A linguagem musical é uma das que lhe chegou mais cedo. Começou a escrever música com 11 anos, mas só na altura de escolher o que estudar após o secundário se apercebeu de que era nessa área que encontrava o maior dos sentidos. Sempre acreditou que, tomada uma decisão, é preciso arriscar em pleno. “Acho que tem de haver esse salto de cabeça, de vamos e depois logo se vê, se não correr bem, não correu. Isso, para mim, foi o que fez a diferença”, partilhou MARO com o Gerador. Acabou por ir estudar para a Berklee College of Music, onde avançou com uma série de vídeos no seu canal de YouTube, “Berklee People”, em que convidava vários colegas para interpretarem, consigo, um tema, sem ensaios, procurando combater a competitividade que se sentia na escola.

Estavam lançados os dados para o turbilhão que foram os anos seguintes. Findo o curso, invadida pelo entusiasmo, mudou-se para L.A., onde foi recebida por um amigo. Consigo não levava nada, senão a vontade de apostar na sua carreira musical. Em apenas quatro anos, conta com inúmeras colaborações com músicos de renome, integra a banda do Jacob Collier, é agenciada pela Quincy Jones Productions, tem cinco discos editados e alguns singles lançados nos últimos dois anos.

Segue com uma nova série no seu canal de YouTube, “Itsa Me, MARO”, uma iniciativa que inaugurou com a chegada da pandemia, não a impedindo de continuar a partilhar música com quem admira, e onde se cruzou com nomes como Eric Clapton,  Mayra Andrade, ou Luísa Sobral. A par disso, tem vindo a compor para o seu próximo disco, que considera ser o primeiro em que mostrará onde se situa, agora, musicalmente e está a trabalhar numa linha de roupa. Foi sobre estes e outros temas que conversámos no final do verão, numa entrevista que serviria de mote para a rúbrica “Nas Bocas do Mundo”, em que falamos sobre artistas portugueses que estão a dar que falar lá fora, da Revista Gerador de outubro. Agora, partilhamos contigo a entrevista à MARO na íntegra.   

Gerador (G.) — Quando eras mais nova, querias ser veterinária. Lembraste do momento em que decidiste que ias ser músico?

MARO (M.) — Sim. Tinha 19, foi no início do ano de 2014. Estava a estudar para aqueles exames de secundário, que eu não queria nada fazer, e a ouvir música. Imensas vezes, acontecia eu ouvir alguma coisa nova e não conseguir dormir, de excitex máximo, de sentir muita coisa em relação ao que tinha descoberto. Especificamente, lembro-me que foi a música “Cais”, do Milton Nascimento. Foi aí que pensei — “o que é que eu estou a fazer? Eu não vou nunca não dormir por qualquer outra razão, pelo menos que seja tão forte quanto eu sinto com a música”. Foi aí que se deu e que decidi mudar tudo.

G. — Então, ele [Milton Nascimento] é o culpado. (risos)

M. – É, assim como toda a gente que me fez sentido antes. Mas foi especificamente a canção do Milton que mudou o roteiro.

“Cais”, de Milton Nascimento — uma música que marcou um ponto de viragem na vida de MARO

G. — Há uns tempos, estiveste a responder a perguntas nos stories da tua página de Instagram. Numa das respostas dizias que antes dos 20 anos tinhas vergonha de cantar para outras pessoas. E na canção “P’ra Onde Vai O Tempo” alertas-nos para o quanto “o tempo passa e não é devagar”. Juntando as duas ideias, e partindo mais duma perspetiva pessoal, como passaste desse ato de maior isolamento para, em apenas cerca de quatro anos, teres inúmeras colaborações com músicos de renome, teres-te mudado para L.A., integrares a banda do Jacob Collier, seres agenciada pelo Quincy Jones e teres já cinco discos (todos lançados em 2018) e alguns singles lançados nos últimos dois anos?

