Lena d’Água celebra 45 anos de carreira com o lançamento do novo “Robot”, gravado ao vivo com a sua banda Desalmada (Sérgio Nascimento, Francisca Cortesão, Mariana Ricardo, João Correia, Luís Nunes, António Vasconcelos Dias) e um novo vídeo. “Hoje em dia estamos todos agarrados aos ecrãs e, na altura, apesar de só haver um canal de televisão, o Luís Pedro já sentia que havia ali um ‘agarranço’ ao ecrã”.

“Olha o robot / É prò menino e prà menina / Olha o robot / Trabalha muito e gasta pouco // Olha o robot / É muito útil pra quem manda / Olha o robot / Está pronto a ser programado.” Quem não trauteou já os versos icónicos de “Robot”, uma das canções que se tornou num dos marcos mais importantes na carreira de Lena d’Água e na história da música pop portuguesa dos anos 1980?

Para celebrar os 40 anos desta canção, bem como os 45 anos de carreira de Lena d’Água, foi editada uma nova versão ao vivo do “Robot”, com um vídeo criado por Andreia Costa e Carla Martinez que já está disponível nas plataformas digitais.

“Sem Açúcar”, “Perto de Ti”, “Demagogia”, “Sempre que o Amor me quiser” e, mais recentemente “Hipocampo” fazem parte da lista de músicas que fazem de Lena d’Água um ícone da música portuguesa, no entanto, para celebrar os seus 45 anos de carreira, foi a música “Robot” a escolhida para marcar a festa. 40 anos depois de ter sido apresentada ao mundo, com letra de Luís Pedro Fonseca e música de Zé da Ponte, a cantora escolheu-a na versão que apresenta ao vivo com a sua banda Desalmada, os músicos com quem, em 2019, gravou “Desalmadamente”, o seu mais recente álbum de originais. Recentemente, este álbum recebeu o Prémio José Afonso, tendo o júri referido que “Lena d’Água demonstra uma capacidade vocal impressionante. Além de premiar o disco, premeia-se também a carreira da cantora Lena d’Água e a sua enorme capacidade de se reinventar”. “Desalmadamente” foi ainda considerado o Melhor Álbum Nacional de 2019 pela Blitz e Antena 3 e Lena d’Água foi distinguida com o Prémio da Crítica e considerada a Melhor Artista Feminina, nos Prémios Play da Música Portuguesa 2019.

Em entrevista ao Gerador, Lena d’Água relembrou como começou o seu percurso, algumas histórias destes 45 anos, a sua passagem pelo Festival da Canção e pelo Big Brother Famosos, e a atualidade da música “Robot”. Lena viajou ainda pela importância das memórias e deixou um conselho aos mais novos: “É importante sonhar, sim, mas não muito alto, para não nos desiludirmos e sofrermos tanto. Vamos fazendo devagarinho, um pezinho à frente do outro.”

Gerador (G.) – A Lena queria ser cantora?

Lena d’Água (L.D.A) – Não, nunca me passou isso pela ideia, eu era muito tímida. Lá em casa toda a gente cantava, o meu pai, a minha mãe, a minha irmã, o meu irmão, e eu, mas não era nada de especial. Havia, sim, muita música que o meu pai trazia das viagens com o Benfica, e trazia muito Nat King Cole, Frank Sinatra, ele era fã do nosso Tony de Matos, e cantava bem, muito bem. Mas nunca me passou pela cabeça que ia acabar em cima de palco a fazer algo para os outros verem.

G. – Por isso optou por começar pela Sociologia…

L.A. – Sim, mas estava no primeiro ano quando acontece o 25 de Abril, estávamos a acabar o primeiro semestre, nesse ano as aulas tinham começado muito tarde, em novembro, já estava tudo muito estranho. A seguir ao 25 de Abril, não tínhamos professores, não havia aulas, jogava-se xadrez, damas e cartas, o que existia eram passagens administrativas e para mim aquilo não servia. Desisti completamente da Sociologia e, em 1975, matriculei-me para continuar a estudar no curso do Magistério Primário, o atual Instituto Superior de Educação.

