Caxinas é das terras mais emblemáticas do nosso país, que em conjunto com a Narazé, Olhão e Rabo de Peixe marca a nossa relação com os frutos e dores do mar. Não há povo como o povo pescador, aquele que vê ir ao mar os seus amores e que os espera sempre de coração na boca, e, como pela boca morrre o peixe, a nossa querida Margarida foi às Caxinas conhecer a Dores que também é Maria como todas as nossas senhoras.

Cheiro a mar e a destino.

Robalo, raia, chaputa, pescada, cavala, barbo e tamboril. Sardinha não que ainda não é tempo dela, mas há polvo e ruivo de olhos tristes. Tudo peixe do nosso mar. Exposto na banca de mármore, fresquinho como se quer, o peixe espera a freguesa. E Dores, com paciência e arte, vai compondo a banca. E conversa, sem pressa.

Pois é verdade, nasceu no peixe, que é o mesmo que dizer que desde que se lembra é peixeira. “Caxineira da Poça da Barca” também, um dos lugares que compõe a identidade de Caxinas, a par com o areal, a praia do Farol e os pescadores. 

Ser caxineiro é ter o mar como destino. Dentro de um barco, junto à costa ou no mar alto, medindo forças com as correntes e os ventos, lavrando as ondas e colhendo nas redes o salário e o suor. Ou em terra, rezando baixo para que os homens regressem todos, barcos carregados. Depois, mercando o peixe que sai da lota a saltar; na banca do mercado, de janelas largas viradas para o mar, onde as freguesas o escolhem e as peixeiras o amanham, mostrando as guelras vermelhas, sinal de frescura e de vida.

Núcleo piscatório cujas origens remontam à antiguidade clássica e à vila Farol que marcava rotas marítimas, Caxinas não é freguesia mas também não é Vila do Conde nem Póvoa de Varzim. Praia e porto, areia, mar e rochedos. Homem com o mar no ADN e mulheres sem medo, Caxinas continua a formar pescadores que vão para o mundo e a contar, com orgulho, as vidas dos homens que eram os melhores na faina maior, que é como quem diz na pesca do bacalhau.

São apenas 55 anos de vida, mas as memórias de Dores reflectem a identidade da terra: “Em miúda vendia na praia, ali adiante, em frente ao Casino. Os tempos eram outros, não tínhamos balança, então contávamos o peixe da caixa que comprávamos, fazíamos o preço de forma a não termos prejuízo e leiloávamos para conseguirmos o nosso lucro. Por exemplo, depois de contadas, sabíamos que 12 fanecas tinham ficado por 50 escudos. Era o valor base e os fregueses iam oferecendo, 55, 60, 65, 70 escudos. Quando percebíamos que o nosso lucro era razoável dávamos o peixe”. Enquanto coloca o preço nas espécies expostas na banca, Dores lamenta a mudança de hábitos. “Dantes toda a gente comia peixe, graúdos e miúdos, agora… os mais jovens não o querem”, preferem os hambúrgueres rápidos. Mas mesmo assim, há clientes fiéis que vêm de longe à procura de frescura e cheiro a mar.

Na época balnear o mercado ganha mais vida. Os banhistas que alugam casa são clientes fiéis do peixe fresco. Mas, mesmo assim, nada como antes, “em miúda vendi muito peixe de porta em porta, nos meses de verão, aos banhistas. Ganhava-se mais alguma coisa”. Parte desse peixe era o quinhão do pai, mistura de espécies de peixe que enchia o baú de chapa de cada pescador. No início da faina, a “lata” ia cheia com o suficiente para se alimentarem durante os dias que ficavam no mar, no regresso, dependendo da pescaria, cada pescador entregava o baú cheio de pescado à mulher ou à mãe, as peixeiras que percorriam depois as ruas, apregoando a frescura e barateza do pescado, compondo o escasso salário do pescador com o resultado da venda.

Filha, mulher e mãe de pescadores, Dores conviveu sempre, pacificamente, com o medo e a angústia do regresso. Foram muitas as vezes em que, com a mãe e as vizinhas, caxineiras como ela, correu a casa a escolher lençóis brancos para embrulhar os corpos que davam à praia. Esta costa é traiçoeira e se hoje as mulheres já não se juntam, tantas vezes, no areal com luzes, orações e trevas no coração, ainda guardam bem vivas na memória as grandes tragédias. O vizinho que deixou órfãos e viúva, a miséria que se abateu nas casas das ruas de Caxinas. É nessas alturas que o caxineiro mostra a sua força e resistência. Ergue a cabeça, enterra os seus mortos e une-se. “Temos fama de esmoleiros, sim senhor, ajudamo-nos uns aos outros”, porque só assim se sobrevive e se arranjam forças para voltar ao mar e cumprir o destino.

Começam a entrar os primeiros clientes. Dores continua a expor o peixe no mármore branco, sacudindo com cuidado o gelo. Em frente, Celeste, peixeira no mercado de Caxinas, mas poveira de nascimento tem já a sua banca composta. Que não, não tem sangue de pescadores mas o feitiço do mar foi mais forte do que ela. Antiga costureira, ex-emigrante rendeu-se ao destino: “O meu marido sim, foi pescador, foi sócio de um barco e esteve sempre ligado ao mar, até hoje. O Fábio Coentrão é sobrinho do meu marido e continua a investir para preservar a tradição da pesca na família. Tem quatro barcos e gosta de andar por aqui, com muito orgulho da sua ligação ao mar, porque aquela é uma família tradicional de pescadores”.

Chega uma cliente e Celeste amanha com arte o peixe escolhido e fica à espera de outras freguesas que vêm de Guimarães e Famalicão, propositadamente a Caxinas, comprar o seu peixe. Com um sorriso tímido, explica que o mercado tem tantas bancas vazias porque algumas peixeiras só vendem no verão, quando as praias se enchem de gente. Despede-se e torna a compor o peixe, visivelmente orgulhosa do efeito.

Dores, já acompanhada pela sócia, não pára um segundo. Mas ainda arranja tempo para apontar os nichos cheios de santos que se espalham pelo mercado. “É o Santo António dos pobres, aquele com o cajado, o casamenteiro e o protector dos negócios, que ajuda na luta contra a inveja”, entre estes dois últimos a diferença está no menino que ora está à esquerda ou à direita. Cada um deles tem os seus símbolos e todos juntos protegem a gente do mar. 

Proteção é o que se pede também ao Senhor dos Navegantes, protagonista da festa maior dos caxineiros. É Ele que junta, em procissão, todo o povo, percorrendo as ruas e a marginal. A fé une e Dores garante que a festa é bonita. Porque os deuses foram louvados e as orações ouvidas, Dores consegue falar do passado sem mágoa. “O meu homem sobreviveu a três naufrágios, morreu de doença, não no mar. O meu filho está num barco grande, em Aveiro  e o genro anda num barco/fábrica na Holanda”. A espera pelo regresso dos homens não é fácil, o mar é traiçoeiro, “estamos sempre com o coração nas mãos”, mas o Senhor dos Navegantes protege e ilumina. E afinal, apesar de tudo, Dores, também Maria como todas as Nossas Senhoras, quer morrer no meio do peixe, como nasceu.

Esta entrevista foi publicada na Revista Gerador Maio 2019 que podes descobrir aqui.
Créditos – Texto de Margarida Almeida e fotos de Luís Almeida