Abrimos o Spotify, procuramos “Maze” e clicamos no aleatório. Entre os singles ou o disco a solo, Entranhas, e os múltiplos encontros pela vida fora, com ou sem os Dealema, entramos numa viagem pela sua alma em rimas.

Agostinho da Silva dizia que o homem “nasce para criar, para ser o poeta à solta”. André Neves é o poeta à solta, o que encontra a calma no caos, que dá sem esperar em troca. Leva a vida para a música e, quase sem querer, torna-se a banda sonora da vida de quem o ouve.

Maze é um dos cinco vértices do pentágono dealemático. Juntamente com Mundo Segundo, Expeão, Fuse e Dj Guze traçou a história de longevidade do rap do Porto e, através da palavra, foi dando a ver que é na união que está o segredo. Em 2016 lançou Entranhas, o primeiro disco que assina a solo, e fez um zoom no caráter biográfico que as suas rimas sempre tiveram.

Marcámos encontro em Carcavelos, o lugar que trocou pela “cidade cinzenta”, com o pretexto de conversar sobre a banda sonora que compôs para a Gala Insties Gerador, mas não começámos nem acabámos aí. Desenrolámos o novelo de fio duplo em que se encontram a vida e a obra de Maze e por lá caminhámos até, por fim, olharmos o futuro.

Gerador (G.) – Li uma entrevista tua em que dizias que te lembravas de ver um documentário na RTP2 sobre os Wu Tang Clan, numa altura em que não se falava muito de hip hop na televisão. Sentes que mais tarde a “Brilhantes Diamantes” também foi uma porta de entrada para uma geração que cresceu a ver Morangos com Açúcar?
Maze (M.) – Eu lembro-me perfeitamente desse documentário e vi-o anos mais tarde, quando o apanhei no YouTube, e sei que foi mesmo marcante porque nunca tinha tido contacto com o hip hop de forma documental. Tinha tido em filme – por exemplo, nos filmes do Spike Lee, no Beat Street ou no Wild Style –, mas em forma de documentário nunca tinha visto, e logo sobre Wu Tang que é um coletivo tão forte. Aquilo marcou-me muito na altura, e estamos a falar em 1993 ou 94, o início de formação deles. Teve mesmo um impacto em mim, por ser na televisão, na RTP2; nunca tinha acontecido.

E eu acredito que quem nunca tenha ouvido rap, anos mais tarde, ao estar a ver uma telenovela e ouvir uma música de rap e uma mensagem que lhe tenha chegado, que seja mais ou menos o mesmo impacto e que tenha despertado alguma coisa. Acredito que essa música do Serial com o refrão do Ace tenha tido um impacto numa determinada geração, e percebo isso porque se reflete até hoje. Quando a canto hoje, algumas das pessoas que cresceram nessa altura a ver os Morangos com Açúcar e ouviram a música por acréscimo vêm ter comigo e dizem-me que aquela música foi realmente uma porta de entrada para um género. Mas mais importante do que uma porta de entrada para um género, o que mais me satisfaz é o reconhecimento pelo impacto que a palavra teve na vida dessas pessoas. E é isso que chega.

G. – E achas que a palavra, ou a profundidade da palavra, é o maior traço do rap tuga?
M.– Eu acho que isso acontece em todos os países, mas nós somos um país de poetas, realmente. Temos bastantes referências literárias, temos bons poetas e bons escritores. No rap, eu acho que isso também acontece, as pessoas valorizam a palavra portuguesa; uma determinada geração começou a valorizá-la. Mas há pessoas a escrever muito bem e a valorizar a palavra dessa forma. Começam a aparecer algumas pessoas a trabalhar a palavra dita, que também é uma herança que temos dos cantautores de abril e de muita gente que usou a palavra como arma de intervenção, e que agora também se recupera, de alguma forma. Mas há, de facto, um cuidado especial em trabalhar o português, mas que eu entendo que se tem perdido um pouco numa geração mais recente, muito influenciada pelo rap americano – e não é que eu não tenha sido, porque não havia rap português quando comecei a fazer rap, então fui diretamente influenciado pelo americano. Mas eu e os meus pares, da mesma geração e da seguinte, afastámo-nos um pouco dos americanismos e não usávamos o inglês nas letras. E, se tu ouvires quase todo o rap que é feito recentemente, há dois anos, no ano passado, ou este ano, vais analisar as letras e em duas frases têm três palavras inglesas. Então há aí uma tentativa de fazer uma fusão entre o rap americano e o rap português, que é específico desta geração, que não era feito anteriormente. E isso entristece-me um bocado. Aceito, não é o que eu gosto e não é o que eu faço. Aceito porque são tendências e são sinais dos tempos, e é essa aproximação da globalização e da mistura de culturas, e é inevitável. Mas eu acho que a língua portuguesa é tão rica e tão vasta que não há necessidade de agregares mais nada, consegues trabalhar a palavra de uma forma incrível a usares só a tua língua.