M. – Acho que se não tivesse sido música, se tivesse descoberto outra coisa que queria fazer, teria sido o mesmo, no sentido em que na hora em que eu descobri o que gostava mesmo de fazer foi tudo muito mais fácil. Não sei se também é sorte. Às vezes, há pessoas que adoram algo e não acontece tanta coisa. Mas, para mim, tem sido muito assim: a cada dia faço o que mexe muito comigo, faço aquilo pelo qual sou apaixonada com as pessoas com quem gosto de trabalhar e amo ouvir e escrever. Então, acho que foi muito uma mistura disso, de adorar o que faço, não conseguir dormir por ter tantas ideias de coisas que quero ainda fazer, e, ao mesmo tempo, ser preciso ir de cabeça e depois logo se vê. Acho que, por mais que se goste de fazer uma coisa, especialmente assim, em música, se não houver esse salto de cabeça... vamos e depois logo se vê. Se não correr bem, não correu. Isso, para mim, foi o que fez a diferença. Quando fui estudar para a Berklee College of Music, toda a gente me perguntava — “mas vais estudar para fora, como assim?” Não fazia sentido. Acabei por ir e fiquei três anos, quando, supostamente, nem tinha hipótese de ir, se não tivesse bolsas. Mas decidi tentar. Quando fui para L.A. foi a mesma coisa, fui sem ter casa. Um amigo meu ajudou-me e deixou-me dormir na cama de solteiro dele durante um mês e meio. Hoje em dia, é como um irmão. Mas foi sempre assim. Nunca nada foi seguro até eu ir, experimentar e, depois, muita coisa boa veio disso. É muito a mistura de absoluta paixão com a fé de “vou e seja o que for”. Por um lado, estou surpresa, porque muita coisa tem acontecido e, ao mesmo tempo, estou tão focada no hoje, no que quero fazer hoje, que quando paro para olhar, e ouvindo o que estavas a dizer dos álbuns e tudo o resto, é incrível. Mas, ao mesmo tempo, tenho tantas mais coisas que quero fazer que fico feliz que tudo isso tenha acontecido, mas sei que quero continuar a fazer o que gosto e logo se vê o que vem daí.

G. — Voltando um pouco atrás, à altura em que decidiste ir estudar para a Berklee College of Music, a que se deveu essa escolha? Foi um sítio onde sempre quiseste estudar desde que decidiste ser músico?

M. — Não conhecia a Berklee, na realidade. Quando decidi que queria fazer música, sabia que não queria fazer música em Portugal, porque era entre o jazz e o clássico... eu tinha feito 14 anos de clássico e, de repente, havia o ensino superior, no qual a minha mãe também dá aulas... e as hipóteses são sempre estudar clássico ou jazz e eu queria outra coisa. Escrevo músicas desde os 11 anos, que ninguém sabia, por isso queria ir explorar isso. Então, comecei a procurar no Google escolas noutros sítios. Havia uma em Liverpool, em que também fiquei superinteressada, outra no Minnesota. Foram várias aquelas em que fiquei interessada. Entretanto, descobri que um amigo meu tinha estudado na Berklee e falámos um pouco sobre isso, então fui pesquisar sobre a escola. Mas não sabia nada sobre a Berklee e acho que foi a primeira a responder-me. Fiz a candidatura e disseram-me que dali a duas semanas tinha uma audição em Paris. Não tinha dito à minha mãe, nem a ninguém, e aí é que disse: “mãe, acho que vou fazer música”. Depois, entrei com bolsa, ouvi, através deste meu amigo, que esta escola era boa, comecei a ver as pessoas que já lá tinham estudado e era nos Estados Unidos, o que é sempre bom para sair. A hipótese de ir não era grande, porque era caríssimo. Por isso, decidi fazer a audição como uma brincadeira e, depois, logo se via. É um bocadinho isso do saltar de cabeça. Entrei, mas só meses depois saberia se tinha bolsa. Quando soube que tinha bolsa, acho que todas as outras opções deixaram de o ser. Ou seja, não foi bem uma decisão, acabou por acontecer.

