Esta semana, partilhamos contigo a conversa que tivemos com a Margarida David Cardoso, jornalista no Fumaça. Esta entrevista, conduzida no dia 16 de abril de 2021, foi uma das que fizemos aquando da investigação que deu corpo à última edição da Revista Gerador (maio) para explorar a problemática do jornalismo lento.

Margarida David Cardoso é da Lixa e estudou no Porto, encontrando-se, hoje, a trabalhar em Lisboa. O Jornal Universitário do Porto foi a primeira redação em que encontrou, tornando-se, mais tarde, editora de cultura e, posteriormente, codiretora. Licenciada em Ciências da Comunicação, trabalhou durante dois anos e meio no Público, nas secções de Local e Sociedade. Depois desta experiência, encontrou o Fumaça que lhe permitiu fazer aquilo em que sempre acreditou: “que só com tempo se encontram outras vozes, se reduz a inevitabilidade de cometermos erros, se aprende a olhar para onde ninguém parece estar a olhar. Acredito que só com tempo, profundidade e diálogo o jornalismo se aproxima de algo verdadeiramente livre”, explica no site do Fumaça.

O Fumaça é um órgão de comunicação social que se afirma como independente, progressista e dissidente, apostando no jornalismo de investigação em áudio, feito com profundidade e tempo para pensar. No seu site, podemos aceder a variadas investigações como são exemplo as sériesPalestina, histórias de um país ocupado”, “A Serpente, o Leão e o Caçador” ou “Segurança Privada: Exército de Precários”. É ainda possível encontrar várias entrevistas como “Rafaela Granja: ‘A prisão empobrece reclusos e familiares’” e reportagens como “A Resistência: quarentena na rua”.

Esta é a sexta entrevista da nova rubrica Entrevistas com Jornalistas, que o Gerador irá continuar a lançar ao longo das próximas semanas e que se irá debruçar sobre os grandes desafios que a profissão continua a enfrentar.

Gerador (G.) — Como definirias o conceito de jornalismo lento?

Margarida David Cardoso (M. D. C.) — Algo que é algo publicado só quando estás perfeitamente consciente, segura e satisfeita com aquele trabalho. Isso pode significar, na minha opinião, publicares algo ao fim de uma semana — ou seja, não é assim tanto tempo — mas que, na verdade, tu conseguiste ponderar todas as questões sobre aquele trabalho e tens a certeza absoluta de que não conseguirias fazer melhor. Pelo menos, dentro daquela convenção, não conseguirias melhorar aquele trabalho. Claro que isto é sempre difícil, porque podes estar um ano a trabalhar numa coisa e, no dia seguinte, vais ouvir e já não gostas e mudarias. Mas é um bocadinho a ideia de que o tempo não é um limitador. E, para mim, isso faz com que uma peça demore um ano a ser escrita ou demore dois meses. Há peças que não precisam de tanto tempo. Acontecia-me, muitas vezes, quando trabalhava noutros formatos, que não eram deste jornalismo lento, eu acabar de escrever e pensar — “se eu tivesse mais um dia para pensar nisto, [o resultado] era muito melhor e diferente”. Só quando estás mais próxima de estares 100 % satisfeita com aquilo é que eu acho que esse trabalho pode ser publicado e é isso que, sim, é o jornalismo lento.

G. — Que função serve o jornalismo lento no jornalismo e na sociedade?

M. D. C. — Acho que é um complemento ao jornalismo mais generalista e imediato. Não acho, nunca, que seja uma substituição. Nunca o pode ser, na minha opinião. Porque o jornalismo lento, feito sem a lógica do imediatismo, não existe sem esse jornalismo imediato. O jornalismo lento é feito em cima da atualidade. Acho que na génese do jornalismo estão duas coisas: este imediatismo de dizer o que aconteceu, onde e porquê e, depois, tem esta lógica de jornalismo lento de explicar a sério o porquê e dar um contexto bastante grande. Então, uma coisa não existe sem a outra. Também, por isso, tiveste, desde sempre, semanários, que veem nesta lógica mais de jornalismo não tão atual e tens, nestes últimos anos, um crescimento brutal de projetos com esta ótica de jornalismo lento e de revistas. Sinto que, muitas vezes, não olhamos para uma série de revistas trimestrais como jornalismo lento, e é, de facto, disso que se trata.

Acho que tem esse papel de, para quem lê diariamente jornais, completar e contextualizar a informação e, para quem não lê e não segue a atualidade, perceber que há um público muito grande de jornalismo mais lento, que são pessoas que não seguem a atualidade, mas querem uma compreensão do mundo e aprofundar temas. Então, serve muito estes dois papéis — completar e acrescentar informação a quem segue todos os dias a atualidade e está envolvida nesta máquina e também de aproximar as pessoas que estão muito afastadas do jornalismo mais imediato, que não compram jornais, não leem, não veem notícias e para elas chega esses pedaços de jornalismo que podem ser uma reportagem, uma revista, um podcast e que vão ali de mês a mês, de semana a semana, no formato que for, dando essa informação. Tens de ter em consideração essas duas coisas — podes estar a falar para pessoas que veem notícias todos os dias ou pessoas que não e que só te vão ler a ti, naquele momento.

