Possuir um abrigo com água quente, canalização e eletricidade parece um dado adquirido, para a maioria da população, em pleno século XXI. Ainda assim, na prática, esta é ainda uma realidade distante para muitos. Para tal, basta tomarmos o exemplo dos múltiplos sem-abrigos que habitam, nos dias de hoje, nas ruas portuguesas.

Foi face a este panorama, e movidos pelo sentimento da “inquietação”, que nasceu a Just a Change há dez anos. Uma associação sem fins lucrativos constituída, maioritariamente, por jovens que reconstroem casas para pessoas carenciadas em Portugal. Aqui, o objetivo não é retirar as pessoas dos seus lares, mas sim dar-lhes uma nova vida.

Nos dias de hoje, somam já mais de 410 voluntários, mais de 40 obras e mais de 16 concelhos, de norte a sul, percorridos.

O Gerador foi procurar pôr mãos à massa e esteve à conversa com Rita Lucena, uma das voluntárias do Just a Change, para procurar conhecer a associação mais de perto. Ao longo da conversa, a voluntária procurou refletir acerca da pobreza habitacional em Portugal, sobre as debilidades e sobre o processo de logística das intervenções.

Gerador (G.) – O Just a Change é uma Associação sem Fins Lucrativos que reconstrói casas de pessoas carenciadas em Portugal. Como é que começou esta ideia de dar uma nova casa a estas pessoas?

Rita Lucena (R. L.) – O Just a Change nasceu há mais ou menos dez anos. Na altura, foi um grupo de amigos universitários que, um certo dia, decidiu ir tocar para a Baixa e angariaram algum dinheiro, mas não sabiam ao certo o que fazer com ele. Ao invés de decidirem sentarem-se num café a beber umas imperiais, convidaram uns sem-abrigos para irem jantar com eles. Palavra passa palavra, e o grupo voltou a juntar-se mais vezes. Cresceu cada vez mais e às tantas já era um grupo que ia tocar para a Baixa com o intuito de ganhar algum dinheiro. Daí o nosso nome do Just a Change. São apenas uns trocos para haver uma mudança. Foi-se cada vez mais angariando dinheiro e com isto apercebemo-nos de que já havia uma vasta rede de respostas pensadas, e associações, que trabalhavam para dar resposta aos sem-abrigos. Portanto, começamos por tentar perceber o que poderia estar em falta, que tipo de programa social não tinha uma resposta estruturada, etc. No fundo, onde fazia falta aquele dinheiro daquele grupo de amigos ser aplicado. Chegou a proposta de uma junta de freguesia de dar um jeito na casa de uma pessoa, que essa junta apoiava, que estava em muitas más condições. Com boa vontade e muita inexperiência, esse grupo de amigos foi tratar dessa casa. Foi aí que perceberam o que era isto da pobreza habitacional e da falta de condições de vida de muitos portugueses. Foi aí que o Just a Change se começou a dedicar à reabilitação de casas a famílias carenciadas. Depois, o projeto foi crescendo e ganhando escala. Começou por atuar só na zona de Lisboa e depois começou a atuar fora também. Hoje em dia, já trabalhamos em mais de 18 municípios. Dez anos depois, o projeto já cresceu muito. Foi ganhando escala.

Passado cinco anos da fundação, tornámo-nos uma IPSS [Instituição Particular de Solidariedade Social]. Depois, quando um destes amigos saiu da faculdade, decidiu ficar a trabalhar no Just a Change. A partir daí, Just a Change passou a ter uma equipa fixa profissional com trabalhadores próprios. Desde há cinco/seis anos que há uma equipa a trabalhar a full-time no Just a Change. Começou com o António que, nos dias de hoje, é o diretor e, hoje em dia, somos dez a trabalhar a tempo inteiro.

G. – Normalmente, como é que funciona a decisão da logística dos jovens que vão rumo a um novo desafio ou a uma nova cidade?

