O Som é o palco da Música. É através dele que as harmonias se juntam, se unem e se conjugam dando aos nossos ouvidos aquilo que tanto gostam de ouvir. O Alfaiate do Som que o diga.
Desenhando o sistema de som perfeito, João Pina, estuda o estilo e gosto musical de quem pretende conjugar peças de um equipamento de forma a criar o som ideal.
Autor desta arte fundamental, João enriqueceu-se de conhecimentos diversos ao longo dos anos. Foi em 2003 que fundou a Exaudio, uma empresa portuguesa que representa marcas premiadas de áudio high end e que tem como serviço diferenciador a consultoria de áudio, e marcas de home cinema.

Antes de chegar a Lisboa e de alimentar os seus estudos, foi na Rádio Clube da Covilhã (rádio local) que descobriu os primeiros sintomas do que seria uma vida profissional dedicada à música.

O João esteve à conversa com o Gerador e partilhou referências de longa data, experiências de trabalho e um conhecimento difícil de alcançar pela sua pluralidade interminável.

Loja Exaudio de João Pina

Gerador (G.) – Como é que surge esta necessidade de criar a Exaudio?  
João Pina (J.P.) – Isto surgiu por uma necessidade basicamente egoísta. (risos). Ou seja, foi na verdade uma necessidade minha. Eu comecei a trabalhar em estúdio, em mil novecentos e noventa e quatro ou noventa e cinco, talvez. Comecei a trabalhar com umas colunas que eram de uma marca inglesa – a ATC – uma das marcas que tenho aqui, atualmente.

Na altura, eu queria comprar umas para mim e não havia distribuição cá. Foi então que falei com o distribuidor e fabricante e disse “eu estava interessado nos vossos equipamentos, mas cá não há distribuição. O que acham de eu começar a distribuir isso?” Foi, então, por aí que começou.

Ao início, não tive grande sucesso em vendas, quer dizer, não era propriamente aquilo que eu estava habituado a fazer e, portanto, uma coisa era conhecer o mercado e os meus gostos pessoais para com essa marca, e outra coisa era depois as pessoas perceberem e aceitarem, ou não, a marca.
Naquela altura, não tinha sequer noção, nem pensei nisso. Avancei e foi um bocadinho por aí que começou, já em 2003, ou seja, foi quando surgiu esta oportunidade e quando criei a empresa, para poder lidar com compras internacionais.

Entretanto, como as colunas — na sua unidade — não faziam muita coisa, comecei a arranjar outras marcas, até por sugestão da própria marca (ATC), pois tinham noção do nicho que era. Chegaram-me a dizer: “se você quer mesmo fazer disto uma coisa minimamente viável, terá de ter mais qualquer coisa para sustentar. Portanto, recomendamos que comece a arranjar outras marcas.”

Teste e experimentação dos aparelhos que João costuma aconselhar

Já nessa altura, o que sempre me orientou foi um resultado de excelência, ou seja, nunca estive preocupado com as vendas que fazia, mas sim com a qualidade de resultados que conseguia obter. Foi sempre esta parte que me puxou mais, até porque não me interessava fazer uma venda e a pessoa não me voltar a contactar.         
Introduzindo já uma parte mais técnica, as colunas não eram muito fáceis de juntar com outro tipo de sistemas. Por exemplo, um amplificador que custasse quinhentos ou mil euros não iria ter grande performance com aquelas colunas. E, se alguém comprasse aquelas colunas para um amplificador que não fosse muito compatível, não ia ficar satisfeito.        
Foi sempre uma situação em que, mesmo alguns contactos e abordagens, nomeadamente vendas de outro tipo de marcas (Fnac, etc.), rapidamente me retraí, porque o mal que me provocavam era muito maior do que as vendas poderiam justificar e, portanto, essa parte fez com que eu tivesse de organizar, desde o início, o negócio de outra forma. Estamos a falar de alturas entre dois mil e sete e dois mil e oito. Foi sempre este tipo de posicionamento que me orientou este tempo todo, apesar de vender para outras lojas mais especializadas, nomeadamente online, com coisas mais dedicadas, soluções mais personalizadas para os clientes, além de produtos mais relacionados com o dia a dia.

João Pina, Alfaiate do Som

G. – Sentem que o perfil que vos procura está essencialmente relacionado com o Som e o seu gosto?

J.P. – Sim. Há muitas marcas de fabricantes no mercado que, para aquele consumidor que é menos dedicado à música ainda que tenha efetivamente algum poder de compra, mas que vai atrás de uma coisa mais chamativa a nível visual, como por exemplo Bang & Olufsen (colunas), é mais destinado a um cliente muito menos criterioso em termos de qualidade e muito mais, talvez, ostentativo. É uma coisa que tem associado um certo valor intrínseco, independentemente da qualidade que a marca tem, mas é mais pela parte do visual do que propriamente da parte da performance, da função essencial que é a parte da reprodução de música.

