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Juliana Curi: “A Uýra tem o desejo de quebrar com uma visão muito colonialista do que é ser uma artista indígena contemporânea”

Uýra Sodoma é uma artista multidimensional: sendo uma pessoa trans, indígena, e a partir da conexão com a floresta, chama a atenção para a violência social e ambiental. Juliana Curi é realizadora, guionista e produtora executiva do documentário Uýra – A Retomada da Floresta.

Juliana Curi / Fotografia cedida por Azores Film

Mestre em Ecologia e com anos dedicados à investigação científica, Uýra trabalha agora principalmente como arte-educadora de comunidades tradicionais do Amazonas e como artista visual.

Já Juliana, com formação em Jornalismo, tem focado o seu trabalho em narrativas de impacto, tendo sido já premiada pela ONU-Mulheres. Com este documentário, Juliana mergulha na Amazónia e leva o público ao encontro de Uýra, cujo trabalho é pensado a partir da paisagem cidade-floresta. O filme integra o Queer Porto e poderá ser visto no dia 29 de novembro na Reitoria da Universidade do Porto – Casa Comum.

O Gerador conversou com Juliana Curi sobre a interseccionalidade de Uýra e o seu papel num território fustigado pela violência.

Gerador (G.) – Uýra – A Retomada da Floresta é um filme centrado em Uýra Sodoma, um alter ego criado por Emerson Munduruku, uma pessoa trans, não binária, indígena, ativista, bióloga e artista visual. Em 2016, Emerson começa a dar vida a Uýra. Como é que o teu caminho se cruzou com o da Uýra?

Juliana Curi (J. C.) – A Uýra tem um trabalho muito vivo, então ao longo destes anos foi-se questionando e se reinventando. Uma das coisas que a Uýra removeu da sua descrição é a palavra drag e alter ego, porque, para a Uýra, a questão drag passou a ficar uma coisa muito identificada com o movimento norte-americano de questionar o género. A Uýra, e todo o grupo dela, questiona não apenas o género, mas também questões de serem atravessados por serem periféricos, amazónicos. A Uýra passou a usar o termo entidade, que é realmente uma questão muito mais conectada com uma espiritualidade do que com uma questão cénica, apenas.

Conheci a Uýra em 2019. Tinha uma sensação muito forte de que existia uma história me chamando para contar no meu primeiro filme, o meu primeiro documentário, longa. Aí, convidei Martina Sönksen, que é a roteirista e produtora do filme também, a se juntar a mim e levantar essa antena. Numa semana, a gente conheceu o trabalho da Uýra através do Instagram, entrou em contacto com ela e, aí, imediatamente nasceu a ideia de fazer um filme. Originalmente era um curta, virou um média, e, depois, quando a gente voltou das filmagens era um longa porque a história não cabia numa curta-metragem tão apertada. Foi um processo muito intuitivo. A gente conheceu a Uýra e falou – ‘Vamos pra cima, vamos contar essa história já’, sem esperar pelos processos cinematográficos de grants e desenvolvimento. Então, a gente fez um financiamento privado com alguns coprodutores, e, com isso, a gente conseguiu ir à Amazónia. Eu e a Martina fizemos esse contacto com a Uýra, chegou Lívia Cheibub, que é a nossa produtora, e fomos nós três numa equipa de seis pessoas, imergimos na floresta e daí nasceu essa história.

Frame de Uýra – A Retomada da Floresta

G. – O trabalho da Uýra chama a atenção para a violência sobre pessoas, sobre grupos sociais e também sobre a natureza, sobre a floresta. De que forma é que todas estas dimensões se conjugam num mesmo trabalho e num mesmo território?

J. C. – Esse foi o maior desafio para todos os envolvidos nessa obra. Uma história de uma pessoa que toca tantos assuntos não poderia ser construída por um único olhar. A gente tem, no audiovisual, uma visão muito hierárquica e hegemónica em que o diretor é a grande visão, e eu tinha um desejo, desde o começo da feitura desse filme, de que ele fosse um processo colaborativo mesmo, que fosse um espaço set para que artistas de diferentes identidades, diferentes lugares de fala e campos de estudo pudessem contribuir com a sua visão. Éramos uma constelação de criadores olhando para essa história, que é a história mais interseccional que eu conheço. A Uýra é a pessoa mais interseccional que eu conheço. Então, sinto que a gente conseguiu, no filme, conduzido pela Uýra, [com] ela nos guiando com esse trabalho e todos nós com visões complementares, entender que existe uma causa que conecta a floresta, as causas LGBTQIA+, as questões de género, as questões de educação, de arte, que é a apresentação da vida. Isso é o que conecta todos nós, isso é que conecta todas as lutas, e a gente acredita que esse é o grande potencial não só do filme como da Uýra – ela nos convida a entender que a gente faz parte de todas essas lutas.

Frame de Uýra – A Retomada da Floresta

G. – Emerson disse, numa entrevista, que floresta e cultura são uma só. Como é que se pode explicar esta união, esta relação tão simbiótica, a pessoas que não tenham uma relação tão próxima com a floresta?

