A partir das 21h00 do dia 18 de Abril, poder-se-á assistir à peça Lear, de Bruno Bravo, a partir de Rei Lear, de William Shakespeare, na Sala Online do Teatro Nacional D. Maria II.

Lear, perante a consciência da velhice, divide a herança pelas três filhas. Para o encenador, Rei Lear evoca o discurso de abdicação de Bento XVI. A abdicação de tais lugares não é esperada, pois estes são tomados como fixos até à morte. Bravo, em declarações ao Público partilhou que “é uma coisa sem precedentes, muito moderna, muito bonita, de um rei que quer largar o reino, um rei que quer ser homem – porque um rei nunca é um homem”.

Contudo, o pai cobra-lhes tal gesto, pedindo-lhes uma declaração de amor, a partir da qual elegeria a que receberia uma maior recompensa. A mais nova, Cordélia, não consegue expressar o que sente, encontrar a tradução verbal do que é de outra ordem, ao contrário das demais, Goneril e Regan. Acaba por dizer: “nada”. Enquanto que as outras recebem terras e bens, Cordélia é castigada. “A verdade, no sentido mais puro, mais inocente e mais razoável, é uma zona que não tem lugar na sociedade e nas relações humanas”, reflecte o encenador, no mesmo jornal. A decisão da mentira é da ordem da recompensa, do que virá, e não tanto do presente, da solidão do sujeito.

Bruno Bravo aponta também outra possível motivação desta posição do rei perante Cordélia, a política, uma vez que esta é um jogo onde a verdade perde. Assim, Cordélia não estaria preparada para assumir o trono.

Aquele “‘nada’ assombrará para sempre o longo poema Rei Lear, de Shakespeare. Os filhos matam os pais, que matam os filhos. Anuncia-se o princípio e o fim das coisas – com coros e tempestades”, lê-se na sinopse.

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Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Fotografia de Filipe Ferreira