G. — Que características na prática, de hoje, do jornalismo identificas que tenham levado à necessidade de se destacar este tipo de jornalismo — o jornalismo lento?

M. D. C. — Acho que isto vem de um agudizar da tendência do jornalismo ser rápido, imediato, o que sempre existiu. A última hora não é uma coisa do século XXI, esteve na génese do jornalismo, mas isso, com o advento dos jornais online, intensificou-se de uma forma bastante rápida. E, depois, com a democratização do acesso à informação e das redes sociais. Então, acho que a diferenciação deste subgénero tornou-se mais necessária e, acima de tudo, evidente.

É muito clara a diferença de quem está a fazer jornalismo lento, até dentro duma própria redação. Estou a pensar, por exemplo, nos jornais que têm revistas e que têm mais esta lógica de estar meses, por exemplo, a fazer uma reportagem. É muito clara a diferença entre jornalistas que estão a fazer essa reportagem e jornalistas que estão a produzir para o diário.

Acho que, ao longo dos anos, esta distância se foi tornando bastante grande, porque tinhas um jornalista a trabalhar um, dois, três dias numa peça, e isso era o rápido, e agora tens jornalistas a produzir oito peças num dia para o online. Então, é óbvio que a distância entre esse jornalista e aquele que está a trabalhar três meses numa reportagem vai ser muito clara e há uma necessidade gigante de tu separares isso.

Depois, acho que há outro motivo que faz com que haja essa necessidade de separação e de criação, quase, deste subgénero que tem que ver com os leitores também o procurarem e valorizarem tu dizeres “estive três, seis meses, um ano, a trabalhar nisto”. Acho que, cada vez mais, os leitores ou ouvintes se interessam por perceber o processo por detrás dum trabalho, esses bastidores do jornalismo. Perceber um bocadinho como é que isso foi feito. Valorizam estares investido em dares a versão mais aproximada duma determinada realidade. Acho que isso é muito valorizado pelas pessoas e a criação deste subgénero também vem por isso — sentires que as pessoas o pedem.

É muito interessante ver como a própria televisão, a grande reportagem, que durante muito tempo foi uma coisa muito apagada, agora começa a ressurgir, ou, pelo menos, há a tentativa disso, porque as pessoas pedem-no. Isso nem sei se pode ser chamado de jornalismo lento, porque há grandes reportagens feitas em dois ou três dias, com muita pressa. Mas, cada vez mais, acho que as pessoas o exigem e, depois, também há muitos jornalistas a exigir fazer, porque sentem a necessidade de fazer uma coisa diferente. Há muitos jornalistas com a perceção de que só se está a contar metade da história se se fizer isto muito rápido, estando apenas a contar uma ínfima parte do que se passa aqui. Então, eu tenho de parar, ler muito, investigar muito, falar com muitas pessoas, o que demora muito tempo, para conseguir ter uma imagem mais real do que se está a passar aqui. Isto dá para tudo. Dá para a cultura, política internacional, saúde, dá para todos os temas. Então, acho que é pelo conjunto destas várias necessidades de contrariar o imediatismo para que o jornalismo caminhou, para este clickbait e lógica de última hora, que tanto leitores como jornalistas estão a tentar contrariar isso.

G. — Achas que é por isso que cada vez têm surgido mais projetos de jornalismo alternativo?

M. D. C. — Acho que sim e acho que tem que ver com essas duas coisas que disse anteriormente. Há mais jornalistas a quererem sair desta lógica. É uma coisa que me choca — se fores a uma redação, e eu acredito nisto da minha experiência de falar com pessoas, mas também quero tentar ser positiva –, há muitos jornalistas ali que não concordam nada com o imediatismo, a última hora, com as oito notícias produzidas por uma pessoa por dia e acho que, cada vez mais, há pessoas a revoltarem-se com isso e a querer fazer diferente. E, depois, sim, acho que há uma pressão bastante grande e boa por parte de leitores a exigir coisas diferentes que, lá está, são um complemento ao jornalismo imediato, mas, sim, há essa exigência porque as pessoas cada vez são mais críticas, exigentes, e isso é um motor de criatividade para fazer diferente. Acho que isso é superpositivo para o jornalismo.

Não compro nada a ideia de que as pessoas não querem ler trabalhos de sete páginas, que não têm paciência para ver uma reportagem de meia hora ou uma hora... No Fumaça, acabámos de lançar uma reportagem com 12 horas sobre segurança privada e foi a coisa mais ouvida que já fizemos. Por isso, não compro nada a coisa de que as pessoas não estão interessadas em jornalismo lento ou longo. Acho que há muitas pessoas disponíveis para isso e que o querem.

G. — O que te levou a integrar um projeto jornalístico que não é mainstream, sendo que tinhas estado antes em redações como a do Público? O que te fez querer fazer essa mudança?

