A partir de hoje, sempre à segunda-feira e quinzenalmente, o Dário Moreira elogia um livro escrito em português. Arrancamos hoje com O Pintor debaixo do Lava Loiças, do Afonso Cruz. O escritor é um herói, mas o livro é que veste a capa, disse o Dário Moreira.

O Pintor Debaixo do Lava-Loiças 

Leitor, os títulos dos livros têm uma importância discutível: há bons títulos que moram em maus livros e há bons livros que moram em maus títulos. Sim, ainda há também os bons livros que ousam ter bons títulos.

O primeiro livro que li do Afonso Cruz chama-se “Para onde vão os guarda-chuvas” e foi publicado em 2013. Lembro-me de lhe pegar e de ficar intrigado com a capa. Só depois senti necessidade de ler a sinopse e as informações do autor. Até aí, Afonso Cruz era-me completamente desconhecido. Demorou cerca de um ano até ler esse livro. É incrível como, às vezes, as melhores coisas se encontram tão perto de nós, pacientemente pousadas na nossa mesa-de-cabeceira.

Faço este caminho para explicar que esta crónica tem o título do livro a que me vou referir, exactamente porque a história é mesmo essa: um pintor eslovaco que, devido ao nazismo e às perseguições constantes da PVDE (uma das ocupações desta polícia era investigar a presença de estrangeiros em território português), se esconde debaixo de um lava-loiças em casa dos avós do Afonso Cruz.

Quando folheamos as 176 páginas, encontramos um lugar duro, onde a ficção e a realidade se abraçam. Não é um mundo perfeito. Nunca será. Há, dentro de cada ideia, uma procura constante pelo propósito da vida, uma urgência que podemos trazer até nossa casa. Importa ainda dizer que esta não é uma história (como existem tantas outras) sobre a perseguição nazi, é muito mais do que isso. Há uma relação entre texto e imagem que não nos tira a liberdade de imaginação, antes pelo contrário, oferece-nos auxílio nessa descoberta.

Jozef Sors, o protagonista, é completamente apaixonado por Františka. Vive um amor quase cego, desenha olhos fechados e olhos abertos em dois livros com esses mesmos nomes. Sors não era feliz, procurava contornar a realidade desenhando o mundo que lhe interessava: “Tinha vocação para desenhar o mundo. Para redesenhar o mundo, que é isso que se faz de cada vez que se desenha o mundo”, lê-se na pág.29.

É bom descobrir, nesta obra, pontos em comum com outros livros do autor. A confrontação com o desprezo pelas coisas importantes a que não damos importância, a urgência de viver e de nos lembrarmos da morte, a ingenuidade da condição humana, a maldade onde mergulhamos, a complexidade do amor. Essas preocupações estão presentes nas palavras do texto. Provavelmente, irão estar sempre.

Talvez a melhor forma de recomendar este livro seja revelar uma das frases que mais me marcou a pele (em forma de arrepio, não de tatuagem): “Por vezes é uma viagem muito mais difícil: chegar a quem está perto”, que já se lê no Epílogo. Ler nem sempre é uma viagem fácil, ó leitor, mas os bons livros acompanham-nos na vida, levam-nos a lugares verdadeiramente desconhecidos, improváveis, como a um espaço debaixo do lava-loiças.

“Sors pensou: é triste que só se viva quando se tem um abismo debaixo dos pés. Seria perfeito se pudéssemos sentir a mesma coisa deitados num sofá”.

Se estivermos realmente no sofá, podemos afastar a almofada, procurar uma posição que nos seja confortável, ler este livro, pousá-lo, e cair para dentro da história. Vamos permanecer aí, certamente. E para quê voltar? A tristeza no mundo de Sors é maravilhosa.

Dário Moreira