Vivemos numa sociedade diferente, não nos seus valores essenciais, mas na sua reestruturação superficial. Vivemos num período em que uma doença nos consome, a nós, aos nossos e aos outros. O nosso tempo é consumido por mais e mais notícias de que o que nos rodeia é perigoso, não sendo totalmente falso, gera inseguranças e medos. No entanto, apesar destas informações negativas constantes, acredito que no meio do caos surge sempre um ramo verde, uma nova folha, uma esperança para continuar. Além de todas as informações negativas, tenho sido, alegremente, surpreendida com cada vez mais notícias sobre saúde e bem-estar mental. Quantos anos foram precisos para que este tema tenha emergido, e quantos muitos de nós, enquanto seres humanos, sofremos para que finalmente se comece a dar relevância devida a tópicos como este.

Saúde mental, é muito mais do que o que ouvimos tradicionalmente como “doença”. As nossas emoções fazem também parte do que é considerado saúde mental. O que sinto faz parte da minha, a cada momento que inspiro e expiro, são as emoções que vão desenhando o meu bem-estar. Como uma tela branca vai surgindo uma pintura, com as cores e os caminhos a serem pincelados ao sabor de cada experiência, e isso também é saúde mental. Estar sã nunca poderia ser, apenas, estar livre de doença. Começa por estar plena e tranquila, começa por poder estar livre. Livre de sentir. Livre de escolher. Livre de viver. Livre para amar.

Estou numa fase diferente, e tu também estás. Ficamos mais em casa, andamos mais inseguros, perdemos o contacto físico. Sem percebermos perdemos também o contacto emocional, com o próximo e connosco. Paradoxalmente ficámos com mais tempo para estar sozinhos, mas com cada vez menos potencial para lidar connosco. São-nos retiradas as experiências e as emoções e é-nos dada a solidão.

Se antes já tínhamos dificuldade em assegurar a confiança em nós e no que nos rodeia, consigo imaginar agora. Se antes já tínhamos dificuldade em sentirmo-nos seguros, imagino agora. Deixamos de ter um suporte emocional que, possivelmente, são as pessoas que nos rodeavam diariamente. Ficamos sozinhos com as nossas emoções, num isolamento que, felizmente ou infelizmente, nos dá a oportunidade de as dissecar e enfrentar. Ao de cima, vem tudo o que há de bom, mas também de mau dentro de nós. Na verdade, é dessas emoções que somos feitos.

Isto leva-me a pensar que quanto mais tempo estou comigo mesma, mais tempo tenho para, essencialmente, duas coisas: apaixonar-me por mim e criticar-me. Num equilíbrio delicado, consigo motivar-me a ser melhor ou destruir-me. O tempo comigo mesma oferece-me mais formas de me amar, assim como me dá outras perspetivas para olhar o precipício. O amor próprio faz-me agarrar à vontade de viver, mas o mesmo amor próprio faz-me, por vezes, pensar que desistir é o caminho mais simples e fácil. Nesta ambiguidade, ganha quem tiver os melhores argumentos.

O amor próprio constrói-se, para além de muitas outras formas, de duas características principais: a paciência e a consistência. Cultiva-se, e tudo o que é cultivado passa por um processo de germinação lento e um crescimento demorado. Se algum dia te prometerem que te vais amar já amanhã, desconfia. É preciso tempo. Tempo para te aceitares na tua essência. Tempo para perceberes o que te pode estar a roubar a confiança e a alimentar a insegurança sobre o que realmente és. Tempo para trabalhares em ti, lapidares a tua melhor versão. Serás a tua melhor versão, assim que te amares em pleno.

É curioso, não somos a nossa melhor versão até nos amarmos a nós próprios, mas muitas vezes não deixamos que nos amem, até chegarmos ao ponto em que consideramos ser a nossa melhor versão. Aos olhos do amor próprio somos, e seremos sempre, os nossos maiores inimigos e impostores. Ainda que ouças as críticas externas, será sempre a tua reação às mesmas que define o quanto gostas de ti.

