O jornalismo de investigação em Portugal tem uma expressão quase residual. Num mercado frágil, onde o edifício do jornalismo tarda em reerguer-se, a crise atacou, sobretudo, esse patamar superior.

Em matéria de investigação jornalística, o estádio em que nos encontramos encaixa na descrição de Érick Neveu e T. Hamilton que, numa análise separada por 15 anos, interpretam os sinais do jornalismo de investigação no mundo inteiro: é “valorizado” pelo público, pelos próprios jornalistas, mas é “insuficientemente praticado”.

É certo que, também em Portugal, nos últimos anos, temos assistido ao despontar de projetos alternativos, desengajados dos grupos de media tradicionais, que recorrem ao crowdfunding para financiarem investigações jornalísticas potencialmente geradoras de impacto social. Mas também essa marca é residual.

Poderemos nós jornalistas, professores de jornalismo, empresários de media, deixar um país inteiro às escuras?

Como observa Hamilton, “um dólar investido … no jornalismo de investigação pode gerar centenas de dólares em benefícios para a sociedade”.

É certo que, na maior parte dos casos, o impacto gerado pelas reportagens de investigação não se traduz em ganhos diretos, e imediatos, para os órgãos de comunicação social que aceitam o desafio de investigar, mas, como reconhece Philippe Meyer, o investimento acabará por compensar porque a “qualidade traz associado sucesso empresarial”.

Num mercado frágil, como o português, quando as matérias investigadas são sensíveis e prejudicam interesses instalados, os empresários receiam as pressões dos anunciantes que restam e fogem da inevitabilidade dos processos judiciais.

Não havendo tradição em Portugal, não existindo as condições mínimas para desenvolverem investigações, a muitos jornalistas faltará, também, a “personalidade específica”, de que nos falam Anderson e Benjaminson – que se traduz na “propensão para escavar”.  

Na última investigação jornalística em que estive envolvido, sobre o crescimento da extrema-direita em Portugal, Espanha, Itália e França, desenhámos uma aliança estratégica entre o jornalismo de investigação e a academia, num esforço de ultrapassarmos os constrangimentos que limitam o jornalismo de investigação em Portugal.  

O tempo da inquietação que gerou a ideia coincidiu com o lançamento das segundas bolsas de jornalismo de investigação, atribuídas pela Fundação Calouste Gulbenkian. E, na minha qualidade de jornalista-professor-investigador desafiei a professora-investigadora das dinâmicas atuais do discurso de ódio online, Marisa Torres Silva – e, em conjunto, preparámos uma candidatura onde sistematizámos o método de trabalho e definimos o perfil da equipa que haveríamos de formar se conquistássemos a bolsa. Conquistámos a bolsa em novembro de 2019, e a reportagem sobre a extrema-direita europeia tornou-se uma realidade.

Entre as diversas dimensões do projeto há uma que sobressai, a da formação. Jornalistas e académicos participaram, em conjunto, no processo de formação dos quatro alunos de licenciatura e dos dois ex-alunos de mestrado que integraram a equipa. No lugar onde os seis se encontram, a um passo de entrarem no mercado de trabalho, este projeto, espécie de antecâmara entre a academia e a profissão, foi desenhado também com o propósito de lhes permitir aplicar conhecimentos adquiridos, promovendo, a cada um, através da dinâmica do teste e do erro, incursões acompanhadas nas diversas etapas do trabalho jornalístico.

Se a aliança estratégica que estabelecemos entre a academia e o jornalismo de investigação nos permitiu criar um espaço de diálogo, perpassado pela dúvida e guiado pelo método, que foi o motor de toda a nossa investigação, a forma como nos organizámos, em consórcio, ajudou-nos a ampliar o ângulo do objeto e, sobretudo, garantiu-nos o detalhe e a articulação entre as diversas camadas do objeto. E é o detalhe que torna único qualquer trabalho de investigação jornalística.

Richard Sambrook destaca, exatamente, que a colaboração - entre organizações, entre jornalistas - “reforça o jornalismo de investigação” porque aumenta “a escala da investigação”. 

No tempo da informação global, onde todas as peças se cruzam, o jornalismo exige competências vastas que ninguém, sozinho no seu mundo estanque, consegue abarcar.

Num mercado frágil como o português, dependente de uma meia dúzia de grandes anunciantes, demasiado permeável à ditadura das audiências, que, em todas as plataformas, corrói fronteiras entre informação e entretenimento, o jornalismo de investigação precisa de despontar, afirmando-se liberto de amarras. Para tal, tem, ao mesmo tempo, de ganhar escala e massa crítica.

Um consórcio de jornalistas de investigação portugueses, em aliança estratégica com a academia, pode ser a solução que salvaguarde o futuro do jornalismo de investigação em Portugal.

A competição pelo exclusivo domina, ainda, as estratégias editoriais de plataformas concorrentes, provocando uma distorção de valores que tem reflexos diretos na qualidade do jornalismo produzido. As regras de funcionamento dos consórcios jornalísticos são transparentes e só os que as cumprem podem manter o vínculo. Em Portugal, não seria diferente.

-Sobre Pedro Coelho-

Pedro Coelho é Professor Auxiliar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL (NOVA FCSH) e Grande Repórter de investigação da SIC. Autor de diversas grandes reportagens de investigação premiadas, publicou também vários livros e foi distinguido com vários prémios de jornalismo, entre eles dois prémios Gazeta de televisão (2014 e 2017). Recebeu, ainda, a medalha comemorativa dos 50 anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem, atribuída pela Assembleia da República.

Pedro Coelho é formador do curso "Jornalismo de investigação: o desafio da colaboração" que decorre nos dias 14, 15 e 16 de agosto na Academia de Verão Gerador 2021.

Texto de Pedro Coelho
Fotografia cortesia de Pedro Coelho
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