[Em chamada telefónica. Ouve-se o barulho do metropolitano de Londres.]

– Raquel? Podemos marcar a entrevista para mais tarde? Afinal, vou ter mais um ensaio. Ligo quando terminar. Até já! Um beijinho – Marcelino Sambé.

As palavras com um sotaque britânico, as expressões em português debaixo da língua, falam de um tempo habitado por dois países, Portugal e Londres. Um tempo pirueta, que tem o mundo como cenário, um corpo viajante, através de um gesto ascendente e expansivo, que, com música, toca o sol. Marcelino Sambé foi eleito bailarino principal do Royal Ballet, na temporada 2019–2020. Com 25 anos, a vida de Marcelino Sambé diz que, por vezes, o destino está nos pés. Basta balanço. Do bairro social de Paço de Arcos, deu-se o salto “que aterra no chão” da Royal Opera House.

 

Gerador (G.) – Foi a partir da dança africana que tudo começou, quando a psicóloga, do centro comunitário do bairro onde vivia, o viu dançar. Que história conta o seu corpo?

Marcelino Sambé (M.S.) – Fui sempre uma criança muito activa. Desde jovem que a minha conexão com o corpo foi sempre muito grande. Pratiquei atletismo, andebol… A dança foi algo que me veio naturalmente. Quando comecei a dançar, no Centro Comunitário Alto da Loba, foi uma adaptação muito natural, um espaço onde me sentia muito feliz.

 

G. – Numa entrevista, quando interrogado acerca das profissões que sonhava em criança, enumerou várias, entre as quais padre. Por que razão o desejava?

M.S. – Lembro-me de haver uma fase em que a ideia de ser padre era incrível. Não porque eu tivesse conexão religiosa, mas porque achava as igrejas lindas. Lembro-me de que havia uma igreja muito bonita em Paço de Arcos. A minha opção era pelo espaço, muito bonito, calmo. Na minha ideia, o padre era quem guardava essa arte toda.

 

G – Recorda-se da sua primeira aula de ballet?

M.S. – Deve ter sido nos inícios de Setembro de 2004, quando comecei a dançar ballet. Já tinha tido uns pequenos ensaios/aulas com o Telmo Nogueira, outro bailarino português, que nessa altura estava a estudar no conservatório. Já fui com alguns passos estruturados, porque era uma técnica completamente diferente para mim e não tinha tido qualquer outro tipo de contacto com o ballet. Quando cheguei, já ia com a ideia de que o ballet ia ser algo muito avançado, com muitos saltos. A primeira aula foi muito, muito, muito calma. Estávamos todos sentados no chão, a aprender a esticar os pés, os joelhos. Foi um pouco mais lento e chato do que estava à espera. Cada vez que saía das aulas, ia ver imensos vídeos de passos que poderia estar a fazer dali a uns meses. Havia sempre a ideia de que tudo avançaria e ficaria melhor. Teria é de ter as bases fortes.

Quando cheguei ao conservatório, senti que estava um pouco atrás, porque os outros rapazes já tinham feito ballet desde pequeninos. Mas achei que tinha uma habilidade corporal muito maior do que eles tinham. Em parte, pelo clube de atletismo. Senti que eu não era o melhor atleta, mas, quando comecei a fazer dança, fazia sentido, porque tinha uma capacidade de movimento maior do que os meus colegas. Portanto, senti que era um bom sinal.

 

G. – Também, na mesma entrevista, refere que, no grupo de danças africanas, orientado pela Dona Conceição, era o único rapaz e que, desde muito pequeno, tinha um gosto muito diferente dos outros rapazes. Considera que já se registam mudanças?

M.S. – Ultimamente, tem havido uma grande mudança, porque os padrões do que um rapaz e um homem podem ser mudaram bastante, abriram muito mais. Há uma ideia muito mais ampla do que o homem é e pode ser na sociedade. Pais e famílias estão muito mais ligados ao que nos faz feliz, mais do que o que nos faz successfull. Temos ideias muito diferentes do que o sucesso é. Há anos, o sucesso era ser médico, cientista…. Claro que essas profissões são muito importantes. Acho que Portugal está a desenvolver um gosto diferente. Os programas de televisão sobre dança, os bailarinos a saírem a Portugal, mostram que é mais do que um hobbie.

