Em Portugal, há uma associação que potencia a criação de relações de amizade entre famílias de refugiados e emigrantes que vivem em Portugal e locais. A Meeru trabalha em conjunto com entidades de acolhimento para montar as bases da futura casa de quem pede asilo: relações de confiança e amigos para tudo o que precisarem.

Refugiado é o nome dado a quem é forçado a abandonar o seu país por motivos de guerra, desastre natural, perseguição política, religiosa ou étnica, na procura de um novo refúgio, de uma casa. Em 2015, o número de pessoas que pediam asilo à Europa disparou, e esta palavra começou a ser cada vez mais repetida, carregada de desinformação e medos. Atualmente o número de pessoas às portas de alguns países, como a Grécia, é preocupante e levou o mundo inteiro a pensar sobre o assunto. Mas porque é que estes países que são a porta para uma nova vida, são também a extensão de uma crise humanitária?

A Isabel Martins da Silva, fundadora da Meeru | Abrir Caminho, explica, em entrevista ao Gerador, que, neste momento, a Europa tem um sistema comum de asilo. Teoricamente, alguém que entre na Europa por países como Grécia, Itália ou Portugal (por exemplo) está sujeito a uma regra (regulamento de Dublin), que define que os pedidos de asilo devem ser analisados no primeiro país de entrada das pessoas na Europa, fazendo com que os países de fronteira tenham um número elevado de pedidos a acontecer, que, explica, “como aconteceu na Grécia, levou ao colapso do sistema de asilo grego, porque de repente são milhares e milhares de pessoas a pedirem o mesmo. Conheço pessoas que demoraram mais de um ano para conseguir a primeira entrevista. O sistema em si não está preparado para gerir este volume gigante e ao mesmo tempo não é compatível com as leis europeias. Há um acumular de pessoas nos países de fronteira”.

Ao contrário do que acontecia em 2015 e 2016, em que as pessoas conseguiam, a pé, atravessar a “famosa” rota dos Balcãs, até ao centro da Europa, atualmente, a Grécia estabeleceu fronteiras tornando-se uma prisão em grande escala para quem espera por uma resposta. Para além disso, Isabel conta que o problema é também político – “é mau, mas é a realidade, não interessa existir um ambiente bom, porque apela a que mais pessoas entrem, por isso, no ano passado, o Governo grego fechou um campo (e o de Moria ardeu) que, apesar de tudo, tinha condições aceitáveis, mas estas continuam a ser deploráveis. Se as condições forem más, os fluxos não aumentam. Além disto, pelo que temos visto ultimamente, somam-se planos do Governo grego de criar campos novos que são autênticas prisões, completamente isoladas das comunidades locais, com controlo e toda a tecnologia de ponta. Há um associar de uma pessoa refugiada e um criminoso e um distanciamento total destas pessoas das comunidades locais gregas, quase a guetizar. O que é completamente diferente do que se via na Grécia há 5/6 anos. Na altura, a Grécia acolheu e houve muita mobilização para que estas pessoas conseguissem ter condições, mas no meio de tudo foi deixada sozinha, e criou-se a história perfeita para que se criassem políticas antiemigratórias”.

Quando o tempo de espera acaba e finalmente podem ‘escolher’ uma nova casa, muitas das pessoas em situação de refugiado, procuram em Portugal um novo começo, amigos que se tornem família: é aí que a Meeru entra.

Meeru: Um “complemento de amizades”

O caminho começou em 2015/2016 quando a Isabel e o grupo de jovens da sua freguesia souberam da chegada de uma família síria e chegaram-se – cheios de receios – à frente para entenderem o que esta precisava. Depressa perceberam que o que esta família precisava era de uma total disponibilidade para criar relações: “o essencial no acolhimento é o que é essencial no dia a dia de qualquer pessoa, que, independentemente de tudo parecer mal, temos alguém à nossa beira que facilita o processo”. Perceberam também que não existia razões para ter medo, que, acima de tudo “são pessoas, com uma história de vida complicada e difícil”. No caso da família que acolheram, a história era parcialmente conhecida, uma vez que o mundo estava a par do que se passava na Síria, mas nem sempre é assim, e Isabel sabe que o “medo” e receios são sentidos não só por quem acolhe, mas também por quem é acolhido, “porque têm uma história para trás de um sistema que lhes falhou”.

A MEERU | Abrir Caminho está no terreno desde fevereiro de 2019.