J. C. – É um recorte do trabalho da Uýra que entra no filme. Uýra é uma artista em constante evolução. Eu falo muito mais sobre a obra em Uýra – A Retomada da Floresta do que sobre a vivência de Uýra, principalmente porque eu não estou na floresta. Então, posso contar sobre esse pedaço de floresta que ela me apresentou e que pude vivenciar. Mas a Uýra transita entre esses dois espaços. Eu acho que tem um desejo da Uýra de quebrar com uma visão muito colonialista do que é ser uma artista indígena contemporânea. Existe, muitas vezes, até no próprio território brasileiro, uma visão muito romantizada, então a Uýra vem para quebrar todos esses paradigmas. Primeiro, da própria floresta: a Uýra, no filme, tem uma frase em que fala que para a Amazónia ser entendida, não tem de ser vista de uma visão de satélite, ela tem de ser vista daqui, do chão, pisando na terra, olhando para os lados. O filme, Uýra – A Retomada da Floresta, já passa a mostrar uma Amazónia que não é uma Amazónia apenas na copa das árvores e da fauna. A gente desce para a terra e acompanha quem são as pessoas que estão sustentando esse céu por nós. E, na Amazónia, especificamente, isso se dá tanto nos territórios de floresta, nas comunidades indígenas, que estão retratadas no filme, como também com uma juventude pulsante que está na cidade, em Manaus e outras cidades na Amazónia. Acho que a Uýra consegue contar que naquele território amazónico, tanto na floresta e dentro da floresta, como na cidade inserida na floresta, existe muita luta de preservação por aquele território e por aquela memória.

G. – Essa visão colonial e de satélite tem que ver com o facto de as pessoas indígenas não terem, tradicionalmente, um lugar de fala na arte, ou seja, de a história delas ser contada por outros?

J. C. – É a maior fratura histórica que a gente tem no Brasil. A gente está agora, finalmente, passando por uma extensa revisão histórica nos colégios. Até muito pouco tempo atrás foi ensinado nos colégios que o Brasil foi descoberto em 1500. A gente está falando que nós temos um idioma oficial, quando na verdade temos, ainda sobrevivendo, creio que mais de 100 idiomas indígenas, e originalmente mais de 1200 idiomas indígenas. Então, está na fratura histórica do país essa falta de representatividade. A gente nasce desse lugar e, aí, essa visão permeia tanto uma visão europeia que vem olhar para a Amazónia com esse satélite, como o próprio sul do país, e regiões de muito desenvolvimento económico que vão olhar a Amazónia desse olhar externo. A gente tem esse histórico no país: muitos cineastas de regiões socioeconómicas ricas indo extrair essas histórias; muito extrativismo, não só da floresta, mas também das histórias. Porque é que a gente não se enquadra numa produção extrativista? Além de todas as pessoas envolvidas nesse projeto terem a comum causa de que nós não estamos aqui para ajudar os povos indígenas, eles estão para nos ajudar, a gente também tem uma coisa central: a Uýra é coprodutora desse filme e autora. Então, a gente já nasce curvando essa linha que divide cineastas de personagens, sujeitos de objetos. Uýra é sujeito central em todos os aspetos, não só como personagem principal, mas na feitura do filme. Isso impacta absolutamente todo o processo. Durante o nosso processo de pós-produção, a gente conseguiu captar alguns grants, que nos possibilitaram desenvolver uma campanha de distribuição de impacto, garantindo que esse filme voltasse primeiro para as comunidades que o geraram. A nossa estreia nacional no Brasil aconteceu em Nossa Senhora de Fátima, que é a comunidade onde a Uýra foi criada, que está na periferia de Manaus. É muito simbólico: a gente está num país onde os filmes estreiam em grandes festivais, nos grandes centros urbanos, onde poucas pessoas têm acesso, e a gente tem muitas ferramentas que fazem com que esse filme saia desse axioma.

Frame de Uýra – A Retomada da Floresta

G. – As mortes de pessoas LGBT aumentaram 33 % em 2021, no Brasil, e, simultaneamente, tem havido uma invasão da Amazónia por garimpeiros, por madeireiros, que tem resultado em mortes de pessoas indígenas e na destruição da floresta que temos testemunhado. Toda esta realidade torna o trabalho da Uýra mais urgente, mais visível, mais perigoso, ou tudo isto em simultâneo?