 

G.- Como é que a sua família biológica e os amigos do bairro reagiram à forma que a sua vida estava a tomar, a ida para o conservatório, e, mais tarde, a bolsa para a Royal?

M.S. – Foi uma adaptação difícil. Eu estava no Alto da Loba. Naquela altura, estávamos um pouco segregados. Lembro-me de me sentir sempre como um outsider ali. Quem vivia no Alto da Loba nunca ia para Lisboa. Parecia muito longe, mesmo sendo só uma viagem de 40 minutos de comboio. Parecia muito difícil lá chegar. Fazia essa rota todos os dias. Ia até à estação de Paço de Arcos de comboio e ia do Cais do Sodré para o Bairro Alto. Saía às 7h00 da manhã para começar as aulas às 8h30. Desde pequenino, aprendi a ter essa responsabilidade. Desde que entrei para o conservatório, a minha ligação com o Alto da Loba começou a diminuir. O trabalho era tão árduo e de tantas horas que comecei a perder o contacto com o que se estava a passar no Alto da Loba. Depois, saí de lá. Não foi uma adaptação fácil. Os outros rapazes não compreendiam que eu fazia ballet. Sempre achei que era um allien.

 

G. – Como foi a transição da Escola de Dança do Conservatório Nacional para o Royal Ballet, em Londres?

M.S. – Quando estava a sair de Lisboa, a minha mãe adoptiva disse-me: “Tens de agarrar esta oportunidade com tudo o que tenhas, tudo. Quando vires que há duas opções, fazer algo que não é certo e algo que é certo, vai sempre pelo lado certo. No final, quando estiveres em Londres, o que queres é ter um contrato, é ter uma vida, uma carreira. Toda a fama que possas ter na escola não te prestará nada no futuro. Concentra-te, concentra-te. Estamos todos a torcer por ti. Tens de fazer esse trabalho.” Quando cheguei a Londres, ia com um grande sentido de responsabilidade e a saber que aquilo era uma oportunidade única, estudar em Londres e no Ballet School. Queria fazer com que os meus pais se sentissem orgulhosos por ter conquistado essas coisas. Como fui sempre uma criança activa, faladora, distraída, na minha turma era sempre loud. De repente, chegar a Londres e estar numa turma muito maior (a turma dos rapazes em Portugal era de cinco, no máximo, e, em Londres, de trinta). Não havia ninguém que se parecesse comigo. Era completamente único. Mais baixo e o único de raça africana, com pele mais escura. No início foi um choque muito grande. “Wow, sou mesmo o único.” Isso podia ser bom para mim e, também, podia ser um pouco mau. No início pensei que fosse ficar para trás, mal eu sabia que a diversidade, em Londres, é uma das coisas mais importantes. Isso ajudou imenso a sobressair o meu sabor, a minha personalidade. Fez com que aparecesse mais. Quando pensamos que as nossas weaknesses são weaknesses, não são, são as nossas forças, strengths. Foi uma adaptação muito difícil, mas eu mantive o cabisbaixo, mantive-me super-humilde, aprendi tudo o que podia aprender, novas técnicas. No conservatório a técnica é russa, Vaganova. Quando cheguei à Royal, o estilo inglês era superdiferente e identifiquei-me mais com este. Foi um processo difícil e muito doloroso, porque estava longe da minha família. Porém, até era bastante entusiasmante estar com uma turma nova. Havia muita competição. Eram rapazes de toda a parte do mundo.

Sempre fui uma pessoa muito curiosa, que pesquisa muito, gosta muito de saber o que já se passou no passado. Acho que sou um bailarino que tem uma ideia completa do que quer ser. Naquela idade, já tinha uma identidade muito grande. Sempre me identifiquei imenso com sorrir e estar em palco com alegria. Sempre estive em palco com alegria. Sempre foi a minha força natural. Ter essa identidade desde jovem fez com que chegasse à turma com esse impacto. Tendo uma personalidade um pouco maior, isso também me fez sobressair, porque sou o mais longe de inglês que pode existir. Sou superquente, gosto de abraçar, falar, sorrir. Sou mais marcante, talvez, do que todos os outros ingleses, lourinhos e de olhos azuis, caladinhos e muito concentrados.

