Ana Pinto Coelho é diretora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, um festival que coloca a cultura e a comunicação social a trabalhar em conjunto para promover a saúde mental. As M-Talks são uma peça elementar do MENTAL, onde se tem debatido e apresentado temas como o alcoolismo, o suicídio, o burnout ou a ciberdependência, com a contribuição de especialistas da área e com a moderação de jornalistas.

O estado de confinamento provocado pela COVID-19, que veio, entre outras consequências, aumentar estados de stress e de ansiedade, exigiu uma obrigação cívica à organização do Festival Mental de se organizar para trazer à sua comunidade uma resposta adequada aos vários desconfortos que surgiram. E assim aparecem as M-Talks 4ALL, conversas diárias, às 11h00, importantes e para todos, que são transmitidas gratuita e digitalmente pela internet, através das redes sociais do Festival Mental para prestar apoio a quem está do outro lado.

O Gerador tem uma relação próxima com Ana Pinto Coelho, convidada recorrente das propostas culturais que tem lançado, inclusive nesta fase de quarentena. Posto isto, foi perceber melhor o contexto das M-Talks, das M-Talks 4ALL, da próxima edição do Festival Mental e do papel do Gerador, enquanto agente cultural e de comunicação social, na promoção da saúde mental, no dia em que Tiago Sigorelho, presidente do Gerador, é o convidado das M-Talks 4 ALL. Ana Pinto Coelho não deixou uma vírgula de fora: percebe-o na entrevista que aqui te deixamos.

Gerador (G.) – Como surgiu a ideia das M-Talks 4 All e porquê a opção deste formato?
Ana Pinto Coelho (A.P.C.) – As M-Talks existem desde a primeira edição [do Festival Mental]. São de certa forma o “prato quente” do Festival, dado que é através delas, e com a ajuda dos maiores especialistas, que falamos dos temas de cada edição. Se no primeiro ano falámos de alcoolismo (nas dependências, âncora das M-Talks), Alzheimer, Borderline, no segundo ano passámos ao suicídio, ciberdependência (outra vez no capítulo das dependências) e esquizofrenia. Na edição 2019, as M-Talks foram sobre demências, burnout e, no capítulo das dependências, falámos pela primeira de FoMO em Portugal, de uma forma profissional e com a condicionante de quase não haver especialistas portugueses sobre o tema (e nós não termos capacidade financeira de convidar especialistas de fora). Todas as M-Talks (o nome vem do Festival Mental, daí M-Talks) são moderadas por jornalistas, porque entendemos que a literacia em saúde mental é necessária a todos. Os jornalistas são assim encorajados a participar ativamente no Festival, e estamos seguros de que passaremos a ouvir falar mais de Saúde Mental nos OCS: aliás, os resultados estão à vista! Os temas das M-Talks são sempre debatidos à luz do Filme que se lhes segue. Nunca se debate um tema per se. Para isso, existem conferências, convenções, mesas com diferentes dinâmicas em outras salas e espaços. No [Festival] Mental os temas têm como base o Cinema. E a Mostra traz (quase) sempre filmes inéditos, estreias em Portugal.
E, num repente, chega 2020 com toda a transformação global que está em curso: novo Corona Vírus ou Covid-19, pandemia, isolamento, e tudo o que este ano envolveu até agora e vai continuar a envolver. Fez-nos sentir não só a urgência mas também a obrigação cívica de criar M-Talks que fossem diárias, importantes e para todos, e que pudessem ser transmitidas gratuita e digitalmente pela internet, no caso através do Canal Youtube do Festival Mental (e demais redes sociais), para, pura e simplesmente, ajudar quem precisa. As M-Talks 4ALL são pequenas conversas com profissionais de várias áreas que nos elucidam sobre os cuidados a ter neste momento difícil que atravessamos. Conselhos, opinião e apontamentos que pretendem ajudar quem os procura. As M-Talks 4ALL são uma proposta do Festival Mental e no seu âmbito, ou seja, Saúde Mental, Cultura e Comunicação Social/informação pública. A ideia surgiu num ápice e no dia seguinte estávamos a gravar e a criar a imagem gráfica e o genérico de abertura para este especial. Passou a ser o arranque oficial do Festival Mental 2020. Vamos na nona semana de entrevistas, de segunda a sexta-feira, sempre às 11 horas da manhã no Canal Youtube do Festival Mental, em estreia. Depois distribuímos pelo Instagram e pelo Facebook.