G. –Mas nunca estudou música?

L.A. – Não. Quer dizer, tive uma professora de piano, mas já era uma mulher, já estava na casa dos 30 e, finalmente tive dinheiro para comprar um piano acústico vertical, porque não havia mais espaço. Tive aulas durante dois ou três anos, aprendi a ler e foi um grande prazer para mim, mas não foi mais do que isso. Na altura já tinha cantado com os Beatnicks, tinha feito a Salada de Fruta e a Banda Atlântida, só tive essa professora já depois disso tudo acontecer, mas não foi para me acompanhar, sempre tive músicos melhores do que eu. Preferi limitar-me a cantar. Apesar de me sentar de vez em quando ao piano, o único instrumento que usei em palco foi a pandeireta. Adorava, e adoro, tocar pandeireta. Também cheguei a cantar um tema interpretado pela Melanie Safka – o primeiro tema que aprendi a tocar na viola quando era miúda – numa das minhas idas ao Rock Rondeau Vouz, com a Banda Atlântida: no encore  voltei sozinha com a minha guitarra e cantei o Ruby Tuesday - o primeiro tema que aprendi a tocar na viola quando era miúda. Também foi o primeiro que tive coragem de mostrar a um dos meus amigos lá da rua do Bairro de Santa Cruz. Mas de resto, deixo as guitarras para os guitarristas e os teclados para os pianistas e teclistas. De vez em quando, pego numa guitarra para lembrar algumas coisas, aqui em casa, como uma gracinha.

G. – A Lena foi uma das primeiras mulheres em Portugal a integrar uma banda de rock como vocalista. Tinha noção do que isso implicava e do caminho que estava a abrir para as outras mulheres?

L.A. – Não tinha, simplesmente aconteceu. Quando eu entrei como segunda vocalista, a banda já estava formada, já havia um vocalista. Eu namorava o viola baixo da banda, estava grávida, ia muitas vezes aos ensaios, e gostava muito de fazer as segundas vozes, por isso, um dos músicos às tantas disse que eu devia começar a fazer concertos com eles. Mas estava à espera de bebé nem pensei que seria algo sério. A Sara nasceu nesse ano, em 1975, e, em 1976, fiz o meu primeiro concerto com os Beatnicks, essencialmente como segunda voz, mas também tinha umas três ou quatro músicas em que era eu que cantava. E foi assim que tudo começou, muito sem querer.

G. – Ao longo do seu percurso, fez vários tributos e trabalhou com vários artistas, criando várias ligações, uma delas com o António Variações…

L.A. – Ele tinha uma intuição gigante e uma sensibilidade incrível. E acho que isso é algo que nasce connosco e não se gasta. Na altura, o António era mais velho do que nós, ia fazer quarenta anos, e nós tínhamos vinte e tal, achávamos que ele era bastante velho. No trato pessoal, ele era como se fosse da minha idade e era de uma ternura, muito ternurento, encontrávamo-nos muitas vezes, tínhamos encontros sem serem marcados por nós, e ele sempre que me via, principalmente no estúdio, chamava logo por mim, “Águinha!”, era de uma doçura e delicadeza. Na forma de vestir, na rua e no palco, parava o trânsito. Uma vez, no Marquês de Pombal, ele vinha todo vestido de branco, com capa, botas altas e um chapéu, parecia que tinha vindo de um quadro renascentista, e os carros pararam todos e começaram a apitar. Mas depois, no trato, era a pessoa mais simples e mais querida. Tenho muita pena de que não tenha tido mais tempo. Era um artista gigante!

G. – Depois de 45 anos, a sensação de entrar no estúdio para gravar um disco ainda é a mesma ou, pelo contrário, perde-se o encanto?

L.A. – Não, não se perde o encanto. O último disco que tinha gravado foi em 2014, com umas versões em rock ’n’ roll puro e duro, o “Carrossel”, num estúdio de um amigo. Desta última vez eram originais. É um encanto! Eu não consigo compreender como é que há artistas que fazem discos todos os anos, e aí, talvez, a coisa entre mais na criação industrial, mas quando estás não sei quantos anos sem gravar, o regresso ao estúdio é incrível. Na gravação do Desalmadamente, (no mesmo estúdio da Valentim de Carvalho onde eu me encontrava com o António nos anos 80) às vezes tínhamos de parar, porque me comovia e não conseguia cantar. Quando começámos a fazer os concertos com as novas canções, eu também me comovia em palco. Isso de vez em quando é tremendo. Fiz, durante anos, concertos só com pianista ou guitarra, e houve uma altura em que resolvi meter a música do João Gil, do soneto da Florbela Espanca, e tive de parar, chorava compulsivamente. Bateram imensas palmas, todos muito comovidos. Acontece-me muito. Para mim, a música é uma coisa que me comove até ao mais profundo da minha alma.

