Continuação das notas incompletas sobre o que podemos aprender com os museus para a prática educativa e para a vida:

6) A valorização da complexidade – contra a simplificação. Nos museus, como na Divina Comédia de Dante, encontramos a existência humana na sua totalidade: da descida aos infernos até à subida ao paraíso. A amplitude da vida, na sua ambiguidade e contradição, ganha corpo à nossa frente. Também o educador deve dar a ver esse horizonte complexo do humano: não apresentar apenas a parte, mas o todo.

7) A valorização do incerto – contra a falsa segurança da certeza. Nos museus encontramos, muitas vezes, objetos de que desconhecemos a função ou uso, ou sobre os quais há teorias, mas não certezas evidentes. Encontramos aí, também, obras de arte que nos mostram a nossa ignorância – por exemplo, sobre os personagens, as cenas míticas ou históricas aí representadas – ou que nos fazem enfrentar a estranheza e deixam-nos sem palavras ou sem orientação. Diante de algumas obras, sentimos uma espécie de impotência: não compreendemos e não dominamos o seu sentido. E isso é o melhor motor da aprendizagem: a consciência da ignorância põe-nos em movimento, a imaginar respostas e possibilidades. Que melhor impulsionador para o desenvolvimento criativo e o pensamento crítico que um objeto que nos obriga a investigar, a experimentar, a olhá-lo de todos os ângulos, a procurar a solução – em vez de nos ser dada a resposta já conhecida como certa, com a exigência de a reproduzirmos? Como sabia Aristófanes, educar não é encher um copo, mas acender uma chama.

8) A valorização da gratuidade e do prazer – contra o utilitarismo calculista e produtivo. Um museu dá-nos a oportunidade de experimentarmos um tempo distinto do habitual: os objetos que aí estão foram retirados à voragem destruidora do tempo utilitário e consumista. Por um lado, foi suspensa a sua função habitual ou nunca tiveram utilidade. Por outro, não podem ser comprados nem consumidos. Não são, nem podem ser, meus. Não estão disponíveis para essas formas de manipulação e destruição: a utilidade imediata e o desejo de posse. Ensinam-nos, assim, uma enorme e inestimável lição: a gratuidade. A da presença livre das coisas.  A do prazer, do lúdico, do jogo. A do tempo sem porquê nem para quê. Numa época marcada pelo desejo de eficiência e de produtividade rentável, esta subversão é determinante e uma lição para a comunidade educativa. Qual a ideia de humano/adulto/cidadão para a qual estamos a educar e que orienta os nossos currículos e métodos pedagógicos?

9) A valorização da participação – contra a passividade e a demissão. O carácter inclusivo (ou não!) dos museus tem sido um debate importante nos últimos anos: no acesso ou exclusão de determinadas comunidades, da representação da diversidade, da participação informada em decisões… Em muitos museus – como em obras de arte contemporâneas – a participação ativa dos visitantes é mesmo solicitada:  quer para o conhecimento de determinado objecto, quer para a realização dessa própria obra – que não existirá sem o visitante activo. Também a educação deve ser um processo inclusivo e relacional. Por um lado, a escola deve preocupar-se com os que ficam nas margens do aparente sucesso. Por outro lado, deve lembrar-se que, se ninguém se esculpe a si mesmo sozinho, também ninguém deve ser esculpido por outros. Como ajuda a escola em que cada um aprenda a construir a sua própria casa, sem que lhe imponham uma casa já pré-fabricada? Os museus e a história de arte também nos podem ensinar mais sobre isso: revelam uma verdadeira antropofagia cultural. Percebemos e traçamos genealogias artísticas e influências, mas para fazerem o seu trabalho pessoal e único, a sua obra, os artistas têm de aprender com os mestres e saber desviar-se deles. Ganhar competências e capacidades, para poder participar com a sua voz única e autónoma na vida colectiva. Recebe-se a tradição como um campo para a inovação. A cultura, se não se renova, morre:  é uma tarefa infinita. Esse sentido de pertença a uma comunidade que nos antecede e ultrapassará, que os museus promovem, é uma lição de enraizamento, de participação pessoal e de reconhecimento do papel insubstituível de cada um na vida cultural colectiva.

Estas notas incompletas procuram, na verdade, dizer uma só coisa: os museus são depósitos de humanidade;  se a escola quer formar cidadãos mais autónomos e capazes, para que os alunos possam conhecer quem são e o que podem, temos de aproveitar os recursos insubstituíveis dos museus: que cada um possa descobrir aí, fora de si, possibilidades de si antes desconhecidas. A missão comum à escola e ao museu é, então, alargar o horizonte de possibilidade de cada um e das comunidades que criamos: ou seja, desconfinar o mundo limitado em que vivemos.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Paulo Pires do Vale-

Filósofo, professor universitário, ensaísta e curador. É Comissário do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, desde Fevereiro de 2019.

Texto de Paulo Pires do Vale
Fotografia de Tomás Cunha Ferreira

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