G. – O que destacas da tua experiência lá?

M. – É engraçado, porque as pessoas falam muito do lado académico, porque como é óbvio é uma faculdade de música caríssima e superprestigiada, mas, para mim, não foi nada do lado académico. Acho que nunca fui pessoa de lado académico. Na escola fui para a rua em todas as aulas (risos). Para mim, o que foi mágico e que repetiria foi o facto de poder, hoje, tocar com a minha amiga da Palestina, amanhã conhecer um tipo de Nice, e no dia seguinte alguém de L.A. ou de sítios que eu não conhecia. Dividi quarto com uma rapariga da Islândia, que acabou por ficar como minha irmã, mas nunca tinha conhecido ninguém de lá. Acho que a Berklee me trouxe muito isto. Não tanto a nível de contactos, que é incrível, mas mais de crescimento de cabeça. Sabes aquelas coisas que se dizem de como Portugal é um país muito pequenino e que, às vezes, somos muito quadrados e precisamos de abrir a cabeça? Acho que a Berklee, para mim, foi isso. Não só musicalmente, que foi incrível, mas também a nível de vivência, ver o mundo, pessoas, a parte mais humana da coisa.

G. — Entretanto, ficaste a viver em Los Angeles, integraste a banda do Jacob Collier e és agenciada pelo Quincy Jones. Como é que cada uma dessas etapas foi acontecendo no teu percurso musical?

M. — Fiz o curso em três anos, até 2017. Normalmente, quem acaba o curso, em geral, tem quatro hipóteses: ir para Nova Iorque, que é mais orientado para o jazz, mais específico e tradicional; ir para Nashville, que é para country; Atlanta, para R&B e soul; e L.A., que é mais para a parte pop. Quando se faz a faculdade nos Estados Unidos, tens um visto de um ano, então, sabia que, com certeza, não ia voltar para Portugal. Se tinha um visto que dava um ano, mais valia ficar lá um ano e, depois, se não estivesse a dar certo, voltava. Mas enquanto desse, ia continuar a tentar. Então, a decisão era essa e tinha de escolher para onde ia. Aí, a decisão foi muito fácil, porque L.A. é sol, praia, portanto, de certa maneira, era o mais parecido que tinha com Portugal, embora fosse o mais longe. Então, acabei por ir para L.A.. Tinha lá um dos meus melhores amigos e outras pessoas que eu conhecia. Mas também foi um tiro no escuro. Foi a minha primeira decisão — bora e logo se vê. E foi o melhor ano da minha vida até agora, 2018. E 2019, também, que foi o ano da tour. Nesse ano, fiz os meus projetos, lancei o álbum com aquelas músicas que escrevi quando tinha 11/12/13 anos. Fiz o outro, o It’s OK, e gravei o álbum português com o Manuel Rocha.

It’s OK, álbum lançado por MARO em 2018

Fiz uma série de projetos, porque nesse ano fiquei a fazer as minhas coisas. No fim de 2018, o Jacob [Collier], que tinha descoberto o meu Instagram no início do ano, disse-me que ia a L.A. e que tinha umas ideias musicais que queria experimentar comigo. Acabamos por nos conhecer, gravámos o “Lua” e, depois, demo-nos superbem. Acabámos por ficar oito horas à conversa e, dois dias depois, voltamos a combinar antes dele ir embora e ficámos 12 horas à conversa. Acabou por ser uma coisa supergira, porque mesmo em Portugal, sempre fui a criança que não para e conhecer o Jacob foi muito giro, porque, em muitas coisas, erámos muito parecidos. Então, acabou por me perguntar se eu tocaria com ele na tour e, claro, que como qualquer outro músico, era uma honra enorme, para além de ser divertido. Tudo o que eu queria fazer desde os cinco anos era tocar uma coisa com a mão direita, outra com a esquerda, outra com o pé direito. Então, a minha criança de cinco anos estava: “bora, bora, bora!” Em 2019, tivemos a tour. Por causa disso, também acabei por conhecer a minha equipa, porque eles trabalham com o Jacob. Foi daí que a Quincy Jones Productions acabou por conhecer o meu trabalho, por se interessar e, hoje em dia, trabalhamos.