G. – O crescimento do rap e a presença do género em quase todos os festivais de verão, por exemplo, mostram que houve uma abertura para o rap, mas talvez não o possamos dizer para o movimento do hip hop
M. – Demora um bocadinho mais, isso.

G. – Mas essa geração de que falavas, sentes que se enquadra no movimento do hip hop, na sua cultura?
M. – Eu acho que sim, porque é uma linguagem e quando ouves e vês, percebes que é rap, que vem do rap, que é uma transmutação do rap original porque está em constante mudança, e faz parte, obviamente, do movimento. Que está desconectada das outras vertentes. Vês muita gente que está a fazer rap atualmente e que não tem qualquer ligação e informação sobre o que é o breakdance ou o graffiti. E mesmo o DJ nos concertos de rap moderno começa a ser uma coisa quase obsoleta, passas a ter um MC em palco a disparar instrumentais de um CD ou de uma máquina, portanto, o papel do DJ também está desvalorizado. O principal traço aí, dessa progressão, é a desconexão entre vertentes, o que é pena, porque o movimento é o mesmo. A expressão é a mesma, apenas tem formas diferentes – ou é a dança, ou é a pintura ou é a música em voz e instrumental, scratch, mas vai tudo na mesma direção. É pena que haja esta falta de ligação entre as vertentes.

G. – Mas achas que não conseguiram crescer todas ao mesmo tempo?
M. – Eu acho que foi um processo natural. Isto tem tudo que ver com a sociedade capitalista e com o dinheiro que cada vertente gera. De repente, tens a MTV a promover a música, que é uma indústria muito forte e que começa a faturar bastante, e então as outras vertentes começam a seguir outros caminhos. O breakdance começa a ser uma coisa bem mais underground, apesar de ter um nicho e existirem concursos e marcas a apoiar, mas não é tão forte como o dinheiro que a música gera na sociedade atual. O graffiti foi por outro caminho e subitamente tornou-se numa coisa mais comercial, foi empacotado como street art para ser mais vendível a mais pessoas, então o graffiti original também continua num papel bem mais underground, e a street art foi a montra do graffiti para a sociedade, e o DJing é uma coisa difícil. É difícil ires ouvir um DJ ou uma crew a fazer scratch. Existem os campeonatos, ouves pontualmente numa música, mas não há muita gente com paciência para estar atento à arte que é usares um prato como instrumento. É muito mais fácil ouvires música, porque toda a gente ouve música e é indispensável à vida. É uma indústria muito mais produtiva, daí o destaque e a principal causa que foi desconectando estes pontos e estas vertentes. É claro que existe um núcleo que há de existir sempre, de pessoas que continuam fiéis a um movimento e a criar estes pontos de ligação.

“A Musa”, a quinta faixa de Entranhas, o disco a solo de Maze, é uma ode à cultura do hip hop

G. – Ultimamente, começaste a fazer visitas a Nova Iorque, em que dás a conhecer pontos com alguma ligação ao hip hop. Essas visitas também são uma forma de voltares ao âmago?
M. – Sem dúvida. Eu fui a Nova Iorque a convite de uma agência de viagens chamada Landscapes, que promove viagens com líderes; viagens muito específicas para pessoas que querem um percurso diferente. Foi-me proposto fazer um percurso dessa Nova Iorque mais alternativa, também pela minha ligação à cultura. No fundo, fui a um sítio de sonho que passei a minha vida toda a ouvir, a ver em vídeos e em filmes, e as referências que eu tinha em 40 anos de vida… parecia que eu já tinha vivido lá, que já tinha estado lá. Foi o cimentar dessas experiências todas que eu tinha visto à distância, no local. Foi uma experiência incrível, e sem dúvida que sentes isso: lá essas vertentes continuam bem mais próximas do que aqui na Europa, porque é o berço da cultura [do hip hop]. Andas na rua e respiras hip hop. Vês pessoas com uns 50 anos vestidas como um rapper dos anos 90 e estão a ouvir rap, passam carros a ouvir clássicos de rap nova-iorquino, há murais da Tats Cru dos anos 90 que estão intactos e respeitados, as crews continuam a pintar, recentemente em metros outra vez. Há um recuperar dessa cultura. Tens b-boys a dançar no metro e nos parques, que vivem do dinheiro que os turistas lhes dão. Então percebes que a cultura está bem viva e há de continuar.

