Falar sobre cartas a adolescentes pode parecer um desafio fácil, mas tem um quê de exótico. Pouco a pouco, as mensagens no papel vão sendo trocadas por declarações no Instagram, e-mails e alertas nas apps. Crista Alfaiate correu o risco com a ajuda de Diogo Bento e, partindo de textos conhecidos como a Carta do Achamento do Brasil de Pero Vaz de Caminha, a Carta ao Pai de Kafka, a Carta a Bosie de Oscar Wilde, as Cartas Portuguesas de Mariana Alcoforado, as Novas Cartas portuguesas de Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, e outras tantas cartas, construíram uma peça que toca em pontos como o feminismo, a guerra e o pós-colonialismo. 

No fim da manhã de quinta-feira, dia 28, o Gerador foi ao LU.CA falar com Crista sobre Niet Hebben (Carta Rejeitada), a peça em que está sozinha em palco a “escrever uma carta como quem fala” e vai refletindo “o conteúdo de algumas cartas que leu ( indevidamente, à socapa, em vez de estar a “anhar” no Instagram ou a tirar selfies).” Do lado de fora ouvia-se o ensaio que estava prestes a terminar na sala de espetáculos de onde, quinze minutos depois, se abriram as portas e foi possível espreitar o cenário. De lá saiu Crista Alfaiate para a nossa conversa. 

“Eu já andava há algum tempo a trabalhar a correspondência, mas por gosto. Correspondência literária, própria, perdida… E até tinha pensado que isto seria o tema de um espetáculo mais para adultos, mas com a Susana do LU.CA desafiou-me para lhe apresentar um projeto e, como já estava a trabalhar nisto, achei que podia aproveitar. Na mesma altura surge uma notícia no The Guardian a dizer que tinha sido encontrado um baú, ainda de pele, cheio de cartas, num extinto posto de correios”, conta Crista. A mesma notícia contava a história de uma cantora de ópera cuja carta tinha ficado presa nesse baú, entre cartas de outras “pessoas literadas da época”, que tinha sido escrita por uma amiga e continha um pedido de ajuda. “Eu olhei para a notícia com aquela carta e questionei-me o que teria acontecido a esta mulher, porque esta carta onde pedia ajuda foi parar a um baú que só foi aberto uns 300 anos depois”, explica. 

A história impressionou Crista, que achou que seria um bom mote teatral (uma vez que era sobre uma cantora de ópera), e “um bom pretexto para falar sobre outros temas mais pertinentes”, ainda que tivesse de os adaptar para adolescentes. “ Cartas? Mas estas pessoas não lidam com isso diariamente, não têm um uso comum das cartas. Nem as contas chegam por correio, já.” foi o primeiro pensamento de Crista, que acabou por perceber “que não podia contornar a Internet nem as apps, nem as redes sociais, o que não foi mau.” A atriz destaca o trabalho do LU.CA na preparação de oficinas que vão ao encontro dos temas das peças de teatro em cena, ajudando o público a ter mais proximidade com os assuntos tratados no palco. 

“O espetáculo tem uma estrutura muito simples, que é a da carta: com data, as saudações iniciais, o corpo de texto, despedida e assinatura. Fomos tentando ir o mais longe possível o explorar o conceito de carta”, explica. A desconstrução foi da forma ao conteúdo e Crista e Diogo tiveram a preocupação de pensar até que ponto estariam a ser claros ao falar de determinados assuntos. “Tivemos que desconstruir o texto de forma a que seja compreendido e bem aceite; que eles (adolescentes) consigam seguir a história connosco. Isso passou pela apropriação do tom e da escrita, que foi fundamental. Até porque houve alturas em que parecíamos o nosso avô a tentar falar à jovem. Mas acho que agora está a chegar ao ponto certo”, conta Crista entre risos. 

A ideia nunca foi pegar no tema de um ponto de vista nostálgico. O pretexto para mergulhar em temas fraturantes — partindo da experiência de vida da cantora de ópera em que Crista se inspirou ao ler a notícia do The Guardian — desenrola-se na leitura de cartas que vão falando de assuntos-chave. “No processo de escrita do texto eu e o Diogo estivemos um mês a encontrar-nos uma ou duas vezes por semana e a trocar cartas. Ficámos os dois imbuídos nestes textos em que fomos tropeçando e que trocámos entre nós, como a Carta ao Pai do Kafka, por exemplo, que nos tocou de uma maneira brutal.”, conta Crista ao Gerador. A Carta do Achamento do Brasil de Pero Vaz de Caminha é um pretexto para falar sobre os descobrimentos com uma abordagem diferente: “Na escola a época dos descobrimentos é passada muito ligeiramente, quando aquilo foi uma brutalidade e ainda hoje há coisas que se perpetuam. Acho que é bom levantar este tema e dar uma outra versão da História porque não foi tudo bonito”, esclarece. 

A “equipa criativa inacreditável”, como Crista lhe chamou, é composta por Cláudia Gaiolas e Diogo Bento no apoio à criação, Rui Monteiro  no desenho de luz, Teresa Antunes na Assistência ao Desenho de Luz, Sérgio Martins e Rui Lima na banda sonora, Pedro Lima como técnico de som, Catarina Lee nos conteúdos gráficos e visuais, Aldina Jesus na concepção de figurinos, Joana Costa Santos na produção executiva e Luna Rebelo no apoio à produção.

Niet Hebben (Carta Rejeitada) vai estar em cena no LU.CA nos dias 9, 16 e 17 de março para famílias, no dia 10 para numa sessão descontraída, no dia 14 de março com audio-descrição e nos dias 13, 14 e 15 para escolas. A peça é dirigida, aconselhadamente, a maiores de 12 anos.  Os bilhetes podem ser comprados no LU.CA ou na bilheteira online.

Texto de Carolina Franco
Fotografias de Alípio Padilha

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