R. L. – A maior parte dos nossos voluntários são universitários, já que têm mais tempo e disponibilidade para abraçar um projeto destes. Portanto, seguimos um bocadinho o ritmo letivo. Durante os semestres, atuamos em Lisboa ou no Porto, e durante o verão é que vamos para outras localidades, por todo o país. Para além disso, fazemos campos de férias intensivos. São 15 dias em que estamos nestes municípios a reabilitar casas. Não é necessário ter nenhum tipo de formação especial. O único pré-requisito que temos é o de que as pessoas sejam maiores de idade. Não podemos ter em obra nenhum menor. Basta ser maior de idade e ter vontade de pôr as mãos na massa. Também não é obrigatório ser universitários. Temos muitos voluntários de outras faixas etárias. Não é preciso ter nenhuma formação especial. Todas as equipas são constituídas por um técnico profissional, que está encarregue de ensinar o trabalho, de fiscalizar e de ir guiando os voluntários. Nós queremos fazer obras bem feitas. Isto não é para ser uma brincadeira. Uma obra tem de ficar feita em condições. Portanto, todas as equipas têm um técnico de obra e um coordenador. O coordenador é um voluntário do Just a Change mais antigo. Portanto, já está connosco, há vários anos, e não só percebe muito da obra como consegue liderar a equipa e ajudar o mestre de obras a distribuir o que se vai passar no resto do dia. Depois, o resto da equipa são mais quatro ou cinco voluntários. Tentamos sempre que seja uma equipa mista e que haja um equilíbrio entre voluntários experientes e não experientes.

G. – No vosso website lemos o seguinte: “Reabilitamos casas sem telhados, janelas e portas. Casas onde não há água quente nem eletricidade. Reabilitamos casas onde se passa frio.” Como é que é feita a escolha destas casas?

R. L. – Nós trabalhamos na maior parte destas localidades com uma vasta rede de parceiros. Juntas de freguesia, câmaras, basicamente órgãos centrais e também fundações locais. O nosso trabalho só é possível com este tipo de parceiros. Estas organizações conhecem bem a sua população. Muitas vezes até já têm levantamentos de casas que estão a precisar de intervenções e têm só dificuldade em conseguir chegar a toda a gente. Depois, as instituições têm muitas vezes serviço ao domicílio, entram na casa das pessoas e também se deparam com a realidade. Portanto, precisamos também desses agentes que de facto interagem com a pessoa, e a veem no seu lar, e percebem as condições em que se encontra. Nós, normalmente, temos protocolos com esses parceiros e é a partir daí que definimos, em conjunto, as casas em que vamos atuar. Em muitas localidades, já atuamos há muitos anos…Vamos lá repetidamente. Por exemplo, estamos em Óbidos desde 2017.

G. – Quais são as debilidades mais sentidas nestes espaços?

R. L. – Temos um bocadinho de tudo. Os principais problemas passam por ser casas muito velhas, o telhado com muitas falhas, a casa não tem chão, não há instalação sanitária, não há canalização, nem sequer água quente. Depois, são casas com muitos problemas de humidade e geladas. As nossas intervenções tanto são muito profundas como são intervenções menos de profundas, de arranjar paredes, arranjar portas, melhor isolamento, etc. A pobreza habitacional anda de mão com a pobreza energética. Portanto, casas sem condições de habitabilidade são casas que necessitam de um consumo energético muito maior e muito menos eficiente.

G. – Tendo em conta o site do Just a Change, atualmente, mais de 60 mil portugueses vivem sem água canalizada nem saneamento e mais de 30 mil não têm eletricidade em casa. De que forma é que se deveria procurar combater esta mesmo pobreza?

R. L. – Isso é uma pergunta muito difícil. O problema tem duas partes. Claro que se pode pensar em resoluções de habitação em passos largos, mas a maior parte da população que ajudamos, sobretudo as pessoas do meio mais rural, são pessoas que vivem naquelas casas desde sempre. São casas muito antigas que não foram sofrendo remodelações conforme o tempo foi passando. Portanto, deslocalizar essas pessoas é uma estratégia que não faz sentido. São pessoas idosas, que vivem ali desde que nasceram… Por isso, é que o nosso modelo é reabilitar a casa e não realojar a pessoa. Portanto, o nosso trabalho, no fundo, passa um bocado por isso. Olhar para essas casas antigas, manter-lhe as estruturas, mas renovadas e habitáveis. Dar-lhes janelas e portas novas, isolar decentemente os telhados e dar-lhes algum conforto. Achamos fundamental pensar-se nisso. Realojar não é a solução, em muitos destes casos.