G. – Por falar na cultura que está bem viva e há de continuar, gostava de te fazer uma pergunta sobre os Dealema (DLM). Como é que cinco pessoas tão diferentes conseguem continuar no mesmo comprimento de onda ao fim de tantos anos?
M. – É um casamento artístico. Nós já dissemos isto mil vezes em entrevistas, e é real, somos mesmo pessoas muito diferentes. Mas é o amor ao que construímos juntos do zero. Temos muito orgulho no que fomos fazendo, e isso une-nos de uma forma que vai para além da amizade. Já há a amizade construída nestes anos todos, mas além dessa amizade há uma força maior que nos une e uma responsabilidade que fomos pondo aos nossos ombros ao longo deste tempo todo, de passar determinadas mensagens a várias gerações. Isso obriga-nos, num bom sentido, a estar atentos e juntos, a querer fazer coisas. Acho que o difícil quando são 20 ou 30 anos de banda é tu teres respeito pelo próximo e pelo espaço do próximo, e quando esse respeito existe não só pela pessoa, mas também pelo seu trabalho, torna-se muito fácil prolongares esse estado. Vai sempre ter aí, a esse respeito primordial pelo próximo. Enquanto isso existir vamos sempre dar-nos bem, querer fazer música, querer pisar palcos, estar neste estado.

G. – Entretanto, houve vários grupos que começaram na mesma altura que vocês e que foram acabando. Na conversa que tivemos em outubro, disseste que gostavas de ver um regresso dos Mind da Gap (MDG). Foi importante ter dois projetos como os DLM e os MDG a crescer em paralelo, havia uma sensação de comunidade?
M. – Também gostava de ver o regresso de outras bandas, mas Mind da Gap pela proximidade. Mas claro que sim, havia. Os MDG aparecem primeiro, nós aparecemos a seguir e quase apadrinhados pelo Ace e pelos MDG, chegámos a tocar juntos e a participar nos concertos deles regularmente, então há uma ligação muito próxima e de amizade que se mantém até aos dias de hoje. E obviamente que isso fortaleceu, de repente não eram duas bandas isoladas, já era uma crew, era a Coalizão. Já é um grupo, uma tendência, um estilo, e isso sempre aconteceu no hip hop : os grupos que criam determinados estilos, de certos bairros. Então acho que marcámos o rap do Porto, pusemo-lo no panorama nacional pela coesão que tínhamos e por essa força de união entre as bandas. E daí vieram mais projetos que foram aparecendo, que seguiam a nossa sonoridade, e eu acho que ainda hoje tens projetos a aparecer no Porto que bebem desses tempos.

Mind da Gap, o grupo de Ace, Presto e Serial, formaram-se em 1993 e deixaram os palcos em 2016

G. – Há quase um contágio.
M. – Há um contágio natural e progressivo, e é ótimo perceberes que o legado continua e que há pessoas a seguirem essa linha e a inspirarem-se no que foi feito.

G. – E tu só lançaste o Entranhas, o teu primeiro disco a solo, que, entretanto, percebi que não se ia chamar assim, bem mais tarde.
M. – Não ia e ia, e eu gosto dessas coisas que acontecem assim, que não sejam muito formatadas ou padronizadas. O disco é homónimo, mas iria chamar-se Entranhas, e no CD não vem nenhuma referência a isso, mas algumas plataformas digitais têm Entranhas, então pode chamar-se Entranhas, porque é um primeiro disco que revela o meu interior ali exposto, as minhas entranhas.

G. – Tanto nesse disco como em alguns singles que foste lançando não há uma certa dimensão de catarse, em que tens mesmo de fazer aquilo?
M. – Completamente. Eu acho que quase todo o meu trabalho é autobiográfico e o que não é baseia-se muito, é autoficção. Não consigo não o fazer. Posso tentar e já tentei em alguns apontamentos, e consigo fazer storytelling e se precisar consigo distanciar-me e criar com distância, mas não é a mesma coisa porque eu gosto de pôr sentimento na música e gosto que a música tenha essa intenção. Sempre me habituei a fazê-lo dessa forma, então é completamente catártico; escrevo de forma catártica e faz-me bem. E se as pessoas querem ouvir o que tenho para dizer fico feliz por isso, porque não faço com essa intenção ou com a expectativa de que venha um determinado reconhecimento. Mas se ele vem, fico mesmo feliz por as pessoas quererem ouvir as histórias que eu conto baseadas na minha vivência.