O que eu vendo é mais um conjunto de tudo, quase um sistema de “chave-na-mão”, feito à medida. Ou seja, tem que se ter em consideração: o tipo de cliente que é, o que procura e quais as expectativas, para ver até onde se pode chegar.       
Muitas vezes, neste tipo de mercado, o conjunto em si não é uma solução fechada, porque alguém pode ter a expectativa de ter um determinado sistema de som, mas que o orçamento para ele não chega lá. É uma coisa que precisa de ser acompanhada, aliás, vai sendo sustentada ao longo do tempo.

Tenho clientes que há dezassete anos começaram com um sistema e, hoje, têm um sistema que vale dez, quinze, vinte, trinta vezes o que valia o primeiro com que começaram. Foram coisas que foram subindo e percebendo.          
Por exemplo, isto é quase como quando uma pessoa começa a beber vinho — não tem grande noção se aquilo é bom ou mau, não é? Depois, se efetivamente gosta, começa a ganhar um certo requinte, saber e até paladar. Começa por entender o que prefere ou não.
Isto acaba por ser um treino e um esmiuçar de certas coisas que, provavelmente, para um tipo de pessoas menos atenta, ligada e interessada a este tipo de temas pode não valer muito. Mas, quando uma pessoa começa a entrar neste tipo de mercado ou de prazer como ouvinte, começa a ganhar esse tipo de sensibilidade e vai percebendo. O que me parece que acontece hoje em dia é que as pessoas andam tão ocupadas nas suas vidas que nem se apercebem. Muitos nem sequer tiveram alguma vez oportunidade de ouvir um sistema em condições ou saber o que podem ou o que têm, mesmo em relação ao prazer de ouvir música. Ter um momento deles, parados, a desfrutar da música apenas. Ter esse momento. Está tudo pensado e de acesso fácil no telemóvel, mas a maior parte das pessoas não tem noção da má qualidade que isso tem. No entanto, utilizam isso como um padrão e o problema é utilizarem como padrão e ao mesmo tempo são atípicas a esse padrão, ou seja, não reconhecem a má qualidade que isso tem. Não auspiciam nada melhor ou interessante do que aquilo.

Aí, penso que o que faz diferença depois nisso é a forma como se apresenta às pessoas, como chegamos a elas: ver como depois podem evoluir num sistema de áudio ou cinema em casa; o que se pode fazer; o que pode evoluir e como pode melhor ao longo do tempo.
É um resultado em vista a longo prazo.  Há sempre situações diferentes: temos os clientes em que, de facto, é possível dar um salto qualitativo e significativo e outros, pelas condições de vida que hoje temos, só pode fazer alguns incrementos.  E, então, o aconselhamento para um e para o outro é diferente, mas o propósito é sempre o mesmo: melhorar o que já têm, em escalas diferentes, mas a trabalhar para a mesma coisa.

G. – Sabendo o quão importante é o Som e a capacidade de ouvir cada detalhe da harmonia, da música, de que forma se procede este estudo?

J.P. – É sempre importante considerar fatores como o gosto, a casa, o orçamento, a acústica da sala. A acústica é muito importante. O som propaga-se no meio físico e tu não tens como evitar seres condicionado pela sala.  
Muitas vezes, o cliente muda de casa, como é comum, e um sistema que se estava a criar para determinada configuração, para outra já não será viável. É, então, aí que se terá de pensar, se não tudo, algumas partes. Mas principalmente quando é a questão da mudança de casa, muitas vezes, o principal é o tratamento acústico e depois o meio que faz a ligação entre o elétrico e a coluna, que é algo que tem de ser novamente considerado. Não quer dizer que não se aproveite, mas são situações que requerem acompanhamento, aconselhamento e se eu trabalhar essa relação com o cliente a longo prazo, isso depois continua. É sempre esta a ideia: dar este acompanhamento aos clientes e não os deixar “perdidos” neste tipo de alterações.

Marcas vendidas na Exaudio

G. – O conceito “Alfaiate do Som” que nos leva a esta arte, tal como intitulam — “a Arte do Som” — é um conceito muito detalhado e que tão bem descreve o vosso trabalho. Tendo em conta todos os princípios necessários para que o som chegue ao seu estado perfeito, como é lidar com este longo caminho de análise, de abordagem e de produção?

