A autora Lara Mesquita venceu a 1.ª edição do prémio Nova Dramaturgia de Autoria Feminina com a obra Sempre que acordo, uma obra em que duas mulheres negras fazem um inventário do trauma do racismo português, numa partilha íntima de biografias, com recurso a provocações intelectuais direcionadas para o leitor.

De acordo com a organização não-governamental Centro Internacional de Mulheres Dramaturgas, 70% das peças produzidas anualmente no mundo são de autoria masculina. O Prémio Nova Dramaturgia de Autoria Feminina, que integra o programa do Esta noite grita-se, um festim de leituras interpretadas por atores profissionais - cuja 5ª edição, é exclusivamente dedicada à criação dramatúrgica no feminino -, foi criado para celebrar as obras criadas por todas as pessoas que se identificam com o género feminino, sejam cisgénero ou transgénero, com ou sem obra prévia editada. Na primeira edição, a grande vencedora foi Lara Mesquita com o seu texto Sempre que acordo.

Num universo de 119 candidaturas, o júri, constituído por Cláudia Lucas Chéu, Miguel Castro Caldas e Rui Pina Coelho  elegeu "Sempre que acordo", uma obra onde duas mulheres negras inventariam o trauma do racismo português, numa partilha íntima de biografias, com recurso a provocações intelectuais direcionadas ao leitor. Segundo o júri, e que se pode ler no site do Esta noite grita-se, "A escolha de Sempre que Acordo recaiu essencialmente sobre dois aspetos. O texto demonstra ter uma ideia de teatro, destacando-se a autora das demais candidatas. A autora de Sempre que Acordo é audaz na forma como aborda “o elefante na sala” da falta de representatividade de negros na produção profissional no teatro português. Esta obra dialoga transversalmente com a ausência de um discurso racializado no teatro português. Fá-lo de forma frontal, do ponto de vista de uma primeira pessoa, dando conta do racismo estrutural, evidente na experiência da autora como artista."

Miguel Maia e Filipe Abreu, responsáveis pelo Esta noite grita-se, referem a dificuldade que têm em encontrar um "equilíbrio do género autoral porque as opções de escolha são muito reduzidas no que toca a dramaturgas". Segundo os responsáveis, "somente através do estímulo à criação será possível mudar esta realidade e garantir que mais mulheres artistas arriscam e publicam os seus trabalhos. De acordo com o International Centre for Women Playwrights, ONG que se dedica ao estímulo do trabalho das mulheres dramaturgas, 70% das peças produzidas anualmente no mundo são de autoria masculina. Na edição de obras o número ainda desce mais - em Portugal estimamos que menos de 15% dos textos editados são de mulheres. Este panorama em nada favorece a diversidade e a riqueza da produção artística, impedindo a inovação trazida pelo olhar feminino de criadoras que, sem um estímulo adequado, continuam a estar arredadas dos circuitos necessários para a divulgação das suas obras".

O prémio Nova Dramaturgia de Autoria Feminina, no valor pecuniário de 500€, é acompanhado pela edição em livro numa parceria com a editora Douda Correria e pela leitura pública que encerra a programação do Festim, nos dias 16, 17 e 18 de julho, pelas atrizes Rita Cruz e Zia Soares, na Biblioteca do Palácio Galveias, Fábrica do Braço de Prata e Biblioteca de Marvila, respetivamente. 

Lara Mesquita, vencedora da 1ª edição do Prémio Nova Dramaturgia de Autoria Feminina

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia disponível via Unsplash
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