance é fisicamente inerte, mas move-se num outro estilo que será ampliado através de processos de alteridade.

G.- Caracterizarias o teu trabalho como interventivo? Ou, sendo conceptual, é antes mais introspectivo?

J.P.F. - Diria que introspectivo pois não tem uma acção directa. As peças que crio, embora tenham uma inevitável consciência, tanto das condições humanas, como dos avanços tecnológicos são construções e narrativas que emergem de um imaginário muito pessoal. Há uma percepção da peça que se desenvolve através do diálogo e da relação que o espectador disponibiliza e é nessa extensão que o meu trabalho pode então tornar-se potencialmente interventivo. Por vezes as ideias nascem de dimensões fora do universo mais comum e tomam um ponto de partida mais espectral, o que complexifica certas linhas paralelas mas abre variantes mais livres.

G. - Começaste a desenvolver trabalhos em vídeo em 2015. Sentes que a junção dos elementos audiovisuais trouxe novas possibilidades ao teu trabalho?

Sim. O audiovisual veio a expandir um discurso maior de possibilidades plásticas e conceptuais. A minha relação com o digital teve um cruzamento bastante articulado com a expressão anterior, a performance, associando-se indiscutivelmente à forma como hoje crio. A ideia torna-se uma forma mutante entre a imersão dos mecanismos digitais, o corpo e as arquitecturas cénicas, nunca perdendo a potência de materialização. Estes códigos encontram-se cada vez menos desassociados e manifestam-se num lugar consonante, transcendendo os seus arquétipos ao desafiarem o modelo de realidade tradicional. A minha primeira peça de vídeo, Cascade (MNAC, 2015), foi concebida para fugir à escala de bidimensionalidade ao ser projectada numa superfície não plana mas num canto, colocando o espectador no entre do dispositivo e desestruturando a hierarquia da relação entre o observado e o observador. Há sem dúvida uma nova forma de pensar o dispositivo com os audiovisuais e potenciar o meio é algo que me atrai muito.

G.– Além desta exposição, que outros projetos tens na calha?

J.P.F. - Tenho uma série de projetos à espera de serem criados. Com o tempo eles vão mutando tanto na sua formalidade estética, como na conceptualidade conforme se ajustam aos temas que mais me aproximo. Vou começar a realizar uma curta que terá como tema todo este universo que apresento na Mono e uma série de performances que têm o intuito de abrir novos universos dentro do animismo e uma visão cosmológica cruzando várias expressões artísticas.

Texto de Sofia Craveiro
Fotografia cedida por João Pedro Fonseca

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