G. – Através de cada faixa desse disco, não conseguimos de repente perceber a tua vida, mas juntando as peças tudo parece fazer sentido.
M. – Isso deixa-me um bocado despido às vezes, porque estou com pessoas que eu não conheço, mas que acham que me conhecem. E digo acham porque a minha vida não é só aquilo, e eu só passo na música o que eu quero passar e quero que as pessoas saibam. Aliás, eu partilho muito pouco da minha vida privada em redes sociais, e muito pouca gente a sabe porque eu não o quero, é só para mim, é a minha vida. Então algumas pessoas por o que ouvem na música acham que me conhecem, e isso deixa-me ali numa posição de desvantagem sempre que estou com muita gente que me conhece muito mais do que eu a elas.

G. – Há várias coisas que naturalmente te influenciam e que até partilhas em diferentes faixas, por exemplo, o Kook Sool Won, que já praticavas no Porto e vieste para Lisboa divulgar. Transportas alguma coisa dessa arte marcial e de uma forma de estar que lhe está associada, para a música?
M. – Entretanto ficou Kook Sool Portugal, o Won caiu. O Kook Sool como arte é um sistema educativo de formação integral e, sendo-o, obviamente que deixa marcas na minha pessoa e causa uma transformação enorme na minha perspetiva, na forma de estar na vida e de ver as coisas. E isso é indissociável do meu processo criativo, porque como o que eu faço é tão autobiográfico e tem a minha marca e o meu vinco tão assumido, obviamente que não me consigo dissociar disso, então acho que teve um papel transformador o meu percurso como marcial na minha vida, mas também no meu processo criativo.

Mas sim, vim para Lisboa nesse processo de mudança e depois de me graduar com o cinto preto, e vinha com o objetivo de dar aulas e continuo na mesma direção. Quando tens conhecimento e formação não há como não o quereres passar às outras pessoas, seja ele qual for, de que ordem for.

G. – E foi engraçado o teu encontro com o Daddy-o-Pop no Mechelas
M. – Sim, isso foi tudo orquestrado pelo Samuel. O Sam viu a coisa de cima e achou que ia colar bem porque tínhamos muitos pontos comuns. Eu não o conhecia, e ele pôs-nos em contacto e a partir daí ficamos amigos. Ambos somos cintos pretos de artes marciais diferentes, ambos jogámos basquete na infância, gostamos de rap e da cultura hip hop desde sempre, ambos temos filhas. Somos pessoas com posturas muito similares na vida, então acho que o Sam conseguiu ler bem que íamos encaixar nessa faixa.

Maze e Daddy-o-Pop encontraram-se no disco Mechelas, de Sam the Kid

G. – Mas voltando às tuas referências, eu sei que o Agostinho da Silva é uma delas. Tu soltares essa ou outras referências – que podem ir dos heróis da Marvel até ao Kerouac – é uma forma de lançares sementes a quem te ouve, de alguma forma?
M. – Também, porque eu sou uma pessoa muito curiosa e tenho uma sede de saber desde muito cedo, então eu gosto de me informar, de ler, de procurar e pesquisar. Venho de uma altura em que era difícil teres informação, porque ainda não havia Internet, então para alimentares essa curiosidade tinhas de escavar muito mais do que hoje. Hoje, é bem mais fácil e tens acesso direto à Internet, então podes estar a ouvir uma música e eu lanço uma referência, por falar no professor Agostinho da Silva, pode ser isso, e de repente alguém pode ir ao Google e tem ali acesso a quem é essa pessoa, referências bibliográficas, livros e informação. É muito rápido. Acho que lançar essas sementes, como tu disseste, é essencial porque nenhum de nós é construído de nada. Tu és construído de coisas que foste vivendo, absorvendo, e umas são tuas, descobertas tuas que vêm de dentro, mas outras são coisas que aprendes vendo, lendo, ouvindo, são peças do teu puzzle. E por que razão não dares essas peças a outras pessoas, que possam ser peças dos próprios puzzles que elas vão construir? E podem escavar a obra dessas pessoas de uma forma muito diferente da que tu fizeste, e podem obter dessa obra coisas também diferentes que as constroem dessa forma.

