A Direção-Geral das Artes (DGArtes) anunciou ontem, 21 de Dezembro, o resultado do concurso para a representação de Portugal na Bienal de Veneza de 2019. João Ribas, curador e ex-diretor do Museu de Serralves, foi escolhido para comissário, com uma pontuação final de 96,6%, levando consigo a artista plástica Leonor Antunes. Em segundo lugar ficaram João Laia e Pedro Barateio. 

Este foi o primeiro ano em que o representante português foi escolhido por concurso. O júri reuniu Nuno Moura (DGArtes), Cristina Góis Amorim (AICEP), Catarina Rosendo (historiadora de arte), Jurgen Bock e Sérgio Mah, os dois últimos responsáveis por participações portuguesas em edições anteriores da Bienal de Veneza. 

A 58ª Exposição Internacional de Arte - La Biennale di Venezia decorrerá de 11 de Maio a 24 de Novembro de 2019, com o título “Tempos Interessantes” e curadoria de Ralph Rugoff. Segundo o curador, o tema surge “numa altura em que a disseminação digital de notícias falsas e “factos alternativos” corrói o discurso político e a confiança da qual depende” e em que “vale a pena fazer uma pausa (…) para reavaliar os nossos termos de referência.”

A Bienal de Veneza em momentos-chave

Surgiu em 1895 em Veneza e, tal como o nome indica, é um evento que se realiza de dois em dois anos. Nos primeiros tempos dedicava-se a expor artes decorativas, mas no início do século XX começou a alargar o seu leque. Começou a mostrar lado a lado artistas de diversos países, tornando-se uma exposição de caráter internacional e, mais tarde, dividiu-se em vários setores: o Festival de Música em 1930, o Festival Internacional de Cinema em 1932, o Festival de Teatro em 1934. 

Durante a Segunda Guerra Mundial viu-se obrigada a parar durante seis anos, regressando em 1948 com a mesma estrutura mas com um interesse maior pelos movimentos de arte contemporânea que despontavam na Europa e nos Estados Unidos da América. 

O ano de 1968 ficou marcado por protestos que beberam, em parte, dos ideais dos estudantes do Maio de 68. Acusada de elitismo, a 34ª Bienal de Veneza foi motivo de manifestações e a 18 de Junho estudantes e intelectuais ocuparam as instalações. Como reação à presença da polícia para controlar os protestos, alguns pavilhões não abriram e vários artistas decidiram virar as suas obras para a parede. Vinte e três artistas que faziam parte do grupo de convidados não aceitaram expor e a Bienal viu-se, assim, obrigada a adiar a entrega de prémios. 

Nos anos 80, Achille Bonito Oliva e Harald Szeeman criaram uma nova secção de exposição, à qual deram o nome de “Aperto”, que tinha como fim dar espaço à arte e aos artistas emergentes. Sob a alçada de Harald Szeeman, mais artistas da Ásia e da Europa do Leste integraram os grupos da Bienal, entre 1999 e 2001. 

As exposições dividem-se, até hoje, por grandes pavilhões que representam os países dos artistas convidados em pontos que se mantêm fixos edição após edição, como o Giardini e o Arsenale, e outros locais da cidade de Veneza que vão sendo acrescentados. 

Na última edição, em 2017, Portugal foi representado pelo escultor José Pedro Croft, comissariado por João Pinharanda. 

João Ribas e Leonor Antunes: quem são os representantes portugueses? 

Formado em Estudos Culturais e Filosofia pela New School for Social Research, em Nova Iorque, João Ribas é um português com raízes minhotas que se mudou para os Estados Unidos com os pais, aos 9 anos de idade. Depois de estagiar no MoMA PS1 — o centro de arte contemporânea criado por Alanna Heiss —, trabalhou como curador do Drawing Center, entre 2007 e 2009, e no MIT List Visual Arts Center, entre 2009 e 2014. Regressou nesse ano para Portugal, onde ocupou o lugar de diretor-adjunto do Museus de Serralves, na altura sob a direção de Suzanne Cotter. 

Em 2018 João Ribas foi escolhido para assumir a direção do Museu. A primeira exposição enquanto diretor e curador organizada por Ribas foi “Zéro de Conduite”, onde colocou o museu (enquanto instituição) a questionar-se a si mesmo, partindo do filme de Jean Vigo e da coleção de Serralves. Após conflitos relacionados com decisões da administração na exposição dedicada a Robert Mapplethorpe, cuja curadoria também teria sido sua, abandonou Serralves “em defesa da liberdade artística”, como afirmou numa conferência de imprensa.

Escolheu Leonor Antunes, artista plástica portuguesa a viver e Berlim desde 2005, para representar Portugal na Bienal de Veneza. Leonor nasceu em Lisboa em 1972, estudou Cenografia durante um ano na Escola Superior de Teatro e Cinema, e Escultura Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Já expôs na Whitechapel Gallery, em Londres, no San Francisco MoMA, no Museu Rufino Tamayo, no México. A sua obra pertence a diversas coleções, desde a Fundação Calouste Gulbenkian, a Serralves e à Culturgest, até ao Tate, ao Museo Nacional Reina Sofía e ao Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris. Em 2001 ganhou o Prémio Fundação EDP e o Zurich Art Prize de 2019 já lhe foi atribuído. 

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Texto de Carolina Franco
Fotografia de Rosmarie Voegtli via Flickr

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