 

G. – Qual o momento mais bonito que viveu, enquanto bailarino?

M.S. – Interpretar o Romeu no Romeu e Julieta, na Royal Opera House, um papel que já foi feito pelos melhores bailarinos do mundo, sobretudo esta versão, que é a mais cobiçada no mundo da dança porque foi coreografada pelo Kenneth Macmillan. É incrível o score de Prokofiev, das músicas mais enigmáticas escritas para o ballet. Ter aquela conexão com a Julieta, a história, tudo… e é um papel tão dramático, tão exigente tecnicamente. Sempre quis fazer. Desde muito jovem, desde que entrei na companhia, um dos meus papéis principais foi o Mercutio, o amigo do Romeu, e é um papel supervirtuoso, súper “eu”. É aquele em que um director olha para mim e vê: “Ele é o Mercutio, de certeza. Ele é rápido, tem aquele sorriso enorme, tem uma personalidade grande em palco.” Consegui mudar essa percepção sobre mim com o director da Royal Ballet. Aos poucos, comecei a mostrar que tenho um lado mais sensível e que sou um bailarino mais completo do que o bailarino que te faz rir, comediante. Foi uma luta pessoal. Uma das coisas que me caracteriza muito como artista é a minha versatilidade. Nunca fui um bailarino de uma moeda só. Sou um bailarino com várias vertentes. Fazer o Romeu e Julieta era uma grande prova para mim disso. Quando consegui o casting de Romeu foi um dos momentos mais felizes da minha vida até eu ter dançado o papel. Houve um momento, em palco, em que me emocionei imenso e comecei a chorar, na parte em que Romeu e Julieta se casam às escondidas da família numa capela. É um momento tão bonito, em que a musica é incrível, e dancei com a minha melhor amiga, a Anna Rose, uma partner fantástica.

Marcelino Sambé e Anna Rose O’Sullivan no ensaio de Romeu e Julieta

Marcelino e Anna Rose, em Romeu e Julieta

 

G. – Considera política a sua presença no ballet?

M.S. – Felizmente, sim. Tenho naturalmente, na forma como eu nasci. Só isso já me faz ser uma imagem de inspiração e de mudança de política e no mundo da dança. Quero mostrar que a dança, não só é para todos, mas também para quem a quiser fazer e interpretar de formas diferentes e de diferentes ângulos. Mesmo que não quisesse que a minha presença fosse política, ela é. Sendo só o segundo bailarino negro principal da Royal Ballet, é incrível, numa historia de 200 anos, com tantos bailarinos fantásticos e com a nossa fisicalidade natural, a força muscular, o ritmo. É superimportante que eu esteja neste posto.

 

G. – “Ter um bom corpo não quer dizer nada se não houver coração”, disse numa entrevista. Como se encontra o coração numa performance?

M.S. – O coração. Os bailarinos todos que me inspiram no passado são bailarinos com um grande carisma. Há uma ideia estética no ballet que é muito fechada. O príncipe tem de ter, pelo menos, 1m80, um cabelo flit to the side, ser meio louro e ter um maxilar forte. Há ideias imensas do passado. O mundo do ballet tem a mania de copiar o que já foi feito. Os bailarinos que me inspiraram a vir até aqui foram bailarinos que cortaram com a ideia do que o bailarino é. O que identifica esse bailarino, para mim, é o carisma, as formas mais humanas, mais realistas, e a versatilidade. Se um bailarino conseguir fazer rir, tem de conseguir fazer chorar. Quando as pessoas se sentam no teatro, querem sentir algo. Não quero só ver um bailarino a fazer uma técnica incrível, com um corpo maravilhoso. Isso seria, para mim, um espetáculo morto. Acho que só conseguem fazer sentir algo, se fizerem sentir algo deles, interpretando.

 

G. – O bailarino tem uma relação muito íntima com o corpo. De que forma se estabelece esse diálogo?

M.S. – Foi um processo enorme de aprender o que fazer com o meu corpo. Sendo jovem, quando entrei para a companhia, para escola, obviamente que, sendo tao diferente, criei complexos comigo mesmo. Pensei: “Vou ter de me esticar todas as noites, não saltar os dias todos, enrolar as minhas coxas todos os dias, porque os meus músculos são supergrandes, mudar a minha alimentação.” Foi uma luta para perceber que o que eu achava que era a minha weakness era o que tinha de mais forte. O diálogo com o meu corpo foi muito difícil. Quando o director começou a gostar de mim e do que tenho, aí comecei a olhar para mim e a pensar que talvez o que tenho é o suficiente, que tenho é de estar feliz.