“Lua”, MARO e Jacob Collier

G. — Muitas vezes, quando se termina um curso, independentemente da área, é como se perdêssemos uma proteção. Deixamos de ser o estudante de, para entrar num mercado competitivo em que nem sempre é claro o lugar que queremos ocupar, ou que existe para nós. Quando terminaste o curso sentiste essa desproteção, ainda para mais num meio tão competitivo como o da indústria musical nos Estados Unidos?

M. — Acho que não. Talvez pareça ingénuo, mas quando decidi que queria fazer música, tentei ir para a Berklee, mas foi tudo sempre como uma espécie de brincadeira. Quando descobri o que queria fazer, ia dar certo para mim. E o dar certo para mim é fazer o que me faz feliz, não precisa de ser eu virar a Billie Eilish para o ano. Para mim, ia sempre dar certo. Se tivesse ficado em Portugal, teria transformado o meu quarto de maneira a começar a gravar, tocar as coisas que queria, começar a pôr coisas no Instagram, ia falar com músicos de quem gosto doutros países. Como fui para a Berklee e fiquei três anos a estudar, ótimo, conheci imensa gente, mas também já estava louca para fazer as minhas coisas. Acho que o estudar, na realidade, apesar de ter trazido muitas coisas, até me trouxe o contrário. Eu já só queria era viver, fazer as minhas coisas. Essa coisa de ser estudante e estar protegida sempre foi a parte secante. Desde os sete, oito anos, que já não aguentava a escola. Era um suplício ter de estar uma hora sentada a ouvir, mesmo que fossem coisas interessantes. Na Berklee tinha aulas superinteressantes, mas tenho coisas que me chamam muito mais. Para mim, não precisa de ser passo a passo. É muito mais: o que é que eu hoje quero fazer, o que quero ter feito para a semana, para o ano. Sou tão segura do que eu sei que me faz feliz, que acho que poderia fazê-lo a partir de qualquer sítio. Então, isso do estudo é engraçado, porque óbvio que foi incrível e, de certa maneira, deu-me alguma segurança, mas ao fim de seis meses já [pensava em sair]. Só acabei, porque tenho essa coisa de querer sempre acabar o que começo. Mas já só queria ir gravar as minhas coisas, falar com outros músicos, descobrir e ver. Então, quando acabou a Berklee não houve esse lance de eu ficar meio aflita. Foi mais: “agora estou animada, agora é que vai dar!”

G. – O que te levava a, anteriormente, não cantares à frente de ninguém? Era uma questão de timidez? De falta de confiança?

M. – Era. É engraçado, porque nós estudámos música lá em casa, porque a minha mãe é professora de música. Então, nós estudámos desde os quatro anos. Tenho vídeos, com dois anos, com a minha mãe a cantar para nós, então sempre foi uma coisa muito presente lá em casa. Quando comecei a escrever, era uma coisa a que nem ligava muito. Nunca houve esse sonho de “comecei a escrever e um dia vou ...” Eu gostava de jogar futebol, ténis, não queria ir às aulas e ia vivendo a vida sem ligar muito a isso. Eu adorava, escrevia e cantava, mas nunca pensei ter uma coisa aí. Durante anos, não levei a sério. Sabes as crianças que escrevem num diário? Para mim, as canções eram isso. A primeira música que escrevi foi quando os meus pais se separaram. Escrevia como se fosse o meu diário, coisas que não tinha a coragem de dizer, coisas que me deixavam supertriste ou superfeliz, eram os meus segredos. Por isso, também não ia mostrar. Só mais tarde comecei a cantar nos casamentos com umas amigas minhas da igreja, coisas que ainda por cima não fazia antes, nem faço agora. Foi um momento engraçado. Por eu cantar na igreja é que me ouviam e foram desafiando-me para fazer vídeos. Começou dessa forma, mas eu morria de vergonha. Das primeiras vezes em que cantei, parecia uma ovelha. A voz tremia de vergonha. Tinha muita, muita vergonha. Depois, comecei a ver que as pessoas gostavam, e quando percebi que o que eu sinto quando ouço ou toco música não se compara a nada, então, aí, foi — “está!”  Só aos 20, já estava na Berklee, é que percebi, “OK, agora já vieste, vais cantar. Não quero saber se tens vergonha ou não”. Hoje em dia, se tiver um concerto fico nervosa, como qualquer artista, mas depois chego, começo a cantar e sinto-me em casa.