G. – Por exemplo, com a chegada da pandemia sentiram um aumento dos pedidos de ajuda?

R. L. – Nós criámos no nosso site, há uns anos, um formulário para que cada um de nós pudesse sinalizar uma casa. No entanto, a maior parte das casas que reabilitamos são nos sinalizadas por órgãos locais e entidades locais. Ainda assim, vamos recebendo, nesse formulário, cada vez mais pedidos, mas não conseguimos chegar a todos porque ainda estamos a crescer, ou seja, é muito difícil operacionalizar um pedido individual. Para além do aumento dos pedidos, no primeiro confinamento tivemos de reduzir a nossa intervenção. Na altura, fizemos uma ronda de telefonemas por antigos beneficiários para saber como é que eles estavam e se havia alguma coisa que tivesse de ser revista. Foi um ano e meio em que percebemos ainda mais a importância que a casa tem na vida de uma pessoa. Quando fomos obrigados a estar em casa, foi deprimente para todos, mas o sofrimento destas pessoas que não têm uma casa digna em condições, foi um período ainda pior. Sentimos que a população mais vulnerável ficou mais sensível a isso e ao que fazemos.

G. – Há bocadinho já me referias que a equipa é constituída, maioritariamente, por jovens. Caso alguém se queira juntar ao Just a Change de que forma o pode fazer?

R. L. – Todas as intervenções que fazemos é com o trabalho dos voluntários que se juntam a nós. As inscrições abrem em certos momentos do ano. Durante os semestres, atuamos em Lisboa ou no Porto e, portanto, no início do semestre, abrem inscrições para outras localidades. Por exemplo, agora estão abertas as inscrições para os trabalhos de Lisboa e Porto. Depois, no início do primeiro semestre, voltam a abrir para as intervenções do segundo semestre. Posteriormente, para os finais de maio, abrem as inscrições para os campos de verão. Temos três grandes momentos de inscrição.

G. – Quatrocentos e dez voluntários. Quarenta obras. Dezasseis concelhos. São estes os números atuais das intervenções da associação. Destas intervenções há alguma história que vos tenha marcado de uma forma particular e que gostavam agora de explorar?

R. L. – Esses números já vão mudar agora com o final do verão. Este verão fizemos 11 campos em 11 localidades distintas.

Há muitas histórias e muitas delas tocantes. Fizemos um livro, no ano passado, quando fizemos dez anos, no qual recolhemos uma série de histórias de maior impacto e que está à venda na nossa loja online.

Uma Casa Portuguesa_Just a Change

Os vídeos que temos no YouTube também mostram algumas. Há um vídeo muito tocante da Dona Vitória a abrir uma torneira de água quente e a dizer que era mesmo água quente. Nunca tinha tido água quente. Temos também um da reabilitação da casa do Sr. Álvaro em que se vê a transformação do próprio Sr. Álvaro. Era um senhor acumulador, fizemos esse trabalho com ele de arrumar a casa. Viu-se um Sr. Álvaro diferente. Era um senhor que não saía de casa para não ser visto e de repente mudou. É muito nisto que acreditamos. Reabilitamos casas e reconstruímos vidas.

De facto, a casa é essencial para desenvolvermo-nos por completos. Nós não conseguimos estar emocionalmente bem e prontos para o que for se não vivermos numa casa com condições mínimas.

Muitas das nossas histórias mostram isso. As pessoas ganharam uma nova vida depois desta transformação. Temos um blogue também em que vamos partilhando histórias.

Texto de Isabel Marques
Fotografias da cortesia da organização