M. D. C. — Principalmente por dois motivos. Um era querer experimentar fazer as coisas de maneira diferente. Não sou muito boa a fazer coisas rápidas, sob pressão e isso estava a afetar-me, porque sentia que estava a fazer erros ou, pelo menos, a probabilidade de errar era muito alta. Lembro-me de uma vez ter cometido um erro, foi uma coisa menor que não tinha grande importância, mas fiquei completamente destruída com aquilo. Ganhei a noção de quão suscetível estou a cometer um erro por não ter tempo suficiente para aprofundar um tema como gostaria. Então, queria fazer diferente e gostava desta lógica de jornalismo lento, documentário quase. A outra razão tem mais que ver com razões éticas de organização. Havia muitas coisas no Público ou outro órgão generalista, que são empresas de comunicação e para quem o jornalismo é, de alguma forma, um negócio, com as quais não concordava. Não acho que o jornalismo seja, ou deva ser, um negócio. Não estamos a vender nada. Estamos a dar informação. Havia algumas coisas com as quais não me revia, mas acho que isso aconteceria em qualquer órgão generalista cuja gestão acontece desta forma — gerir como uma empresa. [Perante isso], estava à minha frente uma oportunidade de eu ter um a dizer nos destinos de uma redação e conseguir vestir a camisola a 100 %, coisa que achava impossível acontecer em qualquer outra empresa.

G. — No Fumaça, como é que se financiam e como acreditam que esse financiamento de base deve ser feito?

M. D. C. — Neste momento, o Fumaça é financiado por duas componentes: bolsas de apoio ao jornalismo, em que a principal é da Open Society Foundations, e contribuições individuais (penso que 40 % das nossas despesas já são pagas desta forma) da comunidade Fumaça. Ou seja, pessoas individuais que contribuem para o nosso trabalho mensalmente ou pontualmente, a maior parte delas mensalmente, e que nos permitem manter a redação. O Fumaça é detido por uma associação sem fins lucrativos, então todo o dinheiro que venha é simplesmente para manter a redação a funcionar. Temos também uma dependência grande de bolsas externas — tivemos duas da Fundação Rosa Luxemburgo, da Fundação Calouste Gulbenkian e concorremos, esporadicamente, a outras bolsas mais pequenas, mas o nosso objetivo a médio prazo é ser totalmente financiados pelas pessoas individualmente. Estes 40 % são um número incrível que não estávamos à espera de conseguir atingir tão cedo, mas que nos dão ânimo e alguma esperança de conseguir chegar aos 100 %, que é uma coisa que não sabemos se é possível convencer um número tão grande de pessoas em como devem contribuir, mas também à escala de Portugal se isso é possível. Também é uma coisa que nunca foi tentada e nós queremos ir por aí, porque acreditamos que o jornalismo pago pelas pessoas é o caminho. Não temos publicidade, então achamos que o caminho é o jornalismo ser pago pelas pessoas. Se bem que isso não significa que as pessoas estão a pagar para ter acesso a conteúdos que, de outra forma, não teriam. O nosso jornalismo é aberto a todas as pessoas. As pessoas contribuem para que continue a acontecer, não contribuem para ter acesso a coisas especiais. Claro que há vantagens em ser da comunidade Fumaça. Por exemplo, disponibilizamos episódios mais cedo, as pessoas, a partir de determinado valor, não pagam para entrar nos nossos eventos, mas nós acreditamos que todo o jornalismo deve ser livre, por isso não temos paywall. O facto de fazeres parte da comunidade é simplesmente tu pagares para que continuemos a fazer o nosso trabalho. E surpreendentemente há muitas pessoas que concordam com isso e que têm interesse em contribuir para que esse tipo de jornalismo continue a acontecer, o que pode ser significativo e generalizado a outros órgãos de comunicação.

G. — Portanto, defendem que quando as pessoas têm essa possibilidade, porque nem toda a gente a tem, devem contribuir para o jornalismo e o trabalho dos jornalistas, mas, no entanto, ele não deixa de ser serviço público e deve estar disponível para todos independentemente dessa disponibilidade de contribuição financeira?

M. D. C. — Exato. Acho que a paywall, ou o pagares para ter acesso, vai inevitavelmente criar uma espécie de elitismo informativo. Só determinadas pessoas vão poder ter acesso à informação. Agora com a questão da covid-19, há cerca de um ano, uma série de jornais retiraram a paywall de artigos sobre o vírus. Então, aí reconheceram que, sim, esta informação é de interesse público. Mas eu não consigo fazer a separação entre qual é que é de interesse público e qual não é. É suposto ser toda. É suposto tudo o que produzes enquanto jornalismo ter interesse público, se não, é relações públicas ou outra coisa que não é jornalismo. Dizeres que as pessoas precisam de ter acesso a informações sobre a covid-19 para se protegerem, para estarem informadas, mas, por exemplo, fecha um artigo sobre extrema direita — um conteúdo informativo que, se calhar, te ia permitir proteger, ter informação para te defenderes, para pensares doutra forma, se calhar até mudares a tua situação.