G. – Acho superinteressante teres passado de um ponto em que tinhas vergonha e não partilhavas para, de repente, e ouvindo-te agora, todas as coisas que conseguiste passarem por uma série de decisões que não era simples, mas sim muito desafiante. O ir estudar para fora, que é algo desconfortável. Se não tivesses conseguido isso, transformavas o teu quarto num estúdio e ias falar com músicos que admiras de todo o mundo. Então, é supercontraditório como é que passas de um “não olhem para mim” para “agora estou aqui!”

M. – Acho que a diferença foi eu perceber que era aquilo que eu queria fazer. Antes tinha vergonha, porque era uma coisa minha. Queria fazer outras coisas. Digo sempre que queria ser veterinária, mas, na verdade, acho que nem era isso. Queria ser bióloga. Queria ir estudar felinos, fazer especialização de felinos, ou biologia marinha. Esse lado era muito forte, porque sempre fui louca por isso, por investigação que tivesse que ver com animais e a natureza. Isso estava tão seguro, que a música era isso. Quando tens essa sensação, em que alguém pede para cantares e ficas [paralizada] — é como teres de dar o teu diário. “Sim, sim, lê, abre e vê a página que quiseres”. Não, não vai dar certo! (risos) Foi quando eu descobri que, “calma, eu quero fazer isto”, que, de repente, houve algo que me fez dizer, “OK, podes ler tudo”. Então, aí fui para o lado oposto. Eu vou saltar, fazer a coisa mais desconfortável, porque que é aí que te puxas mais ao limite, é aí que experimentas coisas que nunca farias e que te vão levar mais longe, ou pelo menos para sítios que tu não ias descobrir. Se calhar, chegas lá e percebes que não era aquilo. Mas ao menos já viste. “Ahhh, há seis portas. Achei que só havia uma”. Foi assim. Na hora em que descobri que queria fazer isso, esses saltos, por mais desconfortáveis que fossem, tornaram-se bem evidentes. “OK, é isso!” Depois, o que for, é, mas o caminho é por aí.

