Tudo começou com seis anos, na Guiné-Bissau, quando a mãe e a avó, as suas grandes referências, declamavam poemas e contavam histórias nos momentos em família. Atraído pela possibilidade de ter um alter-ego “tipo Fernando Pessoa”, foi Deus da Rima, Marinheski e Marinho Pina, que era o “nome de casa” dado pelo pai na esperança de que um dia se tornasse como Marinho Peres, o futebolista, terminando ou começando, como Geraldo Pina, o seu nome de batismo, utilizado em momentos mais formais.

Com treze anos juntou o improviso com o piano de Justo Pina, o irmão, e mais algumas pessoas que usavam o rap como ferramenta de crítica à situação política da Guiné-Bissau e “também porque era cool”, refere. Começou por divertimento, mas depois percebeu que tinha algo a dizer e que mais do que um nome, importante era o que dizia, pois o pensamento partia do mesmo cérebro. Escritor, poeta, performer, artista de rua ou arquiteto? Mestre em Arquitetura e doutorado em Arquitetura dos Territórios Metropolitanos Contemporâneos, Marinho Pina prefere não dizer a sua idade, descreve-se como bom percussionista quando quando acompanha profissionais, um contador de histórias com rimas em forma de verso e um entusiasta.

“Dizem que a poesia deve ser sentida e eu penso os meus poemas, não sei se sinto. Os meus textos são muito racionalizados. Não sei se isso pode ser chamado poesia, mas desde que consiga falar, estou contente.”

O objetivo final é sempre divertir-se e divertir os outros, partilhar esse mundo de sonho que todos nós temos e que alguns não exploram, acrescenta.

Toca djembê, cabaça, sicó, balafom e carron, organiza eventos de Slam — batalhas de poesia falada que surgiram nos anos 80 nos Estados Unidos — em Sintra com o Poetry Slam Sintra, e eventos em Lisboa com o Laboratório de interação e oralidade (LABIO) e tem um grupo de cinco membros, o Lx Poetas. Participou em performances de rua, no metro de Lisboa, no Boom Festival e no Festival Iminente, em 2019.

Reúne cinco livros de contos publicados e numa conversa sobre palavras, improviso e processos criativos, conta-nos a sua história.

Gerador (G.)  Como surgiu o interesse pela poesia e improvisação?

Marinho Pina (M.P.) – Em Sonaco (Guiné-Bissau), onde cresci, não tínhamos televisão e contar histórias era o que fazíamos para passar o tempo, para nos divertirmos à noite, e eu gosto de falar. Quando gostas de falar e gostas de histórias, saber contá-las dá-te muito tempo de antena e aí consegues ter pessoas caladas a ouvirem-te. Para além disso, normalmente, as mulheres de uma certa idade reuniam-se no quintal onde cresci, num evento de sororidade chamado grupos de mandjuandade. Uma espécie de movimento feminista guineense de diferentes expressões, onde as mulheres conversavam, partilhavam os seus problemas, divertiam-se longe do controlo do homem. Na mandjuandade quem manda é a mulher, os homens participavam e, muitas vezes, via-se homens vestidos de mulher, talvez para participar naquele núcleo, divertirem-se, aceitarem a sua feminilidade ou até para engatar. Se considerarmos a hierarquia, eu fazia parte dos prentchentche, os miúdos que não serviam para “nada”. Todos podiam participar. A minha mãe gostava e lia poesia, era muito boa a improvisar. Tentando imitá-la, inventava músicas. Tive diferentes estímulos e a minha avó foi outro deles, era uma grande contadora de histórias. Eu gostava de participar, porque deixavam-me cantar e inventar as minhas coisas. As festas ainda continuam a acontecer, mas em algumas regiões mais urbanas há uma certa limitação na organização das mandjuandade, talvez porque a mulher passou a ocupar outro papel na sociedade e isso acaba por matar certas tradições, muitas vezes, porque já não há necessidade de que elas existam. Por exemplo, quando chegou a televisão deixámos de contar tantas histórias.

(G.)  E a percussão? (M.P.) – Eu cresci numa igreja e uma das coisas que fazíamos era cantar o hino com percussão. A minha irmã tocava djembê e o meu irmão tocava piano. Como não tinha coordenação suficiente para o piano, comecei a tocar percussão e juntei as palavras, porque não queria ficar na sombra deles, isto com seis/ sete anos.

(G.)  Existe uma temática que gostes mais de abordar?