G. – Qual tem sido o impacto junto dos seguidores do trabalho do Festival Mental? Que feedback têm tido?
A.P.C. – O trabalho feito no âmbito do Mental é sempre distinto do que possa aparecer. Graças ao distanciamento físico (e não social, como gosto de repetir), proliferaram na internet várias ideias, na sua maioria sem estrutura nenhuma ou sequer consistência. As pessoas têm uma ideia, gravam um live. A desinformação e as fake news que sempre existiram, agigantaram-se. As proporções estão num limite perigoso. Em termos de confiança e credibilidade, o Festival Mental é já uma marca de segurança no que à saúde mental diz respeito. Isto, claro, deve-se também à criteriosa escolha dos nossos parceiros, de todos os incríveis profissionais que ao longo dos anos têm trabalhado connosco e que continuam a fazer crescer esta “família”, se assim poderemos dizer. E com isto refiro artistas, profissionais de saúde mental, jornalistas, etc.. Claro que esta credibilidade e esta segurança fidelizam os nossos seguidores, e o feedback tem sido sobretudo à volta das palavras “gratidão” e “parabéns”. Cada vez mais, o público sabe que pode e deve contar connosco. Porque o Mental é um palco de intercâmbio único no país para o combate ao estigma através da promoção da saúde mental através da Cultura, Cinema, Artes e imprensa. Aos convites para as M-Talks 4 ALL, tivemos apenas duas recusas em mais de sessenta convites (são pessoas muito ocupadas). Estando na nona semana, recebemos todos os dias propostas de pessoas que querem contribuir, falar, participar. Infelizmente, o projeto não funciona assim, mas ninguém fica sem resposta. E todo este alento e carinho deixa-nos profundamente sensibilizados. Quanto a números, a página do Facebook do Festival mantém as 210 K de reach para apenas 8 K de “amizades”, o que é absolutamente extraordinário.