Não consigo separar dizendo que uma informação é de interesse público e as pessoas têm, todas, de ter acesso. Não, toda a informação devia ser [acessível]. Acho que é muito perverso fechar conteúdos. Isso não significa que não ache que as pessoas devem pagar pelo trabalho do jornalista. Acho que, quem pode, o deve fazer, mas quem não pode também tem de ter acesso à informação. Na televisão isso sempre foi muito claro, essa ideia dos quatro canais abertos em Portugal e que ao longo dos anos, com o jornalismo, especialmente, online, fomos fechando conteúdos e dizendo – não, se tu não podes pagar só tens acesso a vídeos de gatinhos e coisas da agência Lusa. Na maior parte dos jornais são essas coisas que estão abertas, generalizando. Os conteúdos premium dos jornais são artigos em que foi investido mais tempo e que têm informação, à partida, mais relevante. E são esses em que dizes – não, se não tens dinheiro para pagar, não podes saber isto. Isso é perverso.

G. — Falaste também da dimensão das bolsas. Concorrer a uma bolsa depreende um grande trabalho e tempo de preparação. Quanto tempo dedicam a esse processo e de que forma isso impacta também o tempo que têm para fazer, ou não, o trabalho jornalístico?

M. D. C. — Isso é uma dimensão muito grande do Fumaça. Somos sete salariados, depois temos alguns voluntários ou pessoas que chamamos para pontualmente fazerem alguns trabalhos, e muito do nosso trabalho é a gestão do órgão de comunicação, incluindo as bolsas. Esse processo já está mais automatizado. Já passaram alguns anos desde que começámos a fazê-lo. No início, a primeira bolsa foi muito mais difícil. Foi em 2018, a primeira que ganhámos e que permitiu ao Fumaça constituir-se como órgão de comunicação social. Essa foi muito mais difícil. Exigiu muitas reuniões online com as pessoas responsáveis pela bolsa. Na maior parte destas bolsas, há sempre uma equipa por detrás disponível para te ajudar a construir a candidatura. Isso foi uma coisa muito interessante que fomos percebendo ao longo dos anos e fomos desenvolvendo estes contactos para que, ao tu concorreres, sim, teres ali algo que eles pediram, a coisa mais indicada para que sejas bem sucedido e para que aquilo não seja uma perda de tempo para ambos os lados. O desenvolvimento desses contactos foi muito importante.

Hoje já não é um encargo tão grande, já temos isto mais automatizado, já temos muito material produzido sobre o que é o Fumaça, quais são os nossos objetivos, e fomos aperfeiçoando isso ao longo do tempo. No final de cada ano, temos uma reunião em que decidimos os objetivos para o ano seguinte, as nossas metas quantitativas, e ter esse processo organizado é muito útil quando vamos fazer estas candidaturas em que já temos tudo esquematizado. Nesse sentido, já não é um encargo tão grande nem estamos tanto tempo envolvidos na preparação das bolsas. Mas uma coisa que foi muito importante ao longo dos anos foi essa rede de contactos de pessoas que estão a gerir as bolsas e que são capazes de nos dizer para não concorrer se não for útil ou se for pouco provável que apoiem projetos em Portugal, por exemplo. E a questão de ter objetivos muito claros, ter a contabilidade e números do ano anterior claros e conseguir mostrar em métricas o quanto crescemos, ou não, e o que queremos fazer para a frente, assim como ter as questões editoriais muito claras. Como trabalhamos com projetos longos, é mais fácil dizer no início de cada ano em que é que vamos estar a trabalhar.

G. — Como é a vossa relação com o tempo de produção ou de investigação para uma reportagem?

M. D. C. — Nós temos este princípio muito claro: só publicamos uma reportagem quando sentirmos que ela está terminada. Isso implica, muitas vezes, trabalhar durante um ano numa reportagem. A última que publicámos, do exército de precários, demorou cerca de dois anos. Não foram dois anos intensivos a trabalhar naquilo, houve sempre pausas para fazer uma coisa ou outra. Desde o momento em que a começámos até que a terminámos foram cerca de dois anos. Ainda tentamos que seja assim, que não publiquemos nada se sentimos que não [está concluído]. Isso faz com que tenhas de ter muita discussão e saber quando é que tens de parar. Porque também é muito fácil estar envolvida num trabalho durante seis meses, um ano, e continuares a achar que não tens tudo. Então, o trabalho de perceber onde é que paramos e quando é que a história já está terminada só se faz em equipa. Sozinho acho que é muito difícil teres essa perceção. Por um lado, porque estás muito tempo absorvido num tema e aquilo torna-se na tua vida durante imenso tempo. Normalmente, quando terminamos um trabalho longo, tudo que dizemos é que nunca mais queremos voltar a este tema, que queremos fazer outra coisa, agora. Entre uma série longa e outra tem sempre de haver coisas relativamente mais rápidas ou, pelo menos, que não exijam tanto de ti. Estes trabalhos longos tiram muito de ti. A tua vida durante aquele período é aquele tema. Às vezes, é um bocado duro.

G. — Na vossa redação há sempre alguém designado para acompanhar quem está a escrever e que vai editando. Achas que esse trabalho de editar também precisa do seu tempo e de ser um trabalho lento, porque é um trabalho em que se tem de ser também crítico em relação ao que se está a ler?