G. — Como caracterizas a comunidade musical, a nível nacional e internacional?

M. – Acho que, como em qualquer coisa, dá para descobrir pessoas em que não pensas da mesma maneira e onde há muita competição, mas também não tenho uma visão muito negativa. Sei que há competição, coisas na indústria de que, de facto, eu não gosto, mas também sei que existe o oposto. Há muita gente incrível, talentosa, que gosta de colaborar, que faz as coisas por gosto à música. E há pessoas que, mesmo na indústria, realmente querem trabalhar. A minha equipa é exemplo disso. Eles adoram o que eu escrevo e acreditam muito. Não é uma coisa de “ela vai explodir, vai fazer dinheiro e bora”. Não, é: “meu, quando tu cantas eu morro”. Literalmente, o meu manager é assim comigo – “a tua voz é diferente de tudo o que já ouvi, é genderless, e o que quer que seja que queiras fazer no futuro, vou ajudar-te. Quero que as pessoas sintam o que eu sinto quando te ouço”. Então, saber que também há isto, deixa-me superdescansada. Porque, então, posso encontrar as pessoas que pensam mais como eu, que vão mais ao encontro da minha postura na música, na indústria, enquanto artista e em termos de carreira. Há partes das quais não gosto tanto, não são tão boas, ou são mais difíceis, mas que eu não preciso que me deitem abaixo. Existe muita coisa boa para agarrar, muitos artistas incríveis. Hoje em dia, com a Internet, apesar de ser mais fácil as pessoas dizerem mal, também é possível o contrário. Com os vídeos que tenho feito para o Instagram, tenho pessoas de todo o lado. Ontem estava a falar com um amigo do Quénia que vai fazer parte. A Internet tem muito disso. Encontro-me um bocadinho aí: vou aproveitar as coisas boas e o que for mau e for para deitar abaixo, não vai deitar abaixo. Pode ser chato, às vezes, mas não precisa de ter peso. Acho que quando o artista é muito seguro, por mais que venha alguém dizer que tens de fazer isto e isto e isto, ele responde ­— “OK, então podes ir dar uma volta”. O problema é que tens muitos artistas que não têm essa confiança de “não quero saber, eu acredito nisto, eu gosto”. Mas é difícil, porque há as pessoas que realmente te podem ajudar e em quem confias e fazes o que te aconselham. Não é só sorte, porque também parte de quem o artista chama, mas há sorte de encontrar alguém que realmente entenda isso, que acredite e não queira só destruir, mas sim ajudar. Isso é muito importante.

G. — Ao longo dos últimos anos foste apostando em parcerias em vídeos, nomeadamente no teu canal de YouTube, como são exemplo a série “Berklee People” e, mais recentemente, “Itsa Me, MARO”. É importante, para ti, promover estas partilhas e cruzamentos musicais? O que te leva a criar estas séries?

M. – É importante para mim como postura. O “Berklee People”, porque havia imensa competição e eu queria mostrar que tínhamos cinco mil pessoas de partes diferentes do mundo, a tocar instrumentos diferentes, a comer comidas diferentes, e a sério que estávamos preocupados com quem vai ficar no spotlight? É uma faculdade. Essa série começou assim: olha a magia que é! Há imensos vídeos que eu olho e tenho vergonha alheia, mas a magia está lá. Era uma coisa gravada no telemóvel, sem ensaios. “Olha, bora gravar e o que ficar, fica”. Sempre foi uma espécie de postura, não tanto uma coisa de eu achar importantíssimo fazer vídeos. Na Berklee foi para mostrar isso. Penso muito assim: se tens algum artista de quem gostas, não te sintas ameaçado. Façam coisas juntos. As tuas ideias com as desse artista de quem gostas, se calhar, elevam uma coisa ainda maior. Depois, o “Itsa Me, MARO” surgiu, porque como já adoro tocar com pessoas e acho que é nas colaborações que está a magia, então, de repente, temos a quarentena, mundo parado, então decidi fazer isso. Mas há imensa gente que fez, não é uma coisa original.

G. — Nesta última série, “Itsa Me, MARO”, tens descoberto alguma coisa de particular nestes duetos tão variados? Afinal, vais buscar pessoas muito diferentes, com registos distintos.

M. – Acho que é engraçado, porque tenho imensa gente a perguntar que aplicação é que eu uso, e a achar que se demora imenso tempo. Mas a ideia, e por isso é que é o Itsa Me, MARO calling, é fazer um take. Por isso é tem alguns em que me engano, ou me estou a rir, ou acontece alguma coisa. É uma chamada, em que ligo e está feito. É muito giro, porque é estranhamente banal. Sem ser pretensiosa, é mesmo banal. Há vídeos em que eu envio primeiro, noutros é a outra pessoa que envia primeiro e eu gravo por cima. É realmente só isso. Quando sou eu a gravar primeiro, gravo um take no telemóvel, envio à pessoa, a pessoa canta por cima, envia-me o vídeo, e depois faço uma ediçãozinha no Final Cut. É lindo, porque aprendes com a outra pessoa, mas ao mesmo tempo é o que fazes bem e o que gostas de fazer. Então, é tudo feito na descontra, sem pressa, não é para ser perfeito, não é para chegar aos milhões de views. É para fazer de brincadeira. Num dia que seja para fazer um álbum, se calhar, aí, há de ser uma experiência mais life changing. Agora, tem sido o mais casual possível.