G. – Como esperam realizar o Festival Mental 2020? É de esperar uma edição online, onde se inserem as M-Talks 4 All?
A.P.C. – Excelente questão! O Festival Mental 2020 continua agendado no Cinema São Jorge, Auditório Orlando Ribeiro, Fábrica do Braço de Prata e no Auditório da Biblioteca Municipal de Ponta Delgada. Este ano, deixámos cair o Porto, porque cansámos de investir numa cidade cuja Câmara Municipal é fechada, surda e não promove um Festival de Saúde Mental e Artes na cidade. Foram dois anos a sustentar edições, que não vamos voltar a fazer por decisão própria. Existem outras cidades próximas que lhe tomarão o lugar devido a outro olhar e consciência da importância do que fazemos. Quanto à pandemia e às novas regras, e caso não possamos fazer em sala, temos Planos B e C para 2020, já acertados. Vamos apenas aguardar até a uma data mais próxima para decidirmos o plano.
Mais do que nunca, com a pandemia e com a crise social e psicológica que se avizinha, este Festival tem que existir. A sociedade precisa dele. Estamos dispostos a ir onde for preciso, assim tenhamos condições para o fazer. Mas não há apoios financeiros, nem real vontade política. Apenas os parcos donativos que temos tido de algumas instituições, mas nada que se compare com o que os Festivais geralmente têm para trabalhar. Por exemplo, não temos ordenados nem mesmo um escritório para trabalhar. O Festival Mental tem sede fiscal em Portugal. Nunca será um Festival prioritário no país do Futebol, dos grandes Festivais de Música e dos Festivais de Cinema totalmente fechados (aos anos) a lobbies ou “amigos” e seus jurados. Não pertenceremos nunca a estes confortos estabelecidos há anos, com os quais, por exemplo, o Ministério da Cultura tem que lidar. Este é o processo que temos assistido em testemunho real, desde sempre e que ultimamente se agravou. Num país como Portugal, juntar Saúde Mental com Cultura é para valentes! É para quem sabe e acredita que a longo prazo isto tem realmente resultados. Os Festivais congéneres europeus têm uma estrutura financeira totalmente impensável em Portugal. E, reparem, temos o total apoio do Programa Nacional para a Saúde Mental da DGS, o apoio Institucional do Ministério da Cultura, o Mecenato Cultural, o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, e tantos outros (como a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a Associação Mutualista Montepio Geral, entre outros, mas com curtíssimos donativos – que muito agradecemos mas que manifestamente são parcos à medida que o Festival vão crescendo). O financiamento é sempre muitas portas ao lado e as empresas em Portugal não olham ainda para fora das suas caixas de conforto. Não existe Mecenato, não existe Responsabilidade Social, coisas tão comuns noutros países.
Fazer o Festival Mental em streaming, toda a programação, ou parte dela, é totalmente possível. Seria até muito interessante e certamente chegaríamos a novos públicos (sempre objetivo primeiro do MENTAL), porque a vergonha ou o estigma de pagar um bilhete para ir assistir a um filme ou M-Talk ou espetáculo no Festival Mental cairia no chão. As pessoas podiam ver em casa. E nós, nas salas, com toda a proteção necessária, podemos claramente realizar (quase) todo o Festival. Aí, com a M-Talks em modo “normal” de palco, não para a plateia mas para a internet, os especialistas poderiam até chegar muito mais longe. Mas para isto é preciso financiamentos. É onde gastamos mais energia ao longo do ano em vez de estarmos a pensar em dinâmicas, soluções e procurar mais apoios para os artistas. O dinheiro é canalizado para outro tipo de projetos porque as prioridades – que começam logo na Educação -, são outras. Mas o Festival Mental 2020 vai realizar-se, há várias fórmulas já pensadas. Falta seguramente apoio financeiro, mas, da parte da organização, a importância e a relevância movem-nos mais do que tudo. Trabalhamos pro bono, fazemos o que podemos. Espreitamos para os colegas, vizinhos, dos Festivais congéneres Europeus, e sorrimos. Eles não entendem como fazemos tudo isto sem as menores condições. Somos amigos, sabemos o que se passa com cada um.