Não significa, porém, que não tenhas de aceitar que em ti há coisas que precisas de melhorar. Mudar e transformar pode ser, e muitas vezes é, sinal de maturidade e crescimento. Mas tens de ter a consciência que, neste caminho, continuas a não desistir de ti, porque te amas incondicionalmente.

Esta é a importância que a consistência tem para estares em pleno no teu amor. Amares-te não é estares sempre feliz e em paz com as tuas emoções ou as tuas reações às mesmas, mas é saber que, apesar dessas falhas, não te desvias do teu objetivo e não deixas de te amar. O foco das tuas prioridades continuas a ser tu. Tu, o teu bem-estar mental e o amor por ti continuam a estar em primeiro lugar.

Este é o pensamento que deve estar sempre presente no teu consciente. O teu mundo és tu, e é a ti que queres trazer crescimento. Ao cultivares este teu sentido de missão, o teu amor por ti cresce, invariavelmente. Tornas-te alguém resiliente e responsável por desenhar a tua realidade, com um único propósito, amares-te de forma incondicional.

Amor próprio não nasce apenas com os sucessos. Provém também de todos os fracassos. Amares-te na derrota é das tarefas mais difíceis. E, por isso, acredito que quando perdemos e ainda assim conseguimos olhar para nós com um sorriso, é sinal de amor. Como numa relação, o romance que vivemos connosco não é livre de discussões, quezílias e comentários indiscretos. Porém, apesar dos obstáculos, sabemos que amamos quando, tudo o que de bom advém dessa história de amor, é suficiente para os momentos de paz e tréguas que se seguem.

Amar é saber gerir. És o gestor da tua vida, e o teu maior negócio és tu mesmo. Faz todos os investimentos para que esse negócio prospere. Acredita sempre nele e na sua essência. Mas lembra-te, vai ser um caminho montanhoso, com muitas subidas e, principalmente, descidas. Será uma aventura maravilhosa pela descoberta do teu amor por ti.

Reserva tempo para parar e refletir o que mais amas em ti e o que gostarias de melhorar.

com amor,
Sofia Dinis

-Sobre Sofia Dinis-

Sofia Dinis é tatuadora, fotógrafa, designer, ilustradora, criadora de conteúdos e muito mais. Sofia Dinis é artista.
Nasceu e cresceu em Albufeira, mas foi em Lisboa que floresceu. Mudou-se para a capital para tirar a licenciatura em design de comunicação, no IADE, e foi nesta cidade que construiu todos os seus projetos. Teve um espaço de estética e deu formação na área, trabalhou como fotógrafa e designer e abraçou a tatuagem como hobby.
Em 2017, viu-se obrigada a repensar o seu percurso profissional quando fechou o seu espaço de estética e design e regressou a Albufeira. No meio do caos, decidiu que queria ser tatuadora a tempo inteiro e a 15 de fevereiro de 2018 regressou a Lisboa. Dava assim o primeiro passo para se tornar a tatuadora que toda a gente conhece.
O projeto SHE IS ART nasceu em pleno coração de Lisboa, numa casa de Air BnB de uma amiga. Durante duas semanas, Sofia tatuou 2 amigos e fotografou os trabalhos de forma a parecer que tinha um extenso portfólio. Desenhou o seu Instagram, desenvolveu a marca e, duas semanas depois, começou a receber vários pedidos para tatuar, não tendo parado desde então. Em menos de um ano, tinha mais de 50 mil seguidores no Instagram e uma lista de espera de 8 meses.
A marca SHE IS ART não parou de crescer ao longo destes 3 anos. Neste momento, é muito mais do que um projeto de tatuagens, é um projeto artístico. O ano passado, Sofia lançou o seu primeiro produto, o Diário 2021. Este ano, tem já planeados novos projetos para apresentar ao público. Afinal, criar faz parte da sua essência.

Texto de Sofia Dinis
Fotografia cortesia de Sofia Dinis
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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