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Opinião de João Lopes

Letão de arma e coração

Nas Gargantas Soltas de hoje, João Lopes, num texto mais pessoal, fala sobre a sua mais recente viagem à Letónia e explora o seu encontro com um grande amigo que se alistou no exército da Letónia, numa reação à invasão russa, e o dilema de valores que isso despoletou.

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A reflexão que agora aqui partilho não foi planeada. Surge de uma viagem que acabo de fazer aos Bálticos e cuja reflexão me pareceu mais pertinente ao leitor do que todos os outros textos que tinha guardados na gaveta. 

Na última semana tive a oportunidade de participar num programa na Estónia sobre o Pacto Verde Europeu. À vinda para Portugal fiz uma curta paragem na Letónia, casa de um dos meus melhores amigos, o Gusts. Já não o via desde que ambos ingressamos na Universidade com esperanças de tornarmos o mundo um lugar melhor.

O Gusts recebeu-me em casa da sua tia, numa área de Riga famosa pelos seus blocos de apartamentos soviéticos. Este pequeno refúgio conseguia ser ao mesmo tempo hostil às retinas mais sensíveis e um recanto acolhedor, como uma flor que cresce em betão. Apesar de sermos amigos próximos, devido à distância física o nosso contacto tinha-se esmorecido ao longo dos anos. Era através das raras publicações nas redes sociais ou de raras mensagens mais pontuais que me inteirava das novidades, muitas vezes já desatualizadas, da sua vida. 

Acompanhados de um kebab e após os calorosos abraços e impressões iniciais, não demorou muito até que ele se abrisse sobre a sua vida. Gusts tinha sido até aí um estudante exemplar de Economia, com muito interesse no mundo que o rodeava. Foi com esta expectativa que eu abordei a nossa conversa, entusiasmado para perceber, como fazia sempre com os restantes dos nossos amigos em comum, de que maneira ele planeava mudar o mundo.

Foi aí que me revelou que tinha tomado a decisão de se juntar ao exército da Letónia.

A invasão russa da Ucrânia fora o gatilho para que, assim que terminara o ensino superior lá fora, regressasse e ingressasse nas forças armadas como soldado voluntário. Enquanto me falava calmamente da sua rotina mecânica e severa, das diferentes armas que aprendeu a manejar ou dos dispositivos mortíferos que só vemos nos videojogos, a minha mente vagueava pelo espaço à minha volta. 

A verdade é que conheci o Gusts em circunstâncias especiais. Ambos tivemos a sorte e o privilégio de estudar num UWC, United World College. A base dos UWC está assente em valores como o diálogo intercultural e a construção de um mundo mais pacífico e sustentável. Esta é uma experiência que não deixa ninguém indiferente e que nos molda de maneiras que ainda hoje não consigo explicar. Diariamente, durante dois anos, fomos ensinados e incentivados a praticar a empatia para com o outro, a respeitarmos a diferença, a pensar criticamente e questionarmos a Ordem Mundial corrente. 

Agora, 5 anos depois, estava em frente ao mesmo amigo ao lado do qual ouvi os relatos emocionantes dos alunos da Palestina, do Camboja, da Síria ou do Afeganistão sobre as realidades da guerra. E passados 5 anos ele estava num dos lados da barricada. O que será que impeliu este humano, educado para a paz, para a compreensão entre povos, para o diálogo intercultural a alistar-se numa máquina de carnificina? Como é que podemos conciliar estas duas realidades tão distintas? A realidade é que hoje em dia é fácil falar de paz. Estamos longe das terras conquistadas, dos familiares assassinados, do perigo iminente de perder tudo. Onde entram a empatia e a compressão quando a nossa existência é ameaçada? 

As cervejas iam ficando vazias e a noite ia caindo lá fora. Gusts contava-me que não conseguia ficar indiferente ao que se estava a passar no seu país. A ameaça russa era real e ele via-se impelido a ajudar como podia a proteger o seu país. E isto é algo muitas vezes difícil de compreender, principalmente nos nossos dias, em que as fronteiras se esbatem cada vez mais e o nosso sentido de identidade nacional se dilui em grandes causas mundiais ou em movimentos fortes locais. Se perguntarmos aos jovens hoje em dia se estariam dispostos a sacrificar a vida pelo seu país provavelmente os resultados seriam bem menos efusivos que há 50 anos atrás. As consequências da longa paz alcançada na Europa e o padrão de vida alto em Portugal fez com que isto se tornasse menos inteligível. Segundo tudo o que eu aprendi e da minha realidade eu deveria repreendê-lo, alertando que estava a fazer parte do problema e não da solução. Contudo, é difícil julgar. Isto é a realidade. É nestes momentos que me apercebo do meu privilégio de não ter que tomar decisões desta natureza, de não me debater com estes dilemas para os quais me falhariam as respostas.

A guerra é algo abominável cuja brutalidade expõe o pior e o melhor que há no ser humano. Este é mais um caso em como a guerra vai muito para além das frentes de guerra em Donbass, da própria Rússia e da Ucrânia. Que a vida das pessoas, neste caso de um país vizinho, pode ser completamente virada do avesso por um evento fortuito e caprichoso. Resta-me a esperança que o Gusts continue este diálogo e que não deixe a mentalidade e valores de guerra vencerem.

-Sobre João Lopes-

João Lopes é um entusiasta de Políticas Públicas, especialmente sobre as que incidem sobre os temas da Juventude, Educação ou Cultura. Vai fazendo vida entre Lisboa, onde está a tirar mestrado em Políticas Públicas, e Tomar, de onde é natural e integra a direção da Associação Cultural Marquesa de Ciranda que dinamiza a cena cultural na cidade. Não sabe se a sua escrita está tão solta quanto isso mas nada como o Gerador para o desafiar.

Texto de João Lopes
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