Eu não acredito no tu guardares para ti e nesse esconder de saber, não acredito nada; só acredito na partilha. Quanto mais tu partilhas, mais dás e mais volta para ti. Então gosto de ir mostrando quais foram as minhas referências, quais são as direções que eu estou a seguir e pode nem ser em música. Posso estar a ler um livro e partilho numa rede social porque acho importante que as pessoas o vejam e se sentirem curiosidade até o possam ler.

G. – E achas que o rap pode ser essa ferramenta de partilha democrática do saber?
M. – Pode e sempre foi. Tem sido menos porque tem andado em camadas mais superficiais e mais à tona da água o que se escreve, então liricamente tem sido uma coisa bem mais superficial, mas não por toda a gente. Estou a falar de um mainstream e, regra geral, tem passado menos informação, sabedoria e conhecimento, mas continuas a ter sempre gente que também tem tempo de antena e passa na rádio, que também tem esse saber e continua a chegar às pessoas. É um veículo ótimo e por isso é que eu, durante o meu percurso artístico, sempre tive professores a contactar-me para ir às escolas para servir de ponte entre eles e os alunos, precisamente porque o rap consegue fazer essa ponte entre gerações e passar conhecimento.

Agostinho da Silva e Jack Kerouac são duas das referências que aparecem em

“Titãs (Construir o Amanhã)”

G. – Tocaste há pouco no assunto das redes sociais e construíste há pouco tempo os jingles da Gala Insties Gerador, que teve como referência os super-heróis da Marvel, que é algo de que já tinhas falado numa faixa do Entranhas. Então até aí há essa dimensão autobiográfica, não é?
M. – Como eu ponho em tudo um bocado de mim, achei que fazia sentido. Quando me foi lançado este repto de fazer os separadores para os Insties, estava a tentar perceber que caminho é que ia seguir, e então ocorreu-me que os desenhos animados do fim dos anos 60/70 tinham introduções muito específicas, com sons muitos específicos que chamavam à atenção e cativavam, eram quase anúncios, e decidi pegar por aí. Usei coisas do Kenny Graham, que compunha a banda sonora dos desenhos animados do Homem Aranha, e escolhi o Homem Aranha porque o Peter Parker era um fotógrafo estagiário num jornal, então achei isto tudo fazia sentido para o Insties. Esta história toda mais subliminar, mas que dá coerência ao que estou a fazer. Eu gosto que aquilo que faço tenha coerência, mesmo que não seja percetível; gosto que, para mim, faça sentido. Então usei isso de base, misturei com alguma eletrónica e depois usei falas de filmes sobre fotografia para colar tudo.

G. – A fotografia também é uma área com algum peso na tua vida.
M. – Sim, foi sempre. Nos anos 90, andava sempre com uma analógica automática para registar tudo, porque tinha essa sede de registar tudo, então punha no bolso e ia registando. Tenho rolos bem antigos…

G. – Quase que querias criar o teu arquivo fotográfico?
M. – Também, mas mais tarde eu estudei design gráfico, não terminei o curso e depois dessa fase da minha vida dediquei-me à música mais a sério, sendo que as artes visuais sempre foram acompanhando. Mas não o fazia profissionalmente e tinha essa vontade. Houve um período em que ainda não existia Instagram, existia Fotolog, e eu criei uma conta onde fazia os meus registos de fotografia gráfica, só, de detalhe, porque queria marcar a minha visão, então comecei a fazer esse arquivo. Depois, quando me disseram que existia Instagram, eu pensei: “Isto é perfeito, é o que eu preciso para fazer o que faço no Fotolog mas através do meu telemóvel e posso pôr logo no sítio onde tirei a fotografia.” Na altura era assim o conceito, era muito diferente do conceito do Instagram agora. Então comecei a seguir essa linha, e o Fotolog deixou de existir muito recentemente, percebi há poucos meses que desapareceu esse arquivo. Continuei no Instagram e continuo a fazê-lo, descomprometidamente, despretensiosamente, só porque me dá prazer fazer registos de determinados padrões. São pores-do-sol, campos de basquete, carros antigos ou são detalhes que fazem sentido na minha cabeça.

G. – E também tens agora uma exposição, não é?
M. – Tenho uma que inaugurou no dia 1 de fevereiro na Dedicated, em Lisboa, que é uma exposição que eu tinha feito no Porto e que se chama Van.ity, e são só carrinhas estacionadas sozinhas, laterais, todas tiradas em Nova Iorque. Mas vou ter mais duas exposições brevemente, uma em Lisboa e outra no Porto, só tirada em Nova Iorque a documentar essa viagem que fiz, porque tenho mesmo muitas fotografias, e acho que consegui captar momentos interessantes que quero partilhar.

