Nestes dias de isolamento social forçado, os momentos passam-se essencialmente na cozinha, falo por mim, claro! Parece que descobri uma veia artística para fazer pão.

Não só eu, uma vez que já dei por mim a tentar comprar fermento e eis que não havia em lado nenhum.

E no meio dessa azáfama de padeiro-cantor, surgiu-me um pensamento que me absorveu e serviu de mote para esta crónica.

No momento em que coloco a farinha e o sal misturado com o fermento e água dizem os antigos que se mexe tudo com a mão, mas como não me sentia confortável com o tal “ditado” preferi usar o clássico utensílio que todos temos em casa, o Salazar!

Em tempo de 25 de Abril à nossa porta, essa manifestação maior de liberdade em Portugal, aqui estou eu na cozinha pelas 10 da noite a juntar farinha e água com o Salazar, quão irónico é a nossa vida!

Numa prisão domiciliária sem termo certo, o governo deliberou que alguns prisioneiros de crimes menores fossem libertados, para fazer face ao controlo sobre a guerra do novo século. E nós, as pessoas livres, estamos prisioneiros em casa sem poder se quer sair da nossa zona de residência.

Se tivesse lido algo semelhante em algum livro, teria esboçado um sorriso nesse parágrafo e pensado onde teria ido buscar o escritor tamanha ideia escabrosa do futuro.

A massa já estava no ponto, agora é colocar ali no canto tapado e deixar a repousar durante 12 horas, até que a levedura faça com que a massa ganhe tamanho suficiente para se transformar em pão.

Pelas indicações governamentais o isolamento social vai durar mais uns dias, pelo menos até ao início de maio, provavelmente vamos todos passar o primeiro de Maio em casa. Esse dia tão importante para os sindicatos, que tanto lutaram, para que fosse um dia a celebrar com pompa e circunstância, como os trabalhadores merecem, claro está! Mas neste momento tenho a sensação que todos os empregados preferiam estar nos seus trabalhos mesmo que fosse primeiro de Maio.

Junto assim, uma palavra nova ao meu dicionário: layoff. Um semi-despedimento, uma corda bamba que deixa empregadores e empregados “presos” a uma situação que ninguém previa, num ano que foi comemorado como sendo um super ano novo.

Todas as regras, boas condutas e leis estão a ser postas em causa, os despedimentos em barda estão a acontecer de baixo das barbas dos sindicatos dos trabalhadores, às portas do 1 de maio, e a liberdade está a ser privada e televisionada.

Amanhã será mais um dia igual a este, e o pão vai para o forno, não sendo uma certeza absoluta, pois nem do dia de amanhã temos certezas, acredito que o Filipe Duarte terá dito até amanhã aos seus familiares próximos, mas foi-se embora, sem ver o próximo dia, sem tocar nem beijar umas quantas pessoas que tenho a certeza que tinha vontade.

No meio desta pandemia que o 25 de Abril não previu, nem um adeus decente vai ser possível dar.

E as portas que Abril abriu, que Ary dos Santos cantou, hoje estão fechadas para todos os que prezam a liberdade, como eu!

Conto com o fim desta peregrinação, e das feridas nos pés de não andar, para começar de novo, de microfone na mão e o Salazar na gaveta.

-Sobre NBC-

NBC é um dos grandes nomes da música actual portuguesa,  e um dos fundadores do movimento hip-hop em Portugal, apreciado pelas suas peculiares performances ao vivo com crossover entre o soulrnbdrum and bassrock e eletrónica e ainda com versatilidade para transformar e criar versões acústicas. O seu último disco, TODA A GENTE PODE SER TUDO, foi editado em finais de 2016. Nascido em 1974 em São Tomé e Princípe, com a influência das suas raízes africanas, Timóteo Tiny é uma das vozes soul mais acarinhadas de Portugal e autor de temas como «Segunda Pele», «NBCioso», «Homem», «Neve», «DOIS» ou «Espelho».  Com a sua discografia já pintou diversas bandas sonoras de filmes e de telenovelas portuguesas, e já pisou muitos palcos em festivais como  NOS Alive, Super Bock Super Rock, Meo Sudoeste, Festival F ou também salas icónicas como Coliseu de Lisboa, Casa da Musica ou Hard Club. Pelo caminho, conta com a edição de um EP, EPidemia (2013) e mais outros dois discos Afrodisiaco (2003) e Maturidade (2008). Já fez digressão com a banda GNR e, em 2015 e 2018, viajou até ao Brasil para uma digressão de cerca 40 dias em estados diferentes estados, tendo passado por lugares como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis ou Belo Horizonte. Em 2019, participou no Festival da Canção, com a canção “Igual a Ti”, tendo conquistado o segundo lugar do concurso. E assim se escreve mais de 25 anos de carreira.

Texto de NBC
Fotografia de Teresa Lopes da Silva
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