Algumas notas incompletas sobre o que podemos aprender com os museus para a prática educativa e para a vida:

  1. A valorização do múltiplo – contra a arrogância do único. Nos museus deparamo-nos com a multiplicidade, quer na diversidade de museus existentes, quer naquilo que guardam e expõem no seu interior: múltiplos objectos (raros ou banais), meios diferenciados (escultura, instalação, pintura, filme, fotografia,...), diferentes estilos e abordagens (figuração, abstração, narrativa, intimidade, política...), proveniências geográficas e temporais distintas. Um museu revela que a multiplicidade é um bem, contrariando o pensamento que a desvaloriza para promover a unicidade – qualquer que ela seja.
  2. A valorização do cuidado – contra o abandono. Conservar e estudar as coleções é uma missão prioritária dos museus: essa atitude em relação aos vestígios do passado ajuda a compreender que somos herdeiros – mas não somos seus donos, foram-nos confiados como depositários, para os transmitirmos às gerações seguintes. Mas um museu não conserva apenas, mas apresenta: dá a ver – e deve pensar com atenção nesse modo de apresentação, nesse “eis” que aponta e faz ver. Também em educação é fundamental esse duplo cuidado: com o passado, com o que desejamos conservar e que permanece vivo para nos ajudar a compreender o presente, mas sem descurar a forma de o expor e comunicar. Sem esquecer que forma e conteúdo se cruzam e alimentam.
  3. A valorização do processo e da mudança – contra a ilusão da perfeição e a mesmidade. Num museu, reconhecemos as alterações sucessivas e mutações ao longo do tempo de um país ou região, da sociedade ou de uma atividade ou objecto. Num museu de artes plásticas, podemos perceber como um artista pode experimentar, ao longo do seu percurso, diferentes meios, estilos, abordagens, fases – e até valorizar mais o processo do que o objecto final. O processo educativo deve também ajudar a compreender que não precisamos de ficar resignados com o estado actual das coisas, pessoal ou comunitariamente, nem de ser meros repetidores de fórmulas já encontradas no passado.  A mudança, a diferença, a alteridade, fazem parte da identidade – quer nacional, quer pessoal. Não se pode confundir a noção de “identidade” com “mesmidade”. Do ponto de vista pessoal, é determinante sublinhar a consciência de si mesmo como um a fazer-se, um processo, e não um resultado já terminado, “perfeito”. Não devemos transmitir a ideia de irreversibilidade em educação, mas a de que estamos em construção permanente.
  4. A valorização do conflito – contra a falsa concórdia. São muitos os museus que nos lembram de que a história natural ou existência humana colectiva é o resultado de antagonismos, de acontecimentos violentos, de desentendimentos, de perspectivas políticas diferentes, de oposições armadas, de luta por direitos humanos, de contraposição de ideais – ou mesmo materiais... Do mesmo modo, os grandes artistas são influenciados por outros que os antecederam, mas para poderem encontrar a sua própria identidade tiveram de se desviar e procurar o seu próprio caminho, sem medo do conflito. Há também obras de arte que não escondem o conflitual - pelo contrário, muitos artistas procuram exibi-lo: quer nas tensões internas à obra, quer provocando reações afectivas ou debates intelectuais mais violentos. Parecem indicar-nos a necessidade de aceitar o conflito e o confronto como parte da vida – e do desenvolvimento pessoal e comunitário. Como educamos para gerir a tensão (interna ou externa)? Como oferecemos instrumentos que ajudem a resolver os confrontos de opinião, de diferenças culturais ou religiosas, sem medo de ser ou pensar de forma diferente – e sem que isso conduza à violência?
  5. A valorização de todas as faculdades humanas – contra o império da razão. Os museus revelam como a humanidade tem lidado, ao longo dos séculos, com as diferentes potencialidades do humano: a racionalidade, as sensações, as emoções. Ao olhar para os vestígios que os nossos antepassados criaram para as diferentes actividades e âmbitos da vida – religioso, político, lúdico, laboral, natural, financeiro, familiar, íntimo... - ou para as obras de arte que privilegiam abordagens, temas e linguagens distintas, encontramos a totalidade do humano. Também os projectos educativos deviam valorizar as diferentes faculdades e linguagens: desenvolver os sentidos e as capacidades expressivas do corpo, atender aos sentimentos e afectos, potenciar o pensamento crítico e o discurso argumentativo. Fixar o projecto educativo apenas numa das faculdades é tão imprudente como exercitar apenas um dos músculos do corpo, atrofiando todos os outros.

(continua...)

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Paulo Pires do Vale-

Filósofo, professor universitário, ensaísta e curador. É Comissário do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, desde Fevereiro de 2019.

Texto de Paulo Pires do Vale
Fotografia de Tomás Cunha Ferreira
gerador-gargantas-soltas-paulo-pires-do-vale