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Ligados às máquinas… até que loucura nos separe

Nas Gargantas Soltas de hoje, Paula Cardoso escreve sobre os riscos de tratarmos as pessoas como obsoletas: desligados de quem somos, geramos artificialidades em vez de construirmos comunidades.

Nos meus tempos de criança, a publicidade televisiva era em si mesma um programa, fonte de inspiração para múltiplas encenações recreativas. Ainda hoje recordo slogans como “Se eu não gostar de mim, quem gostará?”, associado a uma marca de leite, ou de todo um diálogo entre uma cliente e a sua manicura, para promover um detergente que “amacia as mãos ao lavar a loiça”.  

Além de manter gravados vários textos, as músicas continuam sem me largar. Dos gelados, aos pudins e misturas solúveis, passando por refrigerantes, continuo a surpreender-me com a minha capacidade de trautear jingles com mais de três décadas.

É verdade que os anúncios se repetiam a cada intervalo, mas, muito mais do que a exposição à mesma mensagem incontáveis vezes, acredito que pesava a atenção que estava capaz de lhe dispensar, sem o apelo de inúmeras distracções.

A televisão ainda reinava soberana na arte de entreter e convencer massas, enquanto hoje disputa espaço e tempo com outros ecrãs – em que se destacam os computadores e smartphones –; com novas formas de consumir conteúdos audiovisuais – disponíveis sem intervalos indesejados nas plataformas de streaming –; e com a crescente polarização das redes sociais.

Ainda bem que todas essas possibilidades de entretenimento, informação e comunicação existem; mas ainda mal que continuemos a ignorar os efeitos de tantas actualizações sobre o “equipamento humano”.

Estudos sobre o funcionamento do nosso cérebro indicam que, em média, uma pessoa chega a processar 74 GigaBytes (GB) de informação todos os dias, através da exposição a vários aparelhos, como televisão, computador, smartphone e painéis publicitários. Segundo os cientistas, esse consumo equivale a assistir a 16 filmes, quantidade que, a cada ano, se estima aumentar 5%.

Os dados tornam-se ainda mais impressionantes quando comparados com a realidade de há 500 anos: 74 GB seria o volume de informação que uma pessoa altamente educada consumiria ao longo de toda a vida, mediante o acesso a livros e estórias.

Se é verdade, conforme revelam várias pesquisas, que o cérebro tem demonstrado a sua capacidade de processar a exposição a um maior volume de dados – ainda que com limitações de desempenho e impactos na saúde mental –, não é menos verdade que parecemos ignorar que isso não nos transformou em máquinas. 

Vai daí tentamos acelerar tudo: a velocidade a que ouvimos os áudios no WhatsApp; o tempo investido para conhecer uma pessoa – encurtado entre apresentações de aplicações de encontros –; o processo necessário para curar dores. 

A ideia de que parar é morrer está tão impregnada que seguimos obsessivamente acelerados. Corremos para onde?

O bug do novo milénio

Desconfio que fugimos de nós. Ligados às máquinas e desligados das pessoas que somos, geramos artificialidades em vez de construirmos comunidades.

A este ritmo, tem avisado Jaron Lanier, resvalamos para a loucura.

Considerado o “pai” da realidade virtual, e autor de obras como “Dez argumentos para apagar já as contas nas redes sociais”, ou “Você não é um Gadget”, Lanier alerta para o risco de tratar as pessoas como obsoletas.

“O perigo não está numa nova entidade alienígena que vai falar através da nossa tecnologia, tomar-nos de assalto e destruir-nos. O perigo é o de usarmos a tecnologia para nos afastarmos e nos tornarmos mutualmente ininteligíveis ou loucos, sem o entendimento de quem somos e sem interesse suficiente para sobreviver”, antecipou em entrevista ao The Guardian, peremptório na sua profecia: “Aí, basicamente, morreremos de insanidade”.

Para o também músico e artista gráfico, se quisermos que a tecnologia “seja projectada para servir as pessoas, temos de ter pelo menos uma ideia aproximada do que uma pessoa é, e do que ela não é”.

Continuamos capazes de nos reconhecer? 

As armadilhas estão à solta, sublinha Lanier, dando como exemplo a rede social X, ex-Twitter. “É uma maneira de pegar em indivíduos que começam como pessoas distintas e convergi-las para a mesma personalidade, optimizada para efeitos de engajamento”, nota o especialista, nessa entrevista ao diário britânico. Prosseguindo, o tecnólogo descreve essa personalidade-padrão como “insegura e nervosa, focada em ataques pessoais e que se sente confrontada por reivindicações de direitos de outras pessoas, desde que sejam diferentes de si”.

Lanier aponta os exemplos de Trump, Kanye West e Elon Musk. “Há dez anos tinham personalidades distintas. Mas agora convergiram para uma notável semelhança de personalidade, que se adquire quando se passa muito tempo no Twitter. As pessoas transformam-se em crianças no recreio da escola, desesperadas por atenção e com medo de levar porrada. Então tornam-se impostoras que se preocupam com elas próprias, e perdem a empatia pelos outros.”

Enquanto navego por essas e outras ideias do “pai” da realidade virtual, fujo o mais que posso da publicidade, mas observo que ela arranja sempre forma de me apanhar. Como desligar, sem me desligar do mundo? Como nos ligarmos uns aos outros se continuarmos ligados? Talvez o temido bug do novo milénio viva nisto.

-Sobre a Paula Cardoso-

Fundadora da comunidade digital “Afrolink”, que visibiliza profissionais africanos e  afrodescendentes residentes em Portugal ou com ligações ao país, é também autora  da série de livros infantis “Força Africana”, projetos desenvolvidos para promover uma  maior representatividade negra na sociedade portuguesa. Com o mesmo propósito, faz  parte da equipa do talk-show online “O Lado Negro da Força”, e apresentou a segunda  temporada do “Black Excellence Talk Series”, formato transmitido na RTP África. No  mesmo canal, assume, desde Outubro de 2023, a apresentação do magazine cultural  Rumos. Integra ainda o Fórum dos Cidadãos, que visa contribuir para revigorar a  democracia portuguesa, bem como os programas HeforShe Lisboa e Bora Mulheres,  de mentoria e empreendedorismo feminino. É natural de Moçambique, licenciou-se  em Relações Internacionais e trabalhou como jornalista durante 17 anos, percurso  iniciado na revista Visão. Assina a crónica “Mutuacção” no Setenta e Quatro, projeto  digital de jornalismo de investigação, é uma das cronistas do Gerador, e pertence à  equipa de produção de conteúdos do programa de televisão Jantar Indiscreto. Em  Março de 2023 foi apontada pela revista de negócios “Success Pitchers” como uma das  “10 Mulheres Líderes Mais Inspiradoras do Empreendedorismo Social”, distinção que  sucedeu à indicação, em 2022, pela Euclid NetWork, como uma das “Top 100 Women  In Social Enterprise” da Europa de 2022

Texto de Paula Cardoso
As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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