M. D. C. — Claro. Acho que essa pessoa tem de ter tempo para acompanhar de trás. Ou seja, não chegar ao momento de se sentar a editar um texto e é o primeiro momento em tem contacto com o tema, porque, se não, ela não vai ter informação suficiente para contrariar, para te perguntar o porquê, para questionar determinadas coisas. Acho que se queres uma edição realmente muito cuidada em que a pessoa tem esse espírito crítico, tem necessariamente de demorar tempo. Não há outra forma, se não vai sempre acabar por ser uma edição que é mais circunstancial, tem mais que ver com erros ortográficos ou erros muito claros e, quando queres realmente que a pessoa que está a editar ao teu lado questione a fundo determinados preconceitos que tu podes ter tido a escrever, determinados viés, que podem não ser claros para ti que estás a escrever e estás superenvolvida naquele trabalho, sim, acho que essa edição tem de ter tempo para conseguir ser o mais justa possível e considerar as várias camadas que estão envolvidas ali e, mesmo assim, vais cometer erros de certeza. Mas, pelo menos, tentas que esses erros sejam mínimos.

G. — Quantos projetos conseguem fazer coincidir, tendo em conta que esta entreajuda consoante o que está a acontecer na vossa redação?

M. D. C. — Quem faz a divulgação é a pessoa de marketing e de design, mas o processo de entreajuda também se cola muito com cada episódio [duma série]. Quando já está numa fase mais final, é ouvido por toda a equipa. A equipa que está naquele momento, mas todos os jornalistas dão opinião sobre aquele episódio específico e pode haver vários group edits para darem feedback e para mudar coisas. Nós estamos a afinar todos estes processos porque, na verdade, só começámos a fazer estas séries, ou a assumir que queremos muito fazer estas séries, em 2020. Foi aí que nós dissemos que vamos parar de fazer tantas entrevistas e vamos fazer estas séries audiodocumentais. Nós, neste momento, temos duas investigações a decorrer ao mesmo tempo e está para começar uma terceira. Elas já estão numa fase avançada, mas normalmente temos duas a acontecer ao mesmo tempo. Quando o Ricardo e o Pedro estavam a fazer o exército de precários, e o João a compor a banda sonora e a editar som, eu já estava a fazer uma investigação sobre saúde mental. Depois, veio o Pedro editar, ajudar-me na construção da estrutura da saúde mental, e o Ricardo começou uma outra investigação com o Nuno a editá-lo e, depois, no próximo mês, o Nuno vai começar uma investigação sobre prisões, quando o Ricardo já estiver numa fase mais final da investigação dele. Diria que duas, três investigações podem acontecer mais ou menos ao mesmo tempo e também isto é muitas vezes porque demora mais tempo, porque não estamos a cem por cento, porque não é possível estarmos, a cem por cento, focados numa investigação porque temos de estar a editar outra, ou porque surgem coisas de candidaturas a fundos e coisas de gestão do órgão [de comunicação], mas tentamos que uma pessoa esteja responsável por uma investigação nem que só a vá começar daqui a dois ou três meses, mas ela já está a pensar nela, já está a recolher alguma informação, já está mais atenta. Isso está a acontecer, neste momento. Estou com uma investigação sobre saúde mental, o Ricardo está com uma investigação sobre a violência policial, já está a pensar nesta sobre prisões, apesar de não ter começado mas já sabe que vai ser ele a fazer, e o Pedro já está com uma sobre bairros também nesta ótica de ainda não ter começado, mas já se sabe que será a próxima coisa que vai fazer. E assim, nos intervalos entre editar esta de saúde mental e de fazer outras coisas, ele vai falando com pessoas sobre o assunto, já está a ler coisas sobre o assunto. Não está a cem por cento, mas isso já está na cabeça. Acho que ajuda já teres essa noção do que aterrares de repente numa coisa em que vais ter de passar um ano a pensar sobre aquilo.

G. — Olhando para a composição das redações duma forma geral, como achas que a sua falta de diversidade afeta o tipo de jornalismo feito em Portugal?

M. D. C. — Acho que é um problema grave e visível. Acho que temos redações maioritariamente brancas, em que pessoas não brancas são uma minoria muito, muito, muito minoritária. Tens pessoas que maioritariamente moram em Lisboa ou Porto e, muitas vezes, elas não são desses sítios, mas para todos os efeitos elas moram há tanto tempo nestes centros urbanos que é essa a realidade delas, e são sensíveis a temas que lhes dizem respeito, e isto é muito muito claro. Tu tens os teus preconceitos, tens as tuas ideias baseadas na tua experiência. Então, se tu vives todos os dias numa cidade que tenha um trânsito infernal, em que a questão da habitação é muito relevante para ti, porque na tua vida és muito afetada com a dificuldade de comprar ou arrendar uma casa, se os transportes à tua beira também são problemáticos, obviamente esses vão ser os temas para quando vais estar mais alerta quando estiveres a escolher um tema, porque a escolha editorial é supersubjetiva. Apesar de haver muitas pessoas a falarem da objetividade do jornalismo como uma coisa sagrada, ela é muito difícil de atingir. Acho que é impossível. Então sim, todas as suas vivências vão obviamente afetar as tuas escolhas e eu acho que o facto de os jornalistas terem tendencialmente experiências muito parecidas, estarem fechados numa certa bolha, tem consequências de falta de representatividade e uma dificuldade gigante em teres outras vozes, leres outras vozes e saberes outras vozes.