J.P. – Alinhado com o que disse anteriormente, o aconselhamento que eu vou dando aos clientes não é só propriamente baseado no ponto de vista comercial da coisa. É, talvez, o meu envolvimento com o mundo da música que me leva, agora, a aconselhar as pessoas da maneira como o faço. Não se trata apenas do orçamento e do preço, mas da qualidade do equipamento, pelas sinergias, isto porque eu comecei através do gosto pela música. No interior do país, de onde venho, não era muito acessível, a não ser através da rádio. Era muito limitado a nível de qualidade de receção.
Lembro-me de que, na altura, só as discotecas vendiam discos e lá não havia, a não ser a venda em catálogo. Apareciam fotografias em algumas listas, que nas lojas de Lisboa começavam a vender e a fazer a venda desta forma. Chegavam a enviar à cobrança.       
Depois, comecei aquela coisa de aprimorar quando tive o meu primeiro sistema digno desse nome, por ter acabado o nono ano com boas notas.        
Fui ganhando mais interesse. Cheguei a ter aulas de guitarra clássica anteriormente, no entanto, nunca desenvolvi muito. Aos dezoito anos comecei a fazer rádio. Foi aí que comecei a ter mais contacto, o gira-discos que lá tinham não era igual ao que eu tinha em casa, estávamos a falar de equipamentos mais à séria numa rádio local (Rádio Clube da Covilhã).

Entretanto, comecei a organizar concertos e a gerir algumas bandas, ainda na Covilhã. Posteriormente, vim para Lisboa estudar para o Instituto Superior Técnico, tirar o curso de Engenharia Eletrotécnica de Computadores e comecei a trabalhar com a parte mais especializada com a eletrónica. Continuei em Lisboa, trabalhei diretamente com outras bandas e acabei por tirar um curso de som na ETIC, isto em noventa e quatro, mais ou menos.

Depois continuei a acompanhar as bandas, a trabalhar em estúdio. Isto para dizer que foi através destes projetos e trabalhos que acabei por ter uma sensibilidade e conhecimento maiores.
O que eu aconselho aos clientes não é propriamente baseado em aparelhos e caixas, mas sim no rigor e riqueza tímbrica que um aparelho ou um conjunto de aparelhos conseguem dar. Ou até mesmo a performance que se consegue retirar desse conjunto. E aí é que me dá, talvez, uma perspetiva diferente das outras do mercado. Algumas vezes vou constatando tal, pois tenho clientes que me procuram, de alguma maneira recorrentes, depois de outros aconselhamentos. E, como é óbvio, tento sempre, de alguma forma, ajudar, melhorar ou até mesmo tentar torná-lo menos mau.

João Pina, Alfaiate do Som

G. – Tendo por bases alguns passos que partilharam connosco é interessante verificar que além de aconselharem o cliente em relação a novos equipamentos e estratégias também se adaptam a cada equipamento já presente no local? Como é que lidam com este processo?

J.P. – É raro alguém não querer evoluir. No entanto, mais uma vez, há aquela questão de que cada caso é um caso, de acordo com as expectativas e do orçamento do cliente. Há sempre uma solução com determinados incrementos, para melhorar qualquer coisa.

G. – Ainda sobre “esta arte fundamental que se fala dos gira-discos de vinil” e que nos leva a percorrer uma bagagem até aos sistemas de áudio high end, quanto tempo leva até chegar até à etapa final?

J.P. – Se na maior parte das vezes não me dissessem que isto era para ontem, demoraria muito mais tempo. Todas as situações têm de ser ponderadas. A falta de entendimento por parte dos clientes, por vezes, enviesa algum tipo de tempo estipulado. Isto, porque o cliente chega a dizer que gosta de uma coisa e, quando eu tento acompanhar e perceber melhor de forma a ajudar, entendo que, na verdade, não vai ao encontro do que me disse quando chegou até mim. Até os gostos e equipamentos que o cliente tem, eu tenho de saber.      
Se uma pessoa ouve um determinado tipo de música e tem como expectativa o detalhe, quando a música é, por si, pouco definida por falta da qualidade de gravação, podemos vender um sistema muito mais revelador que, em princípio, é isso que ele está à procura. No entanto, isto é apenas um dos casos. Não há propriamente um tempo médio determinado.

G. – Verificamos ainda que também trabalham com Home Cinema. Consideram que é uma adaptação essencial no quotidiano? Como surgiu esta experiência também em trabalhar com Home Cinema?

J.P. – O processo de análise é diferente. A visão é um dos sentidos que nos capta muito atenção. A inclusão do som stereo, em contexto relacionado com a visão, acaba por ser uma distração.
Nesta parte de Home Cinema, o som é um complemento que não se pode abstrair tão bem, ou seja, pode-se dar menos atenção quando não se conhece a capacidade que o mesmo tem.
As pessoas gostam de cinema e há um gosto maior para o mesmo do que para o som stereo, a indústria do cinema por si só é mais rica nesse sentido. O som acaba por ser o parente pobre.
Por exemplo, agora o acesso ao streaming vem levantar uma comparação quase impossível de fazer com o Blu Ray. A diferença é de gritar! Em streaming não tem dinâmica nem contraste, está altamente comprimido. No caso do Blu Ray, a dinâmica é avassaladora. Depois, é isto também que permite dar a sensação de cinema, sente-se a pressão acústica. Esta é uma das partes muito desconsideradas por falta de conhecimento. Recentemente tive uma experiência dessas com um cliente.
As pessoas estão habituadas a ter um padrão de qualidade medíocre. E esse padrão nem à qualidade chega, sequer.