J. C. – Quando conheci Uýra e vi essa interseccionalidade, pensei que essa história, para mim, hoje, é a história mais urgente que há, porque ela tem poder de conectar diversas causas adjacentes. Eu sinto que a Uýra, na essência, por essa interseccionalidade, consegue driblar um pouco os mecanismos de individualismo do neocapitalismo e consegue propor uma estratégia coletiva de luta, onde ela vai criando pontes e vai criando conexões entre grupos adjacentes. Esse dado que você trouxe, claro que se agrava muito no governo Bolsonaro, um governo autoritário de extrema-direita, mas isso já é uma realidade que o Brasil carrega há muito tempo. O Brasil, até há muito pouco tempo, acho que foi o líder – agora, se não é o líder, talvez esteja em terceiro lugar – como país que mais mata pessoas transexuais e ativistas ambientais. Então, a Uýra é um alvo, mas eu sinto que, graças a Deus, graças aos deuses e a toda a proteção que a Uýra tem, hoje o trabalho dela está sendo reconhecido mundialmente, tanto como artista ou tanto através do filme, pela potência de cativar essas conexões e não pela violência que ela viveu. Ela está viva. A existência e a resistência da Uýra têm gerado muita inspiração.

G. – O Brasil vai agora entrar num novo ciclo político, e o presidente eleito, Lula da Silva, já prometeu que iria dar atenção à floresta, só que, entretanto, já foi muita coisa destruída, muitos milhares de hectares. Que possibilidades ainda existem de regenerar, e como é que isso pode ser feito?

J. C. – Acho que me faltam dados científicos para te responder sobre isso. O que eu posso dizer, como uma cineasta que tem um trabalho, de facto, sociopolítico e ambiental, é que, pela primeira vez na história, a gente volta a ter um partido de esquerda, liderado pelo presidente Lula, e em que a Bancada do Cocar tem um protagonismo que nunca teve em nenhum outro governo, inclusive do próprio Partido dos Trabalhadores. Acho que a gente está num momento em que, de facto, o Brasil abriu os olhos. A questão climática é urgente. Eu não sei exatamente, em termos da ecologia, o processo para essa regeneração, mas o que eu posso te dizer, em termos de política, é que se temos um governo agora se preparando para isso, é esse. Aqui em São Paulo, foi eleita Sônia Guajajara; temos, historicamente, mulheres indígenas sendo eleitas, e diversos cineastas e redes de comunicação olhando para a Amazónia, e eu sinto isso no Brasil latente e pulsante. A gente esteve, no ano de 2021, num evento que se chamou Climate Story Lab Amazonia. É um evento que aconteceu em associação com o Doc Society, que é uma fundação inglesa focada em narrativas de impacto climático. Nós fomos um dos oito projetos incubados por eles, e pudemos ver e entender a magnitude da articulação dos comunicadores, cineastas e artistas da Amazónia, focados em narrativas que possam contribuir para a narrativa climática. Não te respondo em termos científicos, mas, em termos políticos e em termos de audiovisual e comunicação, estamos muito bem preparados para enfrentar esse problema, sendo otimista.

G. – Fundaste o EUETU Lab, uma plataforma que tem como objetivo dar visibilidade ao trabalho de mulheres, pessoas racializadas, pessoas LGBTQIA+ e pessoas indígenas no cinema. Como surgiu este projeto e como funciona a plataforma?

J. C. – É um dos projetos que eu mais amo. Venho, desde a minha formação, desenvolvendo um trabalho focado em injustiça social, injustiça climática, com foco em impacto. Mas sempre nutri, dentro de mim, para além da cineasta, um desejo enorme em contribuir com ferramentas educacionais. Sinto que a educação é a base de toda a transformação. Então, em 2020, quando se instaura a pandemia e todos recolhem a suas casas, eu tive a sorte de ser convidada para participar de um evento muito específico de um projeto muito legal chamado Perifa Lions, e fui mentora por uma hora. Terminei aquele processo e entendi que não precisava de tanto quanto imaginava. Achava que era um desafio enorme. Sou uma cineasta independente, e a gente tem um histórico, no Brasil, de um cinema sempre feito muito por herdeiros. Sou uma mulher branca, mas também não tenho esse acesso económico, então é uma rotina muito intensa para uma mulher diretora. Eu achava que precisava de fundar uma organização, tinha uma crença de que era algo gigante, e, quando saio desse encontro, percebo que tenho as ferramentas, que era mais simples do que isso. Então, convido os jovens de quem fui mentora por essa hora para passar a fazer um encontro semanal. Depois de um mês, entendi a metodologia e chamámos mais outros três jovens, e, aí, nasceu o EUETU Lab, oficialmente. O que eu gosto no EUETU Lab é que ele é a micropolítica na sua essência. Diferente de muitos outros projetos, que tentam trabalhar numa estrutura macro, ele trabalha numa estrutura micro, onde eu, com seis jovens, tenho uma atenção muito personalizada e muito artesanal do processo de cada um deles. Isso faz com que eles potencializem ainda mais as possibilidades de se tornarem futuras lideranças, de trazerem e abrirem espaço com eles. O EUETU Lab nasce de uma forma muito orgânica e intuitiva, mas se descobre algo muito potente, uma ferramenta micropolítica muito interessante e replicável. A primeira turma está formada, foram os seis jovens (que estão muito bem colocados no mercado), e, agora, a gente se prepara para a próxima turma.

Texto de Cátia Vilaça

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