O primeiro desenho original criado por um robô, concebido por Leonel Moura, artista pioneiro nesta área, em Portugal, foi vendido em leilão, por 5.000 euros, em Lisboa”, noticiava a Lusa em outubro de 2018. Embora para alguns possa ter parecido estranho “SP0008”, um desenho “criado por um robô”, ter sido vendido por um preço tão alto, não é de agora a relação do artista português com a tecnologia do futuro.

Hoje falamos-te um pouco mais sobre o artista que contracena com Rita Costumista na rubrica “Boca a Boca” na Revista Gerador 26, e que trata a robótica e a Inteligência Artificial por tu. 

Foi em 2001 que Leonel Moura criou o primeiro braço robótico que lhe permitiria criar pinturas geradas por um algoritmo, a que chamou ant algorithm. Dois anos depois, em 2003,  começou a explorar os “Painting Robots”, que com o tempo se foram tornando cada vez mais “autónomos e sofisticados”.  

O RAP (Robotic Action Painter), criado em 2006, foi criado para uma exposição permanente no Museu de História Natural em Nova Iorque. É capaz de gerar pinturas, decidir autonomamente quando está pronto e assiná-lo. No mesmo ano criou ISU (O Robot Poeta), que gera poemas e pinturas com letras e palavras. 

O retrato de Franz Kafka foi feito através do ant algorithm ainda no final da década de 90

No “Boca a Boca” da Revista Gerador 26 partilha com os leitores que “A Sociedade do Espetáculo” de Guy Debord é o seu livro favorito. Em nome próprio lançou uma série de textos e publicações, de 1995 a 2019, entre eles Impossibilité/Impossibilidade (1995), Anarquista com motorista (1998), Formigas, vagabundos e anarquia (2003), Poesia Robótica (Robot Poetry), Leonel Moura with ISU (2009), A invasão dos robôs (2016) e Comet (2019). 

Entre todos os filmes que já viu destaca Blade Runner, de Ridley Scott — talvez por aqui já conseguíssemos perceber que o interesse de Leonel por tempos à frente do seu também não é de agora. Na Revista Gerador 21, a propósito da reportagem “Mas agora os robôs também pintam?” explica sem meias palavras porque é que, para si, trocar a relação entre o pintor, o pincel, a tela e a pintura para uma que una o pintor, ao robô, à tela e à pintura é um sinal dos nossos tempos. 

“Estou a pôr a arte num plano diferente àquele que a maioria das pessoas continua a achar que é a arte, porque acham que tem de ter intenções, porque tem de não sei o quê. O que eu digo é que eu como artista, ao criar robôs, estou a dizer a mim mesmo que tenho de evoluir, não posso continuar agarrado ao pincel”, explicava na altura no Museu Nacional de Arte Antiga com o painel de São Vicente como pano de fundo. 

Das Swarm Paintings à Lisboa Viral — um pé no real e outro no virtual  

Das primeiras pinturas feitas por um braço robótico à mais recente app que Leonel Moura desenvolveu para ver Lisboa com outros olhos, o seu percurso tem-se traçado pelos passos que vai dando e que espelham a atenção que tem ao tempo em que vive. No início deste milénio começou a ver potencial no recurso a robôs, trabalho que acabou por ser valorizado 17 anos depois com a venda de SP008 — pintura executada em 2002 que foi capa da revista científica do MIT “Artificial Life” em 2008 — para uma coleção privada. 

SP008, 2002, acrílico em papel, 33 x 33 cm, Leonel Moura

Já este ano Lisboa Viral propôs olhar para Lisboa com outros olhos, bem como para o conceito expositivo tradicional. Esculturas que apresentam a forma de um vírus ou pequenos organismos, realizadas através de um algoritmo generativo, formam uma exposição composta por 17 obras que vão da Grande Lisboa a Sesimbra e à Ericeira. 

O processo é simples: descarregar a app e ir até a um dos lugares contemplados na escolha geográfica feita por Leonel Moura. Torre de Belém, Palácio de Belém, Praça do Comércio, Praça de Camões, Chiado, Rossio, Cais do Sodré, Bairro Alto, Alfama, Estação do Oriente, Boca do Inferno (Cascais), Praia dos Pescadores (Cascais), Palácio de Sintra, Cabo da Roca (Sintra), Praia dos Pescadores (Ericeira), Cabo Espichel (Sesimbra) e Palácio de Mafra são ligados por Leonel Moura na forma de esculturas que só ganham vida na presença de um dispositivo móvel.

Lisboa Viral pode ser descarregada através do Google Play ou da App Store

Num conceito expositivo mais próximo ao tradicional, Leonel Moura já expôs, entre outros, em sítios tão distintos quanto São João da Madeira, Lisboa, Ponte de Sor, Paris, Roterdão, São Petersburgo, Istambul, Bilbao, Moscovo e São Paulo. Atualmente está a preparar uma grande exposição em Pequim. 

Para leres a rubrica “Boca a Boca”, refletires sobre a programação cultural em Portugal, mergulhares nos universos dos artistas Grada Kilomba e Fernão Cruz ou viajares ao tempo da editora &etc basta procurares a Revista Gerador 26 numa banca perto de ti, ou comprá-la aqui.

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Texto de Carolina Franco
Fotografias da cortesia do artista Leonel Moura

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