Vivemos dias difíceis e estranhos. À crise de saúde pública soma-se a paragem da economia. O confinamento pode isolar-nos e os cancelamentos e despedimentos deixam para trás quem está mais vulnerável.

Para tentarmos combater todas as dificuldades e identificar problemas e desafios será bom aproveitar a estranheza e a distância com que agora conseguimos olhar para o que nos rodeia. A estranheza desta situação inédita acicata a curiosidade e a atenção, como quando estamos a visitar um lugar estrangeiro. A distância do corrupio quotidiano, que faz da aceleração de tempo uma cortina de fumo, facilita a focagem, como quando se afasta um livro dos olhos para se conseguir ler. Verfremdungseffekt é o nome – sem tradução, segundo dizem –  do ‘efeito’ artístico através do qual o encenador e dramaturgo Bertolt Brecht procurava a postura atenta, estrangeirada ou distanciada do público perante uma peça de teatro, seguindo a ideia de ‘desfamiliarização’ dos formalistas russos, cunhada em 1917 por Viktor Shklovsk. O momento que vivemos pode ser uma oportunidade de ‘verfremdungseffekt’ que não devemos desperdiçar. Por isso, nesta e nas crónicas que se seguirem, procurarei partilhar alguns invisíveis que agora nos saltam aos olhos, propondo alguns focos de atenção para a discussão dos temas da economia da cultura.

Crises

O estado de sobrevivência não é estranho para algumas pessoas que se dedicam às artes. Não é fácil trabalhar projeto a projeto, viver na intermitência e receber pouco pelas coisas extraordinárias que faz. Talvez não tenhamos dado tanta importância quanto devíamos, e por isso não existem em Portugal regimes de intermitência, à exceção de algumas medidas que pouco ou nada se aplicam, ou um estatuto do/a trabalhador/a das artes em Portugal. Muitos/as acharam que o mercado sempre recompensaria os bons e não se quiseram organizar.

Vemos agora com mais nitidez, conhecidos os casos de quem ficou sem nada depois dos cancelamentos, de quem não tinha atividade aberta ou contribuições estáveis, de quem não teve rendimentos que possam dar direito a prestações sociais que se vejam, de quem complementava o rendimento com atividades no setor do turismo e recebia por baixo da mesa, a necessidade de combater a precariedade estrutural neste setor de atividade. Vemos também que as medidas extraordinárias de apoio até agora anunciadas são insuficientes e devem ser alargadas porque não há mão invisível do mercado que nos valha num mundo em turbulência, que é este, com ou sem pandemia.

Os tempos exigem solidariedade ao alto. Sabemos que, como tendência geral, o trimestre passado, o do inverno, seria pior do que aquele que viria agora, porque em muitos casos é com o bom tempo que se trabalha mais. Isto significa que muitos dos que trabalham no setor não têm reservas. Sabemos também que está aí a crise económica e a eurocracia da austeridade não cede. Já vimos este filme: a cultura sofre primeiro com a diminuição geral dos rendimentos e com os cortes orçamentais – primeiro os específicos da cultura e depois os gerais. Por tudo isto queria aqui repetir uma frase que tenho lido nas redes sociais e que me parece clarividente: ‘Nada deve voltar ao normal, porque o normal não estava a funcionar’.

Solidariedades

Posto este cenário, a dádiva de todos quantos têm feito concertos e performances ao vivo a partir de suas casas é impressionante. Continuar a criar, a ter acesso ao que se cria e a ter a experiência ‘ao vivo’, ainda que sem a presença — e não devemos diminuir o papel da presença em grande parte das experiências artísticas — é importante em tempos de confinamento e o número de visualizações está aí para o confirmar.

A quantidade de ‘livestreamings’ faz parecer que a cultura continua, mas o facto é que há uma grande parte que parou. Não podemos visitar museus e monumentos, ir a espetáculos ou até a livrarias. Isto significa, novamente, que há pessoas em estado de grande vulnerabilidade.

Solidariamente, os e as artistas assumiram responsabilidades de saúde pública e repetiram-nos que é para ficarmos em casa. Mais do que nos proporcionarem os seus conteúdos – o cerne do problema não está nos conteúdos porque em casa podemos, sem grandes custos, ler um bom livro, ouvir um álbum bem gravado, ou ver um bom filme – estabeleceram com o público uma proximidade capaz de transmitir conforto em tempos de incerteza.  Contudo, há uma expressão de solidariedade que ficou a faltar nestes ‘festivais’ (espero que haja exceções de que não tenho conhecimento). Há que não esquecer que não se fazem festivais de música ou artes performativas sem equipas técnicas, sem iluminadores/as, engenheiros/as, técnicos/as e operadores/as de som, riggers, stagehands, produtores/as, roddies, etc. Onde ficou a solidariedade com estas pessoas?

-Sobre Amarílis Felizes-

Economista, profissional de bastidores (produtora, diretora de cena, stagehand) e espectadora de teatro aficionada, Amarílis é doutoranda em Economia Política (ISEG, ISCTE e FEUC) e coordenadora de produção da companhia de teatro Visões Úteis, no Porto. Entre 2015 e 2018, trabalhou na Assembleia da República como assessora política do Bloco de Esquerda e, nessa altura, fez também o mestrado em Economia e Políticas Públicas no ISEG, que culminou na dissertação “Política Cultural em Portugal – Determinantes da Despesa Publica em Cultura”. Aos 17 anos, encenou a sua primeira peça de teatro, a que se seguiram outras encenações com grupos de teatro juvenil e um percurso de estudo e participação em vários projetos de Teatro do Oprimido.


Texto de Amarílis Felizes
Fotografia de Inês Tavares