G. — Olhando um pouco mais para o teu trabalho em nome próprio, numa entrevista ao Diário de Notícias, disseste que a decisão de ser músico foi o que te fez perceber que algumas das músicas que escreveste (inclusive do primeiro volume) já não eram só para ti, tal como me falavas há pouco. Quando tens canções na gaveta com dez anos (o que acontece com “Deixa”) e as revisitas para escolheres as que queres editar, continuas a identificar-te com a pessoa que eras ao ponto de ainda a quereres cantar/partilhar musicalmente? Não te sentes já outra?

M. – Esses volumes, quando os lancei, não mostravam o sítio em que eu estava artisticamente. Como a minha decisão de fazer música também foi à última hora, para mim, [o lançamento dois três álbuns de seguida] foi uma decisão meio egoísta. Não tinha que ver com mostrar às pessoas. Foi superimportante esse processo de eu pegar em tudo o que tinha escrito e não tinha mostrado a ninguém e pôr em três volumes. Foi quase como um processo pessoal, um ritual, de vamos de cabeça. Mas é engraçado, porque quando os lancei já não me identificava. Era tudo músicas de quando eu era bebezinha. Mas foi giro como resultou e deu certo. Como sempre foram músicas só minhas, na hora de eu fazer música foi superimportante pegar, em vez de negligenciar. Isto era o que fazia antes, de onde venho, e acho que é importante materializar isso e, depois, seguir em frente.

G. — Os três volumes que partilhaste em registo digital são uma porta aberta para conhecermos a tua construção como pessoa, por refletirem as várias etapas da tua vida? A música ajuda-te a arrumar as vivências e a lidar com o que delas advém?

M. – É. A música é superimportante para as pessoas se conectarem, mas acho que, acima de tudo, tenho de escrever para mim. Dessa maneira é que vai ser mais genuíno, mais verdadeiro. E, se me toca a mim, então tenho a certeza de que, pelo menos, a uma pessoa do mundo também vai tocar. Até porque se tentar escrever para coisas que não sinto, acho que nunca vai ser o melhor trabalho de um artista, pelo menos para mim. Há artistas que funcionam de maneira diferente, claro. Escrevo sobre o que sinto. Pegando nos exemplos clássicos, se estiver apaixonada ou de coração partido, escrever sobre isso vai ser superreal, porque estou a sentir aquilo. Ou se estiver no meio da natureza, estou superinspirada e escrevo sobre as árvores e os passarinhos, ou imagino histórias. Mas mesmo quando imagino histórias tem de ser coisas que eu esteja a sentir nesse momento. Parte daí, escrevo por isso. Não consigo não escrever e, quando meto cá fora, há sempre pessoas que vão captar a essência de onde veio.

G. — Nos stories de que falávamos há pouco, também partilhaste que a tua música favorita, das escritas por ti, ainda não tinha sido lançada. Embora ainda não a conheçamos, podes dizer o que faz dela a tua favorita?

M. – Vai mudando. Se para a semana escrever outra, vai ser essa outra. Acho que, para os artistas, aquilo que escreves no momento fica na cabeça e o mais recente costuma ser a coisa predileta. Agora estou a trabalhar no próximo álbum, então estou muito aqui. Mas, se calhar, daqui a um mês, ou daqui a três semanas, vou escrever outra coisa que vai ser a minha preferida.

G. — Ainda em 2018 lançaste mais 2 álbuns. Não é habitual um músico partilhar tantas músicas no mesmo ano. Sentiste que era algo que tinhas de partilhar com proximidade temporal?