A esta ligação que se criou com a família síria, juntou-se também a experiência de voluntariado em Lesbos e Atenas – “Queríamos perceber o que podíamos fazer aqui e agora e percebemos que isto de haver pessoas que se disponibilizam apenas para serem verdadeiramente amigos destas famílias e que não são técnicos ou instituições (que fazem um acolhimento que é necessário mas muita vezes é unilateral, assistencialista, e tem de o ser porque as pessoas vêm com uma série de necessidades) era necessário.

A Meeru começou assim, em 2019, a criar parcerias com entidades de acolhimento e a acrescentar a este sistema uma espécie de “complemento de amizades” que, explica Isabel, “à partida, quando estas pessoas chegam, pode parecer desnecessário, mas é super transformador porque criam relações de confiança e sabem que têm amigos em quem confiar e não apenas profissionais de uma instituição que os apoiam porque é o seu trabalho”, mas amigos que surgem para um piquenique, para jogar às cartas, para uma urgência, como um verdadeiro amigo: para tudo o que precisarem.

“É esta viagem de nos despirmos de uma série de conceitos, que são importantes porque acabam por garantir que estas pessoas são protegidas, mas é importante que a dado momento nos dispamos de uma série de conceitos que podem levar no sentido contrário de termos medo, receio, de associarmos a um outro que é diferente de nós, e criar esta relação profunda de entender que somos todos pessoas a tentar ter uma vida normal, sermos felizes e trabalharmos. A experiência que temos é transversal: são pessoas que vêm trabalhar, tentar que os filhos possam estudar e viver longe de uma série de dramas que não conseguimos sequer imaginar”, conclui Isabel.

Quando duas pessoas desconhecidas decidem ser amigas

A Meeru dedica-se a “potenciar a criação de relações de amizade, confiança e afeto entre famílias de refugiados e emigrantes que vivam em Portugal e locais” que, durante um certo período de tempo, chamam “voluntários”.

Para isso, a Meeru é notificada pelas entidades de acolhimento de que existem determinadas famílias interessadas em “ter um amigo em Portugal”, e faz uma proposta, celebrando um acordo de proximidade em que a própria família se compromete a criar relações com os voluntários da comunidade onde estas vivem. Também o voluntário tem de assinar o acordo – “Procuramos pessoas que, como costumamos dizer, tenham disponibilidade emocional para criar relações profundas. Não procuramos especialistas em emigrações, nem em integração, não precisamos que percebam o que é juridicamente um refugiado e um migrante. Precisamos de pessoas que percebam a necessidade que estas famílias têm de não estar isoladas e tenham esta disponibilidade de criar relações.”

Para a Meeru, a fase inicial é a que requer um maior investimento,” encontrar voluntários capacitá-los, garantir que percebem que isto não é um voluntariado com horas estipuladas, é vida partilhada, é um domingo à tarde, um sábado à noite. No entanto, “é um compromisso recíproco, a ideia é que não seja unilateral e quase desnivelada de eu a ajudar alguém. Estas famílias e estes voluntários comprometem-se a tentar ser amigos”.

Com o assinar do acordo, as famílias e os voluntários, comprometem-se a estar sobre esta estrutura formal durante oito meses, ou seja, durante esse tempo o corpo técnico da Meeru, garante que os encontros de proximidade acontecem, “porque afinal são pessoas desconhecidas que decidem ser amigos, e isto é só como uma rampa de lançamento”. Atualmente, são 13 as famílias que, cada uma ao seu ritmo, está a construir uma amizade.

A Meeru tem três projetos: O "Meeru Aproxima", "Comunidade de Impacto" e "Meeru Convida Amigos".

A Ghufran e a Inês: 8 meses que se transformaram numa vida

Em 2014, a Ghufran, com apenas 16 anos, deixou o seu país, a Síria, com medo de morrer. Na altura, o país que a acolheu, foi a Turquia, e durante cinco anos – enquanto esperavam voltar um dia a casa – foram alvo de uma constante discriminação. Em 2019, teve a oportunidade de viajar para Portugal, com o seu marido e o seu filho e começar, pela segunda vez, uma nova vida.

Questionada sobre o que é ser refugiada, Ghufran explica que “é algo muito triste” – “para quem não conhece, é viver sem casa ou sem pátria e sem garantias. É viver com medo que alguém nos expulse da nossa terra natal. Ficamos com medo, pela nossa família e por nós”. No entanto, em Portugal, encontrou a segurança que perdeu durante 9 anos: “Fui acolhida lindamente e encontrei em Portugal o que não encontrei no meu país de origem: a segurança!”