(M.P.) – Não tenho necessariamente uma agenda, tenho preferência para temas socialmente relevantes, que estabeleçam uma base para discutirmos e analisarmos determinados assuntos. Falo muito sobre política e acho que viver numa sociedade é fazer política. O ato de apanhar o comboio pode ser um ato político, mas a maior parte das vezes é um ato passivo. Entramos no comboio para irmos a um sítio, não entramos para dizer que temos de nos deslocar. Quando há uma intencionalidade em certas ações, estamos a agir e não a ser meros observadores. Uso coisas rotineiras para mostrar que não há nada simples na nossa sociedade, tudo pode ter um valor, expressão, tudo serve, tudo vale.

Mais ou menos durante um ano, sempre que saía, e até perdê-lo, usava um chapéu de criança com um lobo, andava de comboio, as pessoas olhavam para mim e sorriam.

Esperanças, sonhos, mundos e tudo o que “tiver à boca” e que consiga sair, eu mando cá para fora.

(G.)  Tens uma foto no Facebook, no comboio, onde tens uma máscara de mergulho, uma capa vermelha e um cartaz a dizer “Medo do Corona el vírus”, foi mais uma forma de fazeres com que as pessoas questionem as coisas e sorriam?

(M.P.) – Foi. Aquela ação arrancou imensos sorrisos. O Corona vírus, no início, era um pânico total e o que eu percebi é que havia muito medo a ser vendido, como se o apocalipse estivesse à porta, “vamos morrer todos em seis meses, e por isso, para não morrermos, temos de matar a nossa humanidade”, e ainda é horrível. O que estão a fazer com isto é isolar as pessoas cada vez mais e nós já estávamos isolados com os nossos telemóveis. Não digo às pessoas para saírem à rua, beijarem-se, abraçarem-se aleatoriamente ou andarem a beijar mendigos como o Marcelo Rebelo de Sousa, mas acho que estamos a morrer por dentro. “Obedece, trabalha, compra e morre” — isso é reduzir as pessoas a máquinas.

Viajem de Cascais a Lisboa, a 11 de março.

 (G.)  Qual foi a primeira vez que tiveste contacto com o Slam?

(M.P.) – Há três anos, em 2017, no 25 de Abril, quando fui a Lisboa e vi que estavam a fazer uma coisa de poesia que se chamava Slam, e era microfone aberto. Fui, escrevi alguns poemas, li no momento e foi muito fixe. Comecei a participar desde então.

(G.)  Tens alguma técnica para treinares o improviso?

(M.P.) – Eu organizo workshops de escrita criativa, técnicas de improviso e cada um tem as suas, mas a cena é, sempre que nos encontramos com alguém, essa conversa é sempre improviso, porque ninguém sabe o que vai ser dito e, ao longo do ato, o discurso vai encaminhar-se de acordo com o que é dito no momento. Quando um improviso acontece, seja em poesia, discurso, entrevista de emprego, onde for, fala daquilo que sabes, usa as palavras que dominas e o teu improviso vai ser bom, o resto é prática. Muitas vezes, nas performances, peço palavras ou temas às pessoas, mas depois encaminho-me para um sítio seguro, falo do que sei. Não posso falar do Benfica, porque não conheço nada sobre, então o que faço é relacioná-lo com o Colombo (centro comercial na zona de Benfica), que conheço melhor e há aquela relação que faz com que o Benfica faça sentido dentro daquilo. Basicamente, é falar do que sabes, entendes e dominas, porque depois estatelas-te ao comprido se quiseres aventurares-te por “mares nunca dantes navegados”. Eu uso muita rima no improviso e, por isso, tenho de conhecer palavras. Muitas vezes, olho para objetos na rua e faço rimas sozinho para ter domínio sobre palavras.

(G.)  Quais foram os eventos em que mais gostaste de ter participado?

(M.P.) – Fiz alguns em Bissau, em novembro, a luz bazou, então agarrei no meu microfone, colunas, e como tinha uma bateria portátil fomos para a rua e começámos a cantar, contar histórias e a dizer poemas. As crianças vieram e animámos o bairro de uma forma diferente. Ter a participação de todo aquele pessoal do bairro, juntarmo-nos para fazer uma noite diferente, foi um espetáculo. Eu divirto-me nas coisas que faço, quando não me consigo divertir é porque algo correu mal.

(G.)  Publicas imenso conteúdo no teu perfil do Facebook. Mesmo com um blog, o “Monte de palavras”, consideras o Facebook a tua plataforma de lançamento?