Acho que há formas de contrariar isso que não só implicam teres diversidade nas redações, e acho que esse caminho é óbvio, é uma necessidade óbvia teres pessoas de outros sítios, pessoas com experiências completamente diferentes das tuas, mas também teres tempo. Tens de ter tempo para encontrar outras vozes. Claro que se estás pressionado, vais sempre buscar os mesmos comentadores, buscar os mesmos especialistas. Estás pressionado com tempo. Porque são as pessoas óbvias que já costumas ouvir falar, que são ótimas a falar, sabes que percebem daquele assunto. Estão na tua lista de contactos ou estão na lista de contactos da pessoa ao teu lado. Então, se estás pressionado, vai ter de ser aquela pessoa, ela é ótima, faz o trabalho. Siga. Se quiseres ir buscar e descobrir pessoas diferentes que podem ser tão ou mais válidas do que aquela a que já estás habituado, isso dá trabalho e leva tempo. Vais ter de fazer muitos contactos, vais ter de ir pesquisar muito e, tendencialmente, não há tempo para fazer esse trabalho, para trazer novas vozes. E, muitas vezes, também não há querer e isso, lá está, tem que ver com a falta de diversidade nas redações é há muitos jornalistas que já estão acomodados e que acham até que o mais interessante é trazer estes sacrossantos especialistas que são sempre os mesmos.

Acho que há essa necessidade de trazer novas vozes, o que dá trabalho, custa tempo, mas que só tem resultados positivos para o jornalismo, porque, neste momento, abres, muitas vezes, a primeira página do jornal e algumas coisas refletem esta bolha em que os jornalistas estão. Por exemplo, há um jornal em específico que, numa determinada altura, tinha várias jornalistas de sociedade que estavam grávidas. E, durante um certo período, havia muitas notícias sobre crianças e sobre questões de parentalidade. E isso não é necessariamente mau, não é extremamente negativo, mas também é um viés. Acho que a desconstrução disto só se faz com tempo e com pessoas a pensar editorialmente o que é que significa tomar estas decisões editoriais e ver de fora e perceber — não, está aqui um viés gigante, porque são as nossas experiências e nós estamos a transformá-las nas experiências do país.

G. — Gostava também de saber como vês a relação do jornalismo com as redes sociais. Quais são as vantagens de haver esta relação, mas também os desafios?

M. D. C. — Acho que a vantagem clara é a democratização do acesso à informação. Poderes partilhar muito mais facilmente com as pessoas os conteúdos que tu fizeste, não tanto para proveito pessoal, mas para partilha das pessoas e para as pessoas poderem ter acesso a essa informação. Não consigo ter aquela visão quase demoníaca de que as pessoas só leem notícias no Facebook. Elas leem notícias, pelo menos. E, se calhar, se não fosse no Facebook, não liam em lado nenhum. Por isso, acho que isso tem problemas, obviamente, mas acho que o facto de as pessoas terem acesso à informação, e a informação fidedigna, é sempre positivo. Antes, se calhar, elas não acediam e, isso sim, era mais problemático.

Depois, tem lados muito perversos como esta relação quase de dependência que tens com uma notícia ser bem sucedida nas redes sociais e há notícias que são extremamente importantes e que nunca vão ser bem sucedidas no contexto de redes sociais. Porque o título nunca pode ser interessante, porque a realidade nem sempre é sexy e interessante.

Acho que é perverso a todos os níveis, especialmente problemático quando idealizas o jornalismo como um pilar de uma sociedade democrática e não é o interesse público que orienta a escolha editorial, mas o interesse do público num sentido mais perverso da palavra que é — utilizadores do Facebook ou Twitter não vão ler esta notícia.

O facto de as redes sociais terem trazido mais estas métricas para o jornalismo e as redações terem todas um ecrã com as estatísticas em tempo real do número de pessoas estão dentro de uma notícia ou de número de pessoas que vieram do Facebook e do Twitter por dentro daquela notícia é perverso. Eu acho que essas informações são importantes para o nível de marketing, até dos próprios diretores, é importante terem essas informações, mas não são um critério editorial em si mesmo. Não podem ser e acho que muitas vezes o são.

E, depois, acho que tem um lado perverso de pressão sobre muitos jornalistas que tem que ver com as caixas de comentários e toda a toxicidade associada a isso. E acho que isso tem efeitos grandes em muitos jornalistas na maneira como eles vão escrever. Há coisas que, se calhar, eu diria de outra forma, e se calhar acho mais correto dizer desta forma, mas não vou dizer porque tenho medo da reação das pessoas e dos ataques que vou ter. Isto é uma coisa real e há ataques completamente absurdos e acho que isso também tem muitas consequências na saúde mental de muitos jornalistas. O nível de insultos e de ataques e até de perseguições.

G. — Há pouco falávamos das notícias de última hora e em como elas sempre existiram, mas hoje existe uma rapidez maior no sentido em que se quer ser o primeiro a dar a notícia, ainda antes de a confirmar. Achas que este imediatismo também é um reflexo das redes sociais? Temos de ser os primeiro a aparecer lá?