M. – Não. Os volumes não eram onde eu estava musicalmente, foi o fechar de um capítulo. Musicalmente, já estava a viver e escrever outras coisas. O it’s OK era o que queria gravar, também. Entretanto, em conversa com o Manuel Rocha, que foi quem fez o outro álbum comigo, ele tem músicas lindas em português, eu também tinha algumas antigas — a “Sonho” também escrevi com 12 ou 13 anos — que não chegaram a ir para os volumes, então disse-lhe que se ele arranjasse o voo para L.A. eu tratava de tudo. Arranjava quem gravasse e tratava do disco. Ele veio, escolhemos 11 músicas, e fomos para estúdio. Gravámos em dois dias, mixei com um amigo em dois dias e o álbum, em cinco dias, ficou fechado. Por isso, saiu. Como me atiro de cabeça há algumas coisas em que não penso muito. Quis fazer, ele também. Ele veio, fez comigo e fizemos acontecer. Não tinha urgência de sair. Mas foi um impulso também.

MARO & Manel, o álbum em que MARO se juntou a Manuel Rocha

G. — Voltando ao terceiro volume, onde incluis o “Dear Young Me”, e que é um disco que celebra a tua escolha de vida, largares tudo para ir estudar música, passados alguns anos desde essa decisão, o que dirias a ti mesma no dia antes de teres dado esse passo?

M. – Se soubesse o que sei hoje, tinha deixado a escola no sétimo ano e tinha começado a fazer música. Como o Jacob, que aos sete anos, estava a gravar no Logic, porque ele sabia o que queria desde pequenino. Teria ouvido mais música, viajado. Ao mesmo tempo, sou a pessoa que acredita que as coisas são bonitas e mágicas porque aconteceram da maneira que aconteceram. Se calhar, se tivesse começado a fazer música mais cedo, não tinha descoberto o meu som duma maneira tão óbvia, porque ainda não tinha ouvido muita coisa, por ser muito nova. Acho que se pudesse voltar atrás, diria que ia fazer o que gostava no futuro e, sabendo isso, não dizia para não me deixar ir tanto abaixo com outras coisas. Essa foi a única parte que, se calhar, tinha mudado. Como eu não gostava da escola e não tinha descoberto aquela coisa que eu amava, tive momentos superinfelizes. Eu andava de skate louca, com fones, e a descer rapidíssimo. A minha mãe achava sempre que eu ia morrer e, na altura, se isso acontecesse... OK, já vivi. Hoje em dia, tenho medo de dar um mortal num trampolim, porque não quero que aconteça nada, ainda quero fazer muita coisa. Acho que diria isso: “faz exatamente tudo o que fizeste, acho que é superimportante, mesmo estudar coisas que não queria estudar, e vai ficar tudo bem. Vais fazer aquilo de que gostas, por isso aproveita”.

G. — Tens andado nas bocas do mundo, seja pelas tuas músicas, pela presença na banda do Jacob, nos elogios de variados artistas, os singles que tens lançado no último par de anos, ou as séries em que partilhas música com vários artistas. O que esperas que os próximos tempos te tragam a nível profissional?

M. — Acho que agora é que vai começar a parte divertida. Vou fazer o primeiro álbum com cabeça, que é um álbum que mostra onde estou agora, não com coisas que escrevi antes. É a primeira vez que estou com uma equipa, com management, agente, advogado, contabilista, tenho um apoio incrível que, na hora em que disser que quero fazer isto, isto e isto, vai ser muito mais fácil. Para o ano, vou também, pela primeira vez, fazer branding de MARO. Estou a fazer uma linha de roupa. Uma série de coisas que sempre quis fazer e que, agora, o posso fazer. O que sinto, a nível de futuro, é que agora a parte gira está a começar. No fim de 2021, quando lançar o álbum, é essa a ideia, é que vai haver um “bora! This is it!” Estou superanimada!

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de Rodrigo Simas
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