(M.P.) – Tenho o blog desde 2006 e esse bicho de falar com alguém ou escrever levou-me ao Facebook, onde existem milhares de pessoas. Para além disso, o Facebook é um vício do caraças. Antes escrevia no blog e partilhava no Facebook, agora, escrevo no Facebook e digo que tenho de atualizar o blog, e não o faço. Há um paradigma que precisamos de quebrar. Tendemos a considerar escritores apenas as pessoas que publicaram livros, parece que é preciso um livro para provar que és escritor mesmo que o livro não preste. Não vivo da escrita, nem sei se algum dia viverei, e tenho uma certa relutância em fazer publicações por esse motivo. Porque é que não é possível afirmar-me como escritor através de outras plataformas? Nós estamos num mundo em constante mudança, as pessoas agora leem em pdf, ipad e kindle. O modo de consumir a leitura não é apenas por livros impressos. Qualquer um que escreva com consistência, regularidade e objetividade é, para mim, escritor. “Podes ser um bom músico, mas se só tocas ou cantas na casa de banho dificilmente outros te ouvem, para poderem saber que és bom músico”, o mesmo com o escritor “de gaveta”. Quando partilhas, és escritor, não interessa se bom ou mau, isso é relativo e discutível.

Vídeo poema produzido para o projeto “Direitos (des)conhecidos” – A comemoração dos 30 anos da Convenção sobre os Direitos das crianças. Filmado & editado por João Meirinhos.

(G.) – Tens livros lançados, o primeiro é o Fogo Fácil com prefácio do escritor José Eduardo Agualusa. Fala-nos disso.

(M.P.) – Um deles é uma antologia de poemas e os outros são contos. Fogo fácil foi escrito apenas por mim e os outros têm colaborações. A coisa de ler histórias e escrevê-las é um processo natural, isto se conseguires forma de publicar, e eu tive a sorte de conhecer a melhor editora do mundo, a Teresa Montenegro, que me ensinou a escrever e, até hoje, ainda ensina. A editora chama-se Ku si Mon e um dos editores é a Teresa Montenegro. Eles tinham organizado um concurso de contos, que depois cancelaram, porque disseram que os contos não tinham qualidade. Eu soube disso, levei os meus contos e disse: “leiam estes e se gostarem deem-me o dinheiro que tinham prometido no concurso”. Acharam graça, gostaram dos contos e, em vez de me darem o dinheiro, perguntaram-me se não queria publicar. Tornamo-nos amigos e ela começou a “pentear-me os contos”, ensinou-me imenso a escrever e a melhorar a minha escrita. Muitas vezes, perguntam-me qual é o segredo para escrever bem e eu digo: “arranja uma boa amiga que perceba dessa coisa”.

(G.)  Quais são as tuas maiores referências para além da tua mãe e avó, e os escritores Voltaire, Erasmo de Roterdão e Mark Twain?

(M.P.) – Eu escrevo, mais ou menos, como falo, então as minhas influências na escrita nem sempre são literárias, são pessoas com quem me cruzo e adoro a forma como falam. Aproprio-me da fala dessas pessoas. Quando criança tinha um colega, que virou deputado em Sonaco, e era capaz de contar histórias de filmes de duas horas em três horas, conseguia ir mais além que o filme. Quando estava com pessoas que não o conheciam, copiava-o e as pessoas pensavam que eu era o inventor daquela forma de contar, mas depois, a copiar pessoas e amigos, acabei por criar o meu estilo. 

(G.)  Consegues observar alguma característica que una todas as pessoas que copias?

(M.P.) – Não, porque a “panela” é sempre a minha cabeça, eu meto todos os ingredientes, que são essas pessoas, e mexo, mas eu consigo saber exatamente de onde tirei cada ingrediente. A mescla que se fez dentro da “panela” do meu cérebro criou uma sopa diferente. Às vezes não gosto da pessoa, mas ela tem formas de dizer certas coisas que me atraem, gosto muito do autor, mas não quero copiar, e outras copio sem saber.

(G.)  Em 2014 disseste, no programa “Bem-Vindos” da RTP África, que sentes que a tua escrita é uma forma de agradecimento a todas as pessoas que partilharam as suas histórias. Ainda sentes isso? 

(M.P.) – Continua a ser. Acho que neste mundo o que devemos fazer é partilhar. Acredito na cadeia de favores. Quando sei que posso ajudar alguém, eu ajudo, porque quando preciso de ajuda aparece sempre alguém para me ajudar, para além disso, sabe sempre bem aliviar o fardo a alguém. O mesmo acontece com a escrita, se eu puder adicionar alguma coisa aos mundos imaginários que me permitiram sonhar, irei fazê-lo. Permitir que outras pessoas sonhem. Desde 2015 que estou com uma associação a tentar criar uma biblioteca, em Sonaco, a minha terra natal. Fui ver a vila e um miúdo disse-me que tinha visto a entrevista no programa “Bem-Vindos” e pediu-me para eu ensinar-lhe coisas, visto que, tinha ido à Europa, como nós dizemos “à terra branko”. Não sabia o que podia ensinar, mas sabia que o que me ensinou foram os livros e pensei que uma biblioteca podia ajudar.