G. – Nesta semana, um dos convidados é o Tiago Sigorelho, presidente do Gerador. Qual é a importância da proximidade entre comunicação social, cultura e saúde mental, os três eixos do Festival Mental?
A.P.C. – Do meu ponto e vista estão intrinsecamente ligadas e são a única forma de se promover a saúde mental e combater a iliteracia. Não vejo outra. A sociedade ainda confunde saúde com doença mental. A sociedade ainda não se apercebe que, como ser humano, tem corpo e mente e que, tal como o corpo adoece, a mente também. E que, tal como se deve pelo menos tentar manter o corpo saudável, o mesmo também se aplica à mente (e não, não é pela frase bacoca do In Vino Veritas, mais pelo mens sana em corpore sano). A Cultura é uma plataforma privilegiada por várias razões: logo de início, está ligada ao bem-estar. Ir a uma sala ver algo dá prazer. E ultrapassa-se o estigma. Uma sala ou local de espetáculos é um lugar privilegiado para encontrar o espetador descontraído, interessado, receptivo, atento. É, portanto, o espaço de eleição para poder assistir a conteúdos que julga pertencer a “outro lado”. Ao lugar dos doentes, do manicómio, dos “tontos” (deixaria aqui os inúmeros adjetivos insultuosos que o léxico do dia-a-dia infelizmente ainda inclui). Ao entender que está a insultar, talvez já se chegue a algum lado! Na sala de espetáculo isto pode ser feito. Através de um stand up, de uma peça de Teatro. Um encontro com Dança. Vários filmes da MOSTRA, assistir a uma M-Talk. Uma programação para crianças do MENTAL JÚNIOR, um espetáculo de música no My Story, My Song, ou até na exposição de artes plásticas ou a ler a nova edição literária do Festival Mental (temos chancela própria).
É certo que a Cultura em geral é a grande porta para a promoção da Saúde Mental. O Gerador é uma plataforma que tem indiscutivelmente feito um trabalho urgente também, que é estabelecer pontes entre a industria criativa, vulgo artistas e espetáculos, e as empresas. Há muitos anos tentei fazer isso, mas com o tempo fui-me deparando com diretores de marcas, de marketing (sou licenciada em marketing e publicidade também, além de terapeuta em dependências) totalmente formatados e longe do que se conhecia noutros países. A Comunicação já não se faz como cá, há anos. Mas, infelizmente, as marcas aqui tendem a gerir-se pela bitola mais baixa. Pelo brejeiro, pelo medíocre, pelo “o que as massas querem”, o que é totalmente provado como erróneo. Daria uma longa conversa, com estatísticas e comparativos. Tenho ideia de que o Tiago Sigorelho já percebeu isto há muito, mas ainda não conseguiu mudar o mundo. Acredita na mudança. Acredita e está a fazer por ela todos os dias. Procura o tom consensual, procura gerir suscetiblidades, criou um nicho onde junta o bom gosto com o profissionalismo motivado. Coisa rara.
Sem Comunicação Social, para mim, tudo o que fazemos no Festival ficaria dentro de portas. Ora a saúde mental tem que saltar para dentro da casa de toda a gente. Tem que sair das salas para mundo. Tem que abrir. Até ao dia em que já não procuraremos mais estes “novos públicos”. Passarão a ser públicos, como se de outro Festival qualquer de qualidade se tratasse. Sem os jornalistas a ajudar nesta promoção, nada disto faz sentido. E estou grata a tantos, tantos! Aos que moderam as M-Talks, todos os anos, Ao próprio júri da MOSTRA, que tem jornalistas/críticos da área do Cinema (a tal que geralmente é tão fechada, triste, zangada, invejosa, arrogante – mas que tem raros profissionais, quase todos sem apoios, desconhecidos alguns, absolutamente geniais). A todos os que convidamos para entrevistas, que divulgam o nosso trabalho, que nos recebem todos os anos. É esta a task force necessária para fazer a mudança: Saúde Mental-Cultura-Comunicação Social. Acho que abrimos uma janela por onde muitos outros vão querer entrar a seguir. Mas a comunicação e imagem são também essenciais. A saúde mental não tem sempre a cabeça baixa nem sombras em cima dela. Mais: não tem que ser sempre representada nas revistas e jornais por uma figura feminina. Até porque os homens, neste campo, precisam ainda mais de ajuda.

G. – Em dois meses de conversas, há alguma conversa que a tenha marcado especialmente? Quer partilhar?
A.P.C. – Seria no mínimo injusto da minha parte citar uns em desfavor de outros. Todos os nosso convidados trouxeram às M-Talks 4ALL sentimentos, emoções, ideias, propostas culturais e sempre com um sorriso, um “claro que sim!”, um “vamos a isso” que é impossível esquecer. Nesse sentido não, não tenho nenhuma que me tenha marcado particularmente. Já quanto ao tema, sou muito sensível à bioética, à questão da Big Picture que provoca pandemias e à certeza da ecoansiedade e perturbações mentais que estão a ter mais e maiores repercussões dado o estado do Planeta e da forma com o a Economia/Finança passou a regular a sociedade de forma prepotente. Fiquei muito feliz com a M-Talks 4ALL do Professor Doutor Miguel Xavier de quem sou fã, para além das explicações objectivas a que já nos habituou, ter falado do PSTD que poderá vir aí em força, e da do Dr. Eduardo Carqueja que está em sintonia perfeita na questão da bioética, tema que nunca se fala nos telejornais. Pela mesma assertiva abordagem à verdade, a da Rita Blanco, a da Paula Serpa, a do Paulo Dentinho. Mas mesmo só por isso, porque foram os que falaram da Big Picture do vírus, limitando-o a algo que já todos sabíamos que iria acontecer e a pedir ajuda aos que podem e mandam: a tão falada “retoma” não pode acontecer, jamais, da mesma forma, porque estava tudo mal. Esta era uma primeira oportunidade para ir repondo as coisas bem e com calma. E a bem, também, da nossa saúde mental tão arrasada, e da Cultura, que ainda vive de quezílias e mau estar. Tudo poderia ser corrigido e tivemos uma hipótese de ouro. A próxima não será tão branda.

Texto e entrevista de Rita Dias
Fotografia da cortesia do Festival Mental

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