No outro dia a minha mãe ralhava comigo porque apanhou os meus lençóis “estragados”, que aquilo não tinha jeito nenhum, andava a dormir sobre os lençóis sujos e não tinha apreço pelo que era meu. Desatei a rir-me: os lençóis estavam manchados de sangue, sangue menstrual. Manchei-os sem querer no primeiro dia deste ano e achei o momento simbólico: um novo ciclo, um novo ano, um novo tudo. Na altura, partilhei uma fotografia no meu Instagram a dar conta do sucedido e muita gente me respondeu a propósito, ora testemunhando que também tinha iniciado o ano da mesma forma, ora enviando fotografias de lençóis marcados de um tom por vezes rosado, por vezes acastanhado.

Encanta-me este fenómeno de, de repente, nos darmos conta de que mais gente menstrua. Mais gente mancha as cuequinhas, mais gente precisa urgentemente de encontrar um penso ou um tampão algures pelas gavetas da casa, mais gente tem pequenos acidentes no chão da casa-de-banho a trocar o copo menstrual. Mais precisamente, mais gente testemunha o descamar do endométrio periodicamente (aliás, é assim que as coisas normalmente funcionam) e a vida continua.

“Que chatice”, respondi eu, depois da gargalhada inicial. “Se estão estragados, quer dizer que agora já não os posso usar?”. Ficou atrapalhada e tentou imediatamente suportar um argumento que naquele momento reconhecia não ter grande relevância ou, pelo menos, não para mim: “podes, mas agora estão feios!”, retorquiu.

Atenção que lavo os meus próprios lençóis, mas uma vez ou outra aproveito uma mãozinha que me é oferecida com amor pela minha mãe, que é também minha vizinha. E atenção que o que fazia confusão à minha mãe não era ter manchado os lençóis, mas sim o facto de o sangue ter notoriamente alguns dias e eu nada ter feito em relação a isso.

Bom, a verdade é que a mim não me chateava nada. Com cada resposta que lhe dava, sentia-lhe os nervos a efervescer um pouco mais. Era só uma manchinha e só eu é que dormia naqueles lençóis, que diferença fazia?

Percebo a vontade de se ter lençóis imaculados, sem qualquer marca de vida (um café entornado, uma lixívia caída, um tingimento de outra peça de roupa devido a uma máquina às pressas mal calculada…). Percebo também – na verdade, apercebi-me apenas na vida adulta – que muitas coisas, em vez de sujarem, marcam e passam assim a fazer parte da história: da nossa história, da história das coisas.

O período é aquela coisa que faz parte, mas não faz parte. O tabu do sangue menstrual é-nos incutido desde o primeiro momento em que existimos: é uma realidade que não se nos é apresentada e, quando finalmente o é, mostra-se um segredo que tem de ser mantido a sete chaves. Aprendermos, sem que ninguém no-lo tenha dito, que pedimos um pensinho à colega de trabalho em segredo; que devemos esconder os pensinhos sujos do nosso parceiro; que devemos lavar as cuequinhas às escondidas da nossa colega de casa; que, enfim, um lençol manchado vale menos do que um lençol que não o tenha sido. E que, para a próxima, devemos ter mais cuidado: se calhar, usamos um penso com maior capacidade de absorção, ou garantimos que a mancha de sangue é imediatamente colocada em água e detergente na manhã em que se oficializa, para nós, o período no lençol.

Se decidirmos dar-nos conta, a verdade é que cerca de metade da população adulta que tem até 50 anos menstrua. Eu sei, não é novidade para ninguém. Não é novidade para ninguém e, ainda assim, recebo mensagens com fotografias de sangue menstrual em lençóis com palavras de entusiasmo e de agradecimento, pedindo que partilhe em anónimo. Não diria que este comportamento é estranho, diria apenas que se nota uma falta, uma falta de partilha. E isto não diz respeito apenas às mulheres ou a quem tem vulva. A apreensão que sentimos em expressarmos que estamos a menstruar é potenciada pela presença de um homem na sala. E os homens não têm também responsabilidade nesta ausência de diálogo? Não deveriam também os homens ser incluídos na vivência da menstruação? Irmãos, amigos, pais, tios, parceiros – não deveriam eles deixar-nos à vontade com o facto de menstruarmos? Não deveriam ser os homens uma força motriz para a naturalização de uma coisa que é já, por si só, natural? Não pode haver naturalização de um diálogo sobre a menstruação sem que os homens se sintam confortáveis em ouvir e ver a menstruação, tal qual fosse uma coisa qualquer. Não é bem uma coisa qualquer e, ao mesmo tempo, é.

Uma vez, perante os meus receios de criança de ter descoberto que tínhamos sangue (que coisa feia!) no corpo, o meu pai reconfortou-me dizendo que aquilo não era sangue, mas sim um líquido vermelho que dava vida. E é assim que gosto de encarar o meu período: é não mais do que um líquido vermelho que dá vida. O meu pai não sabia, e infelizmente acabou por falecer uns anos depois, mas, naquele momento, ensinou-me muito mais do que imaginaria.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Catarina Maia-

Catarina Maia estudou Comunicação. Em 2017, descobriu que as dores menstruais que sempre tinha sentido se deviam a uma doença crónica chamada endometriose, que afecta 1 em cada 10 pessoas que nascem com vulva. Criou O Meu Útero e desenvolve desde então um trabalho de activismo e feminismo nas redes sociais para prestar apoio a quem, como ela, sofre de sintomas da doença. “Dores menstruais não são normais” é o seu mote e continua a consciencializar a população portuguesa para este problema de saúde pública.

Texto de Catarina Maia
Fotografia de Pedro Lopes
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