Aos 28 anos, Polina Klimovitskaya decide deixar a “demagogia hipócrita” da Rússia e fugir para a América - a América que a espreitava quando era criança nas primeiras vezes que viu Chaplin na tv, durante um curto período em que era permitido vê-lo por este namorar publicamente o comunismo. Ela arrisca a viagem sem saber falar Inglês e sem ter documentos que lhe permitam residir nesse país. Acabou por lá ficar até hoje como professora de acting (escrever aqui ‘teatro’ seria redutor).

Quando a conheci, em Évora, há 12 anos, tive o instinto inabalável de ir ter com ela fosse onde fosse que desse aulas e em 2010, pregando um susto imenso aos meus mais próximos, fui na minha primeira viagem de avião sozinha para o outro lado do oceano, directa a Nova Iorque, sem bilhete de regresso. Fui porque sabia que tinha de ir. Uma actriz não pode para sempre acreditar nos seus ‘dotes’ e ‘talentos naturais’ como suas únicas ferramentas - chega a um certo momento em que se torna uma falácia, repetindo-se sem evolução ad aeternum. É importante acrescentar que fui porque tinha recebido um prémio financeiro de jovem intérprete - sem o qual não teria conseguido fazer tal viagem.

Lisboa-Londres primeiro, com uma mala que parecia um armário. Em Londres, um nevão deixou tudo de pantanas, inclusive as malas, espalhadas pelo aeroporto como corpos órfãos. Já não ia conseguir chegar à primeira aula. Chorei de nervos. A minha irmã Olguinha, que vive há muito em Londres, salvou-me, acolheu-me e distraiu-me durante uns dias até que tudo se acalmasse e voltasse a conseguir um novo voo. Bendito nevão que estreitou os laços de duas irmãs que sempre viveram longe uma da outra.

Londres-Nova Iorque, sem a minha mala-armário. Chego de dia. Uma senhora ao meu lado, enquanto espera boleia, mostra-me uma joaninha que pousou na sua mala e diz-me que nos vai dar sorte às duas. Lembro-me de chegar e não sentir que estava verdadeiramente ali (demasiados filmes americanos na cabeça). A neve escurecia e sujava tudo, saía fumo das tampas de esgoto, quase não havia céu quando se olhava para cima e o barulho de obras nunca adormecia. A minha mais que querida (e, a partir daí, para toda a vida) amiga Benny (que já não dava pelo som das obras) recebeu-me no seu apartamento. Mais uma vez, tive o privilégio imenso de ter quem me estendesse a sua generosidade (à la Tenesse Williams).

A Benny é uma peça muito importante nesta história por várias razões: ela soube integrar-me na sua vida numa fase dura de luta por um lugar naquele sítio desvariado - a sua insistência inabalável em ser melhor todos os dias, e o jogo de cintura que fazia para lidar com todas as violências diárias da profissão daquele lado do oceano mereciam o meu maior respeito. Fez-me pensar sobre o que queria para mim e sobre os meus próprios limites - eu não teria o seu estômago nem a sua força. Nunca deixei de ser ali uma turista. Ela tinha, para mais, ouvido os meus conselhos e procurado a Polina, por quem trocou todos os métodos que por lá tinha estudado até então. O meu orgulho era imenso. (A mala-armário chegou mais tarde às tantas da madrugada - fomos as duas de pijama buscá-la à entrada do prédio e subimos com ela, mortas de sono, escada estreita acima, até casa - essa mesma mala, entre mudanças de apartamentos, irá cair, abrir-se, e deitar ao chão enlameado, todos os livros que tinha, qual cena de filme, quando já está tudo a correr mal e há aquele momento em que a protagonista chora prostrada no chão, prestes a desistir de tudo).

A escola, Michael Howard’s Studio, onde estudei nos 5 meses seguintes era a poucos minutos a pé do apartamento - luxo máximo. Um andar com 3 pequenos estúdios onde Polina ainda dá aulas. Foi aí, virada de frente para as janelas que mostravam a cidade, que comecei a deixar o meu corpo chegar àquele país (sendo que Nova Iorque não é a América e a América não é, evidentemente, o centro do mundo). O estúdio tinha por vezes pequenos adereços à mão e uma porta sobre rodas ao fundo para ser usada se necessário - peça que sempre me fascinou. Fui feliz ali. Foi a minha escola. Trago até hoje o que comecei naquelas aulas, como por exemplo reaprender a brincar, perder a vergonha de falhar, destruir os mil e um preconceitos que o mundo tece ainda antes de nascermos nele, etc.

