Lenna Bahule, a(r)tivista cultural e cantora moçambicana, investiga as infinitas possibilidades do casamento entre a voz e o corpo trazendo a magia da música afrojazz: “Tenho descoberto que é uma estética que promove muito a integração do ser e não tem como não ser espiritual, aliás, qualquer forma de arte bem feita, e com profundidade, não tem como não ser espiritual.”

Produzir tendo o corpo e a voz como base. É assim que Lenna Bahule cria melodias que nos abraçam para nos levar numa volta a várias partes do mundo, mas sobretudo Moçambique e Brasil. Lenna Bahule é arte educadora, cantora, ativista cultural e portadora de uma voz que nos embala para um novo acordar. Da escola de música em Maputo, às influências brasileiras, Lenna decidiu mudar-se para o Brasil em 2012 para mergulhar na música corporal. Durante 7 anos foi construindo o seu caminho sempre com o uso da voz e do corpo como instrumentos musical e de expressão artística. No seu caminho, cruzou-se com artistas como Azagaia (MZ), Stewart Sukuma (MZ), Mário Laginha (PT), Mû Mbana (GNB), Manecas Costa (GNB), Paulo Flores (ANG), Virginia Rodrigues (BR), Benjamim Taubkin (BR), Kastrup (BR), Mateus Aleluia (BR) e o escritor Mia Couto. Desses encontros nasceu o seu primeiro disco, a solo, o Nômade, e um disco em conjunto com o cantor João Taubkin, Taubkin & Bahule. O seu mais recente disco, Memórias daqui – cantares e outros sons, lançado em maio de 2021, é um revisitar de memórias e agradecimento ao povo que a viu nascer.

Em entrevista ao Gerador, Lenna Bahule contou-nos mais sobre a música corporal e vocal, o que tem descoberto, e sobre os seus trabalhos. Entre o ir, o voltar, as memórias e a tradição, a ativista moçambicana falou-nos ainda do processo pós-colonial e de como a maior sequela é a “não validação” do que é moçambicano.

Gerador (G.) – De onde surgiu essa curiosidade pela música vocal e corporal?

Lenna Bahule (L. B.) – Nem sei o que veio primeiro, se a vontade estava escondida cá dentro e só encontrou a oportunidade e estética certa para se desenvolver, ou se foi o contrário, e eu vi as referências e decidi ir atrás da estética, mas acho que os dois se encontram no meio do caminho. Eu sempre gostei muito do canto, e quando estava na Escola de Música de Maputo, uma das cadeiras de que mais gostava era o canto coral, e tínhamos a macuaiela (um estilo de canto local), e lembro-me de quão prazeroso era cantar coletivamente e ouvir os arranjos vocais e aprender as linhas das diferentes vozes. No fundo, sempre gostei muito de ouvir várias vozes e de como interagiam ritmicamente. À medida que fui crescendo e tendo acesso a diferentes referências musicais, também influenciou. Aliás, a primeira ‘virada’ foi quando saí da faculdade e comecei mesmo a mexer mais com música e a dedicar-lhe mais tempo. Nessa altura, um amigo apresentou-me o pedal de loop, e fiquei empolgada com a maquineta, dediquei muito do meu tempo a brincar e quando vi que podia fazer várias coisas, ganhou outra dimensão. A partir disso, fui tendo acesso a outras referências que me ajudaram a compor e a criar a partir dessa técnica. Um outro momento, foi quando encontrei a música corporal, através dos Barbatuques. Quando ouvi a música, fiquei fascinada e envolvida durante muito tempo. A terceira fase foi no Brasil, quando lá cheguei, tive a sorte de entrar em contacto com pessoal dos Barbatuques e de a primeira pessoa que conheci, ser alguém que tinha uma relação mais próxima com o Bobby McFerrin. Começámos a interagir, estudar e a juntar a música e foi um ponto de viragem também. Foram várias fases em que essa estética se foi firmando, a partir de vários encontros. No Brasil, fui-me interessando cada vez mais e precisei de começar a olhar para o meu trabalho de uma forma quase antropológica, porque as pessoas perguntavam-me como era Moçambique e como era a música moçambicana e eu via que não me conseguia encaixar no formato banda de fazer música, então fui validando um pouco essa estética. Comecei a fazer uma pesquisa, de como a música corporal e vocal se podia relacionar com a música africana, fui mexendo nisso e cheguei a este trabalho. Lembro-me até de que alguém me disse que o meu estilo era muito sofisticado, e eu fiquei confusa, não entendi. Porque no Brasil tinha – agora menos –, uma ideia concebida do que era música africana, agora estão a fazer um esforço de desconstruir essa África estereotipada onde é tudo batuque. Eu era uma das únicas moçambicanas no Brasil a ocupar esse espaço musical e a trazer uma estética diferente daquela a que as pessoas estavam habituadas.