(G.)  Sentes que tens alguma responsabilidade social sobre as interpretações feitas a partir do teu trabalho?

(M.P.) – Quando escrevo tenho o cuidado de pentear os textos para tirar qualquer fantasma dali, por exemplo, eu ainda tenho pensamentos machistas, porque o machismo foi um dos alicerces da minha construção e tenho andado a substituir essas fundações, mas várias pedras ainda estão lá, porque foram anos de condicionamento. Quando se fala de violência é importante que se faça uma nota de conclusão. Quando sou uma pessoa violenta, e ainda venho gabar-me de que sou violento, parece que estou a promover a violência. Eu tenho muitos problemas com isso, os meus textos não são nada simpáticos, são polémicos, mas tento sempre fazer uma nota de rodapé para contextualizar o que estou a dizer.

(G.)  Na entrevista à RTP África, também disseste que tens algo que defines como a “síndrome das 20 páginas” em que começas a escrever um romance, chegas à página vinte e não consegues passar daí e, por isso, arranjas forma de transformar o texto num conto.  Ainda tens a síndrome das 20 páginas?

(M.P.) – Felizmente, a síndrome das 20 páginas passou, agora estou com a síndrome de zero páginas (risos). Não tenho escrito ficção, não sei se é pela influência do Facebook, de tudo ter de ser rápido, e ali ninguém tem tempo para ler nada, mas acho que um artista produz dependendo das suas necessidades e estado de espírito. Neste momento, escrevo coisas diretas e pontuais sobre a realidade do dia a dia.

(G.)  Onde é que fica a arquitetura no meio disto tudo?

(M.P.) – A arquitetura também é uma forma de contar histórias, às vezes, mais concretas, porque quando se desenha um edifício parte-se da técnica, criatividade, imaginação e depois é necessário pensar-se nas pessoas que vão usá-lo e como facilitar as suas vidas no uso do edifício. Eu faço investigação e, neste momento, estou a trabalhar com a cidade de Bissau no desenvolvimento de espaços sagrados tradicionais e, novamente, há uma história à volta disso, de como isso influencia as pessoas, os espaços e a sua relação. Tenho de contar estas histórias de forma mais sistemática e aprendo mais. Eu divertia-me a ler livros técnicos porque descobria coisas novas, e acho que isso também ajudou a desenvolver o gosto pela leitura.

(G.)  Exploras várias áreas das artes e uma delas é o cinema. Realizaste uma curta-metragem que se chama “A Minha escola”, em que mostraste as condições de uma escola em Sonaco, Guiné-Bissau, a tua terra natal. Em 2016, fizeste a mostra do filme no Encontro Nacional de Estudantes Guineenses localizado no Instituto Universitário Justiça e Paz, em Coimbra, e desenvolveste um projeto de recuperação da escola. Qual foi o impacto desse conteúdo audiovisual?

(M.P.) – Aquilo foi um fiasco, porque tínhamos planos de recuperar a escola, conversei com a população local e a ideia era construirmos e trabalharmos lá. No entanto, não conseguimos fundos, porque aquele espaço exigia grandes obras. Entretanto, falei com um deputado de Sonaco, que estava com este projeto há quatro anos e disse-me, que a escola agora era dele, que tinha comprado quando trabalhava nas finanças e que se eu quisesse podia fazer obras, mas sem a sua ajuda. Chegou a dizer-me que, usando as suas influências, conseguiu comprar o terreno a metade do preço. Isto é corrupção. Existe uma lei, que se chama “Usucapião”, que diz que depois de vinte anos o espaço passa a pertencer a quem dá uso ao mesmo. Aquele espaço é usado como escola há mas de quarenta anos, ou seja, devia ser do Governo. Nessa altura, as crianças diziam que tinham de se sentar três em cada carteira. Agora, a escola está parada porque querem dar outra utilidade ao terreno e, neste momento, nas mãos de um partido político.

Curta-metragem “Minha Escola”, realizada em Sonaco, Guiné-Bissau.

(G.)  Como estará no futuro o mundo que criaste quando percebeste que a escrita faria parte da tua vida?

(M.P.) – Eu não planeio muito o futuro. Basicamente, oriento a minha vida por diversão. Tenho uma perceção muito pessimista do mundo e da forma como as coisas vão ficar no futuro, e quero estar muito enganado sobre isso. As correntes, hoje, dizem que não posso ser negativista como se fossemos máquinas. Todas as nossas emoções são necessárias para nos equilibrarmos. A ideia é continuar a fazer o melhor, partilhar boa disposição e recebê-la.

Texto de Filipa Bossuet
Fotografia da cortesia de Marinho Pina
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