Achei sempre a Polina tão jovem no seu pensamento e eu tão velhinha na minha disponibilidade. Ela foi a Rússia boa da minha Nova Iorque - fizemos Tchèckov durante aqueles meses e eu pude experienciar a Sónia do Tio Vânia e a Natasha das Três Irmãs, e pude roubar cenas dos filmes a preto e branco da Greta Garbo e aprendi sobre ritmo, sobre absurdo, sobre saber namorar com os livros onde estão escritas as peças, e sobre o nosso “inner movement”, a nossa consciência não intelectual, aprendi a dizer ‘pai’ em inglês sem estranhar, a estar em cena em Inglês, a estar em cena em Russo, e “the eyes on the back of your scall”, e as forças opostas dentro de nós, aprendi a habituar-me a que era tudo mais “simple” do que o que nós fazíamos, aprendi a respeitar a profissão. “To be present with one whole being in a moment without planning, holding preconceptions and ego concerns is the most difficult challenge both in life and stage.”

Aos domingos ia atrás dela para um estúdio em Brooklyn onde só existia uma regra: ninguém comandava a sessão de trabalho e todos poderiam oferecer experiências e conhecimento. Batiam à porta ex-alunos de Grotowski, actores profissionais, ex-alunos da Polina que tinham desistido de ser actores, e gatos também - excelentes intérpretes! As minhas pernas tremiam de nervos e de responsabilidade. Medo de não estar à altura.

O dinheiro, entretanto, foi desaparecendo. Um dia recebo um e-mail de uma colega de turma que recomendava às pessoas o trabalho em questão: um pai procurava uma espécie de babysitter que estivesse com ele enquanto ele estava com a filha. O casal estava separado, ele trabalhava num escritório em Wall Street, a mãe tinha muito dinheiro (passava-me cheques na rua) e a filha de ambos tinha no máximo 7 anos e recusava-se muitas vezes a estar com o pai. História por demais bizarra. Fui conhecê-lo ao seu escritório, pareceu-me um ser sensível, carente e triste. No dia seguinte, dei por mim, não sei ainda muito bem como, na sala de espera do consultório da psicóloga da família. Senti-me uma das personagens da Diane Keaton - jazz a tocar num rádio de cor verde, o fim de tarde nos prédios de Nova Iorque além da janela, o ton sur ton das paredes e mobiliário, e a psicóloga que quando aparece para me vir buscar é igual à terapeuta da série “Sopranos”. Sentada no sofá do seu consultório explica-me que o assunto desta família é complexo, que a mãe não deixa a filha estar sozinha com o pai, que é controladora, que a menina tem uma “cassete” na cabeça e que o meu papel é fazê-la sentir-se segura e acompanhada mas também tentar afastar-me sempre que possível para que ela consiga criar uma relação saudável com o pai sem estar sempre em completa supervisão. Acrescentou que a menina devia estar mesmo a chegar e podia gostar ou não gostar de mim. Agora a escrever isto penso como é que não fingi que estava aflita para ir à casa de banho e não fugi pela escada abaixo o mais depressa possível. Ainda expliquei que não era de lá, que era nova na cidade, que acabaria por me ir embora… no entanto já era tarde, a menina entrara no consultório e perguntara, séria, qual a minha cor preferida. “Pensa depressa, Sara” digo a mim mesma enquanto procuro uma pista pela sala. “Que raio é a tua cor preferida?”. “Azul!”, digo sem pensar muito, e os seus olhos de criança iluminam-se: “a minha também!”. Pronto. No dia seguinte, o pai deu-me a filha para a mão, sem quase me conhecer, para que a levasse de metro para o outro lado da cidade entregando-a à mãe. Lá, debaixo de terra, penso: “E se ela é raptada? E se eu me engano e vou parar tão longe que não sei voltar?”. Sinto a mão dela a apertar a minha. Ela explica-me qual é o metro certo - afinal é ela que me leva para o outro lado da cidade. A mãe, sempre séria, assusta-me sempre e faz-me inquéritos completos sobre o dia. Aguentei esta história de espionagem e abandono durante um mês. Entre pequenos bullyings e actos desesperados meus (como o de tentar explicar que nós portugueses fazíamos uma coisa estranhíssima que era sentarmo-nos à volta da mesa a conversar durante as refeições), chegou uma altura que não havia cheques que cobrissem a violência daquele cenário devastador daqueles pais separados e daquele filha já tão adulta à força. Menti. Disse que tinha de voltar para Portugal mais cedo. Penso como estará ela, aquela menina, agora com 19 anos.

Vou ter de falar de mais duas mulheres antes de acabar esta crónica nova iorquina. Peggy Shaw e Marina Abramovic´.

“Must: the inside story” foi das performances mais tocantes que vi na vida. Estávamos numa sala não muito grande e nela um piano e seu pianista, uma tela onde passavam vídeos que pareciam pinturas e Peggy gigante, imagem magnífica, vestidx de fato e gravata, falava de ossos, cantava com rouquidão, e mostrava imagens internas do seu corpo. Tentando explicar um mundo não binário e um corpo que não se vê, defendia o que Polina nos tentava dizer todos os dias - tudo está sempre em movimento, e a lua é parecida com uma célula, que é parecida com uma paisagem vista de cima, ou com um átomo invisível, ou com a cor dos olhos de alguém que se vê ao espelho.

