Era o escriba ainda aprendiz de feiticeiro – embora já trabalhasse como assistente estagiário na faculdade, vivia ainda na “pensão da família”, a casa dos pais — quando se viu afligido por uma incómoda hepatite A (das “boas”) que o obrigou ao descanso sem sair do quarto durante três semanas.

Naqueles tempos assim se tratava a doença em causa. Chá de boldo, dieta de cozidos e grelhados, proibição absoluta de álcool. Medicamentos poucos. E sobretudo repouso, muito repouso.

O que acontecia era que eu namorava e a infeliz situação deu-se relativamente próximo da quadra do carnaval, quando tínhamos combinado um programa fora de Lisboa com um casal de bons amigos, na casa de família de um deles, em Portimão.

De facto, o sábado de carnaval era mesmo, mesmo, na semana seguinte a acabar o período de estágio forçado.

A imprudência aconselhava a aproveitar aquele programa onde os avós nos esperavam no Algarve. A sensatez era totalmente oposta. E a “gerente” da pensão familiar nem sequer queria ouvir falar daquela “parvoíce”.

Para agravar a matéria eu fazia, naquela altura, judo de competição, os campeonatos aproximavam-se e, para não perder a forma, já que não podia treinar, devia pelo menos fazer ginásio.

Escondi os “pesos” debaixo da cama e sempre que ouvia bater a porta de casa lá saltava para o chão a praticar até que a porta batesse outra vez.

Depois de muita conversa convenci os progenitores a ir mesmo para o Algarve passar o carnaval – já que teoricamente estava fora do período de descanso obrigatório – mas não sem levar enxurrada valente de recomendações sobre o que devia e não devia comer. Ou beber…

Mas o que me esperava era uma casa de família tradicional, onde se comia muito bem.  Uma daquelas casas onde parece que o frigorífico não tinha sido inventado. Todos os dias a dona de casa ia ao mercado do peixe e ao talho. E como tinham uma quintinha nos arredores, tudo o que não era conduto vinha de horta própria.

Almoços e jantares a sermos tratados como reizinhos, com as ameijoas cristãs abertas em vapor, a sopa de cabeça de peixe, os choquinhos fritos com tinta, o xerém de ameijoa, o polvo no forno, a pescada assada, e por aí fora…

Foi ali que percebi que a tradicional receita de carne de porco com ameijoas é algarvia de raiz, e não alentejana. Alentejana é a carne do porco utilizada para a confecionar, superior à local, de onde terá surgido o erro muito comum nesta denominação.

Estávamos numa altura em que o vinho do Algarve com mais cotação era o de Lagoa (sobretudo os brancos) e o típico vinho de Tavira. Tinham elevada graduação alcoólica por causa do calor e da dificuldade em manipular as massas vínicas sem técnicas modernas de refrigeração.

E a rainha dos digestivos era a incomparável aguardente de medronho de Monchique, da Água da Sola ou de outro fornecedor serrano respeitado. Também ela com um grau muito respeitável. Já para não falar da “melosa” uma espécie de licor onde se juntava à aguardente de medronho o limão, a canela e o mel. Esta “melosa” devia ser presa pois parecia de tal modo inofensiva na garganta que quando dávamos pela euforia já era tarde…

Conclusão desta aventura insensata: quando cheguei a Lisboa fiz outra vez análises e como consequência o fígado estava ainda pior do que da primeira vez do confinamento. Toca a ir mais três semanas para o quarto. Cozidos, grelhados e chá de boldo. Lá se foi o campeonato …

Quem levou com a culpa da reincidência foram os halteres que a minha mãe descobriu debaixo da cama., pois eu jurei e trejurei que no Algarve tinha tido muito juízo mesmo…pelo menos não tinha treinado outros músculos que não os masséteres (os que levantam a mandíbula).

Esta estória de há quarenta anos faz-me lembrar a nossa vida atual.

Et pour cause

-Sobre Manuel Luar-

 de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho 
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