Os Lola Lola laçaram o seu quarto single Killed a man in the field, tratando-se do primeiro trabalho da banda com a editora nacional Chaputa! Records. Os locais escolhidos para a apresentação do novo tema foram o Sabotage Club em Lisboa (ocorreu dia 18 de outubro) e o Barracuda Clube de Roque no Porto (dia 19 de outubro). Killed a man in the field surgiu da palavra “paisagem” e, de facto, é capaz de nos transportar para um sítio extenso, agreste, com pouco arvoredo, um tanto abandonado.

A banda Lola Lola nasceu no Porto, em 2014, e é constituída por Carla Capela (voz), Tiago Gil (guitarra), Miguel Lourenço (baixo), Hélder Coelho (bateria) e Rui Teixeira (saxofone barítono). O universo musical dos anos 50 e 60 é uma grande referência para o grupo. Os géneros que mais caraterizam o seu trabalho são o R&B/Popcorn, as sonoridades dos 50/60 e o rock’n’roll. No entanto, o grupo não gosta de se ver circunscrito, uma vez que o processo criativo é aberto, obedecendo principalmente ao impulso do momento. Segundo Carla Capela e Tiago Gil, há muita flutuação no que respeita a estilos musicais, nomeadamente durante os ensaios, e é muito importante manter-se a abertura durante a produção artística.

O novo disco é apresentado com uma ilustração de Rui Ricardo que remete para o universo do faroeste. Uma imagética semelhante é-nos transmitida pelo videoclipe, realizado por Rodrigo Areias e Susana Abreu, em que Carla Capela (vocalista) contracena com Tiago André Sue.

Gerador (G.) – Os Lola Lola já têm 5 anos de existência. Como é que se juntaram?

Carla Capela (C.C.) – O Tiago Gil, o Hélder Coelho e o Miguel Lourenço já tocavam juntos em Os Tornados. Foram crescendo como indivíduos, como músicos e como amigos. Entretanto, com a separação d’Os Tornados, nasceram outros projetos. Nos primórdios, começou-se por uma linha instrumental, tendo surgido a ideia de adicionar um saxofone barítono. Depois as coisas começaram a fazer sentido para a introdução de uma voz. Não se sabia se seria uma voz feminina ou masculina, mas eles sentiram a necessidade de uma voz. Nessa altura, eu era mais conhecida como DJ na cidade do Porto, mas participei num projeto em que eram convidados diferentes vocalistas para interpretar alguns temas. Foi aí que conheci o Nuno, também ex-Tornado. Tocámos alguns temas juntos, fizemos alguns concertos pelo país, e foi por aí que passei a conhecer o Hélder, o Miguel, o Tiago e o Rui.

Tiago Gil (T.G.) – Na altura em que queríamos evoluir de uma banda de instrumental para uma banda com voz, procurávamos alguém que conhecesse bem o nosso género musical mais do que um determinado estilo de voz. Reparámos que a Carla, além de ser DJ dentro desse género de música, também cantava. Decidimos marcar um ensaio, mandei-lhe umas músicas, experimentámos essas músicas e correu bem! Sentimos que havia ali um gosto em fazer algo semelhante. A partir daí mantivemo-nos juntos. Algum tempo depois da junção, decidimos compor, gravar e lançar o primeiro single Money in the can, em 2015.

Falando agora um pouco d’Os Tornados, anterior aos Lola Lola, foi um grupo influenciado por bandas portuguesas que estavam um pouco esquecidas na história da música nacional – associadas ao antigo regime, antes do 25 de Abril. Essas bandas mais antigas eram influenciadas por bandas anglo-saxónicas, ainda que de forma um pouco naïf. Falo de bandas como os Tártaros ou os Demónios Negros. Os Tornados iam beber a essas bandas portuguesas, apesar de fazerem música original. Fomos revitalizar um tipo de música feito em Portugal que estava esquecido.

