Maria Mire, doutorada em Arte e Design pela Universidade do Porto, é artista plástica e professora e co-responsável do Departamento de Cinema/Imagem em Movimento do Ar.Co, em Lisboa. O seu trabalho artístico e de investigação tem-se centrado nas questões da perceção da imagem em movimento. Este ano estreou-se na realização com o filme “Parto Sem Dor”.

Numa abordagem pessoal e em homenagem à vida de Cesina Bermudes, a realizadora apresenta em estreia a curta-metragem “Parto Sem Dor” no Festival Internacional de Cinema – IndieFestival, que se realiza de 25 de agosto a 5 de setembro de 2020. Cesina Bermudes foi a primeira mulher portuguesa a doutorar-se em medicina, com especialização em obstetrícia, e pioneira da introdução do parto sem dor em Portugal. A médica ajudou milhares de crianças a nascer, filhos de mulheres perseguidas pela PIDE, que acabou por também a prender. Cesina foi sempre uma ativista política contra o regime salazarista.

Em entrevista ao Gerador, Maria Mire fala sobre o processo de investigação para este filme. Para a realizadora, o processo de realização deste documentário foi uma “experiência muito pouco ortodoxa” que não pretende tornar um método de trabalho. Contudo, revela vontade de “continuar a explorar as narrativas femininas do século XX”.

Gerador (G.) – Cesina Bermudes foi uma mulher única pelas diferentes lutas que travou e conquistas. O retrato da sua história é também o espelho de muitas outras que ficam por contar? Como é que a Maria teve o primeiro contacto com a história de Cesina e quando é que percebeu que em algum momento teria de lhe prestar esta homenagem?

Maria Mire (M.M) – A história da Cesina Bermudes é uma história que se junta a centenas, milhares de outras histórias de pessoas que tiverem um papel activo de resistência ao regime do Estado Novo. Tive conhecimento da importância histórica da Cesina Bermudes só muitos anos mais tarde do nosso encontro fugaz. A meio da década de 1990, a Cesina foi bater à porta de uma casa devoluta recém-ocupada por um grupo de jovens em Lisboa para oferecer ajuda, mobília e os seus conhecimentos na área da ginecologia. O entusiasmo daquela mulher, quase a chegar aos 90 anos, à porta de uma casa ocupada, numa rua que também era a sua, foi marcante. A ideia de homenagem está ligada também a esse momento, pela singularidade desse gesto que na altura vivi como algo completamente transformador.   

G. – O processo de investigação envolveu diversos elementos, entre artigos científicos, documentos históricos, arquivos de jornais e ainda entrevistas a pessoas que se envolveram com Cesina em alguma altura da vida. Como foi percorrer este caminho e descobrir novas narrativas?

M.M – Foi de facto a parte mais fascinante do processo de construção do filme. Ir atrás de uma história particular e ver-me a mergulhar na história contemporânea portuguesa. Mas eu tive desde cedo a evidência de que o processo de pesquisa estaria repleto de encontros inesperados. Um dos primeiros documentos que procurei consultar foi a sua tese de doutoramento, que está na Biblioteca da Faculdade de Medicina de Lisboa no Hospital de Santa Maria. Ao sair do edifício deparei-me com um enorme desenho a carvão, intitulado “Estudo Anatómico do Campo Santana”, onde aparece a Cesina Bermudes numa aula de anatomia cercada de colegas, todos a olhar para o professor que explicava uma autópsia sem corpo. E aí eu percebi que a investigação seria de algum modo também responder ao enigma: porque é que ela tinha deixado de partilhar aquele espaço académico e nunca tinha exercido num hospital?

G. – Quando começou a cruzar-se o processo de investigação com o processo artístico? 

M.M- Desde o início que estes estavam entrelaçados. O filme foi-se construindo à medida que se adensava a investigação, que decorriam as entrevistas e a recolha de testemunhos. Contudo, o movimento que se foi desenhando foi contrário à realização de um documentário sobre a vida da Cesina. Aliás, nunca tive essa intenção. Sempre foi claro que, por mais que falasse com pessoas e escavasse em arquivos, o meu conhecimento seria sempre parcelar e parcial. Ficou desde cedo decidido que o filme não iria incluir estes testemunhos. Eles seriam parte da pesquisa, como todo o material bibliográfico, mas o sentido do filme seria encontrar um modo de criar um diálogo direto com ela.

G.- E quando é que a Maria Mire sentiu a necessidade de criar uma “intimidade imaginada”? Foram as descobertas da vida da Cesina que conduziram, inevitavelmente, a uma sensação de proximidade e de convivência?

M.M – Foi uma estratégia importante para a realização do filme. A certa altura apercebi-me que tinha construído um imaginário à volta dela, não necessariamente efabulado, mas centrado numa história que me interessava perseguir. Mais politizada, de uma mulher que ainda hoje continuaria à frente do nosso tempo. Essa é uma das razões pela qual o filme não utiliza imagens de arquivo, por eu acreditar que as ideias defendidas pela Cesina, para além de atuais, não deveriam ser apresentadas como cristalizadas num tempo histórico.

G. – Não posso deixar de questionar sobre a presença do cubo como elemento constante ao longo de todo o documentário. Existe algum simbolismo associado?

M.M – Sim, o cubo que acompanha a história, tanto é uma metamorfose da pedra, que surge no início do filme, e que segundo uma lenda galaico-portuguesa deveria ser colocada na boca de quem cruzava a nado os rios de modo a impedir que conversassem com as feiticeiras que aí viviam. Assim como o movimento circular do cubo é, de um algum modo, inspirado numa ideia de conexão cósmica partilhada pela Cesina e que o filme não explora a nível narrativo, mas que achei que teria de estar de alguma forma presente.

G. – Esta sua estreia na realização valeu a nomeação para a Competição Nacional de curtas-metragens do IndieLisboa Festival Internacional de Cinema. Como foi perceber que a estreia mundial do “Parto Sem Dor” ia acontecer no IndieLisboa? E, depois disto, quais são as expectativas para o futuro?

M.M – Fiquei obviamente feliz. Acho que foram corajosos e estou entusiasmada por o ir ver projetado, pois independentemente do seu carácter híbrido, ele foi desde o início pensado para ser visto numa sala de cinema. Não tenho propriamente expectativas, mas coisas que quero fazer. Por exemplo, julgo que não fará sentido voltar a repetir esta experiência muito pouco ortodoxa. Não pretendo torná-la num modelo de trabalho, apesar de desejar continuar a trabalhar com o Ricardo Guerreiro e a Marta Rego que deram um contributo inestimável ao filme. Gostaria, isso sim, de continuar a explorar as narrativas femininas do século XX. Estou interessada de facto nos processos de invisibilidade, nomeadamente na experiência da clandestinidade, do que significava operar a partir da sombra.

Entrevista Bárbara Dixe Ramos
Fotografia do filme “Parto sem dor”, Maria Mire