12 de maio é Dia Mundial da Enfermagem, foi o dia em que nasceu Florence Nightingale, a “dama da candeia”, considerada a “mãe” da moderna enfermagem pelo trabalho notável de organização do tratamento dos feridos que realizou durante a Guerra da Crimeia.

Sempre que ouço falar de enfermeiros ou enfermeiras recordo uma história que se passou no Algarve quando eu lá ia dar aulas de matemática no seminário de Faro, por volta de 1978 ou 79.

Por essa altura, Faro andava num rebuliço de construções. Sobretudo para o lado da Praia de Faro ou a caminho do aeroporto, zona que estava na “moda” dos construtores naqueles tempos. E foi o que valeu ao “acidentado”, como verão.

Dois miúdos que andavam de mota transportando um varão de ferro tiveram um acidente, caíram, e um deles espetou o varão pela axila. Chegados ao Hospital de Faro, o experiente enfermeiro-chefe sabia que não tinha lá “material” para resolver o assunto, meteu o miúdo no seu carro, com várias toalhas a tapar a ferida (e o varão) e dirigiu-se a toda a velocidade para um local onde estava a ser construído um empreendimento.

Ali chegado disse ao que ia: pedir emprestado um instrumento para cortar aço, de forma que a parte excessiva do varão pudesse ser removida do braço do doente. Fez-se logo ali a “operação”, e o rapaz foi conduzido ao hospital, para ser então e de facto mesmo operado depois de retirado o trambolho.

E nunca mais me esqueci do nome do “instrumento”, era uma cisalha, uma espécie de guilhotina manual para corte de metais.

Por coincidência este caso passou-se perto do restaurante onde estávamos a almoçar, e quando ali chegaram os engenheiros da obra, a história foi contada a toda a gente.

E assim também eu a ouvi.

Muito medronho beberam os engenheiros à conta do episódio, oferecido pelos clientes ali presentes. Foi uma festa que teve final feliz.

No restaurante em causa, íamos sempre comer os choquinhos fritos com tinta, acompanhados de vinho de Tavira: e, para começar, carapaus alimados ou amêijoas das “cristãs”, normalmente servidas com xerém (papas de milho à algarvia).

Não me recordo do nome do restaurante, lembro-me que era na povoação de Montenegro, e que quando lá queríamos ir dizíamos: “Vamos ao Montenegro”.

O preço era por cabeça, e se houvesse amêijoas era mais caro.  

Se fossem apenas os carapaus de entrada seguidos dos chocos, com a meia garrafa de Tavira, sobremesa e café, pagávamos naquele tempo tanto quanto 70 escudos por pessoa…

O vencimento de um assistente universitário (dos novos) andava nessa altura pelos 12 000 escudos.

Seria a refeição cerca de 0,6% do ordenado. Se fosse hoje, para uma média de 1650 euros por mês de vencimento homólogo, 0,6% eram 9,9 euros.

Não se podem fazer estas comparações um pouco básicas, mas dão que pensar.

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses. Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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