G. – Nos anos em que esteve mais parada, nunca pensou em desistir da música?

L.A. – A minha filha bem me chegou a perguntar porque não arranjava um trabalho, mas não cheguei a fazer isso. Ia sempre aparecendo qualquer coisa. Tinha sempre mais um concerto com piano ou um casino com três músicos, com a minha família do jazz. Eu gosto muito de passarinhar e fazer coisas diferentes. Fiz também dois discos para crianças. Sobre o meu curso do Magistério, por exemplo, eu podia ter sido professora do ensino básio, mas na altura em que acabei o curso, foi um curso-piloto, não conseguia conciliar crianças, aulas e rotina das escolas com o trabalho que estava a começar a fazer em estúdio. Comecei a ser ouvida a cantar nos Beatnicks e um produtor telefonou-me a convidar para gravar coros para alguns artistas, como o Marco Paulo, António Calvário, Carlos do Carmo e também jingles de publicidade. Mas não era possível conciliar crianças, aulas e a rotina das escolas com o trabalho que estava a começar a fazer em estúdio. E eu já estava a começar a ganhar algum dinheiro fora dos Beatnicks, porque com eles era só quase para a gasolina, não dormíamos nos sítios, voltávamos sempre para casa, já de madrugada, a cavalo no material – eu não, que vinha sempre à frente.

G. – Talvez seja por isso que tantas bandas dessa altura ficaram pelo caminho…

L.A. – É também muito uma seleção natural. Quando descobres uma outra vocação ou não ganhas dinheiro e queres fazer família, tens de escolher. Porque isto é muito romântico e muito belo, mas pode não dar. Manter uma banda é difícil, principalmente nos anos 80, com o boom de bandas. As pessoas começaram a dar-se mal e há sempre a história dos egos.

G. – Imaginava-se a dar concertos aos 64 anos?

L.A. – Quando tens 23 anos, nunca imaginas acordar uma manhã e de repente tens 60 anos, mas é sinal que estás viva. Nunca pensei reformar-me e deixar a música. E, como a minha voz tem sido minha amiga, a minha memória não tem falhado, e a minha maneira de ser nunca foi embora, continuo aqui. Tenho uma energia que preciso de canalizar, e um palco é um sítio de excelência para canalizar uma energia que é boa. Aquilo que nós fazemos é dar ao público, mas aquilo também nos alimenta. Nunca pensei, a não ser que fique muito doente ou a voz me abandone. Podia dar umas aulas de voz, ou voltar à ideia que tive depois do 25 de Abril, de ser professora de crianças, mas não, ainda tenho mais concertos e discos para gravar.

G. – A música “Robot”, que agora renasceu, era uma sátira à sociedade que começava a nascer na altura?

L.A. – Sem dúvida. Hoje em dia, estamos todos agarrados aos ecrãs e, na altura, apesar de só haver um canal de televisão, o Luís Pedro já sentia que havia ali um “agarranço” ao ecrã, assim como os Táxi dizem do, “mastiga e deita fora” e “consumo imediato”. Estás agarrado ao ecrã e deixas de pensar pela tua cabeça, serves para entrar no sistema do trabalho e ser mais uma peça na engrenagem. Os Pink Floyd também falaram sobre isso com o Another Brick in the Wall. Estes anos 80 foram anos em que se começou a abrir a consciência para o estado das coisas. Fizemos aquele vídeo, sem budget e sem planeamento. Quando fizemos um concerto, que ficou muito famoso no aniversário do Jornal 7, o semanário de música, o Luís Pedro teve a ideia de encenar essa música pondo um amigo nosso de óculos escuros, chapéu e fatinho, sem se mexer, a olhar para um ecrã. Ele era um visionário por abordar a questão. E ao fim de 40 anos é como estamos.