M. D. C. — Acho que sim. Temos de ser o primeiro com um link lá, mesmo que só tenha um título e não tenha rigorosamente mais nada. E isso também é um dos motivos porque as pessoas procuram este jornalismo lento que contextualiza, porque uma notícia que só tenha um título não te diz rigorosamente nada a não ser que seja a morte de uma pessoa ou um acidente supergrave. Ou seja, vais ter essa informação, mas não vais ter contexto nenhum. Como é que isto aconteceu, porque é que isto aconteceu e, sinceramente, eu acho também que uma parte considerável dos leitores quer saber o porquê. Que importância é que isso tem no contexto geral.

Tenho sérias dúvidas da pertinência, do interesse público, de dares uma notícia só com um título, mas sim tem que ver com seres o primeiro a dar, para aparecer lá primeiro e, depois sim, desenvolver a notícia. Eu adorava perceber quando é que isso surgiu nas redações, quando é que esse hábito surgiu e como é que ele surgiu, quem foi iluminado que achou que era boa ideia, mas a verdade é que a prática se generalizou. É um bocadinho como o jornalista de desporto, que dizia também que não sabe quem foi o iluminado que achou que era boa ideia seguir o autocarro da seleção durante três horas, por exemplo. Mas alguém fez aquilo, achou que era boa ideia, e os outros seguiram. E há a ideia de que quem não o faz é, muitas vezes, penalizado por audiência e que tem de ir atrás. Não sei muito bem de onde é que isto veio e tenho sérias dúvidas que não seja uma vantagem fazeres diferente e como marcar pela diferença pode ser positivo e que, na verdade, se calhar até isso te vai trazer melhores métricas. Ou então não e estou perfeitamente enganada.

Também há uma coisa que acho muito interessante nas métricas — todos os jornais caminharam por uma lógica de uma parte importante dos seus rendimentos, ou das suas receitas, virem de pessoas a contribuírem individualmente, e é uma ideia que tenho há alguns anos e que estou segura dela, que é — não são as pessoas que clicam na notícia de última hora que só tem um título, ou que clicam sempre que há uma notícia mais sensacionalista ou mais imediata, que vão pagar por jornalismo. Então, eu não sei a quem é que estás a tentar agradar nesse sentido. Não são essas pessoas que te vão pagar o trabalho, nem são essas pessoas que te vão garantir este modelo de sustentabilidade. E, na verdade, as pessoas que pagam muitas vezes ficam irritadas com esse tipo de jornalismo.

Na verdade, quando falamos do estado do jornalismo ou da crise do jornalismo a maior parte das pessoas aponta estas questões, mas continuamos, de forma generalizada, a apostar no clickbait, e no título da notícia sem mais nada lá dentro. Mas isso é o que as pessoas criticam. Não consigo sequer perceber qual é a lógica por detrás disso. Mas não acho que é vantajoso nem para jornalistas, nem para leitores. Os leitores não estão satisfeitos com o que estão a receber ou com a maneira como aquilo está a ser feito e os jornalistas não estão nada satisfeitos com o que estão a fazer, mas a máquina continua a ser alimentada dessa forma.

G. — Falando de desinformação, até que ponto é que a desinformação acaba por ser uma consequência da forma como se pratica algum do jornalismo de hoje em dia? E, por outro lado, até que ponto é que achas que cabe, ou não, ao jornalismo combater a desinformação associada às fake news, produzidas por sites especializados nas mesmas?

M. D. C. — Acho que é um dever do jornalismo corrigir algumas informações no sentido de perceber que esta informação está disseminada, ela está massificada, é nosso dever repor a verdade da questão. Um exemplo em que é muito claro, no caso das vacinas, se há um sentimento de desconfiança, uma desinformação generalizada sobre as vacinas acho que é o papel do jornalismo chamar, se calhar, pessoas especialistas para desconstruir alguns dos mitos em volta disso.

Mas nesta questão do dever de repor ou de contrariar a desinformação, há uma coisa que está a acontecer em alguns órgãos de comunicação, que é um bocado assustadora, que é esta ideia de que temos de dar os dois lados. Um bocado a ideia de que há pessoas que acreditam que a terra é plana, então tens de chamar um cientista e depois tens de chamar um terraplanista. Acho que não é assim que se combate a desinformação, na verdade acho que é assim que se aumenta e que se torna mais profunda a desinformação. Mas isto começou a ser uma prática relativamente corrente nalguns órgãos de comunicação, esta ideia de ir chamar pessoas anti vacinas. Isso não é, na minha opinião, fazer um contraditório. Fazer um contraditório é reunires uma série de informação, falares com um especialista e pores visões contraditórias dentro do campo da ciência, por exemplo. Não é ires buscar uma coisa que não é científica, que não tem qualquer tipo de evidência e dizeres que aquilo é um contraditório. Isso é cimentar desinformação e legitimar. Acho que isso é uma distorção do que é o contraditório, de facto.