Conjunto de sistema de Home Cinema presente na Exaudio

G. – O quão importante é o SOM?

J.P. – Depende da pessoa e da sua sensibilidade. Enquanto há pessoas completamente desligadas deste tipo de coisas, por situações de vida também, mas há pessoas que nunca vão ter a oportunidade de ter sequer tempo para parar e ouvir alguma coisa e desfrutar de um momento. Contrariamente, há outras que sim, mesmo independentemente do nível financeiro, há clientes que mesmo com baixo poder de compra, tentam ter o seu pequeno sistema para o prazer de ouvir e, isso, é o suficiente.       
Agora, se algum dia vão ter capacidade de chegar mais alto? Pode ser que não, mas pelo menos têm uma possibilidade de ser ou de ter aqueles momentos de prazer ou de relaxamento que a música proporciona, que, hoje em dia, se precisa mais do que nunca.
A maior parte das pessoas coloca uns phones e está bom, no entanto, só conseguem perceber a diferença quando experimentam visitar um sítio destes ou outro parecido.
Olhando para o Som de uma forma completa, mesmo quem não ouve, consegue sentir as vibrações.

Para mim, a importância do Som é muita. Não espero que consiga evangelizar toda a gente com esta importância, mas é realmente gratificante e interessante.

Equipamentos de Som

G. – A nível cultural considera que a análise e o trabalhar o Som é essencial para que as pessoas captem e dediquem a sua atenção?

J.P. – Olhando para o som, a nível musical, é importante para as pessoas. Infelizmente, a maioria das vezes, não há tempo para apreciar.  
Por exemplo, em Portugal, numa visão mais sociológica, é uma coisa a que nunca se deu muito valor. Durante décadas, a música era oferecida ao público. E, quando se vai oferecendo, as pessoas não valorizam.  E, depois, acontece que as indústrias mais penalizadas em realidades como a que vivemos atualmente são as da vertente musical, claramente.

Muitas vezes, as pessoas associam música a um som de fundo que ouvem num supermercado e acontece que não lhe atribuem, aliás, que lhe retiram esta base cultural. Não lhe atribuem o mesmo valor cultural que dão a um livro, por exemplo, que é uma arte igual de expressão diferente.
Este tipo de produtos tem um consumo muito superior ao nosso em países mais a norte, com uma influência cultural muito superior à nossa. Mas isso acontece, porque cá as pessoas não estão sensibilizadas para isso.     
Há uma desvalorização cultural e, nesta altura, a única maneira que temos para aceder à música já não é através dos concertos ao vivo ou festivais. Há um impedimento de se dirigirem a lojas e isso faz com que o consumo online se alimente cada vez mais.
Há vários serviços de streaming, alguns não estão disponíveis em Portugal, que têm mais definição e qualidade. No entanto, o que está em grande avanço em relação aos de grande qualidade é o Spotify, se bem que a qualidade é muito pouca, isto quando uma pessoa tem o sentido crítico de qualidade.

Teste e experimentação dos aparelhos que João costuma aconselhar

Nesta altura, tem existido uma certa procura no recurso a estes aparelhos, porque as pessoas sentem que já não conseguem ter o acesso à sensação de estar e ouvir música num espetáculo e, de alguma maneira, tentam compensar.

O som será sempre importante. Voltando ao tema do concerto e do espetáculo ao vivo, não funciona se não tiver um bom sistema de som. É a relação mais próxima que as pessoas conseguem ter com a música, em que estão os músicos ali presentes a reproduzir a arte deles, se não tiverem um bom sistema de som profissional e um bom técnico a fazer esse trabalho é o suficiente para a sua experiência em vez de ser boa, ser horrível.

Em casa é exatamente a mesma coisa, com um mau som não vai ter prazer nenhum em ouvir música, mas com um bom som, pode fazer-lhe a diferença do dia todo. Está a proporcionar-lhe algo bom. Dessa forma, relaciona-se também com a cultura, isto porque a música é um bem cultural tal como um livro, um filme, uma peça de teatro ou declamar poesia.
É arte. Uma arte que dá e proporciona prazer, tal como todas as outras.

Texto por Patrícia Silva
Fotografias de Daniel Filipe

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