G. – Nessa tua pesquisa sobre a música vocal e corporal, o que tens descoberto?

L. B. – Tenho descoberto que é uma estética que promove muito a integração do ser e não tem como não ser espiritual, aliás, qualquer forma de arte bem feita, e com profundidade, não tem como não ser espiritual.

G. – Tu cantas em changana, suaíli, chope e também numa língua inventada por ti. Tentas preservar a tua ancestralidade?

L. B. – Definitivamente! É engraçado porque, quando estava em São Paulo, uma das coisas que me fazia cada vez mergulhar mais, era o cantar que estava ligado a um lugar de saudade e memória. Fui para lá como cantora, então questionava-me sobre qual era a minha voz, o que canto, quem é o meu corpo, o que é que esse corpo que canta carrega, quem é que está a cantar, então tive de fazer esse trabalho de olhar essa relação corpo/voz de uma forma muito interna e pessoal. Naturalmente fui entrando numa consciência do feminino, da ancestralidade, história, memória, corpo e saúde, alimentação, e por aí. O facto de ter estado sozinha, ter de me cuidar, manter viva enquanto produzia arte, ter de integrar o processo artístico na minha vida, e isso foi moldando o meu trabalho. Estar longe de casa, não ter sonoridade linguística, e não sentir que o português dava conta de integrar as mensagens internas que eu queria expressar levou-me a desenvolver um vocabulário criativo. Porque eu não sei falar nenhuma dessas línguas locais, por isso comecei a pensar que em vez de mandar traduzir e perder o fluxo da música pelo caminho, aprendi a desenvolver o meu vocabulário. Por exemplo, no Nômade, 80 % das músicas estão nessa língua inventada chamada, “nômade”, por causa dessa relação de manter a memória, investigar a ancestralidade e estar o mais próximo possível de uma linguagem de casa. Queria também manter-me o mais próxima possível da ideia inicial do que estava a ser criado e expressado, porque sentia que, quando me preocupava com a letra, com o conceito e toda a ideia, entrava num espaço mais arquitetónico e mental que não era o que queria. Mas quando voltei para casa mudou muito. Agora estou num lugar confortável, e quando estamos deslocados parece que ficamos mais aguçados, criativos, tudo porque criamos a partir da dor, da ausência das coisas, e aqui tenho colo, família, tenho tudo.

G. – Assumes-te como ativista cultural, cantando sobre o universo feminino, como uma voz das mulheres moçambicanas. Que problemas ainda encontras e tentas desmistificar em Moçambique?

L. B. – Estou nesse processo e é engraçado porque a vida foi generosa comigo e me trouxe um filho para me dar inspiração. Eu percebo que a relação com o corpo ocupa um lugar de maior peso. As pessoas conhecem-me por ser uma pessoa que fala de autocuidado, saúde e espiritualidade, até há quem ache que sou vegana embora nunca o tenha dito – é engraçado como aquilo que falamos chega às pessoas. Mas percebo também que existe uma certa incompreensão de quem me vê nessa relação que tenho com o corpo, por ser exatamente como sou, uma ativista cultural que procura validar as tradições, e não estou a falar de regra, mas sim de memória, aquilo que é passado de geração em geração, e eu procuro validar isso em todas as áreas. Por exemplo, aqui, eu como o que é daqui e sinto que em Moçambique estamos um pouco sequelados no processo colonial, onde a grande sequela do processo colonial foi a não validação do que é daqui e a sua negação. Então, essa coisa de nós mesmos chamarmos o outro de preto e ser engraçado, de atribuirmos comportamentos agressivos e deseducados ao ser-se preto, acabamos por desumanizar coisas que são nossas, e isso vai com tudo, desde roupas, comidas, ao jeito de dançar. O desafio que encontro é esse, de conseguir que as escolhas que eu faço, que são escolhas daqui, sejam normalizadas. O facto de a minha estética ser corpo e voz não é nada de outro mundo, é daqui; eu canto em línguas locais e procuro o sotaque não ‘aportuguesado’, porque esta é a nossa língua. As pessoas ainda não conseguem entender, eu sinto. Entendem que faço coisas daqui, mas não entendem o porquê de defender coisas daqui. É o meu desafio, o de inserção, compreensão. O meu trabalho ainda gera muita estranheza.