G. – A fotografia e a música vêm do mesmo sítio ou só a espontaneidade para criar cada uma delas é que é um ponto comum?
M. – Vêm do mesmo sítio, que é a minha visão da vida. Da forma de estar na vida. Então, quando saio, eu sou o filtro, e o que sai de mim, passa por mim, e inevitavelmente tem esse filtro da minha vivência toda. É uma vontade de mostrar o que é que é a vida pelos meus olhos, através de palavras, através de imagens… às vezes, são só reflexões, é só a vontade de pôr as pessoas a pensar numa situação, de despertar uma ignição, que a pessoa sinta alguma coisa e crie o seu próprio filtro. Portanto, o que me leva a criar é ser uma fonte de ignição dentro do outro, seja em que formato de criação for. Pode ser vídeo, fotografia, a palavra com ou sem música.

Maze lançou “Viva” em setembro do ano passado

G. – No vídeo do teu single “Viva”, juntas estas duas coisas, está lá a fotografia e a música. Que agoiros é que esse single está a trazer?
M. – Essa colagem das minhas artes foi a Joana, que realizou o videoclipe, que percebeu que podia ser interessante colar as duas coisas. E eu achei que era uma direção excelente, porque eu quero cada vez mais mostrar-me como artista multidimensional. Não faz sentido estar fechado numa só arte. Se eu crio de várias formas, então porque não conciliá-las? Estou numa fase muito criativa da vida e estou a desenvolver vários projetos, além dos fotográficos de que já te falei. Estou com algumas ideias para pintar, que é uma coisa que já não faço há muito tempo e quero voltar a fazer nos próximos anos, e atualmente estou envolvido em vários discos. Estou a fazer este disco com o Spok, do qual saiu o “Negro Luto como primeiro single e depois saiu esta Viva”, e temos aí mais um terceiro single que vamos lançar, e depois lançamos o disco. Ainda não há datas para isso, mas estamos numa fase avançada do processo de gravação.

Tenho um disco para sair muito brevemente, de uma colaboração de Drum n Bass com o Oder, que é uma pessoa que eu já conheço há muitos anos e que vem do rap, mas que tem um percurso como produtor e DJ de Drum n Bass. Eu sempre gostei muito de Drum n Bass, e ouço desde os anos 90, vou a festas e faço parte dessa cultura, então decidimos juntar-nos, unir esforços e fazer esse trabalho. Lançámos um primeiro single, Alerta, e vai sair no dia 14 de fevereiro um próximo single, e depois a ideia é lançarmos um EP em vinil.

E há mais projetos nos quais eu estou envolvido, como um trabalho que estou a fazer com o Sérgio Alves, teclista, e isto é um trabalho que foi gravado com banda. É ele, o Bruno Macedo e o Ricardo Danin, no baixo e na bateria, sendo que o Sérgio Alves é o compositor da parte instrumental, e os raps são meus, e é um pequeno conto urbano de cinco músicas. É um EP que tem um fio condutor entre as músicas todas. Isto haverá de sair ao longo do ano.

Depois há ainda um outro projeto que está numa fase embrionária, mas que surge da colaboração que eu fiz com o Fantasma, o Mike Ghost, participei no disco dele e dessa participação surgiu a ideia de construirmos um EP, então estamos a construir músicas os dois e acho que vai ser uma boa fusão de estilos diferentes, mas temos a mesma sintonia, o mesmo comprimento de onda. Estou envolvido nisto tudo.

G. – E Dealema.
M. – E Dealema sempre. Quase nunca falamos disto porque Dealema é permanente, nós temos a felicidade de ser uma banda de culto e de continuarmos a pisar palcos ano após ano. E estamos a fazer música, um bocado com menos pressão do que estes projetos todos de que te falei, porque imponho a minha pressão, o meu ritmo. Mas, quando somos cinco, não podemos ter um ritmo muito definido, que cada um vai ter a solo, por isso é que vamos fazendo mais trabalhos a solo. Podemos esperar dois anos e depois lançarmos um disco ou podemos lançar sete anos e lançar um álbum, porque vamos fazendo e queremos fazer as coisas bem. Vamos no nosso ritmo a fazer música.

Texto de Carolina Franco
Fotografias de David Cachopo

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