Mas sobre a outra questão, de até que ponto a desinformação pode ser uma consequência da forma como o jornalismo é feito. Acho que o facto de, às vezes, não contextualizares, não dares resposta a esses problemas que temos vindo a falar de darmos uma notícia, não explicar qual é o contexto em volta daquilo, deixa um espaço em branco e esse espaço, muitas vezes, pode ser preenchido por desinformação. Muitas vezes, não é preciso vir um site de notícias falsas espalhar uma ideia. Há muitas ideias que são formadas na tua cabeça só porque não te é dado o contexto todo, até involuntariamente, e isso acontece-nos a todos. São coisas que não são verdade, mas [que interiorizas] só porque te contaram a história pela metade, ou não te contextualizaram a história como deve de ser.

G. — Há também a perspetiva do leitor, no que diz à literacia mediática e à literacia digital. Para dar um bocadinho de contexto do que quero dizer com isto, a literacia mediática, porque é muito fácil perceber que para as pessoas que não fazem disto a sua profissão, o seu dia a dia, pode existir uma incapacidade de distinguir uma crónica, duma notícia e duma reportagem. E, por outro lado, a maioria dos meios de comunicação social estão online e, cada vez menos, temos jornalismo em papel, principalmente com periodicidade diária. Nós também não temos o mesmo nível de conhecimento de como usar o meio digital. E, neste caso, podemos estar a falar de pormenores como saber onde é que eu vejo a data de publicação da notícia, que podia ser verdadeira em 2014 e hoje ficou viral e está a ser desinformativa. Como vês a relação com estes dois tipos de literacia e como é achas que isto pode ser combatido?

M. D. C. — Concordo em absoluto com o que estavas a dizer. Acho que cabe também aos órgãos de comunicação promover esse tipo de literacia e não só promover como estar consciente dela e fazer pequenos ajustes para melhorar a prestação dos leitores. Muitas vezes, não basta que lá diga “opinião”, mas tu percebes que há uma série de pessoas, de forma generalizada, que não estão a perceber que aquilo é opinião. É muito comum, nas caixas de comentários de artigos de opinião, teres pessoas a dizer — “senhor jornalista acho que não está a ser isento”. Coisas assim. Claramente, aquela pessoa não percebeu, de todo, o que é aquele artigo e acho que também cabe alguma responsabilidade aos órgãos de comunicação de promoverem essa literacia.

Acho que esse tipo de informação passa por questões de design em serviço do leitor. Os jornais, quando foram desenhados em papel, tinham muito essa lógica de informar claramente o leitor de quais eram as várias secções do jornal, isso era tudo muito mais pensado. E, quando fizemos a transição para o digital, para os sites, muito desse pensamento teórico foi abandonado tens, em muitos sites, páginas de artigos de opinião que são muito parecidas com as páginas de notícias. Então, acho que era preciso mesmo uma discussão quase teórica e a implementação de uma série de medidas para que haja aqui uma diferenciação, haja aqui um reconhecimento de que, sim, as pessoas confundem opinião com notícias, não percebem exatamente, ou há um problema de literacia mediática. Acho que cabe aos órgãos de comunicação fazer o esforço de deixar tudo isso mais claro.

Os níveis de literacia mediática são muito diferentes e tu queres chegar a todos e queres muito chegar àquela pessoa que tem menos literacia mediática e que, por isso, também precisa muito da informação que tens para lhe dar. Isto sem ser paternalista, mas é a verdade de reconheceres que há falta de literacia mediática e precisas de explicar melhor as coisas às pessoas.

Acho que o outro papel desta literacia tem que ver com as escolas. Desde pequenos, haver aqui um ensino do que é que é o jornalismo. Lembro-me de na escola primária ter aprendido o que eram os géneros jornalísticos, a crónica e a opinião, mas duma forma mais teórica. E ninguém me ensinava verdadeiramente, aquilo que vejo na televisão, como é que é produzido, no sentido mais prático. Então, acho que uma parte da promoção da literacia mediática tem obviamente de passar pelas escolas a par deste trabalho dos órgãos de comunicação.

G. — Podes destacar alguns projetos de jornalismo lento, nacionais e internacionais, que te inspirem, destacando o que neles tomas como exemplo da tua prática enquanto jornalista?

M. D. C. — Há uma coisa de que gosto muito que é o Bristol Cable, e não é necessariamente jornalismo tão lento, mas tem muito que ver com este jornalismo de proximidade com a comunidade e de envolvimento com a comunidade de contribuidores. E há uma revista que é incrível que se chama Delayed Gratification, revista de jornalismo lento, com uma grande componente de visualização de dados, em que uma coisa acontece e eles só vão explicá-la três meses depois. [Destaco também o] Slow Burn, podcast da SlateIn the Dark, podcast da APM Reports.
Em Portugal, a Divergente, e — sem saber se vocês e eles se consideram assim — a Revista Gerador e a Mensagem de Lisboa. E, depois, programas/trabalhos dentro dos grandes órgãos generalistas: a investigação do Miguel Carvalho, entre muitas outras dele, sobre a Amália e o Estado Novo; a Grande Reportagem SIC; o Linha da Frente da RTP, e a revista P2 do Público.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de Nuno Ferreira Santos
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