Fotografia dos membros da banda, de Julher Lemreh

G. – Os vossos temas remetem para o passado, nomeadamente para os anos 50 e 60. A descrição oficial da vossa banda inclui estilos como R&B/popcorn, 50/60, rock’n’roll. Podem explicar um pouco do que se trata?

C.C. – Todos estes subgéneros ou estilos são identificados em determinada época. Por isso as pessoas têm a tendência para dizer “isso é vintage”, mas não vejo o que fazemos dessa forma. O hip hop nasceu nos 70, o hip hop de hoje é vintage? Não. O nosso estilo de música remete muito para a música feita nos anos 50 e 60, mas, nós próprios, na nossas buscas e brincadeiras musicais, nos nossos ensaios, às vezes navegamos para estilos diferentes, às vezes mais para o surf, outras um bocadinho mais para o rhythm & blues, outras mais para o soul… mas não nos prendemos a nenhum género em particular. Prendemo-nos àquilo que somos.

T.G. – Nos Lola Lola, as influências são mundiais. As influências entre bandas, desde o passado, é uma corrente sem fim. Como uma rede, tudo se influencia. Os Tornados cantavam em português, estávamos ligados ao movimento yé-yé e ao rock’n’roll em Portugal. Nos Lola Lola, cantamos em inglês… é bastante diferente.

G. – Como é que decidiram entre cantar em inglês versus cantar em português?

T.G. – Embora seja a Carla quem escreve as letras, penso que tem que ver com os imaginários e com a forma de escrita/expressão em que o vocalista se sente mais à vontade. Enquanto que, para alguns, escrever em inglês é difícil ou até mesmo impossível, para outros acontece o contrário. Pela forma como a Carla gosta de escrever, fez mais sentido para nós fazê-lo em inglês.

C.C. – Não foi uma opção do tipo: “Agora só vamos cantar em inglês.” Para mim, é mais natural escrever em inglês e acho que isso tem muito que ver não apenas com toda a música que ouvi até agora, mas também com a literatura que eu escolhi ler na versão original. Tudo isto influenciou muito a minha forma de escrita.

G. – Como surgiu o nome Lola Lola?

C.C. – Lola Lola é uma personagem do filme O Anjo Azul, interpretada pela Marlene Dietrich. É uma personagem icónica: Lola Lola é uma cantora de cabaré, uma man-eater, uma quebra-corações. Também me cativa o seu “ambigénero” – gosta muito de se vestir de homem mas é muito feminina. Todo esse jogo de sedução é intrínseco à história de uma personagem que por querer, ou sem querer, (não se sabe) decide arrasar corações. O que é mesmo interessante é a narrativa, a história de uma vida. Muitas das nossas músicas são também narrativas, histórias que aconteceram, histórias que se imaginaram. Muitos dos temas têm personagens que, não sendo a Lola Lola, possuem caraterísticas dela.

G. – A vossa nova música “Killed a man in the field” vem acompanhada com um videoclipe que nos transporta para o mundo dos Velho Oeste dos Estados Unidos da América. Porquê a escolha deste ambiente?

C.C. – Muitas vezes, as nossas músicas nascem de uma melodia. Quando surge uma melodia que agrada a todos, começamos a pensar na letra. Este é o nosso método mais usual. Pego num bloco e pergunto-lhes: “Então esta música é sobre o quê?” E eles fazem sempre aquela cara de “oh, lá vem ela!”. Em “Killed a man in the field”, lembro-me perfeitamente de ter sido o Tiago a responder: “É uma paisagem.” Há palavras que me fazem surgir imagens e histórias. Por isso é fácil para mim escrever letras. Claro que depois há uma escolha de palavras, de métrica, mas isso é outra história… Esta música foi exatamente assim: vi o campo onde isto tudo aconteceu e foi a partir daí que escrevi. A gravação, como em todos os nossos singles, foi uma decisão do momento. Embora “Killed a man in the field” não tenha sido pensada para ser o 4.º single, de repente só podia ser esta! Era a que fazia sentido para representar o momento pelo qual estávamos a passar.