No início, quando entrei para a companhia, queria provar que merecia estar naquela posição. Quando o director me ia ver, esforçava-me a cento e vinte cinco mil por cento todos os dias, até que parti a perna e me lesionei. Tive um processo enorme de reabilitação, a ouvir o que o meu corpo precisa. Foram 6/7 meses de trabalho intenso para recuperar, conseguir fazer ballet de novo. Para ser bailarino, temos de ouvir os sinais do corpo. O corpo é súper responsive. Tive de aprender os meus limites. Pensava que o meu corpo podia fazer tudo. Como bailarinos, a nossa carreira é muito deixada nas nossas próprias mãos. Temos de aprender o que é too much e o que é too little.

 

G. – Se fosse um movimento, qual seria?

M.S. – Seria um movimento com muita gravidade, muito perto do chão, porque, como sou mais pequeno e bastante rápido, seria mais contemporâneo. Ou um salto, porque também gosto muito de saltar, e o salto é o que mais me caracteriza. Acho que seria um salto que aterra no chão, enrolando todo.

 

G. – Qual a particularidade de ser português numa companhia britânica? Sente que essa identidade é visível?

M.S. – Completamente. Já perguntaram muitas vezes ao director, em entrevistas, o que me faz destacar, e ele responde que é a minha “sunshine personality”. Essa identidade fez com que conseguisse subir na minha carreira, porque sou uma pessoa muito aberta e disposta a conhecer outras pessoas, a trabalhar com outro tipo de coreógrafos e professores. Isso só aconteceu porque nasci em Portugal e tive um percurso sempre cheio de música e dança, com um background de música africana, depois, fui para o conservatório, onde pessoas com imensos talentos estavam juntas, fazendo todo o dia o que gostavam. Vir de um país de sol, com pessoas que falam alto na rua, para um teatro fechado, em Covent Garden, onde a maioria do staff é todo inglês, muito fechado, envergonhado, é claro que fez com que a minha personalidade sobressaísse passado alguns anos.

 

G. – Como concilia o seu trabalho de bailarino com o de coreógrafo?

M.S. – Tenho tido um pouco de dificuldade, ultimamente. Desde criança, gosto imenso de corrigir, ensinar, e a coreografia sempre foi algo para ajudar a focar a minha energia. Tenho estado numa ambição para chegar a bailarino principal na Royal Ballet, que foi sempre o meu objectivo máximo, e a coreografia nunca foi o mais importante. Como estava com este objectivo, a coreografia começou a ficar um pouco para trás. Com isso, a minha confiança como coreógrafo começou a diminuir um pouco. Tenho de desenvolver a minha voz, que está um pouco verde. Espero focar a minha atenção nisso. Hoje, por exemplo, estava a caminho do teatro, de manhã, a ouvir “The Rite of Spring”, de Stravinsky, e a imaginar a minha versão. É algo que não consigo parar de fazer quando ouço música. É algo que vai ser muito útil no futuro, quando não puder mais dançar.

 

G. – Já manifestou o desejo de, mais tarde, desenvolver um projecto em Portugal. Que tipo de projecto seria?

M.S. – Sempre que penso em Portugal, penso na minha reforma num país quente, verões longos. Imagino que esse será o plano. Sempre que penso nisso, também penso no que poderia fazer na reabilitação do mundo da dança em Portugal. Acho que a dança contemporânea, em Portugal tem um espaço incrível. Quando vou e vejo espectáculos de dança contemporânea, fico sempre entusiasmado, inspirado. O que falta é criar uma relação entre o público e a dança clássica, que infelizmente não aconteceu. Essa ligação entre a dança clássica e o público português perdeu um pouco a onda na altura dos anos 30/40. Se tivesse começado aí uma companhia forte de dança clássica, talvez, hoje, ainda tivéssemos esse hábito. Acho que o público português é um público que responde, que gosta de ir, gosta de ver. Seria um dos meus maiores sonhos.

Entrevista de Raquel Botelho Rodrigues
Fotografias cedidas por Marcelino Sambé

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