É certo que os receios antes de chegar a Portugal eram muitos, e Ghufran, hoje com 23 anos e a acabar o 12.º ano, conta ao Gerador que não sabia se seria, de novo, alvo de discriminação ou se iria conseguir entender a língua, no geral “tinha medo do desconhecido e da instabilidade”.

“Tenho a certeza de que a Meeru nos ajudou muito a não nos sentirmos estranhos aqui”, conta Ghufran, que entre “conversas em grupo, saídas com portugueses em piqueniques e partilha de acontecimentos”, teve sempre a Inês a seu lado – a voluntária que assinou o acordo consigo.

A Inês, com 25 anos e a trabalhar atualmente na Guiné-Bissau, conta que foi tudo “muito natural desde o primeiro momento”. Tinha os seus receios, “como todos os voluntários têm”, pois não sabia se iam conseguir criar uma relação: “Assim que os conhecemos, todas estas dúvidas desapareceram. A comida foi a ponte entre nós, sempre que nos juntávamos havia algum prato novo para experimentarmos, e os momentos à volta da mesa foi a forma que encontramos de começar a construir a nossa amizade. Passávamos horas na casa deles e saíamos sempre com a sensação de que o tempo tinha passado a voar.”

A amizade com a Ghufran foi imediata, “talvez pela proximidade de idades”, conta Inês, que é considerada a irmã mais velha e se sente “verdadeiramente parte da família” – “Falamos sobre tudo, vamos às compras juntas, fazemos festas de pijama pela noite dentro, passeamos e temos momentos em que só estamos juntas, sem nada de especial a acontecer.”

Este é um processo delicado e cheio de passos pequenos (mas também largos) e muita aprendizagem não só para Ghufran, mas também para os voluntários. Inês destaca as histórias que a sua nova amiga lhe conta e um dos momentos que a fez sentir a importância da sua amizade, do contrato que tinham assinado: “No final do curso do 9.º ano, a Ghufran teve de fazer um livro sobre a sua vida e, no momento em que fala de Portugal, usou uma fotografia comigo, com a Chiara e com as suas irmãs, em que usamos todas o hijabe. A descrição da fotografia dizia algo como: “Cheguei a Portugal e já tenho amigas cá. Sinto-me bem aqui.” Perceber a diferença que fazemos na sua vida e sentir que nós conseguimos trazer-lhe um pouco a sensação de “estar em casa” em Portugal foi algo que me deixou muito feliz.

“A Meeru teve um impacto gigante na minha vida. Não sou a mesma que era antes de me juntar a este projeto. A Meeru permitiu conhecer-me melhor, crescer e ganhar competências que não sabia ter, desconstruir-me, aprender e criar relações bonitas. A Meeru e as pessoas da Meeru inspiram-me, é muito bom pertencer a um ambiente em que somos todos diferentes, mas que temos em comum esta vontade de mudar o mundo através de coisas simples como estarmos próximos das pessoas. Sou muito agradecida por ter entrado neste caminho”, conclui Inês.

A família da Ghufran e a família da Inês

“Se uma família chegar à minha rua, vou bater à porta? Se calhar, sim!”

Ajudar não é um ato praticado apenas por voluntários, mas por todos aqueles que, de alguma forma, dão o seu tempo. Mas o que é isto de “dar tempo”, como podemos ajudar?

“Se uma família chegar à minha rua, vou bater à porta? Se calhar, sim!”, desafia a fundadora da associação. No entanto, a mesma confessa que “é difícil para as pessoas entender o que é isto de acolher, porque estamos muito focados nesta ideia de pessoas que têm necessidades e associamos sempre a arranjar roupa, casa e trabalho, e é muito difícil alcançar esta ideia de que se calhar o que precisamos é fazer com que estas pessoas pertençam às comunidades, e isso só vai acontecer a partir do momento em que as pessoas começarem a comunicar.” Para Ghufran, a resposta é simples: “Ajudem! Quando vêm alguém, seja num shopping ou perdido na rua, ofereçam-se para ajudar e orientá-lo da melhor maneira. Não os deixem sozinhos, porque quando chegamos temos muita vergonha, pois não sabemos falar a língua do país e sentimo-nos como estranhos. Não tenham problemas em falar e acolher-nos.”

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografias da cortesia da Meeru | Abrir Caminho

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