G. – O que mais te cativa e inspira na cultura moçambicana?

L. B. – O ritmo, a diversidade linguística e a diversidade sonora.

G. – Não podemos falar de ti sem falar da tua passagem pelo Brasil, como surgiu essa ligação?

L. B. – De novo: não sei se já tinha o bichinho do Brasil lá dentro, ou se o Brasil se mostrou e eu me interessei. Porque há muito tempo, depois de aparecerem os canais portugueses, apareceram os canais brasileiros e os programas infantis eram todos brasileiros. Eu costumo dizer que o Brasil é um outro colonizador, mas não sabe, colonizador passivo, porque como foi colonizado não se assume. Mas escutávamos o Brasil desde os anos 90 e quando chegava um brasileiro era olhado com curiosidade. Na altura, o Brasil era conhecido como um grande porto cultural, tínhamos uma grande referência musical e artistas do mundo inteiro tinham o Brasil como um sonho, e eu não fiquei fora disso. Quando decidi mergulhar na música, o Brasil estava na minha lista de lugares para ir. Fui para o Brasil, supostamente só para ficar 6 meses, e quando cheguei, meio à procura da música corporal, tive a sorte de, na primeira vez que saí sozinha para assistir a um show gratuito da Maria João com o Mário Laginha, conhecer um agora amigo, que estava ligado à música corporal que por sua vez estava ligado ao fundador dos Barbatuques. E aí começou a minha jornada. Fui atrás do Brasil por esses ‘chamadinhos’, da televisão, das relações culturais, e pela riqueza musical brasileira. Mas há medida que fui estando lá as coisas foram-se encaixando com uma perfeição muito grande. Foi como uma chamada cósmica, fui para aprender coisas que aqui, em Moçambique, não podia aprender, na fase de formação dos meus valores. Mas sempre soube que não ia ficar no Brasil para sempre, e quando foi hora de fechar o ciclo, fez sentido para mim, eu só estava á para aprender alguma coisa.

G. – O teu primeiro disco chama-se Nômade, eras tu enquanto nómada?

L. B. – Sem dúvida! O Nômade era a materialização dessa chamada interna para canalizar algo. Foi a forma que eu encontrei para conseguir eternizar o meu movimento e ir atrás da minha alma. É um disco de movimento, dos encontros, de como cheguei. Os meus primeiros três anos no Brasil foram anos de muita aprendizagem e dei um salto gigante, estudava, não tinha uma carreira para defender, apenas uma vontade de querer ser e aprender. Esse primeiro disco fazia bastante sentido a solo, não enquanto banda (tinha começado a gravar um EP antes em formato banda). Nesse disco, eu consegui eternizar esses encontros musicais e inspiradores que fui tendo, literal e metaforicamente.

G. – Recentemente, lançaste o teu último disco, Memórias daqui – cantares e outros sons, que nos remete a memórias e a uma infância. Este disco é esse regressar a casa e agora seres mãe?

L. B. – Na verdade, o disco veio antes disso. Eu tenho a tendência para produzir as coisas de forma prévia, ou seja, quando faço uma coisa, uns meses depois o que andei a fazer, materializa-se como o meu filho, que veio depois do disco. Mas foi meio sincrónico, o disco é um compilado das minhas memórias de quando estava no Brasil, memórias essas que me ancoraram à minha cultura. Claro que fui atrás de algumas coisas e preenchendo o disco, mas quando eu tive o desejo de gravar o disco, foi pela vontade de compartilhar com o meu povo quão rica é a nossa cultura, tirar do lugar pop e consumista e trazer para um lugar de memórias e afeto. Por isso, a estética do disco tem essa coisa comunitária, de nos remeter a criança e memórias, porque foram essas que me seguraram e me transformaram para crescer criativamente e artisticamente nesses 7 anos de Brasil. Eu senti que gravar esse disco era um presente para mim e um obrigado à comunidade moçambicana, porque são músicas que não sabemos quem criou, são memórias coletivas, e eu senti que tinha de devolver essas memórias que me impactaram.

G. – Quem são as tuas referências?

L. B. – Tantas! Ando muito espiritual ultimamente, mas, naturalmente, Bobby McFerrin, Maria João, Mário Laginha com quem tive a sorte de cantar, Zap Mama, Mû Mbana, Manecas Costa. Agora com a internet está a voar um boom de pessoal muito bom que não está a gravar um disco, mas sim compilados, sons muito bons.


Texto de Patrícia Nogueira
Fotografias da cortesia de Lenna Bahule