“When my skin cracks open

You will find my meat

My carnivore body. (…)

You will see two skeletons holding each other in the desert and a giant in Mongolia

(…) Evidence that someone lives here. Really lives and leaves traces. (…)

A couple of hundred million years ago, before you were born, my body was joined together to form one landmass. Slowly my twelve plates started moving away from each other. My continents were dancing to the music of the deep time. A dance of incredible slowness. Powerful enough to throw up the mountains and pour away the oceans.”

“The artist is present” foi outra revolução que acompanhou todo o tempo em que vivi em Nova Iorque - eu no estúdio, eu no supermercado, eu ao computador, e Marina sentada. Eu com dúvidas, eu a telefonar para casa, eu a escrever e Marina sentada. Nova Iorque com pressa, Nova Iorque com sol nos jardins, Nova Iorque pobre, e Marina ainda sentada. Quando fui ao MOMA ver a retrospectiva do seu trabalho, não tinha grande apreço pelo uso do que considerava ser uma espécie de “auto-violência”, no entanto, que sabia eu sobre a história de Abramovic´? Nada. As salas imensas que se sucediam umas às outras engoliam-nos e testavam-nos, ainda que como espectadores. E no centro do edifício, Marina, que descobriu depois de tudo o que fez, o acto mais simples e pleno: estar sentada durante 3 meses, oito horas por dia, numa cadeira, receptiva a quem se sentasse à sua frente e quisesse olhá-la, olhos nos olhos, o tempo que achasse necessário. No dia em que lá estive, a sua performance ainda não era a febre em que se transformou, mas não consegui sentar-me à sua frente porque uma fã, vestida e penteada igual a si, decidiu sentar-se em frente a ela todas as 3 horas em que lá estive. Posso dizer, ainda assim, que só de me sentar no chão por perto, senti a energia daquele exercício de imensa concentração e esforço que era estar presente. A sensação que tive foi de que ela estava a desacelerar o planeta sozinha. E voltei a pensar naquela frase extraordinária: “To be present with one whole being in a moment without planning, holding preconceptions and ego concerns is the most difficult challenge both in life and stage.” Estar presente com todo o nosso ser por inteiro, no momento, sem fazer planos, sem preconceitos e sem preocupações do ego, é dos desafios mais difíceis de levar a cabo tanto em cena como na vida.

Tavira, quase Setembro, 2021

Sobre Sara Carinhas-

Nasceu em Lisboa, em 1987. Estuda com a Professora Polina Klimovitskaya, desde 2009, entre Lisboa, Nova Iorque e Paris. É licenciada em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Estreando-se como actriz em 2003 trabalhou em Teatro com Adriano Luz, Ana Tamen, Beatriz Batarda, Cristina Carvalhal, Fernanda Lapa, Isabel Medina, João Mota, Luís Castro, Marco Martins, Nuno Cardoso, Nuno M. Cardoso, Nuno Carinhas, Olga Roriz, Ricardo Aibéo, e Ricardo Pais. Em 2015 é premiada pela Sociedade Portuguesa de Autores de melhor actriz de teatro, recebe a Menção Honrosa da Associação Portuguesa de Críticos de teatro e o Globo de Ouro de melhor actriz pela sua interpretação em A farsa de Luís Castro (2015). Em cinema trabalhou com os realizados Alberto Seixas Santos, Manoel de Oliveira, Pedro Marques, Rui Simões, Tiago Guedes e Frederico Serra, Valeria Sarmiento, Manuel Mozos, Patrícia Sequeira, João Mário Grilo, entre outros. Foi responsável pela dramaturgia, direcção de casting e direcção de actores do filme Snu de Patrícia Sequeira. Foi distinguida com o prémio Jovem Talento L’Oreal Paris, do Estoril Film Festival, pela sua interpretação no filme Coisa Ruim (2008). Em televisão participou em séries como Mulheres AssimMadre Paula e 3 Mulheres, tendo sido directora de actores, junto com Cristina Carvalhal, de Terapia, realizada por Patrícia Sequeira. Como encenadora destaca “As Ondas” (2013) a partir da obra homónima de Virginia Woolf, autora a que regressa em “Orlando” (2015), uma co-criação com Victor Hugo Pontes. Em 2019 estreia “Limbo” com sua encenação, espectáculo ainda em digressão pelo país, tendo sido recentemente apresentado em Londres. Assina pela segunda vez o “Ciclo de Leituras Encenadas” no Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal.

Texto de Sara Carinhas
Fotografia de João Silveira Ramos
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