Assume-se como espaço de liberdade, de dignidade e de histórias verdadeiras. É assim o Manicómio, em Lisboa, um ateliê e galeria de arte feito para doentes mentais que, desde fevereiro, se encontra instalado na área de cowork Now (No Office Work), junto ao Convento do Beato.

Deste projeto, criado por Sandro Resende e José Azevedo saem esculturas, fotografias, contos e desenhos criados, atualmente, por 10 artistas, todos eles com um historial associado a instituições de doenças mentais.

Em entrevista ao Gerador, Sandro Resende explicou que o Manicómio surgiu há 20 anos, através de um projeto que resulta do trabalho da Associação de Desenvolvimento Criativo e Artístico P28, que dá aulas de artes plásticas no Hospital Júlio de Matos, em Lisboa.

“Acima de tudo é um espaço de histórias verdadeiras, tanto dos próprios artistas como da minha e do José Azevedo. Vem de um trabalho de 20 anos feito no Hospital Júlio de Matos e num trabalho artístico que desenvolvemos com artistas”.

Ainda que carregue um nome “provocatório e desafiador”, realça Sandro Azevedo, o Manicómio pretende afirmar-se como uma espaço mais autónomo de criação artística, “sem estigmas e sem a presença da doença”, acrescenta. “Isto quer dizer que olhamos primeiro para a pessoa, depois para o artista e só depois para o doente”, sublinha Sandro.

Os artistas ali em residência têm direito a uma bolsa de estudo que inclui refeições, transportes e um salário — além da receita que resultar das vendas das peças. Os artistas podem visitar o espaço de acordo com as suas necessidades pessoais, não existindo, por isso, um horário fixo. Eles convivem com os outros visitantes do Now, têm o apoio de um psicólogo e podem até dar workshops naquele local.

Um desses ocupantes é Pedro Ventura, que no Manicómio se dedica a explorar a arte da fotografia e do texto. “Fazia terapia no Júlio de Matos e conheci o José é o Sandro que, pela primeira vez, me lançaram o desafio de fotografar”, conta.

Pedro Ventura, que sofre de esquizofrenia paranóica, vê no projeto uma oportunidade de poder expor as suas obras e ter alguma projeção. Por outro lado, o Manicómio, sustenta, ajuda a destruir o estigma, dando completo espaço à criação artística. Aqui somos pessoas, também utentes, mas acima de tudo pessoas”, salienta.

“Nós queremos estar integrados na comunidade social e artística para que não haja margem para fazer distinção entre quem é doente ou não”

Em setembro está já agendada uma grande exposição, sendo que há também novos projetos pensados para o próximo ano. Sobre esses, Sandro Resende conta apenas que irão abrir um novo espaço no início do próximo ano, mas sempre em regime coworking. “Se criássemos um espaço só nosso era como criarmos um segundo Júlio de Matos. Nós queremos estar integrados na comunidade social e artística para que não haja margem para fazer distinção entre quem é doente ou não”, explica o responsável.

O Manicómio assume-se como associação sem fins lucrativos, com apoios estatais, nomeadamente do Turismo de Portugal e de outras empresas privadas como a Fidelidade, a Central de Cervejas e a Herdade da Malhadinha Nova.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Manicómio

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