G. – Falem-me um pouco do videoclipe.

C.C. – No contacto com o Rodrigo Areias, realizador do vídeo juntamente com Susana Abreu, ele interessou-se muito com o nosso processo de gravação pelo facto de ser em fita, isto é, o que se grava é num take, sem “corta e cose” digital. Decidir gravar um novo take implica abandonar o anterior, havendo uma constante ponderação se “é este que fica?”. Esta forma de gravação aproxima o público daquilo que acontece no estúdio. Quando o Rodrigo Areias soube deste processo, ficou interessado no desafio artístico de gravar o vídeo em fita super-8. A partir do momento em que a fita está queimada já não dá para voltar atrás, nem sequer podem voltar para trás e gravar por cima. Disse-nos: “Tenho aqui uns minutos de fita. Quanto tempo tem a vossa música?” Ficou tão entusiasmado com o desafio criativo que só ouviu a música depois de dizer que sim. Quando ouviu a música, fez todo o sentido, fechou-se um ciclo, e a sua estética foi ao encontro do que nós próprios tínhamos em mente. A única coisa que o Rodrigo Areias me pediu foi que eu tivesse um vestido igual ao da capa do disco – ilustração de Rui Ricardo. A gravação do videoclipe teve a participação do Tiago André Sue (com quem contracenei) e fez-se na Reserva Natural do Estuário do Douro que e é uma área protegida. Tivemos autorização para podermos gravar lá e fomos sempre acompanhados por um técnico que nos informava sobre os locais onde podíamos andar.

Capa do novo disco dos Lola Lola, Killed a Man in a Field

G. – O que é que este novo disco tem de diferente relativamente aos lançamentos anteriores?

C.C. – Tem muita coisa nova. Primeiro, pela experiência musical em si, pelo estilo onde flutua. Outra coisa importante foi a mudança de editora. Lançámos os nossos três primeiros singles com a Sleazy Records, espanhola. A primeira vez que sentimos uma sinergia com uma editora, num sentido estético, enérgico e criativo, foi com atual editora, a Chaputa! Records que é portuguesa. A banda sentiu-se atraída por esta editora e vice-versa, acho que isso se nota no produto final.

T.G. – Para nós, é importante “fotografar” o momento da banda, escolhendo as músicas que melhor retratam esse momento. Queremos imortalizá-las em formato disco. Este disco é o nosso amor atual. Olhamos para os amores passados e sentimos sempre que foram momentos importantes para a banda, momentos que tiveram de ser eternizados. Em Killed a man in the field, não há uma inovação em termos conceptuais, a diferença surge pelo facto de traduzir um momento de vida diferente.

G. – Os membro da banda são músicos a tempo inteiro? Como se coordenam?

T.G. – Só o nosso saxofonista, Rui Teixeira, é exclusivamente músico. Eu e a Carla somos professores, o Miguel (baixo) é de design e o Hélder (bateria) de Direito. Não é muito fácil conciliar, mas se houver motivação o tempo aparece. Para aquilo que produzimos, agimos de forma muito emotiva, não tomamos opções de forma estratégica. Se este espírito passar para o público, é muito gratificante. Enquanto conseguirmos e enquanto quisermos, vamos continuar a fazer música, pelo prazer que a música nos dá em primeiro lugar, a arte pela arte, divulgando depois o resultado.

C.C. – Às vezes as pessoas que estão fora destas vidas artísticas não têm noção do trabalho que dá o processo criativo. Presumem que o nosso trabalho fora da música nos permite ter muito tempo livre, ou então que música não dá trabalho nenhum. É exatamente o contrário. Embora tenhamos uma vida profissional (fora da música) muito preenchida, tiramos tempo do descanso para fazer música – é algo que não conseguimos deixar de fazer. Não é fácil mas é muito gratificante, senão não o fazíamos. É esse trato que temos. Faremos música enquanto nos divertirmos, enquanto nos der prazer, exatamente com os moldes que nós queremos, de uma forma muito honesta, muito nossa, e tudo isso enquanto quisermos.

Texto de Maria Costa
Ilustração de Rui Ricardo

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