Há quem a ame. Há quem a odeie. Agradeço devotadamente aos amigos e amigas que a odeiam. É que assim mais sobram para quem as aprecia…uma questão de sustentabilidade.

Este honrado ciclóstomo tem importância gastronómica há séculos, tendo entrado na história dos hábitos alimentares (tanto quanto pude apurar) pela mão dos romanos. Estes faziam-na em empadas  e assadas no forno, mas também as fumavam.

A loucura pela lampreia era tal, no tempo de Luculos, que as grandes casas romanas mantinham viveiros, contando-se até histórias de horror quanto à respetiva alimentação com escravos velhos e doentes. Que eu contesto veementemente, pois quem as iria comer a seguir era o proprietário do viveiro e não estou a ver um gourmet do tempo a alimentar dessa forma o "gado" que serviria à sua mesa.

Em Portugal - e para além das empadas de lampreia (em Viana do Castelo cheguei a

provar as empadas de lampreia do Natário), da assada no forno e da fumada -  

fazem-se arrozes de lampreia em várias regiões do país. No Douro e Minho, a preparação costuma levar vinho verde tinto e poupar assim no golpe do vinagre que se dá no molho. Na Região Centro e até no Ribatejo e Alto Alentejo (Belver e Gavião) utiliza-se o vinho local, mais evoluído e doce, contrabalançando com mais cebola e vinagre.

Sem esquecer a preparação “à Bordalesa” que não sendo nativa é por aqui muito

praticada, com a lampreia a ser bem estufada em vinho tradicionalmente maduro e

apresentada na mesa com o arroz branco ao lado, decorado com um pé de salsa.

É esta uma comida proibida na dieta judaica, por causa do sangue, obviamente, mas também pela aparência semelhante entre a lampreia e a serpente inimiga bíblica.

Tenho notícia que, em Portugal, e por antiga tradição, nalgumas regiões as mulheres não a comiam, embora a confecionassem. E ainda outro tabu em vigor um pouco por todo o lado refere que deve ser obrigatoriamente acompanhada com vinho. Quem comesse lampreia com água correria o risco de "ficar triste para sempre".

Comi lampreia em muitos restaurantes, dos quais tenho na maioria dos casos gratas recordações. Mas existe um desses locais que foi durante algum tempo (um tempo de juventude onde o dinheiro era menos, mas o apetite seria bem maior) sempre o escolhido para iniciarmos a época e matarmos a saudade deste prato.

Em Mação, perto da Barragem de Belver e na freguesia da Ortiga, mesmo junto ao velhinho apeadeiro da CP, encontrava-se a Casa da Dª Lena, conhecida como a "Lena da Barragem". Acho que ainda ali se encontra.

Em tempos idos que testemunhei eram comuns as excursões de Lisboa, pela Linha da Beira Baixa, para ali comer lampreia. A casa, um pouco como o Café Correia de Vila do Bispo e a sua inefável Lilita (já encerrado), tinha idiossincrasias que podiam afastar o incauto.

Primeiro que tudo (agora já não, mas faço um pouco de história) ali só se comia mesmo lampreia. Uma vez, ainda no tempo dos “escudos”, a proprietária foi questionada por um amigo meu:

- "Se não poderia a Dª Lena ter umas simples febras grelhadas também na carta?"

E ela ter-lhe-á respondido:

"- Olhe lá, então eu ainda neste fim de semana fiz 1000 contos a vender lampreia e acha que vou ter febras para aturar aqui os bêbados da terra?!"

Depois, o vinho disponível era miserável! De tal forma que o preço da dose da lampreia incluía a mistela. O Cliente era convidado a levar com ele o seu próprio vinho. O que fiz várias vezes.

Neste momento – pelo menos em setembro do ano passado - estava a casa um pouco mais composta. Já não se via a areia no chão a esconder as manchas do tinto, as casas de banho são normais (nem lhes conto como eram...) e há um prato do dia para além da lampreia.  

A dita cuja só se fazia em tacho com arroz. E a última vez que ali fui tinha dois preços na carta.  25 euros a dose (4 a 5 troços, embora pequenos). Ou então 30 euros à "desbunda”, comendo o Cliente tudo quanto quisesse.

E nesse preço está incluído o Pão, o Vinho (enfim, se se pode chamar àquilo que já está nas mesas vinho), o café e uns troços de Tigelada (fraquinha embora).

Se a Dª Lena simpatizar convosco pode ser que mande entregar na mesa uns canjirões de Vinho de Pias, esse sim, muito agradável e também incluído no preço da dose da lampreia.

A lampreia e o arroz nem sempre chegam quentes às mesas. O serviço é assim, assim. Os guardanapos e as toalhas são de papel. E a Dª Lena não é para brincadeiras....

Mas a lampreia é bem feita, e por 30 euros podemos comer uma dessas "bichas" inteiras sozinhos. Se tivermos ganas para tal.

Recordo que em Lisboa uma dose de quatro pedaços custará os tais 30 euros (ou mais).

Convenhamos que há piores locandas para satisfazer este vício do início de cada ano.

De cada ano, normal, acrescento eu…porque como estão as coisas agora iremos comer lampreia nos restaurantes lá para agosto de 2021… se tivermos sorte.

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses.  Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho 
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