G. – Esteve três vezes no Festival da Canção, e numa das suas músicas, “Grande Festa”, diz que ainda vai ganhar o Festival. Ainda há um regresso?

L.A. – Não. No ano passado, ainda participei uns vinte segundos, numa banda que o Samuel Úria fez com vários cantores. Mas voltaria para atuar como convidada especial, com a minha banda, estou à espera do convite há algum tempo. Como participante, não. Por exemplo, houve alguns que só tinham um intérprete, acho que foi com o Carlos do Carmo, escolhe-se um intérprete, e é a mesma pessoa que interpreta todas as músicas. Se for assim, sim, mas duvido que isso volte a acontecer, há muita gente boa a cantar.

G. – No seu percurso houve uma participação de quinze dias no Big Brother Famosos. Porque decidiu participar e como foi a experiência?

L.A. – Foi incrível! Eu tinha visto logo o primeiro e fiquei muito agarrada à experiência. No segundo, fui eu que liguei para a produção a perguntar se ainda tinham vagas, se a casa de banho tinha câmaras, se havia bidé. Mas é uma experiência muito intensa, passava-me com algumas coisas. Fui convencida de que íamos fazer reciclagem, e o pessoal não era nada assim. Cada vez que encontrava uma garrafa de plástico no sítio errado, mandava um berro. Sou terrível. Comecei a receber nomeações logo na segunda vez. Ainda chorei duas ou três vezes, porque dá uns nervos terríveis. É uma experiência de laboratório. Na altura, fui com o cachê mais baixo que havia, uns 500 contos por semana, e não era obrigada a fazer nada, era só estar ali e viver. Estava a fazer o tributo à Billie Holiday, mas não dava dinheiro, e eu pensei: “Vou mas é para ali!”

G. Nestes 45 anos também coube um livro de poesia e um livro sobre o seu pai. Ainda cabe uma autobiografia?

L.A. – Claro, e já comecei a tirar apontamentos. Lembro-me de episódios e vou escrevendo, se me sentar de propósito para o fazer é mais difícil, não me sai nada, por isso, arranjei um caderno e sempre que me vêm as memórias de episódios assim muito fora, aproveito logo, para depois fazer um macramê.

G. – Na música “Hipocampo”, diz “sou do hipocampo e há tanto campo em mim”. São essas memórias?

L.A. – Eu gosto desta minha memória porque me permite contar e fazer as pessoas viajar àqueles anos. É interessante pegar num livro e viajar nele. E acho que o meu livro vai dar para viajar em várias décadas. Realmente tive uma vida… com um pai muito famoso, a música, as cenas dos casamentos, a minha filha, as bandas e as drogas, os meus amigos que morreram e as minhas paixões.

G. – Os Linda Martini fizeram uma versão de uma música sua, teve uma participação numa música dos Ciclo Preparatório, tem desenvolvido algum trabalho com o Primeira Dama, They’re Wedding West, Benjamim e Pedro da Silva Martins. É bom sentir o carinho das gerações mais novas?

L.A. – Então, não é? É maravilhoso! Eu sinto-me muito mais amada agora do que me sentia quando era tão nova, gira e famosa. Nunca senti dos meus pares, durante aqueles anos todos, grande afeto, havia sempre uma ciumeira. Fico muito feliz e gosto muito dos ensaios com eles. Aqueles concertos que fiz com o Manel (Primeira Dama), foram incríveis, ainda não gravámos nenhuma canção, só o hino do Bloco de Esquerda, mas ficou giríssimo!

G. – A Lena é uma voz e um marco na música portuguesa. Há algum conselho que queira dar a quem, nesta nova geração, sonha viver da música?

L.A. – O que acho que é sensato é não pôr a fasquia muito alta. Sonhar, sim, mas não sonhar assim muito alto. Vamos alcançando alguns objetivos, mas se sonhares muito alto, mais facilmente ficas frustrado se não consegues. Porque isto demora tempo até encontrares o teu lugar e a tua voz, o teu compositor. É importante sonhar, sim, mas não muito alto, para não nos desiludirmos e sofrermos tanto. Vamos fazendo devagarinho, um pezinho à frente do outro.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia de Rute Leonardo


Se queres ler mais entrevistas sobre cultura em Portugal, clica aqui.